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Ronaldo: Da Sombra de 1998 ao Ballon d'Or de 2002

19/03/2026Mateus Kogut Lessa de Sá
Ronaldo: Da Sombra de 1998 ao Ballon d'Or de 2002

Em 1998, ele caiu diante do mundo. Em 2002, levantou-se para conquistá-lo. Entre a convulsão que chocou o planeta, as lesões que quase encerraram sua carreira e as dúvidas que ecoaram por todo o Brasil, surgiu uma das maiores histórias de superação da história do futebol. Esta é a jornada de Ronaldo - do fundo do poço à glória eterna - uma prova de que os maiores campeões não são definidos pelas quedas, mas pela coragem de voltar.

O Chamado da Vitória

No futebol, não tem nada que mais se queira do que a vitória. Como em qualquer esporte competitivo, ganhar é a recompensa máxima pelo trabalho duro, dedicação, talento e resiliência. Mas o caminho até lá nunca é fácil. Tem buracos, desvios, armadilhas inesperadas. Às vezes, para chegar no topo, é preciso primeiro despencar até o fundo do poço… e então se erguer, mais forte, com mais determinação. São essas histórias de superação - de quem se levanta mesmo quando tudo parece perdido - que fazem os torcedores vibrarem a cada jogo, sabendo que estão vendo a história sendo escrita. Poucas histórias são tão épicas quanto a de Ronaldo Luís Nazário de Lima.

Em 1998, Ronaldo conheceu o fundo do poço.

Até então, sua carreira era um espetáculo ininterrupto: depois de brilhar pelo Cruzeiro, foi chamado para a seleção na Copa do Mundo de 1994. Mas, com apenas 17 anos, não jogou nenhum minuto e queria mais oportunidades. Desde cedo já mostrava um talento fora do comum: veloz, forte, habilidoso, capaz de driblar, recuperar a bola e finalizar com precisão mortal.

Em 1994, partiu para a Europa, assinando com o PSV Eindhoven. Dominou a liga holandesa por duas temporadas, marcando quase um gol por partida, ajudando o clube a conquistar a Copa da Holanda em 1996.

Ronaldo no PSV Eindhoven

57 partidas, 54 gols e 7 assistências (1994-1996)

Naquele mesmo ano, o Barcelona pagou uma quantia recorde para contratar o jovem brasileiro. Na única temporada no clube, tornou-se o protagonista absoluto: artilheiro da liga, campeão da Copa dos Vencedores da UEFA e da Supercopa da Espanha. Na seleção, também se destacou, sendo eleito melhor jogador da Copa América de 1997 e marcando na final.

Ronaldo no Barcelona

49 partidas, 47 gols e 13 assistências (1996-1997)

Em 1997, Ronaldo se transferiu para a Inter de Milão, onde ganhou o apelido de “Il Fenomeno”. Assim como fez no Cruzeiro, PSV e Barcelona, Ronaldo rapidamente se tornou a estrela da Inter. Com 25 gols, além de assistências, cobranças de pênalti e faltas certeiras, conquistou o título de Jogador do Ano da Serie A e, no fim do ano, ergueu seu primeiro Ballon d’Or. Todos sabiam: ele era o melhor do mundo.

Ronaldo na Inter de Milão

99 partidas, 59 gols e 11 assistências (1997-2002)

O Fogo da Consagração e o Peso da Expectativa

Em 1998, a supremacia de Ronaldo continuava incontestável. Quando marcava, os companheiros se ajoelhavam, fingindo polir a sua chuteira. Ele era respeitado e temido, e virou até capitão da equipe. O palco da Copa do Mundo parecia pronto para seu brilho.

Mas nem tudo seria fácil. O Brasil perdeu para a Noruega na fase de grupos do torneio e empatou com a Holanda na semifinal - só avançando nos pênaltis. Ainda assim, Ronaldo mostrava porque era o melhor: marcou contra Marrocos, fez dois gols contra o Chile e, nas quartas contra a Dinamarca, marcou e deu assistência a Bebeto. Enquanto o Brasil se preparava para a final contra a anfitriã França, ele era, sem dúvida, a maior ameaça ofensiva da seleção, combinando força, velocidade e precisão em cada toque. Era o seu momento.

Mas os deuses do futebol tinham outros planos.

Horas antes da final, Ronaldo sofreu uma convulsão na acomodação onde a seleção brasileira estava hospedada. Inconsciente, tremendo, com a língua enrolada, foi salvo pelos companheiros, enquanto Roberto Carlos corria em busca de ajuda. Minutos depois, acordou sem nenhuma lembrança do episódio, e foi levado ao hospital em Paris. Todos os exames voltaram normais. O incidente ficou conhecido como consequência de pressão extrema e estresse. Afinal, Ronaldo era um jovem de apenas 21 anos e carregava as expectativas de um país inteiro. 

Inicialmente, ele não ia jogar. Mas voltou dos exames e insistiu que queria entrar em campo. Zagallo cedeu. O resultado? Um desastre: o Brasil perdeu por 3 a 0. Ronaldo parecia lento, a equipe não conseguia se encontrar, e a sombra daquele episódio se espalhava sobre todos. Roberto Carlos descreveu: “Eu vi o meu amigo morto.” (Podpah) A seleção não tinha forças para lutar naquele dia.

Ronaldo foi eleito melhor jogador do torneio, mas a imagem dele que ficou foi cabisbaixo, chuteira pendurada nos ombros, refletindo sobre o que poderia ter sido. Ele já falou sobre rever a partida várias vezes para entender o que deu errado e o que poderia ter sido feito diferente. Ao mesmo tempo, se orgulha de ter tentado jogar mesmo depois de quase perder a própria vida:

“Depois de muito tempo, eu continuo pensando que fiz a coisa certa - ter sido corajoso de querer jogar, mesmo sem saber o que poderia acontecer.” (Lance!)

A Queda e a Escuridão

Infelizmente, os anos seguintes acabaram sendo igualmente difíceis.

Em novembro de 1999, durante uma partida da Serie A entre Inter de Milão e Lecce, Ronaldo rompeu um tendão no joelho direito. Saiu mancando e precisou de cirurgia. Após meses fora, retornou em abril de 2000 para a final da Coppa Italia contra o Lazio, mas com apenas 6 minutos em campo, o joelho não aguentou e ele caiu no chão, às lágrimas, saindo de maca. A lesão era mais grave que a anterior - os tendões do joelho estavam completamente rompidos. Até hoje é considerada uma das mais devastadoras da história do futebol.

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Depois de duas cirurgias e um longo processo de reabilitação, Ronaldo ficou quase dois anos sem jogar. Javier Zanetti foi nomeado novo capitão da Inter. Os médicos diziam que ele poderia, com sorte, voltar a andar algum dia. Correr, jogar futebol? Impossível. O último capítulo da carreira do Fenômeno parecia ser a final trágica de 1998.

O Renascimento do Fenômeno

Mas Ronaldo se recusava a aceitar o impossível. Com o apoio do fisioterapeuta Nílton Petrone, seguiu uma rotina de recuperação rigorosa por um ano e meio. Passo a passo, recuperou a força e resistência dos joelhos. Corridas curtas, sprints controlados, contato gradual com a bola. Com paciência e disciplina, superou limites que pareciam inatingíveis. Petrone comentou: “Se você entender a mecânica do comprometimento que você precisa ter para se recuperar, o irrecuperável vai ficar de lado. O Ronaldo é um dos maiores exemplos disso.” (Basticast)

A recuperação não foi só física. Foi também mental. Reconstruir a confiança de quem já tinha sido o melhor do mundo, mas que tinha ouvido que jamais jogaria novamente, exigiu coragem e tenacidade. Ronaldo afirmou que a experiência o fortaleceu:

“Mudou a minha vida. Mudou o meu jeito de ser, mudou o meu entendimento de força interior, de amor pelo futebol, de amor no geral, de disciplina. Depois de ter superado essa batalha, eu sou muito melhor pessoa do que eu era antes.” (Flow)

Ronaldo finalmente voltou aos campos em dezembro de 2001. Foi como presenciar um milagre: o retorno de um herói. Menos de duas semanas depois, marcou seu primeiro gol pós-lesão (e depois um segundo no mesmo jogo), garantindo a vitória da Inter sobre o Lecce, o time contra o qual tinha se lesionado em 1999. Teve festa, lágrimas, aplausos até dos rivais. Ronaldo estava de volta.

O Impossível Vira Possível

Mesmo assim, o mundo duvidava. A Copa de 2002 se aproximava e muitos brasileiros criticavam a insistência do técnico Felipão em convocar Ronaldo, já que ele tinha perdido toda a campanha de qualificação. Torcedores por todo o Brasil ficaram indignados, achando que a vaga estava sendo ocupada por um jogador que não merecia. Em um amistoso contra a Iugoslávia, em março, a torcida brasileira levantou uma faixa que dizia: ‘A convocação de Ronaldo é tão absurda quanto um noivo casar sem conhecer a mulher. Tem coisas que só o dinheiro explica.’

Mas, como tantas vezes na carreira, Ronaldo provou que o impossível às vezes podia se tornar possível.

Na abertura do torneio contra a Turquia, Ronaldo entrou em campo com um corte de cabelo maluco, quase cômico, para desviar a atenção das lesões. No fim, a mídia acabou falando menos sobre o cabelo e mais sobre seus gols. Ele marcou contra Turquia, China, Costa Rica (dois gols), Bélgica, e de novo na semifinal contra Turquia. Durante o torneio, desmentiu todos os críticos, marcando gols e formando o ataque dos ‘Três Rs’ com Rivaldo e Ronaldinho - um dos maiores trios ofensivos da história do futebol.

Mas ainda não tinha acabado. Afinal, Ronaldo também tinha chegado à final da Copa de 1998 antes de tudo desmoronar. Talvez pudesse acontecer de novo. 

A Glória de Yokohama

O palco: o Estádio Internacional de Yokohama, Japão. Brasil contra Alemanha. Adversários fortes, o goleiro alemão Oliver Kahn imbatível. O mundo prendia a respiração.

Primeiro tempo tenso, chances para ambos os lados. 

Aos 67 minutos, Rivaldo chutou de longe, Kahn falhou na defesa, e Ronaldo, pronto, empurrou para o gol. Dez minutos depois, marcou de novo, garantindo o 2 a 0 e a quinta Copa do Brasil. Ronaldo recebeu a medalha de Pelé, uma passagem simbólica do bastão da lenda para o herói.

Ele não conseguiu conter a emoção:

“Eu comecei a chorar aquele choro, quase que soluçando. Não comemorando a vitória, exatamente, mas sim a minha vitória. [...] Foi realmente muito mais do que uma Copa do Mundo. Foi um ressurgimento, com um aprendizado pra vida muito grande.” (Globoplay)

Além da taça, levou a Chuteira de Ouro, igualando o recorde de Pelé para gols de um brasileiro em Copas.

Ronaldo na Seleção Brasileira

99 partidas, 62 gols e 32 assistências (1994-2011)

No final do ano, recebeu o Ballon d’Or pela segunda vez, um prêmio conquistado não apenas pelo talento, mas pela coragem, pela resiliência e pela vontade inquebrável de voltar a sonhar. Ele recebeu três réplicas do troféu: uma ele guardou, outra deu para a mãe, e a terceira entregou a Nílton Petrone, o fisioterapeuta que o ajudou a não abandonar seus sonhos.

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Enquanto o Ballon d’Or de 1997 foi entregue a um Ronaldo que estava no topo da montanha, que não parava de triunfar desde o início de sua ascensão, esse de 2002 foi dado a um Ronaldo que tinha sido derrubado e arrastado para o fundo do poço inúmeras vezes, mas que se levantou a cada queda e encontrou, com força e determinação, um jeito de voltar ao topo. 

Ele chorou, sofreu, lutou, mas nunca desistiu. Nunca deixou de acreditar:

“Não desista nunca dos sonhos. Porque você vai desistir do teu sonho? Você tem que ir até o final, tentar de tudo. Tudo.” (Fenômenos)

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