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Deco, o meio-campista elegante que se tornou diretor esportivo do Barça

26/03/2026
Deco, o meio-campista elegante que se tornou diretor esportivo do Barça

Vice de Andriy Shevchenko no ranking do Ballon d'Or 2004, Deco, elegante meio-campista ofensivo português, fala sobre aquele ano que transformou sua vida e comenta seu novo papel como diretor esportivo do Barça. (Artigo original de julho de 2024.)

A vida de um jogador de futebol pode passar sem grandes sobressaltos, seguindo uma trajetória regular, e terminar do mesmo jeito, sem dor nem glória. Para alguns sortudos, no entanto, ela pode mudar de dimensão em poucos meses, como foi o caso de Anderson Luis de Souza, mais conhecido como Deco, que vai completar 47 anos no dia 27 de agosto.

Em 2004, o meio-campista português de origem brasileira viveu tudo: a consagração com a camisa do Porto na Liga dos Campeões na primavera, a enorme decepção de uma final de Euro perdida em casa para uma surpreendente Grécia (0-1), a transferência para o Barça, o clube dos seus sonhos, e, por fim, o segundo lugar no Ballon d'Or, atrás do vencedor Andriy Shevchenko.

Duas finais, dois destinos

O primeiro ato de seu ano de sonho, a vitória continental com os Dragões sobre o Mônaco (3-0), quase não aconteceu. “O Barcelona queria me contratar no verão de 2003 e eu queria ir porque achava que meu ciclo no Porto tinha terminado, depois de conquistar três Campeonatos e a Copa da UEFA”, lembra o atual diretor esportivo dos Blaugranas, de seu escritório no complexo esportivo Joan Gamper, em Sant Joan Despi. “Mas o presidente e José Mourinho vetaram. O treinador me disse que, se eu ficasse, ganharíamos a Liga dos Campeões. Na hora, eu dei risada...”

Na primeira parte da temporada, o jogador nascido em São Bernardo do Campo, no sudeste de São Paulo, ficou desanimado. “Eu me sentia um pouco triste, mas tive um estalo antes do nosso jogo de ida das quartas contra o Lyon em casa, quando marquei um gol e dei uma assistência (2-0, em 23 de março de 2004)”, confessa. “Acordei pensando que aquela oportunidade nunca mais voltaria e então recuperei meu melhor nível.”

Na final, Deco e seus companheiros destruíram o Mônaco de Didier Deschamps, ajudados pela lesão e saída de Ludovic Giuly aos 23 minutos. “Isso afetou muito o jogo deles em profundidade e nos permitiu assumir o controle da partida”, destaca quem era conhecido como o Mágico. “Fomos eficientes em todos os setores do jogo para conquistar essa vitória espetacular.”

Tudo isso sob o comando de José Mourinho em plena ascensão. “Ele era um revolucionário, mudou a mentalidade do futebol português, nos deu confiança e cuidava de cada detalhe.”

A primavera de Deco continuou sob auspícios semelhantes, ou quase, com sua primeira final internacional pelo Portugal no Campeonato Europeu disputado em casa. “Sempre digo que o Euro foi a competição mais feliz e também a mais triste que joguei com a seleção”, comenta o ex-número 20. “Foi fantástico jogar em casa com essa festa popular nos apoiando. Cada time joga com suas armas, e a Grécia mereceu o título porque defendeu perfeitamente e soube marcar quando era necessário.”

O Barça, um sonho de infância

Depois de viver essas emoções opostas em poucas semanas e se afirmar entre a elite, o talentoso criador finalmente chega ao Barça, o time que ele sonhava quando era garoto, enquanto lapidava sua técnica nos campos de várzea e nas quadras de futsal de Campinas, a cerca de 100 km ao norte de São Paulo.

“Adolescente, nos anos 1990, eu assistia ao Barça e ao Campeonato Italiano, que eram muito acompanhados no Brasil. Eu ficava fascinado com a Dream Team, com Romário, Hristo Stoitchkov, Michael Laudrup... Foi daí que nasceu meu desejo de vestir a camisa do Barça.”

Em um clube em fase de reconstrução, com Frank Rijkaard chegando ao banco um ano antes e acompanhado por Ronaldinho e outros reforços como Ludovic Giuly, Samuel Eto’o e Edmilson, Deco ajudou na reconquista da Liga após cinco anos de jejum. Ainda assim, foi Andriy Shevchenko, grande responsável pelo Scudetto do Milan com 24 gols em 32 jogos, que levou o Ballon d’Or em 14 de dezembro de 2004. “Eu estava mais focado nos troféus coletivos”, afirma Deco. “O fato de ter jogado no Porto talvez tenha jogado contra mim, mas não me incomoda.”

“Me apaixonei pelo Porto, pelo estádio e pelos torcedores. [...] Eu não sabia que o clube me acompanhava, mas já queria fazer parte da história dele.”

Depois de um início de carreira conturbado, o pequeno gênio tinha motivos para relativizar. Reparecido e comprado pelo Benfica aos 20 anos (em 1997), foi imediatamente emprestado ao Alverca, na Segunda Divisão, e vendido na temporada seguinte ao Salgueiros (D1), sem ter disputado nenhum jogo pelo Benfica.

“Na época, eu queria ficar no Corinthians, mas o clube viu uma boa oportunidade de me vender”, analisa Deco. “Eu tinha sonhos enormes e não tinha outra escolha a não ser treinar duro para melhorar. Me apaixonei pelo Porto, pelo estádio e pelos torcedores quando fomos jogar com o Salgueiros (outra equipe da cidade, hoje na D4). Eu não sabia que o clube me acompanhava, mas já queria fazer parte da história dele.”

Com três Campeonatos e o mesmo número de Taças de Portugal conquistados em seis temporadas, mas principalmente a Copa da UEFA em 2003 e a Liga dos Campeões em 2004, Deco cumpriu seu objetivo.

A oposição de Figo à sua naturalização

Em março de 2003, o meia é convocado por Luiz Felipe Scolari para a seleção portuguesa, pouco depois de ter obtido a nacionalidade. Isso, naturalmente, gerou polêmica, alimentada especialmente por Luís Figo, então capitão da Seleção.

“Não acho que as pessoas ficariam felizes na Espanha se eu me tornasse espanhol e jogasse pela seleção espanhola”, declarou o vencedor do Ballon d’Or de 2000 ao jornal El País. “Se você nasceu na China, bem, você tem que jogar pela China.”

O novo internacional optou por manter um perfil discreto. Acabaria conquistando a confiança de seus novos companheiros e do público português.

“Claro que nasci no Brasil, mas minha escolha de jogar pelo Portugal foi natural”, desvia Deco quando se fala sobre a declaração polêmica de Figo. “Não podemos esquecer que um dos maiores jogadores portugueses de todos os tempos, Eusébio, também não nasceu em Portugal (não na metrópole, pelo menos, mas numa colônia portuguesa na época, na África Oriental Portuguesa, mais precisamente em Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique). Nunca tive problema com Figo - que se tornou meu amigo - nem com qualquer outro jogador.”

Ao lado de Cristiano Ronaldo, o talentoso meio-campista enfrenta a França (0-1) na semifinal da Copa do Mundo de 2006. “Essa equipe francesa era muito sólida, sofria poucos gols. Patrick Vieira e Claude Makélélé protegiam a defesa com perfeição. Eles marcaram aquele pênalti e, mesmo criando perigo, não conseguimos empatar. Uma pena, porque nossa geração merecia conquistar um título.”

“No Barça, me tornei um jogador mais cerebral. Não diria que precisei me sacrificar, mas tive que aprender a jogar garantindo o equilíbrio da equipe, controlando espaços e ritmo.”

E isso não impediu Deco de se destacar com o Barça, onde se tornou, nas palavras de Rijkaard, “o barômetro da equipe”. Ao lado de Xavi e do mexicano Rafael Márquez no meio-campo, ele permitiu que Ronaldinho brilhasse, graças à sua visão de jogo, inteligência na distribuição de passes e técnica refinada.

“Ronnie era um artista, um jogador a quem não se podia pedir para não ter liberdade em campo”, ressalta o dirigente. “No Barça, me tornei mais cerebral. Não diria que precisei me sacrificar, mas tive que aprender a jogar garantindo o equilíbrio da equipe, controlando espaços e ritmo. Era uma nova responsabilidade e eu adorava isso.”

14 anos após o gol histórico de Ronald Koeman em Wembley contra a Sampdoria (1-0), os Blaugranas conquistam sua segunda Liga dos Campeões, em 17 de maio de 2006, no Stade de France, contra o Arsenal, então treinado por Arsène Wenger (2-1).

“Na temporada anterior, o Chelsea nos eliminou injustamente (2-1, 2-4), porque jogamos um futebol ofensivo sem pensar muito na defesa. No jogo de volta, já estávamos 3 gols atrás em 20 minutos... Percebemos que precisávamos ser mais inteligentes defensivamente, para sermos mais fortes e consistentes. Foi graças a isso que conseguimos chegar à final em 2006.”

O retorno ao Brasil

 Aos 18 minutos da final, Jens Lehmann derruba Samuel Eto’o fora da área. O goleiro do Arsenal é expulso, e parecia que o Barça iria dominar o adversário. “Em vez de abrir 1 a 0, nos encontramos com onze contra dez, tomamos um gol (Sol Campbell, 37º) e eles fecharam a defesa”, lembra Deco.

Ele continua: “Era um time que sabia se defender muito bem e saía rápido no ataque. Então, acabou sendo mais difícil do que imaginávamos. O duelo de Victor Valdés com Thierry Henry (aos 68’) foi, na minha opinião, a chave da partida. Com 2 gols de desvantagem, nunca conseguiríamos voltar...”

Samuel Eto’o empatou a quinze minutos do fim, e Juliano Belletti colocou o Barça à frente. Esse foi o último título importante de Deco com a camisa do Barcelona - fora a Supercopa da Espanha três meses depois - enquanto ele assistia em primeira fila ao surgimento de um fenômeno.

“Percebi imediatamente que o Leo (Messi) era especial”, afirma. “Ele já tinha aquela postura em campo que dava a impressão de estar distraído, mas na verdade controlava tudo ao redor. Quando recebia a bola, sabia exatamente o que fazer. Já possuía uma rapidez de execução fora do comum, com a bola grudada no pé.”

No verão de 2008, Pep Guardiola assume o comando do time e Deco, prestes a completar 31 anos, é convidado a procurar um novo clube, quatro anos depois de sua chegada à Catalunha. “Minha etapa nesse clube tinha terminado”, admite o antigo virtuoso. “Sempre disse que, quando o clube não me quisesse mais, eu entenderia e partiria.”

O ranking do Ballon d'Or 2004

  1. Andriy Shevchenko (UCR, Milan), 175 pontos

  2. Deco (POR, Porto, Barcelona), 139 pts

  3. Ronaldinho (BRA, Barcelona), 133 pts

  4. Thierry Henry (FRA, Arsenal), 80 pts

  5. Theodoros Zagorakis (GRE, AEK Atenas, Bologna), 44 pts

  6. Adriano (BRA, Parma, Inter de Milão), 27 pts

  7. Pavel Nedved (RTC, Juventus), 23 pts

  8. Wayne Rooney (ING, Everton, Manchester United), 22 pts

  9. Ricardo Carvalho (POR, Porto, Chelsea), Ruud van Nistelrooy (HOL, Manchester United), 18 pts

  10. Angelos Charisteas (GRE, Werder Bremen), 15 pts

Antes de demonstrar uma pequena amargura: “Eu adoraria ter sido treinado por Pep, um dos melhores técnicos da história, ele certamente teria me ensinado muitas coisas. Mas fui para o Chelsea para conhecer outro campeonato e enfrentar novos desafios. Lá, tive uma boa primeira temporada; a segunda foi mais complicada por problemas pessoais, mas não me arrependo nada da minha escolha.”

Após conquistar a Premier League em 2010, ele fecha o capítulo europeu e assina com o Fluminense no Brasil, encerrando uma carreira brilhante. “Quando criança, eu torcia pelo Corinthians, mas queria terminar minha carreira em um clube ambicioso, com chance de ganhar títulos, como sempre fiz”, explica Deco. “Ganhei dois Campeonatos Brasileiros com o Fluminense (2010, 2012), que não vencia há vinte anos, e vivi momentos incríveis.”

O homem do presidente Laporta

 Em 2013, ele se aposenta após 15 temporadas no mais alto nível e abre uma agência de consultoria que oferece, entre outros serviços, suporte a clubes e fundos de investimento. “Foi uma experiência incrível que me permitiu viajar quase pelo mundo todo”, comemora o português, enquanto mensagens e ligações não paravam de chegar.

Nesse período, ele também acompanhou vários jogadores, como Raphinha, Fabinho e Caio Henrique, antes de assumir a direção esportiva do Barça no verão passado, a pedido de Joan Laporta, com quem manteve uma boa relação após sua saída para o Chelsea em 2008.

“O presidente queria que eu me juntasse a ele desde a sua reeleição (em março de 2021)”, conta Deco. “Não era possível até então, por causa das minhas atividades, mas quando Mateu Alemany deixou o clube no ano passado, o presidente me ligou de novo para me convencer a assumir como seu diretor esportivo. Mesmo que não tenha sido fácil para mim deixar tudo o que tinha construído nos últimos anos, acabei aceitando.”

Pai de seis filhos de três uniões, que vivem na Espanha, no Brasil e em Portugal, cujos nomes ele tatuou no braço direito, Deco equilibra uma vida pessoal agitada com suas constantes viagens profissionais.

“Eu participo de todos os treinos para formar minha própria opinião, para saber exatamente onde estamos e o que pode ser melhorado.”

“Fiquei imediatamente encantado com o projeto do Barça, que precisava de pessoas corajosas em um momento decisivo da história do clube”, anima-se, de seu escritório com vista para o campo de treino do time principal. “Eu assisto a todas as sessões para formar minha própria opinião, para ter ideia de onde estamos e do que pode ser melhorado. Não sou treinador, mas é importante para mim sentir o pulso do time diariamente.”

No dia seguinte ao nosso encontro, ele se reunia em Londres com Hansi Flick, sucessor designado de Xavi no comando do Barça, que na temporada passada terminou a dez pontos do Real Madrid na Liga. “No futebol, é impossível ganhar sempre, mas não podemos ser eliminados da disputa pelo título tão cedo”, afirma Deco. “No Barça, uma temporada sem troféus é difícil de aceitar. Fomos melhores na Liga dos Campeões nesta temporada (eliminados nas quartas pelo PSG, 3-2 e 1-4) do que na anterior, mas esperamos fazer ainda melhor no ano que vem.”

Diante do computador, ele se mostra confiante. “O Barça tem capacidade de se reinventar. Formamos jovens talentosos e precisamos cercá-los de jogadores ambiciosos vindos de fora. Estamos nos recuperando financeiramente, um novo estádio está em construção...” Ao final da sessão de fotos, agradece a recepção e, mal nos viramos, já pega o telefone e começa a digitar com a mesma habilidade que mostrava com a bola nos pés.

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