Ao contrário do que muita gente pensa, o Reino Unido não estava exatamente em ebulição nos anos 60. Pela Carnaby Street, de vez em quando aparecia um astro do rock ou uma modelo - e mais raramente ainda com flores no cabelo -, mas, no geral, o país enfrentava uma crise econômica do pós-guerra e os tempos eram difíceis. De Hartlepool a Hastings, o cenário era cinzento.
Ainda assim, o país contava com dois grupos notáveis de homens, cada um à sua maneira inspirando a população.
Depois de espalhar a Beatlemania nos Estados Unidos, os “Fab Four” - John, Paul, George e Ringo - passaram a primavera de 1966 finalizando Revolver, um álbum que se tornaria a trilha sonora de um verão intensamente quente. Ele foi lançado em 29 de julho, um dia antes da final da Copa do Mundo.
Cerca de 200 quilômetros ao norte dos estúdios EMI, em um centro de treinamento em Shropshire, a seleção inglesa comandada por Alf Ramsey se preparava para um torneio que mudaria a vida de todos eles. Para um em especial, isso teria papel fundamental na conquista de um cobiçado Ballon d'Or.
Uma nação na expectativa: Charlton carrega as esperanças de milhões
Quatro anos antes, no Chile, os Three Lions tinham decepcionado, sendo eliminados pelo Brasil na primeira fase de mata-mata. Ainda assim, o otimismo crescia conforme a Inglaterra se preparava para sediar o torneio.
Ramsey havia criado um sistema de jogo inovador, abrindo mão dos pontas tradicionais em favor de um meio-campo mais trabalhador. A Inglaterra também contava com Bobby Moore na defesa, em grande fase e jogando com imponência.
Além disso, tinha um verdadeiro craque como maestro: Bobby Charlton, comandando o meio-campo com capacidade física de elite e muita calma no jogo.
No verão de 1966, Charlton já tinha marcado 37 gols em 64 jogos pela seleção e chegava ao torneio em ótima forma, tendo vencido o prêmio de Futebolista do Ano da FWA poucas semanas antes.
Dono de um chute potente e com uma habilidade natural para lançamentos longos e precisos, o jogador de 28 anos tinha tanto peso na equipe que Ramsey decidiu desde cedo montar o time ao seu redor - o filho predileto do Manchester United.
Naturalmente, as esperanças da nação estavam depositadas nele.
Heroísmo na Copa: o impulso definitivo
Já se passaram 60 anos desde que a Inglaterra venceu a Copa do Mundo em casa, e o feito se tornou tão icônico que às vezes se esquece que o começo não foi fácil.
O jogo de estreia contra o Uruguai terminou empatado, e o México, cinco dias depois, também complicou bastante - até que Charlton recebeu a bola no seu próprio campo e fez algo especial.
Com o intervalo se aproximando, o camisa 9 avançou, praticamente livre, diante de uma defesa mexicana recuada. Levando a bola para a direita, soltou um chute de longa distância com tanta precisão e força que o goleiro se jogou mais por instinto do que por chance real de defesa.
Foi ali que a campanha da Inglaterra ganhou vida.
Charlton foi o coração daquela vitória e também brilhou contra Portugal em uma semifinal que colocou frente a frente duas lendas. O principal jogador dos Three Lions marcou duas vezes; Eusébio, apenas uma.
Há muito tempo considerado o melhor da sua geração, Charlton estava agora provando isso no maior palco possível.
“Existe uma crença generalizada de que, em 1966, Bobby Charlton era o melhor jogador de futebol do mundo,” afirma David Walker, ex-editor de esportes do Daily Mirror.
“Essa era a opinião dos seus colegas de equipa no Manchester United e na Inglaterra, e dos jogadores e treinadores adversários. Bobby tinha 28 anos quando a Inglaterra venceu a Copa do Mundo e estava no auge das suas capacidades.”
Curiosidade - Charlton tinha uma condição física tão impressionante que conseguiu participar de um treino completo com o elenco do Manchester United no fim dos anos 90, aos 61 anos.
E então veio a final: contra uma forte Alemanha Ocidental e uma nação com a qual a Inglaterra tinha estado em guerra apenas duas décadas antes.
Até aquele momento, Charlton tinha sido, sem dúvida, o jogador mais influente do torneio. Mas, na final, seu papel foi mais de sacrifício, como explica Walker:
“A Final não foi o melhor jogo de Bobby, mas havia uma razão para isso. A Alemanha Ocidental destacou o seu melhor jogador, Franz Beckenbauer, para marcar Charlton, que retribuiu quando Der Kaiser tinha a posse de bola. Não ajudou o espetáculo da Final, mas a equipa de Charlton triunfou.
E Bobby conquistou um notável hat-trick. Ele continua a ser o único inglês a ter jogado e vencido o Campeonato do Mundo e a Taça dos Clubes Campeões Europeus, sendo também coroado vencedor do Ballon d'Or.”
Esse título europeu viria dois anos depois, novamente em Wembley e novamente contra Eusébio, quando o Manchester United venceu o Benfica.
Já o Ballon d'Or foi conquistado naquele mesmo ano, com os votantes impressionados não só pelos feitos, mas também pela forma como ele jogava.
Nobreza em campo: o estilo que encantou os votantes
Fora de campo, Sir Bobby Charlton sempre teve postura de estadista. Era humilde, educado e discreto - normal no melhor sentido da palavra.
Compará-lo com outros nomes que marcaram a Grã-Bretanha em 1966 é quase falar de opostos. Charlton era apenas três anos mais velho que John Lennon, mas, tanto na postura quanto na aparência, poderia facilmente parecer seu pai.
Com a bola nos pés, porém, ele se transformava completamente. Surgia uma competitividade intensa, uma vontade inabalável de vencer que, somada ao seu equilíbrio natural e à qualidade dos passes, fazia dele um dos meio-campistas mais completos que a Inglaterra já produziu.
Relembrando o duelo desgastante na final da Copa, Franz Beckenbauer comentou: “O momento mais bonito do jogo para mim foi o apito final. Isso porque o meu trabalho era vigiar Bobby Charlton durante o que se revelaram 120 minutos.”
Com a morte de Sir Bobby em 2023, as homenagens vieram de todos os lados - do Rei Charles à elite do esporte -, todos destacando sua integridade e caráter. Diziam que ele era um verdadeiro cavalheiro - e era mesmo.
Mas dentro de campo também era implacável: uma alma tranquila fora dele, mas que ajudou a dar muito mais cor a uma Grã-Bretanha até então tão cinzenta.