Um gol decisivo sofrido em uma partida que aconteceu há mais da metade de sua vida deixou a jovem Wendie Renard assistindo à repetição, incrédula. Abalada pela decepção, fez uma promessa silenciosa a si mesma: "Disse a mim mesma: nunca mais quero passar pela mesma coisa, nem fazer meu time passar por isso." Aquele momento de autorreflexão marcou um ponto de virada em uma carreira lendária de 19 anos no mais alto nível do futebol feminino. Enquanto a France Football se prepara para revelar, em 8 de setembro, a lista de indicadas ao Ballon d'Or de 2026, a zagueira de 35 anos aparece mais uma vez entre a elite do futebol mundial.
Da Martinica ao continente: os primeiros desafios
Nascida em Schœlcher, na Martinica, como a mais nova de quatro irmãs, Renard enfrentou grandes adversidades desde cedo. Ela perdeu o pai, vítima de câncer de pulmão, quando tinha apenas oito anos. Criada na ilha caribenha, aperfeiçoou suas habilidades jogando ao lado de meninos no Essor-Préchotain e no Rapid Club du Lorrain. Aos 15 anos, determinada a seguir uma carreira profissional, viajou para a França continental para fazer um teste na famosa academia nacional de Clairefontaine. Quando foi rejeitada, seu sonho ficou por um fio. No entanto, o consultor técnico regional Jocelyn Germé se recusou a deixá-la voltar para casa de mãos vazias e a ajudou a conseguir um teste no Lyon.
O então técnico do Lyon, Farid Benstiti, precisou de apenas 20 minutos observando a jovem de 16 anos em treinamento para reconhecer seu enorme potencial, declarando: "Vou ficar com ela. Ela vai aprender e evoluir." Renard se mudou definitivamente para o Lyon em 2006, onde antigas estrelas como Eric Abidal, Florent Malouda e Sidney Govou a acolheram e ofereceram orientação durante sua adaptação à vida longe de casa.
Um gigante do futebol europeu
Desde que chegou, Renard se tornou uma instituição no Lyon, conquistando a impressionante marca de 31 troféus pelo clube. Seu currículo inclui 18 campeonatos nacionais, 11 títulos da Copa da França e oito títulos da Liga dos Campeões Feminina da UEFA - um número sem precedentes -, seis deles conquistados como capitã do time. Detentora do recorde histórico de jogos na Liga dos Campeões Feminina da UEFA, com 134 partidas, seu nome se tornou praticamente sinônimo da competição.
Com 1,87 metro de altura, Renard comanda a defesa com disciplina posicional e, ao mesmo tempo, representa uma ameaça praticamente inigualável nas jogadas de bola parada ofensivas. Além de seu domínio físico - demonstrado ao vencer 76,2% dos duelos aéreos durante a temporada 2025-26 do campeonato nacional -, ela continua sendo uma passadora de elite, com 91,0% de precisão nos passes e 66,3% de sucesso nas bolas longas.
Liderança gravada no DNA vencedor
Renard atribui sua excelência ao longo dos anos ao ambiente competitivo implacável do Lyon. "Os treinos são uma guerra; você joga uma pequena partida e quer ganhar", refletiu sobre sua mentalidade. "Quando um treinador está sempre dizendo para você ganhar, ganhar, ganhar, ganhar, você não pode ficar pensando em perder." Essa obsessão pela perfeição marcou sua trajetória como capitã, tanto no Lyon quanto na seleção francesa, pela qual soma 168 partidas e 39 gols.
Como resumiu certa vez o ex-presidente do Lyon, Jean-Michel Aulas: "Ela conseguiu subir na hierarquia e conquistar seu lugar com grandes qualidades atléticas e muita personalidade. Hoje, para mim, ela é a melhor defensora do mundo."