“Eu achei que o Ronaldo tinha morrido”: Roberto Carlos abre o baú de memórias
Roberto Carlos, vice de seu amigo Ronaldo no Ballon d’Or de 2002, marcou a história com suas coxas de aço e seus chutes potentes. O incansável lateral-esquerdo relembra seus anos de felicidade com o Brasil e no Real Madrid. E, claro, a final da Copa do Mundo de 1998, quando Ronaldo colidiu violentamente com Fabien Barthez. (Artigo original de dezembro de 2024.)
Como esquecer aquela trajetória absurda que deixou Fabien Barthez parado, quase imóvel, no gramado de Gerland, um ano antes do título francês na final da Copa do Mundo contra esse mesmo Brasil? Pelas redes sociais, até quem tem menos de 40 anos pode dizer que já viu pelo menos uma vez a cobrança de falta sobrenatural de cerca de 35 metros feita por Roberto Carlos contra a equipe de Aimé Jacquet, no Torneio da França (1 a 1), em 3 de junho de 1997.
O lance foi analisado de todos os ângulos, inclusive por físicos, que tentaram explicar, como puderam, aquele efeito incrível dado com o lado de fora do pé esquerdo do lateral brasileiro - e a bola que parecia sair do alvo antes de entrar junto à trave esquerda do goleiro francês.
Esse gol de outro mundo é algo que o próprio autor descreve melhor do que ninguém: “Eu tinha treinado essa batida várias vezes, mas nunca entrava: a bola sempre ia para fora ou, no máximo, na trave”, garante o ex-jogador de 51 anos, sentado em um café sofisticado de La Moraleja, ao norte de Madrid.
E o brasileiro continua: “Naquele dia, tudo se alinhou: a distância, o vento, a posição do meu pé, a do muro e a do goleiro, minha confiança… Do lado direito do gol, a publicidade serviu como referência. Mirei na letra ‘e’, dando o efeito que queria, e deu certo.” E é verdade: havia mesmo um painel amarelo dos Correios atrás do gol de Fabien Barthez, que pode ser ouvido gritando desesperadamente para os jogadores na barreira, pouco antes da cobrança decisiva: “À esquerda, à esquerda!”
Como esquecer também das arrancadas vorazes de Roberto Carlos pelo lado esquerdo, seus cruzamentos milimétricos e seus inúmeros chutes potentes? Isso fez com que ele fosse considerado um dos melhores laterais da história e figurasse no nosso segundo Ballon d’Or Dream Team (o primeiro apenas 3 defensores, com Paolo Maldini como zagueiro pela esquerda).
Na mais pura tradição brasileira, ele assumiu o legado de Nílton Santos (campeão do mundo em 1958 e 1962), Júnior (titular em 1982 e 1986) e Branco (campeão do mundo em 1994), depois transmitido a Marcelo, seu sucessor no Real e na Seleção.
“Com Cafu, tenho a sensação de que revolucionamos a posição de lateral”
“Enquanto Branco estava lá, eu não tinha nenhuma chance de jogar”, avalia o ex-jogador do Real Madrid. “Eu dividia o quarto com ele quando cheguei à Seleção - para mim, era incrível dormir com meu ídolo! Um dia, ele sentiu uma dor nas costas e eu aproveitei minha chance. Com Cafu, tenho a sensação de que revolucionamos a posição de lateral, avançando o tempo todo, sem nos limitar a defender. Na França, Bixente Lizarazu e Patrice Evra também seguiram esse caminho.”
Nascido na pequena cidade de Garça, no meio de plantações de café, a 400 quilômetros a oeste de São Paulo, Roberto Carlos se mudou para Cordeirópolis aos 8 anos, onde já levava uma vida intensa com a mãe e as três irmãs, enquanto o pai, caminhoneiro, percorria o país.
“Comecei a trabalhar aos 11 anos em uma fábrica têxtil, sem deixar de ir à escola”, conta o ex-internacional brasileiro. “Morávamos em uma casa de madeira e, à noite, eu jogava bola com meus primos. Aos domingos, íamos à igreja e, durante a semana, ficávamos pela praça perto de casa, na esperança de encontrar garotas bonitas…” Na época, ele admirava Pelé, que havia se aposentado no New York Cosmos em 1977 quando ele tinha apenas 4 anos, mas também… Diego Maradona, algo raro para um brasileiro. “Para mim, sendo canhoto, ele era a referência absoluta!”, garante.
Meio-campista ou ponta na Inter
Aos 15 anos, Roberto Carlos começou no União São João de Araras, outra cidade do estado de São Paulo, na terceira divisão. “Eu tinha amigos que eram melhores do que eu, mas nem todos tiveram a mesma chance. Ao contrário do que muita gente pensa, a vida de jogador está longe de ser fácil.”
Ele rapidamente se firmou como titular e chamou a atenção do Palmeiras, patrocinado na época pelo poderoso grupo Parmalat, que investia pesado para atrair os melhores jogadores do país e assim superar Corinthians e São Paulo de Raí e Cafu. Ao lado de Rivaldo, Edmundo, Mazinho, César Sampaio e Zinho, conquistou dois Campeonatos Brasileiros (1993 e 1994) em duas temporadas. Já se destacava pelo lado esquerdo no 3-5-2 de Vanderlei Luxemburgo e chamou a atenção da Inter de Milão, que o contratou no verão de 1995 por cerca de 3,5 milhões de euros.
“Não foi fácil no começo, com o frio, longe de casa, com uma filha pequena, mas depois de dois meses eu já estava adaptado”, conta o ex-jogador, hoje com mais de 50 anos e ainda cheio de energia. “Tenho a mentalidade de quem vem de cidade pequena: sempre estive pronto para superar qualquer dificuldade.”
Ele se firmou nos nerazzurri (34 jogos, 7 gols), mas percebeu que seu futuro na seleção poderia se complicar, já que Roy Hodgson o utilizava como meio-campista e às vezes até como ponta. “Na Itália, as pessoas não estavam acostumadas a ver defensores que avançam tanto. As referências na época eram Paolo Maldini ou Giuseppe Bergomi”, lembra. “Conversei com o treinador e o presidente para me deixarem sair, porque eu queria jogar como lateral-esquerdo. Eu sabia que era nessa posição que esperavam por mim na seleção.”
Ao fim de sua única temporada na Itália, ele foi transferido para o Real Madrid, onde escreveria sua história. O clube buscava retomar a antiga grandeza e investiu pesado para isso. “Fui parar em um time cheio de ambição, com Clarence Seedorf, Christian Karembeu, Christian Panucci, Fernando Redondo, Fernando Hierro… Em 1997, ganhamos a La Liga, mas o que realmente importa no Real é a Liga dos Campeões, herança de Ferenc Puskás, Alfredo Di Stéfano e Francisco Gento.”
Em 1998, Roberto Carlos conquistou a primeira de suas três Ligas dos Campeões, encerrando o maior jejum do clube espanhol em sua competição favorita (trinta e dois anos). Dois anos depois, repetiu o feito no Stade de France, após uma final sem suspense contra o Valencia (3 a 0).
Autor de 70 gols - muitas vezes espetaculares - e 116 assistências em 11 temporadas (1996–2007) com a camisa merengue, ele quase sempre estava em campo, graças a um físico, disciplina e mentalidade fora do comum. “Mesmo quando eu sentia alguma dor, eu jogava, porque, se você tem a chance de vestir a camisa do Real Madrid, não pode abrir mão disso”, afirma o jogador, que disputou 527 partidas com o clube.
O telefonema para Zizou
No início dos anos 2000, chegou a era dos Galácticos, com Luís Figo, Zinédine Zidane, Ronaldo e David Beckham. “Uau!” (Seus olhos brilham.) “Eu adorei aquela época, mesmo com muita pressão e sem termos conquistado tantos títulos quanto queríamos. Todo mundo queria nos vencer. Por onde passávamos, éramos recebidos como estrelas do rock, especialmente nos torneios de pré-temporada, seja na China, nos Estados Unidos ou na Áustria. Tínhamos os melhores jogadores do mundo em cada posição.”
Nesse time quase mítico, Roberto Carlos conquistou sua terceira e última Liga dos Campeões em 2002 contra o Bayer Leverkusen (2 a 1), graças a uma jogada inesquecível finalizada por Zinédine Zidane - a quem ele próprio ligou um ano antes para convencê-lo a ir para Madri.
“Eu sabia que ele já tinha perdido duas finais (em 1997 e 1998 com a Juventus), então disse que, se quisesse finalmente ganhar, precisava vir jogar com a gente no melhor clube do mundo”, brinca o brasileiro. “Zizou sempre me deu ótimos conselhos e não hesitava em me dar bronca quando era preciso. Era incrível jogar e dividir o vestiário com ele. Desde que deixou de ser treinador do Real, ele viaja bastante, então não me chama mais tanto para jantar.” (Risos.)
“Eu faço um cruzamento perfeito para o Zizou e ele quase estraga a jogada… Não, só ele mesmo para fazer um gol como aquele.”
Já havia dado o passe para o primeiro gol de Raúl naquela final disputada no Hampden Park, e o lateral-esquerdo número 3 repetiu a dose ao levantar a bola na área, que Zinédine Zidane transformou em ouro com uma voleio antológica, pouco antes do intervalo.
“Rimos muito quando lembramos dessa jogada, porque o Santiago Solari me deu uma bola horrível, eu fiz um cruzamento perfeito para o Zizou e ele quase estragou a ação”, diverte-se. “Não, só ele mesmo para marcar um gol como esse. Para mim, é um dos mais bonitos da história do futebol.”
O ano de 2002 marcou a consagração do lateral ágil. Na sequência dessa conquista europeia, ele levantou a Copa do Mundo coorganizada pelo Japão e a Coreia do Sul, contra a Alemanha (2 a 0), ao lado do seu companheiro de lateral-direito Cafu e de uma seleção recheada de estrelas como Ronaldinho, Rivaldo, Lúcio e Ronaldo - a última da Seleção até hoje.
“No Brasil, ganhar a Copa do Mundo é uma obrigação”, comenta. “É a oportunidade de dar alegria ao povo, grande parte vivendo na pobreza. Os jogadores, então, têm uma responsabilidade enorme. Durante o torneio, víamos vídeos de pessoas no país que não dormiam ou acordavam de madrugada para ver nossos jogos, e isso nos deu força para ir até o fim.”
Testemunha da crise de R9 em 1998
Uma bela revanche para ele e seu amigo Ronaldo, destroçados como um quebra-cabeça quatro anos antes pelos franceses no Stade de France (0 a 3). “Nosso erro foi pensar que ganharíamos aquela final sem problemas, mas, infelizmente para nós, Zizou marcou os dois únicos gols de cabeça da carreira naquela noite”, lamenta.
Poucas horas antes, Ronaldo sofreu uma crise de nervos enquanto conversavam no quarto. “No começo, achei que era brincadeira, mas logo percebi que era sério”, lembra Roberto Carlos. “Corri para buscar nosso médico. O Ronnie era uma estrela e tinha que lidar com uma pressão enorme. Acho que, se estivesse em plenas condições, teríamos vencido. Quando houve o choque com Barthez (aos 21 minutos), sinceramente, achei que ele tinha morrido. Que dia horrível…”
“Ser segundo colocado do Ballon d’Or como defensor é extraordinário quando se pensa nisso”
Isso não o impede de sempre provocar R9 sobre suas posições no Ballon d’Or 2002, vencido pelo atacante, sempre que se encontram. “Sempre digo a ele que aquele Ballon d’Or era meu e que ele me roubou”, sorri. “Ouvi dizer que até a final da Copa do Mundo 2002 eu era favorito, então perdi o troféu em noventa minutos (duplo de Ronaldo contra a Alemanha)… Mas ser segundo no Ballon d’Or como defensor é extraordinário quando se pensa nisso. Só Franz Beckenbauer (1972, 1976), Matthias Sammer (1996) e Fabio Cannavaro (2006) conseguiram. Essa segunda colocação é, portanto, um grande orgulho.”
O ranking do Ballon d'Or de 2002
Ronaldo (BRA, Inter de Milão, Real Madrid), 169 pontos
Roberto Carlos (BRA, Real Madrid), 145 pts
Oliver Kahn (ALE, Bayern de Munique), 110 pts
Zinédine Zidane (FRA, Real Madrid), 78 pts
Michael Ballack (ALE, Bayer Leverkusen, Bayern de Munique), 71 pts
Thierry Henry (FRA, Arsenal), 54 pts
Raúl (ESP, Real Madrid), 38 pts
Rivaldo (BRA, Barcelona, Milan), 31 pts
Yildiray Bastürk (TUR, Bayer Leverkusen), 13 pts
Alessandro Del Piero (ITA, Juventus), 12 pts
Na Copa de 2006, os dois se reencontram com Zinédine Zidane, Fabien Barthez e Thierry Henry, autor do único gol das quartas de final vencidas pelos franceses. “Toda vez que vejo o Titi, pergunto como ele conseguiu se esconder e ele ri”, conta o lateral-esquerdo. “Disseram que foi minha culpa. Mas não era eu que tinha que marcar o Henry: como um cara de um metro e cinquenta (1,68 m na realidade) poderia marcar um jogador de quase 1,90 m? Eu estava posicionado fora da área para contra-atacar se recuperássemos a bola. Nem Edmilson nem Lúcio conseguiram impedir Henry de passar pelo Dida. De qualquer forma, a França nunca foi boa para nós…”
A negociação que não se concretizou com o Chelsea
Enquanto o Real Madrid contrata Marcelo para sucedê-lo no verão de 2007, Roberto Carlos quase assina com o Chelsea, mas uma questão de comissão faz o negócio fracassar. “Encontrei Roman Abramovich (então dono dos Blues) em Paris para não chamar atenção da mídia, mas um intermediário pediu uma quantia desnecessária e, como não é assim que vejo as coisas, decidi não assinar.”
Ele então segue para o Fenerbahçe por duas temporadas e meia respeitáveis (104 jogos, 10 gols) sob comando de Zico, antes de um último giro pelo Corinthians (2010) e pelo Anji Makhachkala (2011), onde se orgulha de ter vencido Spartak, Lokomotiv e Dínamo Moscou.
“Seis meses depois, Suleyman Kerimov, o dono, me chamou no escritório e disse: ‘Você realizou meu sonho de vencer os grandes times da Rússia, agora quero que você seja meu diretor esportivo.’ Ele me deu a responsabilidade da organização esportiva e das transferências: aprendi muito nesse período.”
Após duas experiências medianas como técnico na Turquia (Sivasspor e Akhisarspor), ele volta a jogar brevemente em 2015 na Indian Super League, com estrelas como David Trezeguet, Alessandro Del Piero e Nicolas Anelka. Como era de se esperar, logo retorna ao Real Madrid, onde atua como embaixador há quase uma década.
“Dou conselhos aos reforços, especialmente sul-americanos, ajudo a se instalar, a achar casa, a resolver questões do dia a dia”, enumera. “Além disso, viajo pelo mundo para encontrar parceiros do clube e manter sua imagem.”
E sempre de olho nos laterais atuais. “Gosto da forma de defender do Ferland Mendy e do estilo do Alphonso Davies, que me lembra o jogador que eu era. Mas, exceto pelo Marcelo, nenhum ataca tanto quanto nós fazíamos com o Cafu.” Podemos até acrescentar: são raros os jogadores que marcaram tanto uma posição quanto ele.
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