Jogando por Diogo

Ontem, Portugal venceu a Croácia por 2 a 1, de virada, e garantiu vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026.

Depois da partida, os jogadores portugueses posaram para fotos segurando a camisa 21 da seleção, usada por Diogo Jota antes de seu falecimento.

No estádio, foi difícil encontrar alguém que não estivesse emocionado, incluindo o maior artilheiro da história de Portugal, Cristiano Ronaldo. Após o jogo, o cinco vezes vencedor do Ballon d’Or escreveu nas redes sociais: ‘Vencemos por nós, pelo Diogo e por Portugal!’ (Instagram)

Há exatamente um ano, Jota e seu irmão mais novo, André Silva - também jogador profissional - morreram tragicamente em um acidente de carro na província de Zamora, na Espanha.

Foi uma perda enorme para o futebol.

Jota tinha apenas 28 anos, mas já havia construído uma carreira marcante tanto pelos clubes quanto pela seleção portuguesa.

Ao contrário da maioria dos grandes nomes do futebol português, Diogo Jota não passou pelas categorias de base de Benfica, Sporting CP ou Porto. Revelado pelo Paços de Ferreira, ele começou a construir seu legado de verdade quando chegou à Inglaterra, em julho de 2017, para defender o Wolverhampton Wanderers por empréstimo.

O ídolo dos Wolves

Na época, o clube disputava a EFL Championship, a segunda divisão inglesa. Jota foi um dos protagonistas da chamada "Revolução Portuguesa" do Wolves, liderada pelo técnico Nuno Espírito Santo e impulsionada por uma geração talentosa de jogadores portugueses.

O impacto foi imediato. Logo na primeira temporada, marcou 17 gols e terminou como o quinto maior artilheiro da competição.

Com o título da Championship e o acesso à Premier League, o Wolves não demorou para contratar Jota em definitivo. A aposta deu muito certo. Em três temporadas e 131 partidas pelo clube, o atacante somou 44 gols e 19 assistências, além de entrar para o grupo dos 25 maiores artilheiros da história do Wolves.

Vários desses gols vieram em momentos decisivos para o Wolves.

Como o hat-trick contra o Leicester City, em janeiro de 2019, que fez dele o primeiro português a marcar três gols em um jogo de Premier League desde Cristiano Ronaldo, mais de dez anos antes. Também foi o primeiro jogador do Wolves a conseguir esse feito na primeira divisão inglesa desde John Richards, em 1977.

Ou o gol da vitória sobre o Manchester United, nas quartas de final da Taça da Inglaterra de 2018-19, que levou o Wolves à sua primeira semifinal da competição desde 1997-98.

Teve ainda o gol contra o Crusaders, da Irlanda do Norte, na fase classificatória da Liga Europa, que encerrou um jejum de quase 40 anos sem gols do clube em competições europeias.

E, na última rodada da fase de grupos daquele torneio, diante do Beşiktaş, Jota entrou aos 11 minutos do segundo tempo, marcou segundos depois e completou um hat-trick em apenas 12 minutos.

Não demorou para se tornar um dos grandes ídolos da torcida. Jota foi peça-chave no renascimento do Wolves e, após sua morte, recebeu uma das maiores homenagens possíveis: entrou para o 'Hall of Fame' do clube.

Simon Stacpoole (Presse Sports)

A consagração em Anfield

Em setembro de 2020, Jota deu mais um passo na carreira ao se transferir para o Liverpool. E fez exatamente o que o tornou conhecido: decidir jogos e marcar gols importantes.

Ele balançou as redes logo na estreia pelos Reds.

Ainda na primeira temporada, marcou 10.000º gol da história do clube e se tornou o primeiro jogador do Liverpool a marcar em cada um dos seus quatro primeiros jogos em casa na Premier League.

Também deixou sua marca com um belo gol de calcanhar na vitória sobre o rival Manchester United, em Old Trafford, resultado que ajudou o Liverpool a garantir o terceiro lugar na Premier League e uma vaga na Liga dos Campeões.

No fim de 2021, marcou na vitória sobre o Newcastle United, que entrou para a história como o 2.000º triunfo do Liverpool na primeira divisão inglesa.

Na campanha do título da Taça da Liga Inglesa de 2021-22, brilhou mais uma vez: marcou os dois gols da semifinal contra o Arsenal e, na decisão, converteu sua cobrança de pênalti diante do Chelsea, ajudando o Liverpool a encerrar um jejum de dez anos sem conquistar o torneio.

Poucos meses depois, repetiu o feito na final da Taça da Inglaterra. Novamente contra o Chelsea, bateu seu pênalti com categoria e contribuiu para a conquista do oitavo título do Liverpool na competição.

Ao todo, Jota disputou 182 partidas pelo clube, marcou 65 gols e distribuiu 26 assistências em cinco temporadas. Também conquistou a Premier League em seu último ano em Anfield.

Seu último gol pelo Liverpool foi digno de roteiro: o da vitória sobre o Everton, no clássico de Merseyside, disputado em Anfield.

Depois de sua morte, o clube anunciou que a camisa 20 seria aposentada em sua homenagem.

O orgulho da Seleção

Pela seleção portuguesa, Jota também rapidamente se tornou uma peça importante. Desde a estreia, em 2019, disputou 49 partidas, marcou 14 gols e deu 12 assistências.

Em 2023, foi um dos destaques da goleada por 9 a 0 sobre Luxemburgo, pelas Eliminatórias da Eurocopa de 2024. Na ocasião, marcou dois gols na maior vitória da história de Portugal em competições internacionais.

Dois anos depois, fez parte do elenco que conquistou a segunda Liga das Nações da história da seleção.

Teve algo de simbólico na vitória de Portugal sobre a Croácia ontem.

Afinal, o primeiro gol de Jota pela seleção principal, em setembro de 2020, tinha sido justamente contra os croatas.

Um legado eterno

Ao longo deste último ano, o seu falecimento continuou comovendo o mundo do futebol. Jogadores, técnicos, jornalistas e torcedores prestaram homenagens constantes ao atacante, assim como políticos e outras figuras públicas.

Na cerimônia do Ballon d’Or do ano passado, em Paris, Jota e seu irmão André também foram homenageados com um minuto de silêncio e um vídeo em tributo à dupla, na presença de familiares.

Ontem, Anfield ganhou um memorial permanente em homenagem a Diogo Jota e André Silva. Já a Federação Portuguesa inaugurou uma escultura de bronze dedicada aos dois em seu centro de treinamentos, nos arredores de Lisboa.

Nesta Copa, Portugal entra em campo sem um de seus atacantes mais queridos - um jogador admirado pela versatilidade, velocidade, capacidade no um contra um e faro de gol.

Mas sua presença continua sendo sentida a cada passo.

Quando o técnico Roberto Martínez anunciou a lista de convocados para o torneio, Jota foi incluído como membro honorário.

Antes da estreia contra a RD Congo, a seleção prestou uma homenagem ao atacante. O mesmo aconteceu antes da vitória sobre a Croácia.

Rúben Neves, que dividiu o vestiário com Jota tanto no Porto quanto no Wolverhampton, também leva uma lembrança permanente do amigo: uma tatuagem em sua homenagem na perna.

Martínez se emocionou após a classificação, em um momento que foi muito além da alegria por uma vaga nas oitavas de final.

Depois da partida, ele refletiu: "Vencer por 2 a 1... o 21 do Diogo Jota. Tem muitos sinais. Sinais muito bonitos da força e da energia que o Diogo transmitia à Seleção. Temos a responsabilidade de continuar a honrar o seu legado, mantendo os valores de equipe que ele sempre representou. É a nossa luz nesta Copa." (Observador)

Impulsionado pela memória de Jota e pelo desejo de honrar seu legado, Portugal agora volta as atenções para o duelo contra a Espanha, pelas oitavas de final da Copa do Mundo, na segunda-feira.