Carregando o legado de Sócrates

Em 2022, a France Football criou um novo prêmio na cerimônia do Ballon d’Or: o Prêmio Sócrates. O nome não é por acaso. É uma homenagem ao jogador brasileiro que, nos anos 80, transformou futebol numa voz política, liderando a Democracia Corintiana contra a ditadura militar. O prêmio nasce dessa ideia - reconhecer quem usa a própria projeção para fazer diferença fora de campo, onde o jogo é outro.

Em 2023, Vinícius Júnior recebeu essa honra. O primeiro - e até agora único - brasileiro a conquistá-la, Vini carrega o legado de Sócrates desde o início da carreira: lutar contra a opressão e dar voz a quem não tem.

De certa forma, não foi só uma premiação. Foi uma passagem de bastão.

Mas a trajetória de Vini nunca foi fácil. 

Tornando visível o que não pode ser ignorado 

No Real Madrid, Vini já se consolidou como um dos grandes nomes da sua geração, encantando torcedores e ajudando o clube a conquistar 2 Ligas dos Campeões, 3 La Ligas, 1 Copa do Rei, 3 Supercopas da Espanha, 2 Supercopas da UEFA, 2 Mundiais de Clubes da FIFA e 1 Copa Intercontinental da FIFA. Em 2024, ficou em 2º na votação do Ballon d’Or. Até abril de 2026, já são 123 gols e 96 assistências pelos “Blancos”. Tudo isso aos 25 anos.

Fora dos gramados, a vida na Espanha tem sido muito mais dura. 

Vini tem tido uma carreira atravessada por episódios constantes de racismo - um fardo que nenhum talento deveria carregar, mas que acabou se tornando parte da sua história.

Em outubro de 2021, no Camp Nou, durante um El Clásico contra o Barcelona, ele foi alvo de xingamentos racistas enquanto deixava o campo. O processo foi aberto e depois fechado. Ninguém foi responsabilizado. 

Infelizmente, embora esse tenha sido o primeiro grande episódio desse tipo para Vini em Madrid, não seria o último.

Em 2022, vieram outros dois episódios: um durante um jogo contra o Mallorca em março, e outro antes de um jogo contra o Atlético de Madrid em setembro. Os dois casos atraíram muita indignação pública, mas tiveram poucas consequências concretas.

E quando não tem consequência, o problema não para - ele cresce.

Em janeiro de 2023, a situação chegou a um nível mais assustador: um boneco com a camisa do Vini foi pendurado em uma ponte por alguns torcedores do Atlético - um recado violento disfarçado de “provocação”.

Dessa vez, depois de muita insistência de Vini e do Real Madrid, algo foi feito: quatro homens foram presos e condenados. Por um instante, parecia que existia justiça - mas ela chegou pela metade: as penas foram reduzidas a multas e restrições. Justiça que aparece, mas não se mantém.

Em maio, outro episódio ganhou repercussão mundial: Vini confrontou alguns torcedores do Valência por refrões racistas durante uma partida no Mestalla. O caso teve enorme cobertura da mídia, ainda mais porque uma confusão entre os jogadores no fim do jogo resultou num cartão vermelho para ele. 

O Valência classificou o episódio como um "caso isolado", mas a pergunta já não podia mais ser evitada: até quando? E, principalmente, o que a La Liga estava realmente fazendo para proteger seus jogadores?

Enfrentando preconceito com coragem

Assim como esses episódios terríveis têm sido uma presença constante na carreira de Vini até aqui, ela também tem sido marcada pela sua resiliência inabalável e pela sua luta inspiradora contra o racismo. Ele não se calou. Escolheu expor, cobrar, incomodar. E, ao fazer isso, acabou sendo alvo de mais ataques - mas também conseguiu colocar o problema no centro das atenções, não só na Espanha, mas em todo o futebol mundial.

'Eu sou forte e vou até o fim contra os racistas.' - Vinícius Júnior

A luta dele foi crescendo até virar assunto inevitável.

O tema se espalhou para o futebol inteiro - chegou nos torcedores, nos jogadores, nos técnicos, nos dirigentes. Todo mundo passou a ter que olhar.

Depois do caso contra o Valência, Vini fez um desabafo nas redes sociais, depois de anos de sofrimento acumulado: ‘Não foi a primeira vez, nem a segunda e nem a terceira. O racismo é o normal na La Liga. A competição acha normal, a Federação também e os adversários incentivam. Lamento muito. O campeonato que já foi de Ronaldinho, Ronaldo, Cristiano e Messi hoje é dos racistas. Uma nação linda, que me acolheu e que amo, mas que aceitou exportar a imagem para o mundo de um país racista. Lamento pelos espanhóis que não concordam, mas hoje, no Brasil, a Espanha é conhecida como um país de racistas. E, infelizmente, por tudo o que acontece a cada semana, não tenho como defender. Eu concordo. Mas eu sou forte e vou até o fim contra os racistas. Mesmo que longe daqui.’ (GE)

A declaração gerou uma troca de farpas nas redes sociais entre Vini e o presidente da La Liga, Javier Tebas, que escreveu: ‘Antes de criticar e injuriar La Liga, é necessário se informar adequadamente, Vini Jr.’ (GE)

Os dois já tinham se desentendido no final de 2022, após outra denúncia do jogador.

Mais uma vez, Vini não recuou, não suavizou o discurso. Pelo contrário, levantou a voz ainda mais alto, sabendo que o mundo estava ouvindo. E deixou tudo claro em poucas palavras: ‘Quero ações e punições.’ (GE)

Muitos torcedores ao redor do mundo, já cansados de ver a mesma cena se repetir, se juntaram a ele. A pressão cresceu, ganhou corpo, ficou impossível de ignorar. Tanto que até o próprio Tebas mudou o discurso - pediu desculpas e admitiu: não se tratava de "casos isolados".

Dennis Agyeman (Presse Sports)

Tornando o assunto uma conversa internacional

A postura do Vini depois do caso contra o Valência transbordou para além do futebol. Virou conversa de bar, de jornal, de política. Quando alguém com sua visibilidade se posiciona, afinal, o assunto deixa de ser só do esporte e se torna de todos.

No Brasil, onde futebol é quase idioma, o debate chegou ao presidente Lula, que se manifestou sobre a situação: “Eu penso que é importante que a FIFA, que a liga espanhola, que as ligas de outros países, tomem sérias providências, porque nós não podemos permitir que o fascismo e o racismo tomem conta dentro do estádio de futebol.” (UOL)

Dias depois, veio um gesto silencioso, mas cheio de significado: o Cristo Redentor, no Rio - cidade onde o Vini cresceu - teve suas luzes apagadas por uma hora. Foi como se a própria cidade parasse para dizer: estamos com você.

Vini respondeu com emoção: ‘Preto e imponente. O Cristo Redentor ficou assim há pouco. Uma ação de solidariedade que me emociona. Mas quero, sobretudo, inspirar e trazer mais luz para a nossa luta. Agradeço demais toda a corrente de carinho e apoio que recebi nos últimos meses. Tanto no Brasil quanto mundo afora. Sei exatamente quem é quem. Contem comigo porque os bons são maioria e não vou desistir. Tenho um propósito na vida e, se eu tiver que sofrer mais e mais para que futuras gerações não passem por situações parecidas, estou pronto e preparado.’ (X)

A imagem do monumento, envolto na escuridão, ganhou destaque em jornais do mundo inteiro.

Falando em jornais, o El País, jornal mais popular e mais lido da Espanha, respondeu publicando um editorial afirmando: ‘La Liga tem um problema - e esse problema não é o Vinícius’. Não era só uma manchete - era um chamado por ações duras e permanentes.

E, a partir dali, o efeito cascata começou.

Pressionado, o então presidente da federação espanhola, Luis Rubiales, reconheceu: o racismo era, sim, um problema no futebol do país. O primeiro-ministro, Pedro Sánchez, também se posicionou, com um recado direto: ‘Tolerância zero com o racismo no futebol. O esporte se baseia nos valores da tolerância e do respeito. O ódio e a xenofobia não devem ter espaço no nosso futebol nem na nossa sociedade.’ (X)

Pouco depois, em junho, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, convidou Vini para liderar um comitê especial de jogadores contra o racismo.

Do outro lado do oceano, no Rio de Janeiro, a resposta também ganhou forma. Mais de 150 organizações se uniram e entregaram uma carta ao consulado espanhol, cobrando investigação da La Liga.

Ao mesmo tempo, o estado do Rio (junto com o Rio Grande do Sul) aprovou as chamadas “Leis Vini Jr”: se tiver racismo, o jogo para ou termina. Aprovadas por unanimidade, as leis são uma resposta prática e direta.

Uma voz que inspira e educa

Em 2023, Vini conseguiu então colocar o racismo do futebol no centro da conversa pública, mostrando ao mundo que esse problema antigo, tantas vezes ignorado ou minimizado, não podia mais ser varrido para debaixo do tapete. Não era mais assunto só de clubes, torcedores ou jogadores: políticos, legisladores e a sociedade inteira foram desafiados a encarar o problema de frente.

Com sua coragem e determinação de transformar o jogo para quem joga e para quem assiste, Vini foi reconhecido com o Prêmio Sócrates na cerimônia do Ballon d’Or em outubro de 2023, uma homenagem à sua luta incansável dentro e fora dos campos.

Poucos meses depois, a UNESCO o nomeou Embaixador - apenas o segundo jogador de futebol na história a receber esta honra, depois do rei Pelé. A diretora-geral da organização descreveu Vini como “um exemplo para toda uma geração”. (UNESCO)

Será que então, depois de tudo isso, ele iria finalmente desacelerar?

É claro que não.

Desde então, Vini segue lutando - dia após dia, jogo após jogo - transformando cada dor em combustível para continuar até que o futebol seja um campo de igualdade e respeito.

Em março de 2024, voltou ao Mestalla, o mesmo estádio onde, quase um ano antes, tinha sido alvo de xingamentos racistas. Recebido com vaias, respondeu à altura: marcou dois gols e celebrou com o punho erguido - gesto simples mas poderoso, um símbolo universal de resistência.

Em uma coletiva naquele mês, manteve sua postura firme de sempre, mas não conseguiu segurar a emoção ao falar sobre o impacto psicológico dessa batalha: “Cada vez eu tenho menos vontade de jogar. Mas eu vou seguir lutando.” (The Guardian)

Construindo mudanças passo a passo

O racismo ainda não desapareceu, mas o impacto da coragem de Vini começou a gerar mudanças concretas. Pequenos avanços, talvez, mas significativos mesmo assim - sinais de que, quando alguém se recusa a se calar, até mesmo as estruturas mais resistentes podem ser desafiadas.

Em junho de 2024, três torcedores foram condenados a oito meses de prisão - primeira sentença desse tipo na Espanha. Meses depois, quatro torcedores do Atlético foram presos por incentivar ódio nas redes sociais antes de um derby.

Em novembro, Vini refletiu sobre o efeito dessas medidas: “Nos últimos 3 meses, conseguimos colocar 3 ou 4 pessoas na cadeia já e fazer elas pagarem pelo crime que elas cometeram. E com isso, a gente pode diminuir o mais rápido possível [os incidentes de racismo], porque até uma pessoa que é racista, ela vai ter medo de falar isso quando tem câmeras. E isso vai diminuindo e vai afetar outras pessoas também. Cada vez vão fazer menos.” (CBF)

São pequenas vitórias, mas cada uma carrega um peso enorme: sinais de que o racismo não passa impune, de que a justiça pode existir, e de que mudanças reais são possíveis quando se tem coragem para agir.

Plantando sementes para a igualdade 

Além de lutar por punições contra quem pratica ou incentiva o racismo, Vini aposta na educação como a verdadeira arma para transformar o futuro. 

Para transformar essa visão em ação, criou o Instituto Vini Jr em 2021, uma iniciativa que leva educação a crianças e adolescentes de comunidades carentes no Brasil. O instituto usa o esporte - especialmente o futebol - como uma linguagem universal, capaz de unir, ensinar e inspirar. Hoje, mais de 30 escolas e 460 educadores participam do projeto, envolvendo mais de 10 mil jovens, com a meta de se tornar uma das principais forças na redução da desigualdade educacional no país até 2030.

No centro da missão do instituto está a educação contra o racismo. Para Vini, não basta apenas combater o ódio de hoje; é preciso fazer de tudo para que ele não volte a crescer amanhã. Ele explica: “Eu fui escolhido para defender uma causa tão importante, que a cada dia, eu estudo mais sobre. Eu venho aprendendo para que [...] meu irmão, que tem 5 anos, não venha a passar por tudo que eu estou passando.” (The Guardian)

Um exemplo de dedicação e coragem

Mas a dura realidade persiste: por mais que Vini lute, ele - como tantos outros jogadores - continua a ser alvo de racismo, ataques muitas vezes sem nenhuma consequência real.

Em fevereiro, o tema voltou a estourar nas manchetes quando Vini acusou o meia argentino do Benfica, Gianluca Prestianni, de racismo durante uma partida da Liga dos Campeões. O jogo parou por 10 minutos enquanto a UEFA aplicava seu protocolo antirracismo, mas, no fim, ficou claro mais uma vez que pouco é feito para impedir que episódios assim aconteçam no futebol profissional.

Prestianni negou as acusações. O Benfica se posicionou ao lado do jogador. A UEFA abriu investigação, mas a única medida tomada foi uma suspensão provisória de um jogo para Prestianni.

Como sempre, Vini não se calou. Sua coragem em expor o racismo fez o tema voltar ao centro das conversas sobre futebol, e sua postura inspirou outras vozes esportivas influentes a se levantar, como Kylian Mbappé, Neymar, Raphinha, Carlo Ancelotti, Rio Ferdinand, Didier Drogba, Ronaldo, Xavi, e Lewis Hamilton.

Com apenas 25 anos, Vinícius Júnior já construiu um legado impressionante. Dentro do campo, é um dos principais nomes do Real Madrid, conduzindo o time a títulos e encantando o mundo com seu talento. Fora dele, sua voz se tornou um símbolo contra o racismo e a injustiça, não apenas no esporte, mas na sociedade como um todo.

O Prêmio Sócrates que ele recebeu em 2023 não reconheceu apenas o que ele já tinha conquistado, mas também o impacto contínuo que ele segue gerando - uma força capaz de iluminar o caminho para mudanças reais e duradouras.