Thiago Silva: “Imagina terminar com um título de campeão do mundo?”
A poucos meses da aposentadoria, Thiago Silva, capitão do Fluminense e com 41 anos, sonha em ser convocado novamente pelo Brasil para a Copa do Mundo. Antes de, um dia, se tornar treinador do Paris Saint-Germain, um clube que marcou sua vida. (Artigo original de dezembro de 2025.)
Há 9 anos, em Belo Horizonte, depois de um Brasil-Argentina (3-0), você nos dizia: ‘Espero jogar até os 40 anos, como o Maldini!’ Então não era brincadeira.
(Sorri.) É engraçado porque justamente conversamos sobre isso com meu time (do Fluminense) esta manhã (24 de outubro). Falamos de Paolo Maldini e do final da minha carreira. A ideia de jogar o máximo de tempo possível nasceu quando cheguei ao Milan em 2009. Maldini disputava seus seis últimos meses, e eu ainda não podia jogar. Mas Carlo Ancelotti (o treinador) me pediu para estar presente em todos os jogos, no San Siro e fora de casa, para observar de perto sua preparação, aquecimento, rotina. Foi aí que percebi que, para durar, era preciso fazer muitos sacrifícios. A partir dali, mudei minha mentalidade e decidi me tornar um atleta, não apenas um jogador de futebol.
Um atleta que parece rejuvenescer ao longo da carreira, tanto que Thomas Tuchel, seu treinador no PSG e no Chelsea, o apelidou de Benjamin Button, personagem de livro e filme que rejuvenesce ao longo da história...
Ele começou com esse apelido quando nos reencontramos, no Chelsea (em janeiro de 2021). Os torcedores até me chamavam de Brad Pitt para brincar. Aos poucos, O Monstro virou Thiago Button. Isso me deixou feliz, porque significava que meus sacrifícios eram visíveis. Me motivou a prolongar a carreira, mas, por outro lado, aumentou a pressão. Tive que me preparar de forma ainda mais metódica. Esses elogios têm um preço. Agora preciso manter meu nível e estar à altura dessa reputação.
Você conseguiu isso investindo cedo em equipamentos de alta tecnologia, como uma câmara hiperbárica, para melhorar a recuperação.
Há 10 ou 15 anos, uma câmara hiperbárica custava 25 mil dólares. Na época, muita gente achava um gasto desnecessário. Se eu não tivesse investido tanto, já estaria aposentado.
Hoje, muitos se inspiram em seus métodos: Marquinhos (PSG), Alexsandro (Lille), Andrey Santos (Chelsea).
Quando o Andrey veio na minha casa (em Londres), ficou pasmo. Eu falei: ‘Você acha que estou nesse nível porque me chamo Thiago Silva?’ Ele viu meu chefe de cozinha, os equipamentos de recuperação, o cuidado com o sono. Ele entendeu o preço a pagar. Tenho orgulho de influenciar esses jovens, de incentivá-los a se preparar melhor para prolongar suas carreiras.
Por que você não conseguiu influenciar o Neymar?
Mas ele tem tudo: câmara hiperbárica, banho de gelo, chef de cozinha, fisioterapeuta, preparador físico… As pessoas julgam errado. Eu te garanto que ele se prepara direitinho, está determinado a estar no auge para disputar a Copa do Mundo. Não esqueça que ele está voltando de uma grave lesão no joelho esquerdo (ruptura dos ligamentos cruzados, em outubro de 2023, após um jogo contra o Uruguai pela Seleção). Depois disso, problemas físicos são inevitáveis. Olha o Rodri! O problema é que o Santos precisa se salvar e precisa do Neymar, mesmo que seja com uma perna só. Além disso, Neymar é como eu: quer jogar o tempo todo. Eu disse pra ele: “Você não é mais o Neymar de dez anos atrás. Precisa se preservar.” Antes de um dos últimos problemas físicos dele (coxa direita, em setembro, depois uma lesão no menisco do joelho esquerdo, no final de novembro), ele se sentia muito bem. Mas é aí que a gente se machuca. A gente se sente tão bem que força demais, e acontece. Ao contrário do que muitos pensam, Neymar faz o que precisa.
“Neymar-Mbappé foi uma história muito bonita. Não entendi por que se desentenderam. É decepcionante.”
Mesmo na preparação invisível? “Comer bem, dormir bem”, como dizia Kylian Mbappé?
Em certo momento, ele aproveitava os descansos e as férias. Era solteiro e tinha um ritmo diferente do meu, eu que sou casado e mais reservado. Hoje ele está com a Bruna [Biancardi], têm uma filha pequena e quase não sai. Mas as pessoas grudaram nele uma imagem e só falam dos escândalos do passado
No PSG, Mbappé e Neymar se davam bem no começo, mas a relação se deteriorou. Por quê?
Era uma história muito bonita, na verdade. Lembro do Trophée des Champions contra o Mônaco, com o Kylian Mbappé, no Marrocos (vitória do PSG por 2-1, em 29 de julho de 2017, em Tânger). No final da partida, Mbappé queria conversar comigo. Ele disse: ‘Mesmo que o Neymar assine, eu também quero vir e fazer parte desse time. Se puder, fale com o presidente.’ Os dois chegaram naquele verão e a relação deles era incrível. Estavam conectados, faziam parte dos que mais se divertiam no dia a dia. Não entendi por que se desentenderam. Eu não estava mais no PSG. Não sei qual dos dois provocou essa separação, mas fiquei triste. São dois caras incríveis, e é decepcionante que tenha acabado assim.
Voltando para você: para explicar sua longevidade, também há seu ódio à derrota. Um dia, Alex (no PSG de 2012 a 2014) contou: “Depois de um jogo ruim, quando voltávamos juntos de carro, do Parc des Princes para casa, ele não dizia uma palavra...”
(Risadas.) Quando você faz tudo certo, se prepara perfeitamente e perde, gera uma frustração enorme. Uma dor de verdade. Eu não aceito a derrota, nem aos 41 anos. Se eu não tivesse isso em mim, já teria parado de jogar. Sei que são meus últimos meses de competição, e quero ganhar até o último dia. Agora quero fechar o ciclo e ganhar a Copa do Brasil, como em 2007 (semifinal contra o Vasco, 15 de dezembro).
As críticas, que sempre o acompanharam, finalmente foram esquecidas?
Recebi muitas ao longo da carreira, algumas justificadas, outras não. Não é fácil superar. No PSG, me deixava triste. Quando éramos eliminados da Champions, sempre precisava aparecer um culpado, e isso caía sobre mim, como capitão. Mas me afeta menos do que antes. É mais decepcionante quando os ataques vêm de ex-jogadores, muito mais do que quando vêm de comentaristas ou jornalistas que nunca estiveram em campo. Mas é assim que tem que ser. Estou preparando meus filhos, Iago e Isago. Eles vão ter que lidar com críticas e comparações com o pai. Precisam estar preparados mentalmente.
Entre as críticas de ex-jogadores, houve as de Romário, no L'Équipe, em 2015, que o acusava de “faltar personalidade para jogar na Seleção”.
O mais difícil de engolir é que ele era meu ídolo. Cresci querendo ser o Romário. Quando você é criticado pela sua referência, dói. Acabei perdendo um pouco da admiração que tinha por ele. Hoje, com mais experiência e perspectiva, entendo e respeito a opinião dele. Se eu encontrar ele, vou cumprimentar ele. Mas não sou amnésico, não esqueço.
Também houve mal-entendidos com torcedores brasileiros, principalmente na Copa de 2014, mas alguns pedem seu retorno para a Copa do Mundo de 2026…
Ouço esse tipo de comentário. Fico feliz de as pessoas pensarem em mim para voltar à Seleção, aos 41 anos. É motivo de orgulho. Significa que estou fazendo bem meu trabalho. As críticas de 2014 poderiam me levar a parar de jogar se eu não tivesse a mentalidade necessária. Os torcedores falavam que eu era chorão, fraco mentalmente (apesar de eu estar suspenso e ausente na derrota histórica de 1-7 para a Alemanha na semifinal). Mas se fosse verdade, eu teria desistido quando estava no hospital na Rússia (vítima de tuberculose em 2005, no Dynamo Moscou)! Fiquei 6 meses sozinho em um quarto pequeno e, depois, a médica queria retirar parte do meu pulmão. Recusei. Como realizar meu sonho com um pedaço do pulmão a menos?
Mesmo assim, você está afastando essa reputação de “chorão” que o perseguia.
Ela está saindo, mas ainda fica na cabeça das pessoas. Quando decidi voltar ao Brasil, sabia que iria carregar a reputação de ‘Thiago o chorão’. Tinha razão, porque a cada jogo fora ouço: ‘Thiago, você não tem mentalidade! Thiago, só chora!’ É uma forma de me tirar do meu jogo, de me desconcentrar. Esperava por isso. Então, quando alguns torcedores e a imprensa dizem que a Seleção precisa de mim, de certa forma, mostro o quanto o Thiago é forte mentalmente, tecnicamente e fisicamente.
“Tenho orgulho de ter feito parte do PSG. E sinto ainda mais orgulho vendo o time brilhar.”
Sonho de voltar à Seleção e passagem pelo PSG
Thiago Silva não esconde seu desejo de vestir novamente a camisa do Brasil, mesmo mais de três anos após sua última convocação:
Mentiria se dissesse que não faz parte dos meus planos. Mas não conversei sobre um possível retorno com Carlo (Ancelotti, nomeado técnico em maio). Recentemente, fui visitá-lo nos escritórios da CBF, apenas por cortesia. Não falamos sobre minha presença no grupo. Carlo sabe que pode contar comigo e o que posso oferecer. Estou à disposição dele.
Seu contrato com o Fluminense vai até junho de 2026, não dezembro de 2025. Ele admite que havia um objetivo por trás:
(Risos) Sim, foi um pouco premeditado. Não sou chamado desde a Copa do Mundo de 2022, mas pensei que não seria impossível. Por isso assinei por dois anos no Fluminense, mirando a Copa do Mundo. Imagina terminar minha carreira com um título de campeão mundial? Seria o sonho absoluto e o momento perfeito para parar.
Antes do PSG, Thiago poderia ter jogado em outro clube francês. Ele recorda:
Bordeaux! Em 2004, Ricardo, treinador do Fluminense, me descobriu na Juventude. Quando ele foi para Bordeaux, pediu, sem sucesso, ao presidente Jean-Louis Triaud para me contratar. Sempre que o via, agradecia por ter sido gentil comigo. Honestamente, nunca imaginei jogar na França ou mesmo no PSG. Em 2012, no Milan, não havia chance de sair. Mas durante o período olímpico, o PSG fez pressão. Eu não queria ir, mas Adriano Galliani me disse: ‘Thiago, desculpe, temos problemas financeiros.’ O médico Éric Rolland veio ao Sheraton para fazer exames médicos em segredo, mas se destacou com o terno do PSG (risos). Assinei e a primeira temporada foi difícil, mas depois me senti em casa. O clube e Nasser al-Khelaïfi fizeram tudo para me ajudar a me adaptar.
Sobre seus 8 anos em Paris:
O que permanece é a gratidão por tudo o que o PSG me permitiu viver. Escrevi uma página muito importante da minha carreira. Jamais imaginei ficar tanto tempo, me tornar francês (desde 2019) e conquistar tantos títulos. Tenho muitas lembranças com os torcedores, mas também muita pressão e tristeza, especialmente após eliminações na Liga dos Campeões - 6-1 contra o Barça (2017) ou 3-1 contra o Manchester United (2019). Foram momentos críticos. Mas tenho orgulho de ter feito parte desta equipe e ainda mais ao vê-la brilhar hoje ou ao observar as instalações onde os jogadores treinam. Em 2012, quase não tínhamos nada: a academia era minúscula. Com Ibra, Maxwell, Pastore, Sirigu, Thiago Motta, Verratti, Lavezzi e os franceses Sakho, Jallet, Douchez, evoluímos tudo. Participamos das mudanças no centro de treinamento, no restaurante e na academia. Hoje, ver como está é simplesmente fantástico.
Em qual time do PSG você mais se divertiu jogando? O de Laurent Blanc ou o de Thomas Tuchel?
Em termos de números e títulos, eu acho que foi com o Blanc que a gente mais ganhou. 8 títulos em 2 anos (na verdade, 11 em 3 anos), é isso? Mas as ideias de jogo do Tuchel eram mais interessantes. Fizemos grandes partidas e chegamos à final da Champions em 2020. De qualquer forma, Blanc e Tuchel foram decisivos para a evolução do clube, que entendeu que precisava de um comandante que gostasse de jogar bonito. Hoje, eles encontraram um dos melhores do mundo com Luis Enrique, que sabe gerir um grupo e pratica um futebol maravilhoso. A ideia de jogo dele está bem enraizada na cabeça dos jogadores. Para mim, todo clube deveria ter uma identidade de jogo bem definida e um técnico que combine com essa ideia.
Sua passagem por Paris também foi marcada pela amizade com Lucas e Marquinhos.
Sim, esses são os melhores momentos que o futebol nos dá. Na verdade, o que estraga tudo são as partidas (risos). O mais legal é o dia a dia, as brincadeiras, a amizade, a camaradagem… Joguei com centenas de jogadores e amigos para a vida inteira não são tantos assim. Lucas e Marquinhos fazem parte desse grupo. Quando o Marquinhos chegou (verão de 2013), o Lucas não parava de zoar ele. Nos treinos, ele inventava qualquer coisa e dizia que ele tinha que jogar só com o pé esquerdo, só para provocar (risos).
“Eu acho que foi com Laurent Blanc que a gente mais ganhou. Mas as ideias de jogo de Thomas Tuchel eram mais interessantes.”
Também teve um divórcio surpreendente, o com Leonardo (ex-diretor esportivo do PSG). Olhando para trás, você entendeu?
Não, até hoje não. Continua sendo uma decepção para mim. Quando ele me convenceu a assinar com o Milan, eu tinha um pré-contrato com outro time, no qual eu poderia jogar imediatamente, sem esperar seis meses como aconteceu no Milan. A gente tinha uma relação de confiança. Então, fazer o que ele fez depois… Durante a pandemia, na primavera de 2020, o Leonardo me liga e me informa que eu não faria parte do projeto para a temporada seguinte. Fiquei decepcionado, mas aceitei jogar mais três meses (ao contrário do Cavani) para disputar o Final 8 da Champions em agosto. A gente perde a final para o Bayern (0-1). No dia seguinte, Leonardo me pergunta se eu tinha assinado em outro lugar, talvez para me oferecer uma renovação. Estranho. Três meses antes, ele não contava comigo. É como se tudo o que eu tinha feito em oito anos valesse menos do que meus três jogos no Final 8! Ele me conhecia bem, e achei a atitude dele ainda mais decepcionante.
Quando você ganha a Champions no ano seguinte com o Chelsea (1-0 contra o City), você pensa no PSG?
Eu sonhava tanto em conseguir isso (contra o Bayern) para sair com a sensação de dever cumprido. Então, quando eu venci com o Chelsea, a primeira coisa que me veio à cabeça, sim, foi o PSG, o Marquinhos e os outros que falharam comigo. Durante as comemorações, Neymar e Marquinhos me parabenizaram por vídeo, foi legal.
E quando o Marquinhos finalmente levanta a taça da Europa em maio passado, é em você que ele pensa…
(Emocionado.) Quando eu saí, sabia que o PSG estava em boas mãos com o “Marqui”, que ele ia exercer o papel de capitão como deve e que um dia iria conquistar a Champions. Então, ele ter pensado em mim ao levantar o troféu… (Ele fica com lágrimas nos olhos.) Ele sabe o quanto a gente sofreu e o quanto era importante para mim ganhar isso com o PSG. Quando ele levantou, meu coração transbordou de emoção. O “Marqui” é uma das maiores ídolos do PSG. Ele conseguiu entrar para a história do clube (mais de 500 jogos disputados, um recorde). E eu sei que faço parte disso também.
Você parece gostar desse PSG 2025?
Para um apaixonado por futebol como eu, é uma felicidade ver esse time. O que me impressiona é a forma como eles funcionam. Tudo parece automático. Eles sabem o que o outro vai fazer: quem vai abrir espaço, ir para o meio, criar superioridade numérica… Isso me fascina. Já conversei com o “Marqui” para tentar entender como eles montaram esse quebra-cabeça. Até pedi alguns exercícios, mas eles não podem me passar (risos). Dá para ver bem o trabalho do treinador. Não importa quem está em campo, a mão dele está lá. Há estratégia e filosofia de jogo.
Bastidores da entrevista
Local: auditório do centro de treinamento do Fluminense, na zona oeste do Rio de Janeiro.
Duração: mais de duas horas, incluindo entrevista e sessão de fotos.
“Eu não falo muito, mas quando falo, eu levo o meu tempo.”
Roupa: bermuda preta e camiseta estampada Club 1984-Paris-France.
Bebida consumida: água.
Nível de entrosamento com o entrevistador: 9/10.
Várias reuniões desde 2012, em Belo Horizonte, Rio e Paris.
Nota que ele se dá: 9/10.
Nota dada pela France Football: 10/10.
Thiago Silva nos ofereceu uma longa e bela conversa, apaixonante e às vezes emocionante.
As três entrevistas que ele gostaria de ler na France Football: “Tuchel, Tite e Lampard.”
Como futuro treinador (ele fez parte dos diplomas na Inglaterra e no Brasil), o trabalho de Luis Enrique te fascina?
Sim, o trabalho dele vai me inspirar. Vou me impregnar disso, com certeza. Admiro o que o Luis Enrique faz no PSG, mas não fecho a porta para outras ideias. Meu jeito de ver o jogo também se aproxima do que fazem Guardiola ou Tuchel. Também gosto do trabalho do De Zerbi, mesmo ele treinando nosso rival (o Marseille). É preciso achar sua forma de vencer sem perder a filosofia de jogo.
Você poderia treinar um time da Ligue 1?
Quando eu for treinador, estabeleci um objetivo: treinar todos os times onde joguei. Então, treinar um dia o PSG, sim, é possível, e seria mágico. Talvez nunca aconteça, mas coloquei esse objetivo na minha cabeça. Antes de pensar nisso, quero terminar minha carreira de jogador como deve ser.
E voltar para cumprimentar o Parc des Princes?
Voltar ao Parc para cumprimentar os torcedores me interessa. Eu não tive a oportunidade de me despedir. No Chelsea, fiz uma bela festa de despedida. Seria bonito voltar ao Parc e dizer adeus aos torcedores. E, quem sabe, até breve?