Ele acabou se tornando o rosto de uma nação em sofrimento. Em uma entrevista emocionante exibida em 6 de março de 2022 pela emissora pública italiana RAI, Shevchenko falou pela primeira vez sobre a guerra iniciada pela Rússia contra seu país. Ídolo absoluto do povo ucraniano, ele não conseguiu segurar as lágrimas ao pedir ajuda à sua segunda casa, a Itália. Era um apelo sincero do vencedor do Ballon d'Or de 2004, visivelmente abalado, com marcas de noites sem dormir desde o início da invasão, em 24 de fevereiro.

“O primeiro mês foi o mais difícil”, relembra hoje. “O povo ucraniano não estava preparado para o que aconteceu. Ninguém acreditava que cidades seriam destruídas e que civis, inclusive crianças, seriam mortos - mas foi exatamente isso que vimos.” Sua mãe e sua irmã viveram essa realidade de perto, permanecendo no país por um tempo antes de atravessarem a fronteira “quando já era impossível ficar”.

Na Ucrânia, “Sheva” é uma lenda. Mesmo tendo se mudado para o Ocidente em 1999, quando virou um atacante de nível mundial e estrela do Milan, nunca perdeu a ligação com suas origens.

Nascido em Dvirkivshchyna, a cerca de 100 km de Kiev, e criado no bairro operário de Obolon, Shevchenko foi formado pela lendária escola do Dínamo de Kiev, comandada por Valeriy Lobanovskyi. Na infância, chegou a passar dois anos na Crimeia para escapar da radiação de Chernobyl.

“Desde pequeno sou torcedor do Dínamo. Jogava em escola esportiva, ia aos estádios e acompanhava de perto dois ucranianos que ganharam o Ballon d'Or: Blokhin e Belanov.” Ele próprio se via com um estilo parecido ao de Oleh Blokhin: um jogador completo, que unia velocidade, força, técnica, eficiência e resistência mental.

Seguindo os passos desses ídolos, conquistou o Ballon d'Or em 2004 vestindo a camisa do Milan. Foi um ano inesquecível, tanto pessoalmente - quando se casou com Kristen e teve seu primeiro filho, Jordan - quanto profissionalmente. Foi campeão italiano e terminou como artilheiro da liga, com 24 gols, repetindo o feito de 2000. Também teve destaque com a seleção nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006, coroando tudo com a conquista do prêmio individual.

Coroado em Meio à Revolução Laranja

O Ballon d'Or levou Shevchenko a outro patamar. “É um troféu individual, diferente de um título coletivo como a Liga dos Campeões. Tive que assumir uma responsabilidade enorme - com o futuro, com os jovens, com a transmissão da minha experiência.”

Esse senso de responsabilidade cresceu ainda mais por causa do momento político vivido na Ucrânia. Em 2004, o país estava no meio da Revolução Laranja, com protestos massivos após uma eleição presidencial contestada. “Lembro que, logo depois de sair da France Football, fui recebido por Viktor Yushchenko. Aquilo me deixou muito feliz”, conta.

Ao dedicar o Ballon d'Or ao povo ucraniano, ele consolidou seu papel como símbolo nacional. “Assim que pude, levei o troféu para o país. Hoje ele está em um museu em Milão, para onde o emprestei há cerca de cinco anos. Mas, quando a Ucrânia voltar a viver em paz, quero muito levá-lo de volta. Penso até em reunir troféus de outros atletas ucranianos e criar uma grande exposição aberta ao público.”

Representar bem seu país sempre foi uma prioridade. Isso ficou ainda mais evidente quando assumiu a seleção ucraniana em 2016. “Senti uma responsabilidade enorme. Levamos dois anos para reconstruir a equipe, mas mantivemos nossos princípios. Jovens jogadores se tornaram líderes.”

O trabalho deu resultado: em 2021, a Ucrânia chegou pela primeira vez às fases eliminatórias de uma Eurocopa, sendo eliminada pela Inglaterra nas quartas de final.

"A primeira questão é dizer a verdade sobre o que está a acontecer na Ucrânia. A segunda é angariar fundos."

“Dizer a Verdade e Ajudar”

Com o início da guerra, Shevchenko passou a focar em duas missões claras: “A primeira é dizer a verdade sobre o que está acontecendo na Ucrânia. A segunda é arrecadar fundos.”

Ele se envolveu diretamente em ações humanitárias, ajudando refugiados, organizando apoio e conectando pessoas e instituições ao redor do mundo.

Em maio de 2022, o presidente Volodymyr Zelenskyy lançou a plataforma UNITED24, voltada para arrecadação internacional de recursos. Shevchenko aceitou imediatamente o convite para ser o primeiro embaixador da iniciativa, ao lado de nomes como a tenista Elina Svitolina e a banda Imagine Dragons.

“É importante lembrar que a guerra ainda não acabou”, reforça. “Ela pode ter se afastado de Kiev, mas milhões de ucranianos continuam sofrendo todos os dias.” Ele relembra a visita a uma escola de futebol destruída em Irpin: “É impossível ver aquilo sem se emocionar. Crianças ainda vão brincar ali, mesmo com tudo destruído ao redor.”

Desde a criação, a UNITED24 já arrecadou cerca de 175 milhões de euros, com doações vindas de mais de 100 países. “Fico muito grato a todos que ajudam. Cada contribuição importa, seja pequena ou grande.”

O ícone ucraniano garante que continuará usando sua voz enquanto o conflito persistir. Só depois disso pretende voltar a colocar o futebol no centro da sua vida. “Hoje, minhas prioridades mudaram, porque preciso ajudar meu país. Mas sei que, um dia, vou voltar ao que mais amo.”