Harry Kane:
A arte do grande finalizador
Depois de uma temporada de estreia recorde na Alemanha, Harry Kane redefiniu o papel do camisa 9 moderno. Olhando para as estatísticas dele em 2025-2026, dá para ver a disciplina e a precisão que mantêm ele firme na briga pelo Ballon d'Or.
Harry Kane nem sempre foi a máquina de gols que a gente conhece hoje, disputando o Ballon d'Or.
Aos 19 anos, emprestado ao Norwich City, teve dificuldade para se firmar, e a passagem por Carrow Road acabou sendo curta. Depois disso, foi para o Leicester, onde jogou principalmente aberto pela esquerda, tentando criar chances ao puxar para o meio sempre que dava.
Uma análise de fim de temporada de um jornal local resume bem a frustração da época, tanto dos torcedores dos Foxes quanto, provavelmente, do próprio jogador. “Os torcedores do Leicester nunca viram o melhor desse jovem promissor do Spurs”, dizia o texto, de forma direta.
Antes dessas passagens pouco marcantes, Kane teve um período de seis meses entre Leyton Orient e Millwall, somando 45 jogos e 14 gols enquanto se desenvolvia nas divisões inferiores.
Para um jogador tão jovem, até que eram números respeitáveis, mas também vale dizer que aquelas atuações iniciais não davam muitos sinais da incrível capacidade de fazer gols que viria depois. O mesmo vale para a primeira temporada de volta ao clube de origem, o Tottenham Hotspur, em 2013-14, quando ele foi sendo integrado aos poucos no time principal.
O jornalista e torcedor do Spurs, Dan Thomas, lembra bem desse começo:
“Tinha uma campanha nas redes sociais, meio séria, mas mais na brincadeira, ‘coloca o Kane no avião’, antes da Copa do Mundo de 2014, que mostrava a ideia geral: ele era um bom talento, mas não estava no nível de (confere as anotações) Danny Welbeck. Ele parecia meio desajeitado e lento, mesmo com a qualidade técnica evidente.”
Uma mudança física: a estrela começa a aparecer
Kane marcou 3 gols em 10 jogos naquele ano e, para colocar isso em perspectiva, na mesma idade, Michael Owen - o último inglês a ganhar o Ballon d'Or - já fazia gols incríveis em Copas do Mundo e conquistava Chuteiras de Ouro seguidas na Premier League.
Diferente do fenômeno Owen, não se esperava que o jovem londrino explodisse tão rápido - a expectativa era só de que ele fosse um bom jogador.
Mas tudo mudou, e de forma bem marcante, em 2014-15. Foi a temporada em que o atacante se firmou de vez no ataque do Tottenham e marcou 21 gols na Premier League, garantindo o prêmio de Jogador Jovem do Ano da PFA.
“As pessoas de repente perceberam que ele era realmente incrível”, lembra Thomas, sorrindo. “Ele mudou fisicamente naquele verão e parecia que tinha ganhado um metro de velocidade.”
A menção à transformação física é bem importante para entender como Kane se firmou como um talento de elite. Mas, apesar de toda a dedicação à própria evolução - horas e mais horas de treino, preparação física, dieta e uma vontade enorme de dar certo - o que já dava para ver desde o começo era a capacidade quase infalível de encontrar o gol.
Ex-companheiros do time de infância dele, o Ridgeway Rovers, lembram de um garoto “não muito rápido, um pouco gordinho”, mas que “sempre, sempre fazia gols”. E é aí que está o fascínio por Harry Kane: parecia algo natural, como se ele já tivesse nascido com esse dom de finalização.
O ex-atacante inglês Dean Ashton pensa da mesma forma e destaca tanto o instinto quanto o trabalho por trás do jogo de Kane.
“A finalização natural dele é, na Inglaterra, tão boa quanto qualquer uma que a gente já viu. Eu colocaria ele ao lado de Alan Shearer. O que eu gosto é que ele encontrou o próprio jeito de chutar a bola. Ninguém finaliza como ele. É algo bem único.”
O atacante criativo: mais do que só um goleador
Voltando para 2014-15, agora mais forte fisicamente e com a responsabilidade de liderar um ataque que também contava com o brilhante Son Heung-min, Kane começou a se destacar de vez na Premier League, se firmando como um camisa 9 decisivo e protagonista.
Ao longo de nove temporadas no norte de Londres, marcou mais de 20 gols na liga em seis delas, ganhou a Chuteira de Ouro da Premier League 3 vezes e ainda levou o prêmio de Playmaker of the Season em 2021, depois de dar 14 assistências.
Essa grande temporada fez com que ele terminasse em 23º lugar no ranking do Ballon d'Or.
Em fevereiro de 2023, ultrapassou o lendário Jimmy Greaves para se tornar o maior artilheiro da história do clube. A importância dele para o Spurs ao longo de quase uma década aparece bem em um dado impressionante: entre 2014 e 2023, Kane participou diretamente de 41,6% dos gols do time na liga, seja marcando ou dando assistência.
Na seleção, continuou rendendo contra as melhores defesas do mundo, conquistando a Chuteira de Ouro da Copa do Mundo de 2018.
Já não tinha mais nada de irônico nas altas expectativas sobre ele na seleção inglesa - e muito menos na forma como os torcedores do Spurs viam seu centroavante: um jogador “da casa”, que dava trabalho para qualquer goleiro toda semana.
Assim como Owen antes dele, grandes feitos passaram a ser rotina.
Campos estrangeiros: o valor do atacante sobe
E talvez seja aqui que a história de muitos jogadores normalmente pararia. Depois de um começo pouco chamativo no futebol profissional, o jogador desenvolve ao máximo o seu talento e vira uma estrela global. Fim - uma história inspiradora.
Só que, no caso de Kane, ainda tinha mais um capítulo. E foi justamente esse que fez o valor dele subir ainda mais.
Quando se transferiu para o Bayern de Munique em 2023, pouca gente esperava uma queda no desempenho - muito pelo contrário, ainda mais considerando o domínio do clube na Alemanha. Kane passou a ter muito mais oportunidades liderando um time forte, acostumado a vencer jogos com frequência e, muitas vezes, com autoridade.
Além disso, jogar em uma equipe vencedora aumentava bastante as chances dele de brigar por um Ballon d'Or.
Mesmo assim, quase ninguém poderia prever a avalanche de gols que ele passaria a marcar no futebol europeu - números que realmente impressionam.
O blitz na Bundesliga: quebrando a barreira dos gols
Na primeira temporada na Baviera, Kane já chegou dominando a Bundesliga, fazendo três hat-tricks nas primeiras 10 partidas. Terminou 2023/24 com 44 gols em 45 jogos em todas as competições - uma média de um gol a cada 89,4 minutos ao longo da temporada.
A segunda temporada também foi muito forte: marcou 26 gols e ainda chegou a dois dígitos em assistências, ajudando o Bayern a conquistar o 34º título da liga.
Com essa consistência, em outubro passado, o atacante de 32 anos ficou em 13º lugar no ranking do Ballon d'Or.
Se isso já mostrava claramente que Kane consegue levar sua eficiência para qualquer liga e continuar rendendo em alto nível, o que veio depois elevou ainda mais o patamar.
Até o momento, ele soma 26 gols em 22 jogos de liga e mais oito em oito partidas na Liga dos Campeões. No total, isso dá uma média impressionante de um gol a cada 68,8 minutos - incluindo o gol de número 500 da carreira, sendo o primeiro inglês a alcançar essa marca.
Os 500 gols de Kane por clubes |
Tottenham Hotspur - 280 |
Bayern de Munique - 126 |
Inglaterra - 78 |
Millwall - 9 |
Leyton Orient - 5 |
Leicester City - 2 |
Embora Dean Ashton não esteja exatamente surpreso com esse nível - já que sempre teve Kane em alta conta -, ainda assim ficou impressionado.
“Num ambiente como o Bayern, isso leva os jogadores a outro nível, e ele estava pronto para isso, tanto pela mentalidade quanto pela ética de trabalho. Ele realmente refinou a forma de fazer gols e a técnica que usa para aproveitar ao máximo cada chance que tem.”
Sem dúvida, é um nível de produção que coloca Kane com força na briga pelo Ballon d'Or este ano. E esse hype pode crescer ainda mais se ele ajudar os 'Three Lions' a terem uma Copa do Mundo de sucesso.
Uma máquina de gols: a média de Kane coloca ele na briga pelo Ballon d'Or
E, mesmo assim, vendo ele jogar com frequência, o mais impressionante nem é a quantidade absurda de gols - Kane sempre teve esse faro de gol, aproveitando cada chance contra os adversários. Isso já virou até esperado.
O que realmente chama atenção é o jogo completo dele, uma evolução clara que ficou ainda mais evidente nos últimos anos.
Quando o goleiro do Bayern, Manuel Neuer, está com a bola, é comum ver os zagueiros abrindo e Kane recuando bastante para receber o primeiro passe. Nesse papel, ele acaba fazendo algo parecido com Rodri, vencedor do Ballon d'Or de 2024 - ou seja, participa tanto da construção quanto da finalização das jogadas.
Em outros momentos, ele cai pelos lados, abrindo espaço para Michael Olise e Luis Díaz atacarem mais por dentro em direção ao gol.
Dá para dizer, então, que Harry Kane hoje é um atacante muito mais completo e versátil do que antes. Os gols, claro, esses ele sempre fez.