O Craque que o Mundo Reconheceu

Hoje em dia, todo mundo já sabe: Rivaldo é simplesmente um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos. Ballon d’Or, carreira gigante construída em vários países, protagonista na Copa das Confederações, na Copa América, e no tão sonhado pentacampeonato mundial em 2002. O nome dele virou sinônimo de vitória, de decisão, de glória.

Dentro de campo, era coisa de outro mundo. Versátil, cerebral, frio quando precisava - e genial quando o jogo pedia ousadia. Armava, finalizava, inventava. Chamava a responsabilidade e resolvia. Craque de verdade.

Mas o que hoje parece óbvio… nem sempre foi assim.

Durante boa parte da carreira, Rivaldo teve que ouvir que não ia dar certo. Que não era tudo isso. Que não tinha o que precisava para chegar no topo. Duvidaram dele. Tentaram colocar limite onde ele só via sonho.

Ele nunca aceitou.

A cada crítica, ele respondia jogando. A cada desconfiança, ele crescia. Caiu, levantou, insistiu. Foi na teimosia, na força mental e na fé inabalável no próprio talento que ele abriu caminho - até transformar o próprio nome em lenda.

Essa não é só a história de um craque.

É a história de alguém que se recusou a desistir.

Crescendo Contra Todas as Adversidades

Nascido em 19 de abril de 1972, em um bairro humilde do Recife, Rivaldo enfrentou pobreza e fome desde cedo. Um sinal da desnutrição da infância: cresceu com pernas arqueadas - isso, junto com sua altura, fazia dele um candidato improvável a craque do futebol. Os dentes faltando e o rosto magro deixavam seu rosto sempre com um ar sério - o de um jovem que carregava o peso da pobreza desde cedo, muitas vezes fraco e abatido. Era considerado mais fraco que os irmãos nas partidas locais. Poucos levavam ele a sério. Mas Rivaldo continuava jogando. Todos os dias. Mesmo com dúvidas, desvantagens físicas e dificuldades de vida, ele se dedicava ao máximo ao futebol. E, nas horas em que não estava na escola ou vendendo doces e picolés para ajudar a família, começou a mostrar que tinha talento de sobra - habilidoso, inteligente e com ótima visão de jogo.

Começou nas categorias de base do Santa Cruz, time para o qual toda sua família torcia, mas foi considerado dispensável pelos treinadores e enviado para o Paulistano por alguns meses em 1989. Rivaldo lembra que não conseguiu contar para a família que tinha sido dispensado: “Me mandaram embora [do Santa Cruz] e eu cheguei em casa para poder falar isso para o meu pai, e não tive coragem de falar. [...] Porque era fanático pelo clube. Toda a família, fanática. Foi um momento difícil.” (Betfair)

Mal sabia ele que essa mudança seria pequena perto do caminho que a sua carreira tomaria, que ia acabar conquistando o mundo. O Paulistano, que o recebeu naquele curto período, também não poderia imaginar, já que os treinadores achavam Rivaldo fraco demais para dar certo.

Quando assinou seu primeiro contrato profissional, o pai de Rivaldo, Romildo, já não estava mais ali para ver. Ele tinha morrido pouco antes, em um acidente de trânsito. O primeiro contrato, que deveria ser apenas motivo de alegria, acabou vindo acompanhado de muita saudade.

Rivaldo então se agarrou ainda mais ao futebol. Trabalhou duro para ajudar a família e usou o dinheiro do primeiro contrato para reformar a casa da mãe. Desde o começo, jogar bola nunca foi apenas um sonho - era também um dever, uma forma de cuidar dos seus.

Sempre provando continuamente que os críticos estavam errados, Rivaldo assinou pelo Mogi Mirim em 1992, na segunda divisão do Brasil. No começo foi difícil se adaptar, sofrendo preconceito pela origem nordestina: “Cheguei em ‘92 em Mogi Mirim e não foi fácil. Você sendo nordestino. A maneira de você falar, de se vestir. [...] No momento quando você chega e você não tem nome, você sofre um pouco. Se você vai perguntar aos nordestinos que vem para São Paulo, é complicado. Muito complicado.” (ESPN Brasil)

Mas Rivaldo transformou isso em força, superando tudo com talento e determinação. Subiu para a primeira divisão. Virou destaque nacional. 

Brilhou tanto no Corinthians quanto no Palmeiras durante os anos 90, ajudando o Timão a vencer o Campeonato Paulista em 1993 e o Verdão a ganhar o mesmo título em 1996. Também fez parte do Palmeiras que conquistou o Brasileirão em 1994 e 1995. Foi nessa época que virou figura constante na seleção brasileira.

Rivaldo no Corinthians e no Palmeiras

Clube

Partidas

Estreia

Última partida

Gols

Assistências

Corinthians

19

1993

1994

11

5

Palmeiras

54

1994

1996

26

2

O Erro Olímpico e a Segunda Chance na Espanha

Em 1996, nas Olimpíadas de Atlanta, parecia questão de tempo até ir para a Europa. Palmeiras e Parma já tinham um acordo fechado. Mas um erro decisivo contra a Nigéria custou o ouro e transformou Rivaldo em alvo de um verdadeiro “cancelamento” antes mesmo de o termo existir.

Até Zagallo, técnico da seleção, não poupou palavras, dizendo que ele tinha sido o pior jogador brasileiro da competição e descrevendo seu estilo como: “nervoso, encabulado, acabrunhado, inseguro, instável, com a bola pegando fogo no pé”. (Folha de São Paulo)

Rivaldo voltou ao Brasil cabisbaixo, criticado de todos os lados. Para piorar, o negócio com o Parma não vingou. Parecia que ia acabar por aí aquela incrível história de superação, de fazer o que ninguém acreditava ser possível.

Até que veio uma reviravolta.

Chegou uma ligação e, junto dela, uma oferta. O Palmeiras começou negociações e, logo, Rivaldo estava a caminho da Europa, para se juntar ao Deportivo La Coruña, na Espanha.

“Eu sabia que a maneira que eu jogo eles iam gostar, porque eu ia fazer algo diferente. Eu ia inventar coisas que eles não viram.” - Rivaldo

O clube vinha acompanhando seu desempenho incrível pelo Corinthians e especialmente pelo Palmeiras, e reconheceu que seu erro nas Olimpíadas era apenas isso - um erro. Um erro que custou caro, sem dúvida, mas não um reflexo do jogador que Rivaldo era e poderia ser. Assim, fizeram um acordo, e o jovem de 24 anos fez as malas para jogar na Europa pela primeira vez. Ele lembra da empolgação com essa nova oportunidade, uma segunda chance depois de ser descartado por muitos outros: “Foi uma alegria enorme ter podido ter ido para Espanha. E chegando lá, me deu ânimo, me deu aquela vontade de jogar, de mostrar que aquilo foi acidente.” (Betfair)

O jogador foi recebido de braços abertos em La Coruña, com 7.000 torcedores presentes na sua apresentação. Muitos acreditavam que ele seria um substituto direto de Bebeto, ídolo do clube que tinha acabado de assinar pelo Flamengo, mas Rivaldo sempre manteve a postura de ser ele mesmo, não tentando imitar outro jogador: “Eu sabia que a maneira que eu jogo eles iam gostar, porque eu ia fazer algo diferente. Eu ia inventar coisas que eles não viram. [...] Porque o futebol é alegria, futebol é um espetáculo. Os torcedores têm que voltar para casa felizes com algo diferente.” (ESPN Brasil)

Essa declaração acabou sendo profética. Rivaldo passou apenas uma temporada em La Coruña, mas foi suficiente para trazer imensa alegria à cidade e ao clube, eternizando seu nome na história do clube.

O jogador marcou 22 gols em 46 jogos, ajudando o time a voltar ao nível que tinha atingido com Bebeto no começo dos anos 90. Sua versatilidade chamava atenção: podia jogar como meia, segundo atacante ou pelas pontas. Driblava, criava, finalizava de qualquer jeito - de cabeça, de longe, de falta, de pênalti. Futebol como espetáculo.

Rivaldo no Deportivo La Coruña

46 partidas, 22 gols e 1 assistência (1996-1997)

Barcelona e a Consagração Mundial

Numa única temporada, Rivaldo calou a boca dos críticos. O jogador franzino de pernas arqueadas que tinha medo de contar aos pais que deixaria seu clube local em Recife fez uma transição perfeita para uma das ligas mais competitivas da Europa, enfrentando alguns dos maiores times do mundo. Ele esperava que seu desempenho impressionasse a comissão técnica da seleção brasileira, mas sentia frustração pela falta de atenção no Brasil: “Pena que não transmitam os jogos do La Coruña com frequência. Só falam do Barcelona. Na semana passada, por exemplo, fiz um gol muito bonito. Telefonei para meus familiares e eles disseram que não tinham visto.” (Folha de São Paulo)

Felizmente para Rivaldo, mesmo que muitos no Brasil não acompanhassem seus jogos, muitas pessoas na Espanha estavam de olho, incluindo o Barcelona, que pagou alto para levá-lo. A saída de La Coruña foi turbulenta, com vaias e mágoas. Ele partiu assustado, inseguro, com as pernas tremendo. Mas foi.

E valeu a pena.

No Barcelona, ganhou 2 La Ligas, 1 Copa do Rei, e 1 Supercopa da UEFA. Substituiu ídolos e virou ídolo. Ele fez a transição do Palmeiras para o La Coruña parecer fácil, substituindo Bebeto, e repetiu o feito no Barcelona, substituindo Ronaldo.

A consagração veio em 1999, quando ele não só ganhou a Copa América com a seleção brasileira, sendo o maior artilheiro do torneio, mas também ganhou o prêmio mais ilustre do mundo do futebol, o Ballon d’Or. O garoto desacreditado agora era oficialmente o melhor jogador do mundo.

Mas mesmo depois de tudo isso… mesmo depois de tanto sucesso, de brilhar em clube e na Seleção, de ser eleito o melhor jogador do mundo… a dúvida nunca saiu do pé de Rivaldo. A crítica era uma sombra constante.

Mesmo no auge, ainda precisava lutar para ser ouvido. O técnico Louis van Gaal cismou que o brasileiro tinha que jogar na ponta - posição que não era a dele. Rivaldo sempre rendia mais por dentro, como meia-atacante, explorando drible, visão de jogo e inteligência. Às vezes até de centroavante. Mas van Gaal não cedia.

O choque de personalidades foi inevitável. Van Gaal tirou Rivaldo do time titular, mas o brasileiro não se deixou abater. Anos depois, ele resumiu com franqueza: “Quando [o van Gaal] vê que o jogador tem muito talento, ele tenta tirar aquele talento e dividir para o grupo.” (GE)

Não era só ele que sentia isso. Os próprios companheiros reclamaram de sua saída - porque, na verdade, quando Rivaldo jogava, todo mundo jogava melhor.

No meio desse caos, van Gaal acabou demitido. E o destino foi quase poético. No último jogo daquela temporada, contra o Valencia, Rivaldo respondeu do jeito que sabia: meteu um hat-trick absurdo - para muita gente, o maior da história do futebol - e ainda garantiu o Barça na próxima edição da Liga dos Campeões. 

No total, foram 130 gols com a camisa do clube, consolidando seu nome entre os maiores artilheiros da história e provando, com talento e determinação, que ninguém poderia apagar o seu brilho.

Rivaldo no Barcelona

235 partidas, 130 gols e 49 assistências (1997-2002)

Do Ceticismo ao Pentacampeonato

Mesmo assim… nem todo mundo no Brasil estava convencido.

Apesar de ter sido decisivo na Copa América, ainda tinha gente pegando no pé. Talvez porque ele saiu cedo do Brasil. Talvez pela frustração das Olimpíadas de 96. Talvez pela decepção coletiva na Copa de 98. O fato é que, toda vez que ele vestia a Amarelinha e não fazia uma partida “de melhor do mundo”, as vaias já começavam a ecoar. As críticas. Os xingamentos. Em 2001, ele desabafou: “Ninguém vê o sacrifício que a gente faz para jogar.” (Folha de São Paulo)

Parecia que nunca era suficiente. Por mais que lutasse, por mais que provasse, o barulho continuava. Ele sabia: ia precisar fazer algo fora do normal para calar de vez.

E foi lá e fez.

“2002, talvez eu tenha sido mais determinante do que ele por causa dos 2 gols da final [...] Mas eu acho que ele jogou mais do que eu na Copa também. Ele jogou muito. E ele se doa para o time." - Ronaldo

Na Copa do Mundo de 2002, Rivaldo entrou em outro nível. Ao lado de Ronaldo e Ronaldinho, formando o lendário trio dos “Três Rs”, ele empurrou o Brasil muito além do que muita gente achava possível. Cada passe, cada arrancada, cada toque de bola parecia antecipar o próximo movimento do time. Foram 5 gols e 3 assistências num torneio gigantesco. E na final contra a Alemanha, participou diretamente dos dois gols do Ronaldo. O resultado? Brasil campeão do mundo pela quinta vez.

O Ronaldo levou a Chuteira de Ouro e depois outro Ballon d’Or, mas nem ele negou: Rivaldo foi o motor daquela seleção: “2002, talvez eu tenha sido mais determinante do que ele por causa dos 2 gols da final [...] Mas eu acho que ele jogou mais do que eu na Copa também. Ele jogou muito. E ele se doa para o time. Eu não doava para o time de marcar. O Rivaldo corria o tempo todo. O Rivaldo jogou muito essa Copa, cara. [...] O time fluía quando ele comandava, sabe? E vinha, recebia, ia para frente. Um cara forte, imponente. Marcava, fazia gol, ninguém tira a bola do pé dele.” (Charla)

Banner

O técnico Luiz Felipe Scolari, o Felipão, foi direto: para ele, o Rivaldo tinha sido o melhor jogador do torneio. Um contraste enorme com as críticas duras de anos antes, quando Zagallo chegou a chamar o Rivaldo de “o pior jogador da seleção”.

"Em 2002 eu consegui mudar a opinião de muita gente da imprensa, e hoje posso falar que 90% gosta de mim pelo jogador e pessoa que sou.” - Rivaldo

Depois de 2002, a maré virou. Quem antes apontava o dedo agora baixava a cabeça. Muitos pediram desculpa. Todos reconheceram: Rivaldo tinha sido um dos gigantes daquela Copa, o cérebro que fez o Brasil voar rumo ao pentacampeonato.

E o Rivaldo? Não guardou mágoa. Nunca foi disso: “Depois da Copa do Mundo de 2002, todos os que eram críticos, muito, muito críticos em relação ao Rivaldo, pediram desculpa, o que foi uma coisa legal. Falaram que eu fui um dos melhores do torneio. Claro que você sempre tenta dar tudo em campo, mas não vai agradar a todo mundo. Mas eu perdoei, tranquilo, porque o repórter estuda, entende de futebol e pode ter a opinião de que não gosta de um jogador. Mas em 2002 eu consegui mudar a opinião de muita gente da imprensa, e hoje posso falar que 90% gosta de mim pelo jogador e pessoa que sou.” (GE)

Rivaldo na Seleção Brasileira

76 partidas, 35 gols e 17 assistências (1993-2003)

Legado de Superação e Inspiração 

Hoje, aposentado, ninguém discute sua grandeza. Virou lenda do Brasil e do futebol mundial. E a resposta dele às críticas sempre foi a mesma: provar dentro de campo. Escutar o que é construtivo, ignorar o deboche e transformar tudo em combustível. Jogar. Melhorar. Crescer.

E é exatamente essa mentalidade que ele tenta passar aos jogadores mais jovens que enfrentam o mesmo nível de cobrança que ele enfrentou na época em que jogava. Quando o Brasil perdeu de 4 a 1 para a Argentina no começo do ano passado, Rivaldo deu sua opinião sobre como o time deveria reagir: “Agora tem de aceitar as críticas, aprender com os erros e buscar uma reação para superar essa fase tão difícil”. (CNN)

Pouca gente entende tanto de cobrança quanto ele. Desde os campinhos das favelas do Recife até o topo do futebol mundial, sempre teve alguém duvidando. Fraco demais. Lento demais. Arrogante. Irregular.

No fim, o mesmo cara que ouviu tudo isso calou o mundo com talento, trabalho e vitória atrás de vitória.

A história do Rivaldo não é só sobre futebol. É, acima de tudo, sobre resistir. Sobre transformar dúvida em combustível. Sobre não deixar a negatividade arrancar de você aquilo que você sabe que nasceu para fazer. É sobre insistir no sonho - mesmo quando todo mundo diz que ele é grande demais para você.