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Vinícius Júnior:

"Se eu estiver sozinho contra o racismo, o sistema vai me esmagar."

20/03/2026Brazilian team
Vinícius Júnior: "Se eu estiver sozinho contra o racismo, o sistema vai me esmagar."

Em outubro de 2023, o ponta do Real Madrid, que tinha apenas 23 anos na época, contou pra gente sobre uma vida cheia de aventuras. De garoto prodígio nas favelas do Rio de Janeiro a promessa do futebol mundial, ele se tornou um ícone internacional e uma voz importante na luta contra o racismo, do qual ainda é vítima. (Artigo original de outubro de 2023, com a última atualização em janeiro de 2024).

Em 2019, na cerimônia do Ballon d'Or, conhecemos um jovem de 19 anos um pouco tímido. Você mudou muito desde então?

Sim. Um pouco na vida e, principalmente, dentro de campo. Eu tinha acabado de chegar do Brasil e a mudança para Madrid é um salto enorme. É o sonho de todo jovem, mas é impressionante. Aqui encontrei boas pessoas e cresci. Sou um jogador diferente. Era um garoto que não sabia nada, com apenas 70 jogos como profissional. Agora tenho mais de 200 (281 pelo clube e 23 pela seleção, até 9 de outubro). Mas continuo sendo jovem, não podemos esquecer isso. Tenho apenas 23 anos e ainda tenho muita vontade de aprender.

Fora de campo, sua vida também mudou bastante?

Acho que fiquei um pouco mais famoso. (Cai na gargalhada) Já não faço o que fazia no Brasil, mas adoro minha vida. Consegui mudar a vida da minha família graças a tudo isso. Acredito que vim para ficar aqui por muitos anos. De qualquer forma, era o meu sonho. Posso jogar futebol todos os dias! Nada me deixa mais feliz. Nunca vou me cansar de estar em campo.

Difícil imaginar um momento em que o Vinícius não estivesse com a bola nos pés...

Nunca passei três dias sem jogar futebol, nem quando estava de férias. Quando eu era pequeno, se tinha um lugar onde dava para jogar, eu estava lá. De manhã estudava com o único objetivo de ter a tarde e a noite livres para jogar. Foi assim a minha infância. Aos 8 anos eu queria imitar o Neymar. E meu pai deixava eu ir para a rua.

Mas não eram ruas quaisquer, e sim as de São Gonçalo, perto do Rio de Janeiro...

É um bairro perigoso, mas as pessoas passam o tempo jogando futebol. Tem bandidos, armas por todo lado. É uma das piores favelas do Rio. Para quem vive lá, tudo acaba parecendo normal, mesmo não sendo. Mas tive os amigos certos, as pessoas certas ao meu redor. Pude seguir o caminho que queria e tinha um dom para o futebol. Nem todo mundo tem essa sorte. Por necessidade, muitos acabam seguindo caminhos errados. Lá, nem sempre dá para escolher, e eu nunca conheci ninguém de lá que tenha virado médico, professor ou advogado. Esperamos que isso mude... De qualquer forma, fui feliz ali. Fiz amigos para a vida toda. Os que vivem comigo em Madrid são todos de São Gonçalo. É uma grande parte da minha história.

“Eu não tinha medo na minha rua, ao lado das gangues. Não vai ser agora que vou começar a ter!”

O que aquelas ruas representam para você?

Foi lá que aprendi tudo. A rua me colocou frente a frente com jogadores mais velhos. Eu tinha 9 anos e jogava contra meninos de 12 ou 13. Não tinha medo de jogar com a bola e mantive isso no meu estilo. E é de lá que vem toda a qualidade, toda a técnica… Não é como um campo de verdade. É mais difícil do que no Bernabéu, isso é certo. (Risos) Ninguém marca falta, a bola vai de um lado para o outro... Mas de lá saíram jogadores excepcionais. É isso que faz com que nós, brasileiros, tenhamos algo diferente no drible, no controle de bola. É o futebol de rua, e depois o futsal. Eu não tinha medo na minha rua, ao lado das gangues. Não vai ser agora que vou começar a ter!

Foi mais porque eles não tinham nada. Eu tinha 5 anos quando meu pai decidiu trabalhar fora do nosso bairro, mas ainda assim não era suficiente. Eles abriram mão dos sonhos deles para que eu pudesse viver os meus. Hoje podemos dizer que valeu a pena, mas também acontece de outras pessoas perderem todo o dinheiro que têm, e até o que não têm. Graças a Deus, meu irmão mais novo não vai precisar passar por isso. A escola me deixava jogar de graça e também me dava o material esportivo. Sem essas pessoas eu não estaria aqui. O Flamengo nunca teria me descoberto. Sinceramente, não sei o que teria feito. Eu só sonhava com futebol.

E você nunca perdeu esse DNA ofensivo, de driblador.

Sempre joguei do meu jeito e sempre vai ser assim. Nunca deixei de pensar que, onde quer que eu jogasse, podia ser o melhor. No meu bairro, em outro lugar ou contra jogadores mais velhos... Quando não conseguia, voltava para casa meio triste. Aquilo me consumia. Eu queria ganhar. Infelizmente isso não acontecia todos os dias. (Risos) Gosto de ser um líder, de sentir que sou importante, que posso carregar o time. Continua sendo assim.

Desistir é algo que não faz sentido pra você?

Nunca penso no que vai acontecer depois. Não tem estresse, só alegria. Tenho a personalidade certa para arriscar e o time me passa confiança para fazer isso. Vou continuar tentando até dar certo. Nunca fico remoendo erros. No segundo depois de uma falha, já estou pedindo a bola de novo. E tentar muito também significa conseguir muito. Sei que nem todo mundo pensa assim, mas eu sou assim desde que comecei. Tive que levar essa mentalidade para Madrid.

“A pressão existe, mas todos gostamos dela. É uma necessidade quando se busca grandeza.”

Seu papel no vestiário também deve ter evoluído nos últimos anos.

Claro. Quando assinei, era um garoto sem grandes responsabilidades. Agora sou eu quem precisa puxar o time, embora a quantidade de grandes jogadores faça com que as responsabilidades sejam divididas. Às vezes é um, às vezes é outro. Mas sei que o clube, o time e os torcedores sempre esperam algo de mim. Nunca vou dizer que não sei disso. Assumo totalmente. A pressão existe, mas todos gostamos dela. É uma necessidade quando se busca grandeza.

Então você fala muito no vestiário?

Não, não, não. (Insiste, sorrindo) Eu falo, mas sei qual é o meu lugar. Se precisar falar, eu falo, sem problema. Mas tem o Toni [Kroos], tem o Luka [Modrić]... Eles estão aqui há muito tempo e eu tenho mais é que escutar. Tenho mais a aprender com eles do que o contrário. Esses caras ganharam tanto na carreira... Tentamos, acima de tudo, seguir os passos deles.

Então não vamos ver você dando bronca no Toni Kroos?

Impossível! Nem nele, nem em ninguém. Não faz parte de mim. Sou um cara tranquilo. Nunca tive problema com ninguém. Sério, nunca me exalto. Também porque adoramos passar tempo juntos. Organizamos jantares, gostamos de viajar juntos... É bueníssimo.

Em Madrid você teve treinadores incríveis. Vamos começar pelo ‘Zizou’.

Ah, o “Zizou”... O Casemiro e o Marcelo falavam muito bem dele. É uma referência para todo mundo. Eu não o vi jogar muito porque era muito pequeno, mas existe o YouTube. Jogava como poucos e, como treinador, me ajudou muito, especialmente na capacidade de recuperar e defender. Ele insistia muito na importância de participar do esforço coletivo, ao mesmo tempo que me dava liberdade para expressar minhas qualidades. No Brasil quase nunca me pediam nada defensivamente. Isso mudou muito em mim. O “Zizou” me fez entender que as duas coisas não são incompatíveis. Ele me ensinou muito. E, além disso, eu era o mais novo! Quando alguns trabalhavam um pouco menos, cabia a mim trabalhar mais.

Depois veio Carlo Ancelotti, em um estilo diferente.

É como uma relação de pai e filho. Ele fala com a gente sobre tudo. Graças a ele consegui lidar melhor com momentos para os quais eu não estava preparado. Ele está sempre me incentivando e quer que eu mantenha a cabeça fria. Claro que, quando precisa me dar bronca, também não hesita... Na hora eu penso que é demais! Mas depois reflito e percebo que nunca é por acaso. Ele faz isso porque é necessário. Por algumas besteiras que faço em campo, por exemplo. (Risos) Um drible na nossa própria área, uma jogada individual desnecessária... Mas é preciso ouvi-lo. O que ele quer é ver o melhor que eu posso dar. Ele é assim com todo mundo. Mas com a gente, os mais jovens, é verdade que ele quer ensinar, ajudar. Pergunta como estão as coisas em casa, como estamos nos sentindo, como está a família... Ele sabe que passamos muito tempo longe de casa e se preocupa com isso. Tudo isso faz dele uma pessoa realmente fantástica.

“O clube da minha vida é o Flamengo. Prometi ao meu pai que um dia voltaria. Tenho que cumprir essa promessa.”

O que te dá prazer em estar aqui, em Madrid? A cidade? O clube? Um pouco de tudo?

Adoro a vida aqui no geral, e minha família também se sente bem. Quando meus familiares saem para passear, são reconhecidos e as pessoas só desejam coisas boas para nós. Aos poucos fui descobrindo essa nova vida, novas emoções, uma paixão… Madrid é única. No mundo todo, todo mundo fala desse clube. E fora do futebol também gosto da vida aqui. Sou bem caseiro, mas fazemos bastante coisa.

Numa entrevista realizada em 19 de setembro, na véspera do jogo da Liga dos Campeões contra o Union Berlin (vitória por 1 a 0, partida da qual Vinícius não participou por estar lesionado), o atacante brasileiro compartilhou detalhes da sua vida em Madrid e da forte ligação com os companheiros de equipe.

Por exemplo, amanhã à noite, depois do jogo, vou organizar um jantar com o ‘Cama’ (Camavinga), o Jude [Bellingham], o Rodrygo, o Aurélien [Tchouaméni] e outros. Não tem praia como no Rio, mas mesmo assim é bom. (Risos) E trouxe um pouco do Rio para cá, com a quadra de vôlei de praia que tenho no jardim.

O Real Madrid será seu último clube?

Acho que poderia ficar aqui a carreira inteira, mas o clube da minha vida é o Flamengo. Prometi ao meu pai que um dia voltaria. Tenho que cumprir essa promessa.

Existe uma conexão especial entre todos os jovens jogadores do time. Rodrygo nos contou, entre outras coisas, que os amigos dele se tornaram próximos dos seus amigos. Por que isso é tão importante?

Se estamos bem na vida, estamos bem em campo. Passamos quase todo o nosso tempo livre juntos. Acho que se o ‘Cama’ ou o ‘Rodry’ me dão assistências, ou vice-versa, é também porque nos damos muito bem fora de campo. Tem também o Jude, que acabou de chegar, e o Tchouaméni, que está aqui há um ano. Levei o ‘Cama’ ao Brasil neste verão. Agora ele já é um dos nossos. Joga como brasileiro, dança como brasileiro. Ele quer voltar! Conheço o Rodrygo há anos, jogávamos um contra o outro quando tínhamos 11 anos. O mesmo com o ‘Mili’ (Éder Militão), que conheço desde muito novo. Somos só um grupo de caras da mesma idade que querem alcançar grandes coisas. Passo mais tempo com eles do que com a minha família! E, além disso, não temos namoradas nem filhos. (Risos) Fica mais fácil organizar jantares.

Jantares brasileiros ou franceses?

Ah, um pouco dos dois! Aqui costuma ser um bom mineirinho (prato brasileiro com frango). E o ‘Cama’ tem que me convidar para ir à França. Como eu estava lesionado, não pude ir. Eles foram todos para Cannes. Da próxima vez podem contar comigo.

"Depois que o Karim saiu, eu e o ‘Cama’ ficamos responsáveis pela música no vestiário."

O que há de mais brasileiro em você?

Mantive a alegria de viver. É preciso saber ser feliz. No Brasil tínhamos muito pouco e, mesmo assim, éramos felizes. Agora tenho quase tudo o que quero. É preciso ter consciência disso. E agradecer a Deus. Tenho muita sorte de poder estar cercado de pessoas que realmente gostam de mim. Vivem aqui três amigos, minha mãe e meu irmão mais novo. Preciso ter ao meu lado quem me ama.

É verdade que existe uma regra de que, quando estão na sua casa, ninguém pode sair para festas?

Queremos estar sempre juntos, acima de tudo! É melhor organizar algo aqui, mesmo que seja tranquilo, do que passar a noite em Madrid. Prefiro que a gente faça um jantar em casa, juntos, e às vezes com outros jogadores do time. Conversamos mais. E assim ganhamos mais.

Quem é o mais louco?

Ahhh, o futebol mudou! Os jogadores já não são loucos como antigamente. Cada um tem suas manias. Mas nunca ficamos entediados.

Quem escolhe a melhor música?

O ‘Cama’. Ele faz boas escolhas. Depois que o Karim saiu, eu e o ‘Cama’ ficamos responsáveis pela música no vestiário.

Quem se veste melhor?

Hum. Vários. O ‘Cama’. O Jude. O Aurélien. O ‘Rodry’… O time tem muito estilo.

E o melhor jogador?

Antes era o Karim, com certeza. E mesmo ele tendo saído, continuo dizendo que é o Karim. (Risos) Assim evito criar ciúmes.

Quem sorri mais?

Eu, sempre. Me faz bem. E faz bem para os outros.

Tem um jogador que acabou de chegar, o Jude Bellingham, que você já mencionou várias vezes. É como se ele já fizesse parte da família.

Estamos muito felizes que ele tenha assinado. Passei meses mandando mensagens para ele! Dizia: ‘Esse é o melhor time do mundo’. Eu sabia que outros clubes o queriam. O Juni [Calafat] (chefe de recrutamento do Real Madrid) virou um amigo e sabe que, se eu puder ajudar um pouco, eu ajudo. Fiz o mesmo com o ‘Cama’. Mandei mensagens, ele veio e ganhou a Liga dos Campeões. Esperamos que aconteça o mesmo com o Jude. Eu não o conhecia pessoalmente, mas queria muito que ele viesse. Via ele jogar e, como quero evoluir com os melhores, era evidente. O Jude é um dos melhores do mundo e todo o time gosta dele. Ele faz gols, está feliz. Escolheu o melhor clube.

“Aqui todo mundo quer jogar com o Kylian [Mbappé]. Espero que isso aconteça um dia. Ele é um dos melhores jogadores, talvez o melhor de todos.”

E você está fazendo a mesma coisa com o Kylian Mbappé?

Não, é diferente! O Kylian tem a situação dele. No caso do Jude, eu sabia que ele podia se transferir naquele verão. E foi perfeito que tenha acontecido assim. Mas aqui todo mundo quer jogar com o Kylian. Espero que um dia aconteça. Ele é um dos melhores jogadores, talvez até o melhor da atualidade. Tem um nível… à parte!

Foi esse clima dentro do clube que te ajudou a superar os momentos mais difíceis?

Antes tinha o Marcelo e o Casemiro, jogadores muito experientes que me ajudaram. Era normal, com a minha idade, ter momentos menos fáceis. Eu sempre trabalhei muito. Aos 21 anos acabei explodindo. Sentia que estava preparado para isso: mentalmente, para manter a cabeça fria, e fisicamente, para aguentar a sequência de jogos. Estava pronto para os grandes momentos. Mesmo quando não marcava, mantinha a calma. Era só voltar ao treino e me esforçar um pouco mais.

O Benzema foi tipo um irmão mais velho pra mim. Ele me ensinou muito, dentro e fora de campo, e sempre me disse a verdade. Me pressionou para pensar mais no gol. Eu precisava marcar. Ele, quando não marcava, ficava irritado. É um dos maiores jogadores da história e dizia para mim: ‘Se você pode fazer 30 gols, tem que fazer 30, não se contente com 29’. Isso acabou entrando na minha cabeça.

Essa mentalidade não era algo natural no início?

Sempre gostei de marcar, mas isso não estava enraizado no meu pensamento. Nunca estabelecia um objetivo para uma temporada. Nunca pensava: ‘Tenho que fazer 30’. Agora sim. Quero fazer mais a cada temporada. Sei que fiz 23 gols na temporada passada (mais dois pela seleção). Então aí está o objetivo: mais de 23.

"Sei que não vou mudar a história, que não vou conseguir fazer da Espanha um país sem racistas..."

Entre os momentos mais difíceis estavam os cantos racistas que você sofreu, especialmente em Valência durante a La Liga da temporada passada (21 de maio)…

Aconteceu muitas vezes, e em Valência de uma forma muito clara e marcante. Senti uma tristeza enorme. Se estou em campo, é para fazer as pessoas felizes. E um grupo, que eu sei que é minoria, pode te afetar a ponto de você já não conseguir pensar em jogar. Tenho aprendido muito sobre racismo. É um tema realmente complexo. No passado houve pessoas que sofreram com a escravidão. Me interesso por isso. Espero sinceramente que esses episódios não voltem a acontecer. Não só comigo, mas com todos os jogadores, com todo mundo… e principalmente com as crianças. Elas não estão prontos para esses tipos de momentos (desde então, uma menina de 8 anos vestindo a camisa do Vinícius foi vítima de abuso e ameaças racistas durante o jogo Atlético-Real Madrid, 3 a 1, em 24 de setembro). Pessoalmente, desde os 19 anos me interesso pela questão do racismo. Entendo um pouco melhor como devo reagir. Fico feliz que as coisas estejam mudando. As leis vão mudar, e acredito que isso vai acontecer cada vez menos nos estádios por causa disso. A gente conversa sobre isso entre nós. Muitos jogadores discutem o assunto comigo: [Raphaël] Varane, Kylian [Mbappé], [Achraf] Hakimi, [Romelu] Lukaku… Todos nós precisamos agir juntos para que esses tipos de episódios aconteçam cada vez menos.

"Minha voz tem peso. Eu posso ajudar. Isso não é só sobre futebol ou só sobre pessoas negras. Se alguém te insulta de uma forma que te machuca, você precisa reagir. Até que as coisas mudem."

Por que era tão importante você aprender sobre isso?

Porque eu sou muito jovem e não vivi o que outros viveram no passado. Nunca me negaram acesso a um banheiro por eu ser negro. Nunca me pediram para usar a entrada de serviço de um restaurante por eu ser negro. Mas era importante pra mim saber que isso aconteceu com outras pessoas. Eu não vivi, meu pai também não, mas meu avô e meu bisavô viveram. Eles passaram por aqueles momentos tristes da história, e eu precisava saber disso. Hoje eu sei mais do que meus pais sabiam. Ainda assim, sei muito pouco. Me conectei com pessoas que realmente estudaram o racismo, gente cujas famílias passaram por momentos difíceis, pessoas que sabem muito sobre a escravidão. Também leio bastante. E quero continuar a ter influência. Minha voz tem peso. Eu posso ajudar. Isso não é só sobre futebol ou só sobre pessoas negras. Se alguém te insulta de uma forma que te machuca, você precisa reagir. Até que as coisas mudem.

Você falou que ‘a La Liga pertence aos racistas’. Por que você disse isso?

O que aconteceu em Valência foi na 35ª rodada, mas já tinha acontecido racismo em todos os jogos fora antes disso. Nunca fizeram nada. Eu já tinha falado com a La Liga, dito que isso precisava mudar, mas não me ouviam. Só começaram a me ouvir quando o mundo inteiro começou a falar da Espanha. Foi isso que fez eles reagirem. Sei que não vou mudar a história, nem transformar a Espanha em um país sem racistas, nem o mundo inteiro. Mas sei que posso mudar algumas coisas. Para que quem vier depois não passe por isso. Para que as crianças possam ficar tranquilas no futuro.

Você sentiu algum apoio de instituições como a UEFA ou a FIFA?

Todo mundo te manda mensagem quando algo acontece, mas assim que passa, param de falar com você. Mas eu tive apoio! Do clube, claro, e também dos jogadores, principalmente daqueles que já passaram por coisas parecidas. É assim que as coisas vão mudar: se os jogadores ficarem unidos. Quando eu passei por isso, recebi muito apoio, e isso é bom. A gente tem que continuar lutando, e por muito tempo… (Ele se corrige.) Pra sempre! Isso não vai parar tão cedo, e eu também não vou parar de lutar.

O desafio é a gente levantar ainda mais a voz?

Com certeza, e todos nós precisamos nos posicionar juntos. Se eu ficar sozinho contra o racismo, o sistema vai me esmagar facilmente. Mas quando estamos todos unidos, quando pessoas importantes assumem a causa, como o presidente do Brasil (Lula), como o presidente da UEFA, como o Kylian [Mbappé], como o Neymar, grandes jogadores, e até o Rio Ferdinand, que sempre me escreve e está comigo nessa luta, isso acaba tendo muito mais peso.

Se fala muito em abandonar o campo. Você acha que isso é uma boa solução?

Eu penso, principalmente, que nós, jogadores, já fazemos muita coisa, e cabe às Ligas fazer o trabalho delas. Em Valência, um estádio inteiro insulta um jogador, e no jogo seguinte eles podem jogar normalmente? Com o público deles, sem perder pontos, sem nenhuma punição? A mudança precisa vir por aí. Acredito que precisamos agir para que os racistas tenham medo de dizer coisas que podem me afetar, mas também prejudicar a própria vida deles. As pessoas precisam entender isso.

“Não acredito em um mundo sem racistas, mas eles precisam virar minoria. As próximas gerações não podem achar que isso é normal.”

O medo tem que mudar de lado, né?

No fundo, eu nem quero passar meu medo para os outros. Eu só quero poder jogar tranquilo e saber que não vou ser insultado em campo por ser negro. Se um torcedor me xinga porque marquei um gol, tudo bem. Podem me xingar sem faltar com respeito. Podem me vaiar o jogo inteiro, eu não ligo. Mas quando se trata de racismo, aí é outra história. As provocações, os vaias, isso faz parte do jogo. [Lionel] Messi, Cristiano Ronaldo, [Karim] Benzema, Neymar… todos eles já passaram por isso. Os torcedores das outras equipes provocam, e isso é normal. E, além disso, eu gosto; me motiva a marcar contra eles. Mas no racismo… eu não acredito em um mundo sem racistas, mas eles têm que se tornar minoria. As gerações futuras não poderão achar que é normal ser racista. Hoje, as crianças veem os pais agindo assim e pensam: ‘Se ele faz, então é normal.’ Eu quero um mundo em que um pai ensine ao filho que ser racista é errado. Com o tempo, ao longo das gerações, vamos nos libertar. Não vamos acabar com o racismo, mas vamos torná-lo uma minoria.

Há três anos, Raheem Sterling contou à revista L’Équipe que descobriu o racismo através do futebol, nunca tendo sido vítima antes. É a mesma coisa para você?

São duas coisas diferentes. No campo, as pessoas gritam e você escuta. Na rua, você enfrenta outro tipo de racismo. Se eu entro numa loja e alguém me encara por causa da cor da minha pele, isso é racismo. Se alguém se candidata a um emprego e, entre um branco e um negro, a decisão é tomada por causa da cor da pele, e não porque um ou outro é melhor, isso também é racismo. Pessoalmente, no Brasil, eu não vivi muito isso, porque o futebol me tornou famoso desde cedo. Quando eu tinha 9 ou 10 anos, já era conhecido. As pessoas não me encaravam numa loja, por exemplo. Eu senti mais isso mesmo nos campos de futebol, até no meu país. A gente conversa sobre isso há muito tempo; algumas pessoas podem até ir para a prisão, então acho que os casos são menos do que na Espanha, mas ainda há muitos. Eu mesmo sofri bastante com isso.

É a luta da sua carreira?

É algo pelo qual eu quero continuar lutando, isso é certo. Não quero que meu irmão mais novo passe pelo que eu passei. Não quero que minha prima passe por isso. Não quero que meus familiares passem por isso. Não quero que ninguém tenha que viver esses momentos. É tão triste. E eu quero poder, um dia, falar sobre isso por trinta minutos em uma entrevista. Aí vai querer dizer que as coisas mudaram, e que a gente só vai falar de coisas felizes!

E o que te faria feliz?

er uma história parecida com a que as lendas do Real Madrid escreveram. Já ganhei tudo o que podia, mas ainda quero mais. E depois a Copa do Mundo com o Brasil. Faz tempo que não ganhamos, e o país precisa disso, mesmo que seja sempre muito difícil. A nova geração é muito talentosa, mas a da Espanha, da Argentina, da França e da Inglaterra também é.

E um Ballon d'Or?

Tomara, mas a equipe vem primeiro. Como o Karim. Ele dava todas as assistências para o Cristiano, e era sempre o Cristiano que levava o troféu. No final, ele acabou ganhando. Eu sempre falo da importância dos meus companheiros. Se eu marcar 60 gols numa temporada, mas não ganharmos nada, não adianta. Como vou ganhar um Ballon d'Or se minha equipe não conquistou nada no final? Acho que a gente trabalha tudo junto. E aí, um dia, como aconteceu com o Modrić, como com o Karim, um de nós é coroado. É um sonho.

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