Marta: a Rainha Brasileira que Transformou o Futebol Feminino
De Dois Riachos para o mundo, Marta transformou obstáculos em conquistas e se tornou a Rainha do futebol brasileiro. Mais do que títulos e recordes, sua trajetória é um exemplo de perseverança, coragem e pioneirismo. Descubra como ela mudou o jogo para sempre.
Estatística | Total / Data |
Gols pela Seleção Brasileira | 122 |
Primeiro gol pela Seleção Brasileira | 25/04/2003 |
Gol mais recente pela Seleção Brasileira (até 04/2026) | 02/08/2025 |
Gols em Copas do Mundo Femininas | 17 |
Marta – sua carreira em números
122 gols pela seleção principal brasileira. Primeiro gol em abril de 2003. Gol mais recente em agosto de 2025 (baseado em abril de 2026). 17 gols em Copas do Mundo Femininas.O futebol não é só um esporte que a gente ama, nem apenas uma forma de entretenimento - ele também é uma fonte de esperança, capaz de fazer o impossível acontecer. Desde o começo, ele deu a muita gente talentosa e batalhadora, no Brasil e no resto do mundo, a chance de construir uma carreira incrível fazendo o que ama, e ainda tirar a família da dificuldade. Entre tantas histórias de sucesso e glória, poucas são tão impressionantes quanto a da Marta, a maior jogadora de futebol feminino de todos os tempos. A história dela é uma história de paixão, coragem, força e resiliência. Hoje, a gente olha pra trás e celebra sua trajetória extraordinária.
Entre desafios e sonhos: O início da carreira de Marta
Marta Vieira da Silva nasceu em 19 de fevereiro de 1986, em Dois Riachos, um município no interior de Alagoas, um dos estados historicamente mais pobres do Brasil. Foi criada pela mãe junto com três irmãos, depois do pai ter abandonado a família quando Marta ainda era bebê. Enfrentando a fome e a pobreza, ela trabalhou em vários empregos diferentes para ajudar a sustentar a família, desde vender roupas até lavar pratos.
Mas sempre que achava uma brecha, quando as dificuldades e pressões da vida davam uma trégua, Marta fazia o que mais amava: jogava futebol. Com a bola no pé, parecia que todos os problemas do mundo iam aos poucos desaparecendo. Naquele breve momento, tudo o que importava era o jogo. E parecia que ninguém entendia o jogo tão bem quanto ela.
A menina tinha um dom. Descalça, jogava mais do que todos os meninos da vizinhança, que passaram a excluí-la, dizendo que mulheres não tinham lugar no futebol. Sem dúvida, tinham medo de serem humilhados por uma menina num mundo que frequentemente nos diz que meninos e homens são superiores. Até os próprios irmãos da Marta questionavam o seu amor pelo futebol, acreditando que era anormal.
Mas Marta perseverou: ignorou os olhares desconfiados, os comentários maldosos, as rejeições. Continuou jogando, dia após dia. Foi por volta dessa época que aconteceu uma Copa Infantil de Futsal no município de Santana do Ipanema. O treinador local, Luiz Euclides, carinhosamente apelidado de “Tota”, deixou a jovem Marta participar. Mais uma vez superando muitos dos meninos, Marta passou a ser alvo de ameaças, com alguns dizendo que iriam machucá-la. A presença dela deixava muitos outros desconfortáveis, ressentidos. Emocionada, a craque lembra:
“Chegou um treinador de outra equipe e falou: ‘Se vocês deixarem a menina jogar, eu vou tirar o meu time.’ Aquilo me doeu tanto. Eu falei: ‘Puxa. Eu tô fazendo algo errado? Então porque que Deus me deu esse talento?’” (Casão FC)
Assustado com as ameaças de alguns dos outros meninos, Tota decidiu tirar Marta da competição. Como tantas outras jovens talentosas e cheias de ambição, Marta viu desde cedo como as portas podem se fechar de repente e injustamente.
Mas Tota acreditava no seu talento da Marta, e conseguiu que ela fosse avaliada para entrar no time feminino do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro.
Três dias de estrada, uma eternidade de glória
A menina de 14 anos nunca tinha saído de Alagoas, nunca tinha ficado tão longe da mãe e dos irmãos. Mas o que Tota enxergava nela era o que muitos já sabiam, mas preferiam ignorar: ela tinha um dom raro. O talento de Marta era especial, algo que muitos na época consideravam incompatível com uma mulher. Ela se viu diante de uma encruzilhada: aceitar as dificuldades e desistir ou assumir o risco, abraçando as incertezas que isso iria trazer, e fazer todo o possível para realizar os seus sonhos. Para quem conhecia Marta, era óbvio que só havia uma escolha.
Depois de trabalhar duro para juntar dinheiro, ela pegou um ônibus e foi embora de casa. A viagem de Dois Riachos até o Rio levou três dias.
E o risco valeu a pena? Bem, nas suas próprias palavras:
“Eu faria tudo de novo. Pegar o ônibus. Três dias. Até uma semana se tivesse que ficar.” (Esporte Espetacular)
Marta foi aprovada logo na primeira sessão no Vasco, impressionando a todos com sua técnica refinada e uma determinação incomparável. E não deu outra: em poucos anos, já estava a caminho das ligas europeias.
A rainha dos recordes (superando os reis)
Agora, numa carreira de mais de duas décadas, Marta conquistou feitos inimagináveis por clubes e pela seleção, no Brasil e no mundo. É campeã da Liga dos Campeões Feminina, da Damallsvenskan sueca (em múltiplas ocasiões), do Campeonato da NWSL, da Copa América Feminina e dos Jogos Pan-Americanos. Conquistou o prêmio de Melhor Jogadora do Mundo da FIFA um recorde de seis vezes. O mesmo vale para sua trajetória pela seleção brasileira: ela é a maior goleadora da história da seleção, com 122 gols. O maior artilheiro da seleção masculina, Neymar, tem atualmente 79 gols. É a maior artilheira da história das Copas do Mundo, entre homens e mulheres. Quando Marta quebrou esse recorde, Ronaldo Fenômeno, vencedor de dois Ballons d’Or, comemorou: 'Obrigado por toda a sua luta e determinação. Você merece, Rainha!' (Instagram)
Pelé, o maior jogador brasileiro de todos os tempos, vivia elogiando Marta antes de morrer, e deu a ela o famoso apelido de “Pelé de saias”. Por muito tempo não havia dúvida de que havia um rei do futebol brasileiro - e agora também não havia dúvida de que o futebol brasileiro tinha a sua rainha.
Para entender porque a história de Marta é tão extraordinária, é importante conhecer não só a sua trajetória pessoal, mas também o contexto do futebol feminino como um todo. Assim como muitas jogadoras enfrentaram adversidades ao longo da vida, o próprio esporte também enfrentou.
No Brasil, o futebol feminino foi proibido por 40 anos, considerado incompatível com a natureza das mulheres. O esporte só foi reconhecido e regulamentado em 1983, com a seleção brasileira feminina sendo finalmente criada em 1986 - o mesmo ano em que Marta nasceu. No primeiro Campeonato Mundial Feminino de Futebol da FIFA, em 1988, não havia uniformes específicos para as jogadoras brasileiras, que precisavam usar as roupas da seleção masculina. A primeira Copa do Mundo Feminina só aconteceu em 1991, seis décadas depois do primeiro torneio masculino. E até pouco mais de uma década atrás, não existiam competições nacionais organizadas de futebol feminino no Brasil.
Por isso, Marta não estava apenas assumindo um risco ao deixar Alagoas em direção ao Rio, porque não havia garantia alguma de que sua carreira daria certo, mas também porque o próprio esporte ainda não era totalmente aceito e valorizado no Brasil - nem no resto do mundo.
Como Marta derrubou as barreiras do sexismo
Em muitos casos, a indiferença ao futebol feminino acabou levando a desorganização interna e dificuldades financeiras. Ao longo da sua carreira, apesar de ser um talento único, Marta enfrentou frustrações que ficavam fora do seu controle. O time feminino do Vasco foi abolido em 2002 por problemas financeiros. O Los Angeles Sol, clube para o qual ela conseguiu o título da liga WPS nos Estados Unidos, foi desfeito após dificuldades financeiras internas. A própria liga acabou em 2012, em grande parte por falta de investimento. Situações parecidas aconteceram com o Gold Pride e o Western New York Flash, outros clubes americanos que Marta levou ao sucesso. O Tyresö FK, da Suécia, que ela defendeu no início da década de 2010, faliu em 2014.
Mas, aguerrida, Marta seguiu em frente, passando de um clube a outro e trazendo enorme glória a cada um deles. Contra todas as expectativas, acabou triunfando e construindo uma trajetória admirável de pioneirismo, esperança e conquistas. E, à medida que Marta alcançava grandes feitos, o futebol feminino também avançava, passando a receber mais engajamento, interesse e investimento nos últimos anos. A criação do Brasileirão Feminino pela CBF, em 2013, foi um passo importante e necessário, ampliado com a inclusão de uma segunda divisão em 2016. Finalmente, a partir de 2019, FIFA e CONMEBOL decretaram que clubes sem equipes femininas não poderiam disputar competições continentais.
É inegável que o talento extraordinário de Marta e seus feitos históricos foram fundamentais para que o futebol feminino se desenvolvesse, trazendo mais visibilidade e popularidade para o esporte. Isso ficou especialmente evidente com a criação do Prêmio Marta da FIFA em 2024, concedido à jogadora que marcou o gol mais bonito do ano. A própria Marta conquistou o prêmio na sua primeira edição.
Campeã, dentro e fora de campo
E a influência duradoura de Marta dentro do campo só se compara ao seu legado fora dele. Em 2018, ela foi nomeada Embaixadora da Boa Vontade da ONU Mulheres para a América Latina, promovendo a igualdade de gênero e o empoderamento feminino no futebol. Em 2023, lançou a marca esportiva Go Equal, doando todos os direitos das vendas a organizações que promovem a liderança feminina no futebol. Afinal de contas, a sua missão vai além do futebol:
“Que tenhamos total liberdade pra escolher o que a gente quer fazer. Seja no esporte, ou em qualquer outra atividade.” (Prêmio ESPN Bola de Prata Sportingbet 2018)
Hoje em dia, quem caminha pela lendária Calçada da Fama do famoso estádio do Maracanã, pode ver homenagens a alguns dos maiores jogadores da história do Brasil. Entre elas estão a marca dos pés de Marta Vieira da Silva - a primeira mulher a receber essa honra. Uma mulher que sabia qual era o seu sonho, mas também sabia como ele era difícil de alcançar. Superando um obstáculo atrás do outro, Marta se mostrou incansável na busca por um legado eterno: escapando da pobreza no interior, viajando sozinha na adolescência para provar seu valor numa cidade nova, conquistando inúmeros títulos no Brasil e no resto do mundo, enfrentando os estereótipos e o descaso que afetam tantas mulheres no esporte, e inspirando as próximas gerações de meninas a nunca desistirem de seus sonhos. É essa perseverança inabalável que levou Marta até onde está hoje - e que a impulsiona a levar tantas outras consigo. Como ela mesma diz: “Nunca desista dos seus sonhos. O caminho pode ser um pouco difícil, mas nunca desista.” (GOAL)
Conteúdo relacionado
)