Duas lendas cara a cara

No começo desta semana, duas das lendas mais queridas do futebol se encontraram para uma conversa.

Xavi, 7 vezes indicado ao Ballon d’Or e campeão da Copa do Mundo de 2010 com a Espanha, sentou para uma entrevista com Romário, campeão da Copa do Mundo de 1994 com o Brasil.

O ex-jogador do Barcelona, hoje com 46 anos e que jogou na Catalunha por 17 anos, falou sobre a possibilidade de treinar equipes no futebol brasileiro, ou até mesmo a seleção brasileira: “Estou aberto a qualquer projeto na minha carreira como treinador - seleção, clubes… tudo. É sempre legal pegar um bom projeto, ainda mais um em que a gente possa ganhar. Eu gosto disso. Me considero um vencedor. Amo futebol por isso: para curtir e vencer. Esse é o objetivo. E por que não o Brasil?” (Romário TV)

De maestro em campo a voz do vestiário

Considerado um dos maiores meio-campistas da história do esporte, Xavi não só venceu a Copa do Mundo em 2010 com a Espanha, como também a Eurocopa em 2008 e 2012, além de 4 Ligas dos Campeões e 8 La Ligas com o Barça.

Depois de se aposentar dos gramados, decidiu seguir o caminho de treinador, comandando o Al-Sadd, do Catar, entre 2019 e 2021. Pelo clube, conquistou 7 títulos e ainda foi eleito o melhor técnico da liga na sua última temporada.

Xavi como treinador do Al-Sadd (2019–2021)

96 jogos (66 vitórias, 13 empates e 17 derrotas). 7 títulos.

Depois de se destacar no Oriente Médio, voltou ao seu querido Barcelona em 2021 - dessa vez não mais como jogador, mas como treinador. Sua passagem como técnico do Blaugrana teve altos e baixos, mas ainda assim rendeu conquistas importantes antes da saída em 2024, incluindo a La Liga e a Supercopa da Espanha em 2023.

Xavi como treinador do Barcelona (2021–2024)

143 jogos (91 vitórias, 23 empates e 29 derrotas). 2 títulos.

Mas será mesmo possível uma seleção brasileira comandada por Xavi?

Bom, o espanhol sem dúvida tem uma ligação forte com o Brasil.

Conexão brasileira no Barça

Como jogador, a carreira de Xavi acabou ficando entrelaçada com alguns dos maiores nomes do futebol brasileiro.

“O Brasil é o futebol.” - Xavi

Entre o fim dos anos 90 e o começo dos anos 2000, ele jogou ao lado do vencedor do Ballon d’Or de 1999, Rivaldo. Apesar de ter sido um período complicado na história do clube, Xavi ainda lembra com carinho de como Rivaldo puxava o time nos momentos difíceis, com muita qualidade e versatilidade: “Ele era um jogador completamente diferente, que eu acho que o time naquela época não conseguia acompanhar.” (Romário TV) Até hoje, Rivaldo segue entre os 10 maiores artilheiros da história do clube, com 130 gols.

Depois, no início dos anos 2000, Xavi passou a dividir o time com o vencedor do Ballon d’Or de 2005, Ronaldinho, cuja criatividade e energia deram uma nova vida ao elenco: “Ronaldinho, acho que levou todo mundo junto - com a energia dele, a magia, o sorriso - e nos conduziu ao sucesso no clube.” (Romário TV) Juntos, eles conquistaram 2 La Ligas e a Liga dos Campeões em 2006, marcando a virada de um Barça que vinha em queda.

E depois, nos anos finais no clube, Xavi dividiu o campo com ninguém menos que Neymar, 9 vezes indicado ao Ballon d’Or. O craque brasileiro virou ídolo na Catalunha durante suas 4 temporadas no clube, e não à toa. Como o próprio Xavi disse: “Eu não vi um jogador mais perto do Messi do que o Neymar de 21 anos que chegou ao Barcelona.” (Romário TV) Na última temporada de Xavi no Barça, ao lado de Ney, ele conquistou tanto a La Liga quanto a Liga dos Campeões.

Mikel Trigueros (Presse Sports)

Como treinador do Barcelona, Xavi ainda tentou trazer Neymar de volta ao clube, mas acabou barrado pelas regras do Fair Play Financeiro.

No entanto, conseguiu trabalhar com outros talentos brasileiros durante sua passagem como técnico do Barça - embora algumas pessoas tenham questionado a forma como lidou com esses jogadores.

Talento brasileiro sob seu comando: elogios e polêmicas

Um dos casos mais comentados foi o de Raphinha, que chegou ao clube em 2022. O atacante brasileiro, que depois brilhou no Barça sob o comando de Hansi Flick e terminou em 5º no Ballon d’Or do ano passado, teve dificuldade para se firmar como titular com Xavi. Muitas vezes sendo substituído no segundo tempo, ele acabou demonstrando frustração com a falta de minutos em campo: “Eu não sentia que ele [Xavi] e a comissão confiavam em mim. Quando não tinha outro [jogador para entrar], eu estava lá, jogava os 90 minutos, dava tudo o que podia e resolvia os jogos. Mas quando tinha alguém para entrar no meu lugar, [eles me tiravam] sem nem pensar.” (Isabella Pagliari)

Daisuke Nakashima (Presse Sports)

Em resposta, Xavi deixou claro que a decisão não tinha relação com falta de confiança no Raphinha. Ele chegou a afirmar que foi sua insistência e admiração pelo jogador que convenceu o clube a contratá-lo: “Eu contratei o Raphinha. Fui eu quem fechou com ele e pediu ao clube para assinar. [...] Sempre dei confiança a ele e também tenho uma relação muito boa com ele. Mas o treinador precisa entender que, durante os jogos, o que conta é o desempenho. Se você não está rendendo, eu tenho que colocar outro. [...] Sempre vimos muito talento no Raphinha, e fico feliz por ele, porque é um menino bom, vencedor, responsável - e um líder.” (Romário TV)

Xavi também enfrentou críticas semelhantes pela forma como lidou com Vitor Roque após a chegada do jovem atacante ao Barça, depois de um ano muito forte pelo Athletico Paranaense em 2023. Na sua primeira temporada no clube catalão, Roque teve pouco espaço e acabou sendo emprestado ao Real Betis, antes de voltar ao Brasil e se juntar ao Palmeiras no ano seguinte.

O agente do jogador, André Cury, não poupou palavras ao criticar a gestão de Xavi na época: “[O Vitor Roque] precisa jogar mais minutos e ninguém entende por que não dão isso pra ele. Xavi nunca falou com ele, então é uma situação que não é boa para nenhuma das partes.” (Rádio RAC1) Muita gente no Brasil também demonstrou frustração com a falta de oportunidades dadas a uma das maiores promessas do país.

Mas Xavi respondeu às críticas dizendo que a situação foi influenciada pelas lesões inesperadas de Gavi e Alejandro Balde, que acabaram acelerando a chegada de Roque à Espanha. Segundo ele, isso fez com que o atacante tivesse menos minutos em campo justamente para poder se adaptar ao ritmo do futebol europeu e recuperar a forma física, além de precisar competir com jogadores mais experientes já estabelecidos no elenco: “[O Vitor Roque] é um jogador em formação. Tem jogadores à frente dele, por isso joga menos - é assim que eu vejo. Passei a vida toda trabalhando com jogadores jovens.” (GE)

Assim, embora os casos de Raphinha e Roque sejam usados por alguns para sugerir uma suposta falta de cuidado com o talento brasileiro, Xavi sempre manteve o mesmo argumento: eram decisões táticas, pensadas pelo desenvolvimento dos jogadores e pelo desempenho do time. Ele nunca questionou o talento desses dois craques brasileiros nem tentou apagar o brilho deles - em grande parte por acreditar na importância de preservar essa relação única e quase mágica do Brasil com o ‘jogo bonito’: “O Brasil é o futebol.” (Romário TV)

Filosofia: talento acima de tudo

A visão de Xavi para desenvolver o talento brasileiro envolve mesmo lapidar essa paixão, mas sem perder o lado tático e a leitura mais profunda do jogo. E, ao mesmo tempo em que vê o Brasil como um dos grandes centros de talentos do futebol mundial, ele também enxerga a chance de montar equipes muito eficientes - desde que esse talento venha junto com uma ideia de jogo mais organizada e analítica: “O talento sempre vence o físico. No dia em que isso deixar de acontecer, a gente vai ter estragado tudo, porque o futebol vai ficar muito chato. E como eu realmente acredito que o talento sempre acaba se impondo, o importante é explorar isso: fazer o jogador pensar no porquê. Por que você se coloca aqui? Por que você chega no momento certo? Por que seu companheiro está segurando os zagueiros pra você receber o passe sozinho?” (UOL)

É essa abordagem, somada às suas conquistas como jogador e técnico, que fez Xavi surgir como um nome interessante para assumir a seleção brasileira em determinado momento. Antes da Copa do Mundo de 2022, ele chegou a ser convidado para ser auxiliar de Tite, mas recusou. Depois da Copa, também recebeu uma proposta mais forte para assumir como técnico do Brasil, mas preferiu ficar no Barcelona e seguir o projeto por lá.

"Não tenho dúvidas de que o Brasil vai voltar a ser uma referência no futebol mundial.” - Xavi

Mas Xavi nunca descartou totalmente a ideia de assumir esse cargo no futuro: “Seria uma oportunidade espetacular. [...] Nunca se sabe o que o futuro reserva. Estou trabalhando duro e não dá para descartar nada.” (ESPN)

Depois da famosa derrocada do Brasil na Copa do Mundo de 2014 jogando em casa, quando muita gente ficou bem desiludida com o rumo da seleção, Xavi ainda insistia que via potencial e esperança no futebol brasileiro, acreditando que o país ainda voltaria a ser uma das grandes potências do esporte: “Não tenho dúvidas de que o Brasil vai voltar a ser uma referência no futebol mundial.” (O Globo)

O obstáculo chamado Ancelotti

Mesmo assim, ele provavelmente ainda teria que esperar um bom tempo caso realmente quisesse comandar a ‘Amarelinha’. No ano passado, o técnico italiano Carlo Ancelotti assumiu a seleção brasileira e parece perto de renovar até 2030.

O experiente treinador, vencedor de 5 Ligas dos Campeões e eleito treinador do ano no Ballon d’Or de 2025, fala com frequência da sua admiração pelo Brasil. Com o objetivo de levar a seleção ao primeiro título mundial em mais de duas décadas, Ancelotti costuma destacar o orgulho de comandar o “País do Futebol”: “É uma honra e um orgulho comandar a melhor seleção do mundo. [...] Sempre tive uma conexão especial com esse país.” (Terra)

Fica claro, então, que Xavi sabe que a ideia de treinar o Brasil teria que ficar suspenso enquanto “Don Carlo” estiver no comando - e isso pode durar um bom tempo. Ele também reconhece como a seleção brasileira, com um elenco talentoso e liderado por um treinador tão experiente e vencedor, pode muito bem estar no caminho de superar expectativas e brigar pelo título: “Já joguei contra o Madrid do Ancelotti, e eles sempre competem muito bem por onde ele passa. Os jogadores também falam muito bem dele como treinador. O Brasil já é favorito por ser o Brasil, mas ainda mais com o Ancelotti.” (Romário TV)

Oscar J. Barroso (Presse Sports)

Ancelotti, por sua vez, também já elogiou o estilo e os métodos de trabalho de Xavi na Espanha. Em 2024, afirmou: “Penso que o Xavi fez um grande trabalho no Barcelona e conhece muito bem o clube.” (ESPN)

Ou seja, o respeito é mútuo.

Um sonho que ainda pode acontecer

Por enquanto, a fala de Xavi sobre treinar o Brasil não passa disso - uma ideia, uma possibilidade, algo hipotético.

Ainda assim, ela reflete o desejo, o interesse e o fascínio que muitos treinadores ao redor do mundo tem, independentemente de seus estilos ou experiências, pela chance de comandar a seleção brasileira - pentacampeã mundial, responsável por nomes como Pelé, Ronaldo e Ronaldinho, e que segue buscando voltar ao topo com talento, entrega e uma relação única com o futebol.