Quantos Ballons d’Or Pelé poderia ter conquistado?
Pelé não era elegível para o Ballon d’Or, que na época era reservada aos europeus. Ainda assim, se o brasileiro, falecido em 29 de dezembro de 2022, aos 82 anos, tivesse sido elegível, ele poderia ter conquistado sete, assim como Lionel Messi. A “FF” se divertiu reescrevendo a história. (Artigo original de janeiro de 2023.)
Quando foi criado, em 1956, o Ballon d’Or queria ser um prêmio abrangente. Mas essa abrangência naquela época estava limitada ao continente europeu. É preciso dizer que ninguém naquele período tinha como observar, muito menos avaliar, os campeonatos sul-americanos e os jogadores que atuavam neles.
A Europa dominava o mundo do futebol com sua força econômica e já atraía, desde o início dos anos 1950, estrelas vindas da Argentina (Alfredo Di Stéfano no Real), do Uruguai (Alcides Ghiggia na Roma, Juan Alberto Schiaffino no Milan) ou do Brasil (Julinho na Fiorentina).
O prêmio revisitado de 1958 a 1970
1958: Pelé (Brasil) em vez de Raymond Kopa (França).
1959: Pelé (Brasil) em vez de Alfredo Di Stéfano (Espanha).
1960: Pelé (Brasil) em vez de Luis Suárez (Espanha).
1961: Pelé (Brasil) em vez de Omar Sívori (Itália).
1962: Garrincha (Brasil) em vez de Josef Masopust (Tchecoslováquia).
1963: Pelé (Brasil) em vez de Lev Yashin (URSS).
1964: Pelé (Brasil) em vez de Denis Law (Escócia).
1965: Eusébio (Portugal).
1966: Bobby Charlton (Inglaterra).
1967: Flórián Albert (Hungria).
1968: George Best (Irlanda do Norte).
1969: Gianni Rivera (Itália).
1970: Pelé (Brasil) em vez de Gerd Müller (Alemanha Ocidental).
E, além disso, Pelé ainda nem existia… Sem internet nem televisão, com meios de transporte ainda rudimentares para percorrer o mundo, não era fácil ter uma ideia do valor de um craque, inclusive no Velho Continente. A imprensa escrita tinha seus contatos, seus correspondentes, aqueles que viam - e esses estavam na Europa.
Durante muito tempo, o Ballon d’Or premiou, portanto, um representante europeu. Foi só em 1995 que o troféu ganhou uma dimensão mundial ao consagrar (finalmente) o melhor jogador atuando em um clube europeu, independentemente da sua nacionalidade e, a partir de 2007, o melhor jogador do mundo, independentemente do campeonato em que jogasse.
Loucura, genialidade… e estatísticas
Mas essa ampliação acabou se tornando quase desnecessária, já que a Europa passou a ser um polo que concentra todas as competências. Por quase 40 anos, os maiores talentos sul-americanos viram passar diante deles o troféu individual mais prestigioso sem poder tocá-lo.
É essa frustração que vamos, de forma arbitrária, tentar reparar ao imaginar os cenários possíveis para Pelé, que só teve direito a um Ballon d’Or honorário, em 2013, assim como antes dele Diego Maradona, em janeiro de 1995.
Pelé, cujo nome verdadeiro é Edson Arantes do Nascimento, apareceu como um cometa, revelação da Copa do Mundo de 1958, da qual ele quase não participou por causa de um problema no joelho. Ele, aliás, não jogou as duas primeiras partidas da Seleção, entrando em campo apenas contra a URSS (2 a 0), no último jogo da fase de grupos.
Aos 17 anos, Edson Arantes do Nascimento ainda não era Pelé. Foi a partir das quartas de final, contra o País de Gales (1 a 0), que ele começou a deslanchar. O que veio depois foi um furacão: seis gols em três jogos, símbolo da explosão de um talento incrível.
Didi, eleito o melhor jogador daquela Copa na Suécia, poderia ter sido um perfeito vencedor do Ballon d’Or de 1958. Mas o meio-campista do Botafogo, que logo iria para o Real Madrid (em uma passagem sem sucesso), já estava perto dos 29 anos, e seu talento era mais coletivo, menos brilhante do que o do futuro “Rei”.
Pelé tinha frescor, loucura, instinto, genialidade. E, sobretudo, fazia muitos gols - gols impressionantes ao fim de arrancadas alucinantes, cheias de dribles de deixar qualquer um perdido ou de fintas tiradas da cartola de um mágico.
Em 1958, Pelé marcou 80 gols com a camisa do Santos. Alguns vão dizer que o nível dos adversários não era comparável ao dos clubes espanhóis ou italianos. A resposta é simples: o nível de Pelé também não tinha comparação.
Além disso, a Copa do Mundo representava naquela época muito mais do que uma competição. Era uma lente de aumento, porque única, uma enorme vitrine na qual o Alfredo Di Stéfano espanhol nunca teve espaço - incapaz de classificar a Roja em seu grupo eliminatório em 1958, antes de ficar fora por lesão em 1962.
Não só brilhante em Copa do Mundo
Pelé foi o homem das Copas do Mundo. Disputou quatro, venceu três e marcou duas delas (1958 e 1970) com sua marca. Entre esses anos, empilhou gols, principalmente entre 1958 e 1961, quando sua produção parece uma escalada de lances em um leilão: 100 gols em 1959, 110 em 1961...
Foi nesse período que ele atingiu o auge. Também foi quando construiu seu palmarés e ganhou dimensão internacional. Campeão várias vezes do Campeonato nacional e do estadual de São Paulo, Pelé venceu em 1962 e 1963 a Copa Libertadores e a Copa Intercontinental contra o Benfica e o Milan.
Quem viu a semifinal da Copa Libertadores de 1963 contra o Botafogo de Garrincha e Jairzinho fala disso até hoje com emoção. Autor do gol de empate no jogo de ida (1 a 1), Pelé marcou três gols na volta (4 a 0) em uma das atuações mais completas da sua carreira. Artilheiro do mata-mata, ele levou sua equipe ao título na final contra o Boca Juniors.
Daria para continuar assim por muito tempo - e até dar a ele o Ballon d’Or durante toda a década de 1960. Vamos parar provisoriamente em 1964, o ano em que ele marcou 8 gols em uma partida de Campeonato contra o Botafogo, sendo 6 em apenas 13 minutos. Mas, mesmo que sua “produtividade” não diminua (97 gols em clubes em 1965, ano em que terminou como artilheiro da Libertadores), seu impacto começa a se diluir a partir da metade dos anos 1960.
O sétimo Ballon d’Or em 1970
Alvo constante dos defensores de todas as nacionalidades, cada vez mais exposto na Europa em amistosos lucrativos, menos presente no cenário sul-americano (apenas uma Libertadores disputada a partir de 1965), o “Rei” paga o preço da fama - nem sempre a seu favor. Castigado pelos búlgaros e portugueses na Copa do Mundo de 1966, ele sai lesionado, e o Brasil junto com ele. Para renascer em 1970.
Para todos que tiveram a sorte de viver essa época com consciência, a Copa do Mundo de 1970 - a primeira transmitida em cores na TV - permanece como um deslumbramento. Pelé tinha 29 anos. Já se sabia que aquela Copa seria a sua última. Também se sabia que aquele Brasil talvez fosse o melhor time de todos os tempos.
Mais do que os gols de Pelé (4, ainda assim), foram seus gestos, suas jogadas individuais, que marcaram a memória: o lob incrível de cerca de 50 metros sobre o goleiro tchecoslovaco Viktor, a finta desconcertante que deixou para trás o goleiro uruguaio Mazurkiewicz na semifinal, a cabeçada fulminante contra a Inglaterra e a defesa de Gordon Banks, o passe sem olhar para Carlos Alberto Torres no quarto gol do Brasil na final contra a Itália (4 a 1)...
Muitos lances não deram certo - mas ninguém liga. Aqui, o gesto vale mais do que tudo. Ele tem valor eterno. Pelé conquista sua última Copa do Mundo. E seria eleito Ballon d’Or de 1970. A sua sétima. Assim como Lionel Messi. Por enquanto.