Os caminhos que não aconteceram

Amanhã, no Houston Stadium, no Texas, o Brasil enfrenta o Haiti pela segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026.

Depois do empate por 1 a 1 com o Marrocos na estreia, a equipe de Carlo Ancelotti entra em campo em busca da primeira vitória no torneio. E, no papel, o favoritismo é amplamente brasileiro: os pentacampeões do mundo ocupam a 5ª posição no ranking da FIFA e contam com nove ex-indicados ao Ballon d'Or no elenco. Já o Haiti disputa apenas sua segunda Copa do Mundo e, embora tenha jogadores talentosos, nunca teve um atleta indicado ao prêmio. A seleção caribenha aparece na 85ª colocação do ranking da FIFA.

Com uma diferença tão grande entre as duas equipes, muitos esperam uma atuação dominante do Brasil. Um novo tropeço aumentaria a pressão e a preocupação da torcida, enquanto um bom desempenho reforçaria a esperança de ver a Amarelinha conquistar o tão sonhado hexa, perseguido pelo país há mais de 20 anos.

Mas, apesar de o Brasil ser conhecido como o 'País do Futebol' e ter uma das torcidas mais apaixonadas do planeta, você sabia que vários jogadores da atual Seleção Brasileira quase defenderam outras seleções ao longo da carreira?

Nós já abordamos esse tema recentemente sob duas perspectivas diferentes.

Primeiro, voltamos ao passado para analisar ex-indicados brasileiros ao Ballon d'Or que representaram outras seleções no cenário internacional.

Depois, olhamos para o futuro, destacando jovens talentos brasileiros com dupla nacionalidade que podem optar por defender outros países nos próximos anos.

Hoje, porém, o foco é o presente.

Antes de representarem o Brasil na Copa do Mundo de 2026, quatro convocados da Seleção estiveram a poucos passos de seguir um caminho completamente diferente no futebol internacional.

Vamos conhecer a história de cada um deles.

Raphinha

O caso mais conhecido - e talvez o mais surpreendente - entre os quatro jogadores é o de Raphinha, que esteve muito perto de defender a Itália antes de escolher o Brasil.

Nascido como Raphael Dias Belloli em 14 de dezembro de 1996, em Porto Alegre, o atacante do Barcelona teve uma infância marcada por dificuldades. Criado na Restinga, uma das regiões mais pobres da capital gaúcha, viu de perto os desafios da desigualdade social. Ainda assim, encontrou no futebol uma oportunidade para transformar a própria vida, chamando atenção desde cedo pela velocidade, habilidade e capacidade de decidir jogos.

O caminho até o topo, porém, esteve longe de ser simples.

Quando jovem, Raphinha tentou uma vaga nas categorias de base do Grêmio e do Internacional, mas acabou reprovado nos dois clubes. Para muitos, isso poderia significar o fim do sonho. Para ele, foi apenas mais um obstáculo.

Depois de passar pelo Imbituba, em Santa Catarina, foi para as categorias de base do Avaí. E foi justamente dali que surgiu a oportunidade que mudaria sua carreira.

Em 2016, assinou seu primeiro contrato profissional com o Vitória de Guimarães, de Portugal. O clube português apostou em seu potencial, e Raphinha não demorou a corresponder. Nos anos seguintes, construiu uma trajetória de crescimento constante, passando pelo Sporting CP, Rennes e Leeds United até chegar ao Barcelona, em 2022.

Hoje, é um dos principais jogadores da equipe comandada por Hansi Flick e, na temporada passada, terminou em 5º lugar na votação da Ballon d’Or.

Pela Seleção Brasileira, também se tornou figura frequente nos últimos anos, geralmente como titular.

Mas essa história quase teve um rumo completamente diferente.

Apesar de ter nascido no Brasil e ser filho de brasileiros, Raphinha tinha direito à cidadania italiana por conta da ascendência de seu pai, Rafael, músico de pagode. Isso abriu a possibilidade de representar a Itália - e a chance esteve muito perto de se concretizar.

Em entrevista concedida no ano passado, o atacante revelou que foi procurado pela federação italiana antes da Eurocopa de 2020, disputada em 2021 devido à pandemia de COVID-19.

Na época, ele vivia grande fase no Leeds e era visto pelos italianos como uma peça importante para o presente e o futuro da seleção. A comissão técnica manteve diversos contatos com o jogador, enquanto Jorginho - um dos casos mais conhecidos de brasileiro que optou por defender a Itália - também conversava frequentemente com ele na tentativa de convencê-lo.

E Raphinha admite que esteve muito perto de aceitar.

Na verdade, segundo ele próprio, teria aceitado se o passaporte italiano tivesse ficado pronto a tempo.

Além do projeto esportivo ser atraente, o atacante já não acreditava mais que teria uma oportunidade na Seleção Brasileira: "Quando estava no Avaí, fiz uma temporada incrível. De 11 a 12 jogos no Campeonato Catarinense, mais a Copa do Brasil, eu tinha 24 gols e dez assistências. Pensei: se eu fiz isso lá e não fui para a seleção, mesmo que seja pelas categorias de base, eu não vou para a seleção pelo Leeds, com todo o respeito ao Leeds." (Isabela Pagliari - YouTube)

Mas os planos acabaram mudando por um detalhe burocrático.

O passaporte italiano não ficou pronto a tempo, e Raphinha não pôde aceitar a convocação da Azzurri.

Poucos meses depois, a Itália conquistou a Eurocopa sem ele.

Por um instante, parecia que o atacante tinha perdido a chance de participar de um momento histórico. E, para ele, também parecia improvável viver algo semelhante com a camisa do Brasil.

Só que a realidade seria bem diferente.

Em agosto de 2021, apenas um mês depois do título europeu dos italianos, Raphinha recebeu uma ligação de César Sampaio, então auxiliar técnico da Seleção Brasileira, comunicando sua primeira convocação.

Mais tarde, veio à tona que Tite já pretendia chamá-lo desde maio daquele ano, mas precisou adiar os planos depois de uma lesão sofrida pelo jogador em abril.

Foi uma reviravolta que mudou completamente sua trajetória internacional.

Hoje, Raphinha relembra aquele episódio com gratidão: "Lá no fundo, eu ainda tinha um pouco de esperança de poder vestir a camisa do Brasil. E, felizmente, meu passaporte italiano não chegou a tempo." (Isabela Pagliari - YouTube)

Sua estreia pela Seleção aconteceu em outubro daquele ano, e não poderia ter sido melhor: duas assistências na vitória por 3 a 1 sobre a Venezuela.

Desde então, já disputou 40 partidas pela Amarelinha, somando 11 gols e 8 assistências. Também esteve na Copa do Mundo de 2022 e chega a 2026 como uma das peças mais importantes do projeto da Seleção Brasileira.

Raphinha pela Seleção Brasileira

40 jogos, 11 gols, 8 assistências.

Gabriel Martinelli

Outro jogador da Seleção Brasileira que poderia ter defendido a Itália é Gabriel Martinelli, atacante do Arsenal, que completa 25 anos justamente hoje.

Gabriel Teodoro Martinelli Silva nasceu em 18 de junho de 2001, em Guarulhos, São Paulo. Graças à ascendência paterna, ele possui cidadania italiana e carrega no sobrenome ‘Martinelli’ uma das marcas dessa herança familiar.

A possibilidade de representar a Azzurri surgiu ainda no início da carreira.

Depois de uma excelente temporada de estreia pelo Arsenal, em 2019, que o transformou rapidamente em uma das revelações do futebol inglês aos 18 anos, Martinelli passou a ser monitorado pela federação italiana. Pouco antes de deixar o Ituano para se transferir para Londres, ele tinha conseguido seu passaporte italiano, o que facilitava uma eventual convocação.

Apesar do interesse, o atacante nunca escondeu qual era sua prioridade.

Sempre que era questionado sobre o assunto, deixava claro que seu objetivo era vestir a camisa da Seleção Brasileira: "Sou brasileiro e meu sonho, claro, é jogar pelo Brasil." (One Football)

E foi exatamente esse caminho que ele escolheu seguir.

Martinelli passou pelas seleções de base e, em março de 2022, recebeu sua primeira convocação para a equipe principal. Poucos meses depois, garantiu vaga na Copa do Mundo do Catar, tornando realidade o sonho que tinha mencionado anos antes.

Desde então, consolidou seu espaço no grupo da Seleção e voltou a ser convocado para a Copa do Mundo de 2026 depois de mais uma temporada de destaque pelo Arsenal, ajudando os Gunners a alcançarem sua primeira final na Liga dos Campeões em duas décadas.

Até o momento, Martinelli soma 23 partidas e 4 gols com a camisa da Seleção Brasileira.

Gabriel Martinelli pela Seleção Brasileira

23 jogos, 4 gols, 0 assistências.

Douglas Santos

Saindo dos atacantes e da Itália, chegamos ao caso de Douglas Santos, que esteve muito perto de trocar o Brasil pela Rússia antes de finalmente realizar o sonho de defender a Seleção Brasileira.

Nascido Douglas dos Santos Justino de Melo em 22 de março de 1994, em João Pessoa, na Paraíba, o lateral-esquerdo iniciou sua carreira profissional no Náutico, em Recife, no começo da década de 2010.

Fora uma passagem de destaque pelo Atlético Mineiro, continuou na Europa, onde construiu praticamente toda a sua carreira. Defendeu o Hamburgo entre 2016 e 2019 e, depois, o Zenit São Petersburgo, clube que se tornou sua casa nos últimos anos.

Desde que chegou ao futebol russo, em 2019, Douglas se consolidou como titular absoluto da equipe e participou da conquista de 13 títulos, se tornando um dos jogadores mais importantes do clube.

Douglas representou a Seleção Brasileira nas categorias de base durante os anos 2010, disputou amistosos pela equipe principal e chegou a ser convocado para a Copa América Centenário, em 2016. No entanto, nunca entrou em campo em uma partida oficial pela Seleção principal.

E esse detalhe faria toda a diferença anos depois.

Como não tinha atuado em competições oficiais pela equipe principal, ele continuava elegível para defender outra seleção caso desejasse.

Em agosto de 2024, depois de cinco anos vivendo na Rússia, Douglas recebeu oficialmente a cidadania do país.

Naquele momento, já tinha mais de 30 anos e enxergava cada vez mais distante a possibilidade de uma nova oportunidade pelo Brasil. Naturalmente, passou a considerar a chance de representar o país onde tinha construído uma parte importante da sua vida e da sua carreira.

A possibilidade era real.

Tanto que ele chegou a ser convocado para um amistoso da seleção russa contra a Zâmbia, em março do ano passado.

Mas foi justamente naquele mês que tudo mudou.

De forma inesperada, Douglas apareceu na lista preliminar de convocados de Dorival Júnior para os jogos das Eliminatórias contra Colômbia e Argentina.

De repente, ele se viu diante de uma escolha difícil: aceitar a oportunidade oferecida pela Rússia ou continuar esperando pela chance de defender o país onde nasceu.

No fim, o coração falou mais alto. Nas suas próprias palavras: "Vestir a camisa da Seleção Brasileira sempre foi um sonho. Então minha prioridade sempre foi o Brasil. Quando você nasce no Brasil, cresce vendo a Copa do Mundo e sonhando com a Seleção, isso pesa muito no coração." (UOL)

Com a decisão tomada, Douglas solicitou à FIFA a transferência de sua elegibilidade esportiva de volta para o Brasil. O pedido foi aprovado no fim de agosto de 2025 e, poucas semanas depois, ele recebeu sua convocação para os jogos das Eliminatórias contra Chile e Bolívia.

Foi o início de um capítulo que parecia cada vez mais improvável à medida que os anos passavam.

Hoje, Douglas não esconde a satisfação por ter esperado pela oportunidade. Aos 32 anos, ele disputa sua primeira Copa do Mundo lateral titular da Seleção Brasileira.

Até o momento, soma 8 partidas e 1 assistência com a camisa da Amarelinha.

Douglas Santos pela Seleção Brasileira

8 jogos, 0 gols, 1 assistência.

Roger Ibañez

O último nome da lista é Roger Ibañez.

Nascido Roger Ibañez da Silva em 23 de novembro de 1998, em Canela, no Rio Grande do Sul, e criado em Tramandaí, o defensor chega à Copa do Mundo de 2026 como uma das apostas de Ancelotti para fortalecer o setor defensivo da Seleção.

Aos 27 anos, Ibañez se destaca pela versatilidade. Embora atue principalmente como zagueiro, também pode jogar pela lateral direita quando necessário.

Desde 2023, ele defende o Al-Ahli, da Arábia Saudita, onde rapidamente se tornou uma peça importante da equipe e participou da conquista de três títulos. Antes disso, viveu os melhores momentos da carreira na Europa com a camisa da Roma, clube pelo qual ganhou projeção internacional.

Assim como os outros jogadores desta lista, Ibañez também teve a possibilidade de representar outra seleção.

Seu pai é brasileiro, mas sua mãe nasceu no Uruguai, o que lhe garante dupla cidadania e o tornava elegível para defender a Celeste.

Apesar disso, a escolha nunca pareceu gerar grandes dúvidas.

Desde cedo, o defensor demonstrou preferência por representar o país onde nasceu e cresceu.

A recompensa veio em setembro de 2022, quando recebeu sua primeira convocação para a Seleção Brasileira. A estreia aconteceu ainda naquele mesmo mês.

Nos anos seguintes, porém, as oportunidades foram mais escassas. Antes da convocação para a Copa do Mundo de 2026, sua última partida pela Seleção tinha acontecido em 2023.

Mesmo assim, Ibañez nunca escondeu o orgulho de vestir a camisa amarela.

Agora, depois de anos construindo sua carreira entre Brasil, Itália e Arábia Saudita, ele tem a oportunidade de representar a Amarelinha no maior palco do futebol mundial - exatamente como sempre sonhou: "Meu desejo sempre foi jogar pelo Brasil; sou brasileiro e é por isso que estar aqui hoje é motivo de muito orgulho para mim." (GZH)

Roger Ibañez pela Seleção Brasileira

8 jogos, 0 gols, 0 assistências.

No fim, a mesma camisa

O Brasil é um país construído por pessoas de origens muito diferentes. Por isso, não surpreende que estes não sejam os únicos jogadores do elenco com ligações a outras nacionalidades, seja por ascendência familiar ou por terem passado grande parte da vida no exterior.

Um exemplo interessante é o do goleiro Alisson.

Não por acaso, seus ex-companheiros de Roma o apelidaram de "o Alemão". A influência germânica aparece até no sobrenome ‘Becker’, bastante comum na Alemanha. Seu pai e sua avó falavam alemão, e ele nasceu e cresceu em Novo Hamburgo, cidade do Rio Grande do Sul fortemente marcada pela imigração alemã.

Ainda assim, nunca teve confirmação de que Alisson possua cidadania alemã, nem relatos de que tenha cogitado defender a seleção do país europeu. No futebol, sua trajetória sempre esteve ligada ao Brasil, seleção pela qual foi um dos protagonistas da conquista da Copa América de 2019.

Os casos de Raphinha, Gabriel Martinelli, Douglas Santos e Roger Ibañez, porém, mostram como detalhes aparentemente pequenos podem mudar completamente uma carreira.

Com uma simples mudança de rumo, Raphinha e Martinelli poderiam estar defendendo a Itália hoje. Douglas Santos talvez tivesse vestido a camisa da Rússia. Roger Ibañez poderia ter seguido o caminho do Uruguai.

Mas a história acabou sendo diferente.

Cada um deles, por motivos distintos, escolheu representar o país onde nasceu e cresceu. E essa decisão os trouxe até aqui: integrantes do elenco brasileiro na Copa do Mundo de 2026 e candidatos a escrever seus nomes na história da Seleção.

Agora, eles compartilham o mesmo objetivo que move o país inteiro há mais de duas décadas: trazer o tão sonhado hexacampeonato para casa.

Será que vão conseguir?

Não falta muito para descobrirmos.