1996-97: A Temporada Mágica de Ronaldo e Rivaldo na Espanha
Na temporada 1996-97, na Espanha, Ronaldo e Rivaldo viveram pontos de virada paralelos - em clubes diferentes, mas no mesmo palco. Em poucos anos, esses caminhos entrelaçados os levariam ao topo do futebol mundial, com ambos conquistando o Ballon d'Or e compartilhando, em momentos distintos, o mesmo trono.
Dois Fenômenos Surgem no Brasil
Nos anos 90, dois excepcionais talentos brasileiros surgiram como símbolos de uma nova geração do futebol: Ronaldo e Rivaldo. Apesar de seguirem caminhos diferentes, suas trajetórias iniciais revelavam muitas semelhanças - ambos surgiram muito jovens, dominaram o cenário nacional e rapidamente passaram a fazer parte da seleção brasileira. Com apenas 17 anos, Ronaldo Luís Nazário de Lima já era uma força impressionante. Atacante rápido, forte e com técnica fora do comum, explodiu no Cruzeiro, levando o clube ao título da Copa do Brasil de 1993 e tornando-se o jogador mais jovem da seleção brasileira desde Pelé. As comparações entre os dois já surgiram desde o início - parecia que a história estava sendo escrita diante dos olhos do país. Era só uma questão de tempo até um clube europeu vir bater à porta, e seguindo o conselho da lenda Romário, Ronaldo acabou assinando com o PSV Eindhoven em 1994.
Rivaldo Vítor Borba Ferreira, por sua vez, já era considerado por muitos o maior jogador brasileiro atuando no Brasil nos meados dos anos 90. Brilhou tanto no Corinthians quanto no Palmeiras, ajudando o Timão a vencer o Campeonato Paulista em 1993 e o Verdão a ganhar o mesmo título em 1996. Também fez parte do Palmeiras que conquistou o Brasileirão em 1994 e 1995. Ao contrário de Ronaldo, cujo talento o levou rapidamente à Europa, Rivaldo amadureceu como protagonista no Brasil antes de atravessar o Atlântico. Ainda assim, o destino os aproximava: ambos se tornaram figuras constantes na seleção brasileira, representando estilos distintos - a explosão física e a objetividade de Ronaldo, contrastando com a elegância técnica e a visão refinada de Rivaldo: dois caminhos diferentes, mas convergindo para o mesmo palco internacional.
A Europa Chama: Dois Destinos, Dois Caminhos
Na Holanda, Ronaldo fez o que já tinha feito no Brasil: atropelou. Pelo PSV Eindhoven, marcou 54 gols em 58 jogos - praticamente um por partida - e ainda levou a Copa da Holanda em 1996. Era jovem, mas jogava como veterano. As atuações chamaram a atenção de Bobby Robson, técnico do Barcelona, que bancou para ver e pagou uma taxa recorde para levá-lo à Catalunha. “Estou no futebol há muito tempo e nunca vi um jogador de 20 anos com tanto talento”, disse Robson (The New York Times). Ronaldo não era mais promessa - era realidade.
Enquanto isso, nos Jogos Olímpicos de 1996, o clima em torno de Rivaldo era bem diferente. Um erro decisivo contra a Nigéria acabou com o sonho do ouro olímpico e colocou Rivaldo no alvo das críticas. O técnico Zagallo chegou a dizer que ele tinha sido o pior jogador brasileiro na competição. De protagonista no Brasil, virou alvo fácil. Voltou cabisbaixo - e, para piorar, as negociações que tinham avançado entre o Palmeiras e o Parma não deram em nada. Por um momento, parecia que tudo ia desmoronar.
Só que o futebol adora uma reviravolta.
Veio uma ligação, uma nova proposta, novas negociações. E, quase de repente, Rivaldo estava embarcando para a Europa - não para a Itália, mas para o Deportivo de La Coruña, na Espanha.
Enquanto Ronaldo saiu do Brasil como fenômeno em ascensão, Rivaldo precisou cair antes de dar o salto para o futebol europeu - mas os dois estavam, finalmente, no mesmo palco.
Barcelona e La Coruña: Choque de Mundos na Espanha
Na Espanha, Ronaldo e Rivaldo encontraram cenários bem diferentes.
No caso de Ronaldo, a pressão era imensa. O Barcelona tinha apostado alto, e a estreia foi logo num jogo decisivo contra o Atlético de Madrid, pela Supercopa da Espanha. Era o tipo de noite que podia pesar para qualquer jovem de 20 anos. Mas Ronaldo lembra como o técnico Bobby Robson soube acalmá-lo: “[Ele] me fez sentir tão calmo, tão relaxado. Ele disse: ‘Divirta-se, aproveite e traga a taça para casa.’” (Bobby Robson - More Than a Manager)
E foi isso que Ronaldo fez. Lembrou que podia, que nunca houve dúvida sobre sua capacidade. Num único jogo, mostrou aos companheiros, adversários, ao treinador e aos torcedores do que era capaz. Passava pelos defensores com facilidade, corria pelo campo como um raio e acabou marcando um gol decisivo. Em um único jogo, deixou claro para companheiros, adversários e torcida que não era só promessa ou aposta cara - era protagonista.
Já o desafio de Rivaldo era outro. O Deportivo de La Coruña vivia o fim de uma era. O chamado “Super Depor”, que tinha encantado a Espanha no início dos anos 90, já não tinha mais o mesmo brilho. O clube tinha caído do 3º para o 9º lugar na liga, e seu grande ídolo, Bebeto, tinha voltado ao Brasil para jogar no Flamengo. Faltava uma nova referência.
Foi nesse contexto que Rivaldo desembarcou, aos 24 anos, carregando críticas recentes, mas também uma enorme vontade de provar seu valor. O clube acreditou que o erro nas Olimpíadas não definia sua carreira - e ele abraçou a segunda chance com fome de mostrar que aquilo tinha sido apenas um acidente.
Na apresentação, cerca de 7 mil torcedores foram recebê-lo em La Coruña. Muitos esperavam um “novo Bebeto”, mas Rivaldo nunca quis ser substituto de ninguém. Queria ser ele mesmo - inventivo, imprevisível, diferente:
“Eu sabia que a maneira que eu jogo eles iam gostar, porque eu ia fazer algo diferente. Eu ia inventar coisas que eles não viram. [...] Porque o futebol é alegria, futebol é um espetáculo. Os torcedores têm que voltar para casa felizes com algo diferente.” (Aqui com Benja! - ESPN Brasil)
E, de certa forma, os dois cumpriram exatamente o que se esperava - cada um à sua maneira. Ronaldo confirmou o status de fenômeno quase imediatamente, virando o centro do palco no Barça. Rivaldo, por outro lado, reconstruiu sua imagem jogo a jogo, devolvendo entusiasmo a um clube que buscava uma nova identidade.
Arte, Força e Eficiência: A Afirmação no Mesmo Palco
No Barcelona, Ronaldo fez uma temporada que parece exagero até hoje: 47 gols em 49 jogos. Foi artilheiro da liga e ajudou o clube a conquistar a Supercopa da Espanha, a Copa do Rei e a Recopa Europeia - inclusive marcando o gol do título na final.
Mas mais do que os números, ficaram as imagens. Em 11 de outubro de 1996, contra o SD Compostela, ele marcou aquele que muitos consideram um dos gols mais incríveis da história: disparou pelo campo, deixando defensores para trás como se fossem cones e finalizando com frieza. O técnico Bobby Robson apareceu com as mãos na cabeça, incrédulo. Até a torcida adversária ficou em choque. O gol foi reprisado dezenas e dezenas de vezes na TV espanhola nos dias seguintes.
Duas semanas depois, veio um hat-trick contra o Valencia, e a torcida do Barça respondeu com lenços brancos nas arquibancadas - gesto reservado para admiração total. Ronaldo não era apenas eficiente; era espetáculo puro.
Ronaldo no Barcelona
49 partidas, 47 gols e 13 assistências (1996-1997)Enquanto isso, Rivaldo construía algo igualmente impressionante. Pelo Deportivo de La Coruña, marcou 21 gols em 41 jogos e ajudou o clube a terminar em 3º lugar na liga, garantindo vaga na Copa da UEFA. Em apenas uma temporada, devolveu o time ao nível competitivo dos tempos de “Super Depor”.
A versatilidade era sua marca: jogava como meia, segundo atacante, aberto pelas pontas. Criava, finalizava, decidia. Fazia gols de cabeça, de longe, de falta, de pênalti - parecia ter sempre uma solução diferente. E, de certa forma, aquela promessa de levar alegria ao torcedor estava sendo cumprida.
Rivaldo no Deportivo La Coruña
46 partidas, 22 gols e 1 assistência (1996-1997)Saída Dolorosa, Chegada Inesperada: A Transferência que os Conectou
O verão de 1997 mudou completamente o rumo de Ronaldo e Rivaldo - e, curiosamente, conectou ainda mais suas histórias.
Depois de sua temporada fantástica no Barcelona, o clube tentou de tudo para manter Ronaldo. Houve acordo verbal, promessa de aumento, conversas para renovação. Mas disputas contratuais, pressões financeiras e conflitos internos fizeram tudo desandar. Ronaldo ficou arrasado - estava feliz na cidade, adaptado, voando em campo:
“Aquilo para mim foi um soco no peito, forte.” (Romário TV)
Quando a renovação não saiu, a Inter de Milão pagou a cláusula de rescisão: 27 milhões de dólares. Ronaldo quebrou pela segunda vez o recorde mundial de transferências - algo que só Diego Maradona tinha conseguido antes. Na Itália, continuou dominante e, em 1997, ganhou a Ballon d'Or pelas atuações no Barça e na Inter.
Mas mesmo com todo o sucesso que veio depois, inclusive no Real Madrid, muita gente ainda aponta aquela única temporada na Catalunha como o auge mais mágico da sua carreira. O próprio Ronaldo admitiu sentir uma gratidão e saudade daquele ano decisivo: “Acho que o Barcelona foi a minha melhor temporada.” (Bobby Robson - More Than a Manager)
Só que a saída deixou um vazio enorme. O Barcelona precisava de um novo protagonista. E, enquanto isso, em La Coruña, o telefone de Rivaldo tocava.
Na manhã de 14 de agosto de 1997, hospedado num hotel antes da final do Torneio Teresa Herrera contra o PSV Eindhoven, Rivaldo recebia a ligação do agente Josep Maria Minguella: o Barcelona queria ele.
Ninguém esperava por aquilo. O Deportivo de La Coruña planejava montar uma base brasileira forte, e Rivaldo estava feliz, adaptado, tinha acabado de comprar uma casa na cidade. Tentou até dificultar a negociação, pedindo um salário altíssimo. O Barça aceitou. Pagou 4 bilhões de pesetas pela cláusula.
Se Ronaldo saiu triste por não conseguir ficar, Rivaldo ficou assustado por ter que sair. Pediu conselho ao amigo Mauro Silva, que resumiu tudo: “Eu queria que você ficasse, mas o Barcelona é o Barcelona.” (Palmeiras Cast - TV Palmeiras Sportingbet)
Era o último dia da janela. Não dava para pensar demais. Rivaldo entrou em campo pelo La Coruña naquela mesma noite, já sabendo que seria sua despedida. A notícia vazou, e a recepção foi de vaias. De herói a “traidor” em questão de horas. Marcou pênalti, o time venceu, mas os torcedores não perdoaram. No dia seguinte, saiu cedo para evitar confusão no aeroporto, deixando a família para trás e carregando medo, culpa e ansiedade.
Se a ida de Ronaldo ao Barça foi explosiva e natural, a chegada de Rivaldo foi tensa e emocional - mas o resultado acabou sendo igualmente grandioso. No Barcelona, Rivaldo conquistou duas La Ligas (1998 e 1999), uma Copa do Rei e uma Supercopa da UEFA. Substituiu Bebeto no La Coruña. Substituiu Ronaldo no Barça. E fez parecer que era destino.
Dois anos depois de Ronaldo, Rivaldo também levantaria o Ballon d'Or, em 1999.
No fim, o bastão passou de um para o outro no mesmo clube, na mesma liga, no mesmo palco. Ronaldo saiu como fenômeno consagrado. Rivaldo entrou sob desconfiança - e saiu como o melhor do mundo.
E foi assim que Ronaldo e Rivaldo tiveram, em paralelo, dois dos anos mais importantes de suas carreiras, no mesmo país, na mesma liga. Nunca vestiram a mesma camisa de clube ao mesmo tempo, mas suas trajetórias pareciam espelhadas: quando Rivaldo chegou ao Barcelona, foi justamente para ocupar o espaço deixado por Ronaldo. Um saía, o outro entrava.
Em nível de clubes eles se desencontraram por muito pouco, mas para a sorte dos fãs de futebol, na seleção brasileira o encaixe finalmente aconteceu. Na Copa do Mundo de 2002, ao lado de Ronaldinho - futuro vencedor do Ballon d'Or de 2005 - formaram os lendários “Três R’s”, um dos ataques mais temidos da história.
Ali, as trajetórias paralelas se fundiram de vez. A química era natural: Rivaldo organizava, pensava, criava; Ronaldo atacava o espaço, finalizava, decidia. Um parecia entender o movimento do outro antes mesmo da bola chegar. Rivaldo marcou 5 gols no torneio. Ronaldo marcou 8 e levou a Chuteira de Ouro - desempenho que o levou ao seu segundo Ballon d’Or, também em 2002, entrando para o grupo seleto de múltiplos vencedores.
Ronaldo e Rivaldo na Seleção Brasileira
Jogador | Partidas | Estreia | Última partida | Gols | Assistências |
Ronaldo | 99 | 1994 | 2011 | 62 | 32 |
Rivaldo | 76 | 1993 | 2003 | 35 | 17 |
Apesar das narrativas da imprensa, nunca houve rivalidade entre eles. Pelo contrário. Rivaldo sempre disse que um camisa 10 sonha em ter um 9 como Ronaldo. E Ronaldo, por sua vez, reconheceu que o time fluía quando Rivaldo comandava - que talvez ele próprio não tivesse brilhado tanto sem a força e a criatividade do companheiro.
Do Palco Espanhol ao Trono Mundial
O mais fascinante é perceber como aquela mesma temporada na Espanha - 1996/97 - funcionou como ponto de virada para os dois. Ronaldo se firmou como superestrela global no Barcelona, frequentemente visto como o talento mais próximo de Pelé desde o próprio Rei. E no Deportivo de La Coruña, Rivaldo mostrou ao mundo que era muito mais do que um coadjuvante - era criador e finalizador, artista e líder.
Mesmo que o tempo em cada clube tenha sido curto, Barcelona e La Coruña sempre poderão dizer que, naquela mesma temporada, tiveram nos seus times dois futuros campeões do mundo e dois futuros vencedores do Ballon d’Or - duas carreiras que não apenas correram em paralelo, mas que se cruzaram, se completaram e, de certa forma, se impulsionaram mutuamente.
)