O empate que ninguém esperava

O mundo do futebol acabou de presenciar algo realmente histórico.

Na estreia das duas seleções na Copa do Mundo de 2026, a Espanha - atual terceira colocada do ranking da FIFA - ficou no 0 a 0 com a estreante Cabo Verde, apenas a 64ª colocada.

E essa era apenas uma das estatísticas que faziam o confronto parecer extremamente desigual antes da bola rolar.

Cabo Verde, o terceiro menor país a disputar uma Copa do Mundo, é um arquipélago africano independente desde 1975 e uma das nações menos populosas do continente, com pouco mais de 520 mil habitantes. A Espanha, por outro lado, tem quase 50 milhões de habitantes.

No futebol, a diferença também é enorme. A Espanha possui uma das ligas mais fortes e ricas do planeta, com clubes como Real Madrid e Barcelona, já disputou 17 edições de Copa do Mundo e conquistou o título em 2010. Esta é sua 13ª participação consecutiva no torneio.

O caminho até o maior palco do futebol

A Federação Caboverdiana de Futebol (FCF) foi criada apenas em 1982 e só se filiou à FIFA quatro anos depois, em 1986.

O crescimento da seleção foi gradual. Seu primeiro jogo contra uma equipe de fora da África aconteceu somente em 2002, e a estreia na Copa Africana de Nações veio apenas em 2013.

Agora, Cabo Verde disputa sua primeira Copa - e já arrancou um empate de uma campeã do mundo.

O feito ganha ainda mais peso quando se observa o momento vivido pelos espanhóis. A geração atual está longe de representar uma potência do passado: a seleção conquistou a Liga das Nações da UEFA em 2023 e a Eurocopa em 2024.

Apontada por muitos como uma das grandes favoritas ao título, a Espanha conta com nomes indicados ao Ballon d’Or, como Pedri, Fabián Ruiz e Lamine Yamal, além de Rodri, vencedor do prêmio em 2024.

Cabo Verde não tem o mesmo estrelato nem a mesma quantidade de jogadores atuando na elite do futebol europeu. Na verdade, apenas um atleta do elenco - o zagueiro do Villarreal, Logan Costa - joga em uma das chamadas 'Cinco Grandes Ligas da Europa'.

E ele sequer esteve em campo hoje, já que ainda se recupera de uma lesão de LCA sofrida no ano passado.

Vozinha: o muro cabo-verdiano

O grande nome da partida foi, sem discussão, o goleiro Vozinha.

Nascido Josimar José Évora Dias, o veterano de 40 anos soma 89 partidas pela seleção de Cabo Verde - a segunda maior marca da história do país.

O nome veio do ex-jogador do Botafogo Josimar, que disputou a Copa do Mundo de 1986 pelo Brasil. Já o apelido "Vozinha" surgiu durante sua passagem pelo futebol angolano e tem origem na relação especial que construiu com os avós. Como ele próprio explicou: "O apelido vem dos meus avós. Eu nunca vivi com os meus pais. Quando nasci, meu pai estava no serviço militar e minha mãe precisava trabalhar, então acabei sendo criado pelos meus avós. No bairro onde eu morava, os outros meninos eram mais velhos, e eu passava o dia jogando bola na rua, levando muita pancada. Jogava bem com os pés, era competitivo, meio rebelde e odiava perder. Apanhava bastante e, quando não conseguia dar o troco, voltava para casa com raiva, de cara fechada. Aí o pessoal começava a tirar sarro, dizendo que eu estava indo reclamar para os meus avós.” (Itatiaia)

Além de Angola, Vozinha passou por clubes da Moldávia, Portugal e Chipre. Os momentos mais marcantes da carreira vieram durante uma temporada no Gil Vicente e, principalmente, nos cinco anos que passou defendendo o AEL Limassol.

Hoje no Chaves, da segunda divisão portuguesa, ele esteve muito perto de encerrar sua trajetória na seleção depois da dolorosa eliminação para a África do Sul nos pênaltis, na Copa Africana de Nações de 2023.

No vestiário, chegou a decidir que aquele seria seu último ciclo com a camisa de Cabo Verde. Mas os companheiros não permitiram: "Depois da eliminação para a África do Sul nos pênaltis, na Copa Africana, tive um momento no vestiário em que pensei seriamente em me despedir da seleção. Muita gente não sabe disso, mas eu não queria continuar. Foram os meus companheiros - o Ryan Mendes, o Logan e praticamente todo o grupo - que me fizeram enxergar que eu ainda era importante para a equipe, jogando ou não. Isso sempre depende das escolhas do treinador. Naquele momento, criamos um pacto entre nós. Sentíamos que ainda tinha algo grande para conquistar juntos." (GE)

Convencido pelo grupo, Vozinha continuou. Quase 15 anos depois de sua estreia pela seleção, chegou à primeira Copa do Mundo da história do país cercado pelos mesmos companheiros que o ajudaram a superar aquele momento difícil.

Não por acaso, Cabo Verde escalou hoje o time titular mais velho do torneio até aqui - uma equipe construída em torno da experiência, da união e da confiança mútua.

A decisão de seguir vestindo a camisa dos Tubarões Azuis acabou sendo recompensada da melhor forma possível. Contra uma das seleções mais talentosas do planeta, Vozinha fez a atuação da sua vida e foi decisivo para segurar a Espanha durante os 90 minutos.

Os números da zebra

Os atuais campeões da Europa finalizaram 27 vezes, acertaram o alvo em sete oportunidades, mas não conseguiram superar Vozinha.

O goleiro cabo-verdiano fez uma atuação memorável, com defesas decisivas diante de Mikel Oyarzabal, Aymeric Laporte e Ferran Torres ao longo dos 90 minutos.

A Espanha tentou de tudo e controlou boa parte da partida.

Terminou com 74% de posse de bola, contra 26% de Cabo Verde. Teve 11 escanteios, enquanto os adversários cobraram apenas um. No campo ofensivo, completou 606 passes, contra somente 29 da seleção africana.

Os números mostram um domínio quase absoluto.

Mas, repetidamente, a Espanha esbarrou em Vozinha.

Uma estrela nasce na Copa

As intervenções do goleiro rapidamente conquistaram torcedores ao redor do mundo. Durante a transmissão da partida pela CazéTV, os brasileiros foram incentivados a seguir o camisa 1 cabo-verdiano nas redes sociais. Ao final do jogo, ele tinha saltado de cerca de 50 mil para mais de 1,7 milhão de seguidores.

Em entrevista depois da partida, Vozinha agradeceu o carinho recebido do Brasil: "Isso é louco, isso é louco. Muito obrigado. Os brasileiros sempre demonstraram muito carinho por nós, e já sentíamos isso durante as eliminatórias da Copa. Agora estamos aqui, no maior palco do futebol mundial, e continuamos recebendo todo esse apoio e essa energia. Só temos que agradecer!" (CNN Brasil)

Enquanto Vozinha celebrava uma noite inesquecível, a frustração da Espanha ficou evidente em vários momentos da partida. No fim, Cabo Verde terminou o jogo com apenas uma falta cometida, contra dez dos espanhóis.

Os Tubarões Azuis ainda tiveram a chance de transformar o empate em vitória nos minutos finais, mas o cabeceio do zagueiro Diney Borges foi defendido por Unai Simón.

O resultado já entra para a história como uma das maiores zebras vistas em Copas do Mundo.

O que vem pela frente?

Claro, ainda é cedo para tirar conclusões sobre o futuro da Espanha no torneio. Um tropeço na estreia não determina o destino de ninguém. Na Copa de 2022, por exemplo, a Argentina acabou campeã mesmo depois de perder para a Arábia Saudita no primeiro jogo.

A recuperação espanhola continua sendo uma possibilidade muito real.

Mas, do ponto de vista cabo-verdiano, o empate tem sabor de vitória. É a recompensa por anos de trabalho, além de uma demonstração do talento, da organização e da determinação de um grupo que disputa sua primeira Copa do Mundo.

Agora, os confrontos contra Uruguai e Arábia Saudita serão decisivos para definir até onde essa histórica campanha pode chegar.

Independentemente do que acontecer nas próximas semanas, a atuação desta noite - e, sobretudo, a exibição extraordinária de Vozinha - já garantiu um lugar permanente na história do futebol cabo-verdiano e também da Copa do Mundo.

Depois do apito final, o goleiro resumiu o momento com palavras simples: "Sonhei toda a minha vida com este momento. Trabalhei toda a minha vida por este momento. Hoje consegui estar aqui. Consegui contribuir com a equipe através da minha experiência e estou muito feliz por isso." (Itatiaia)