Dois fenômenos surgem no Brasil
Nos anos 90, dois excepcionais talentos brasileiros surgiram como símbolos de uma nova geração do futebol: Ronaldo e Rivaldo. Apesar de seguirem caminhos diferentes, suas trajetórias iniciais revelavam muitas semelhanças - ambos surgiram muito jovens, dominaram o cenário nacional e rapidamente passaram a fazer parte da seleção brasileira.
Com apenas 17 anos, Ronaldo Luís Nazário de Lima já era uma força impressionante. Atacante rápido, forte e com técnica fora do comum, explodiu no Cruzeiro, levando o clube ao título da Copa do Brasil de 1993 e tornando-se o jogador mais jovem da seleção brasileira desde Pelé. As comparações entre os dois já surgiram desde o início - parecia que a história estava sendo escrita diante dos olhos do país. Era só uma questão de tempo até um clube europeu vir bater à porta, e seguindo o conselho da lenda Romário, Ronaldo acabou assinando com o PSV Eindhoven em 1994.
Rivaldo Vítor Borba Ferreira, por sua vez, já era considerado por muitos o maior jogador brasileiro atuando no Brasil nos meados dos anos 90. Brilhou tanto no Corinthians quanto no Palmeiras, ajudando o Timão a vencer o Campeonato Paulista em 1993 e o Verdão a ganhar o mesmo título em 1996. Também fez parte do Palmeiras que conquistou o Brasileirão em 1994 e 1995. Ao contrário de Ronaldo, cujo talento o levou rapidamente à Europa, Rivaldo amadureceu como protagonista no Brasil antes de atravessar o Atlântico. Ainda assim, o destino os aproximava: ambos se tornaram figuras constantes na seleção brasileira, representando estilos distintos - a explosão física e a objetividade de Ronaldo, contrastando com a elegância técnica e a visão refinada de Rivaldo: dois caminhos diferentes, mas convergindo para o mesmo palco internacional.
A Europa chama: dois destinos, dois caminhos
Na Holanda, Ronaldo fez o que já tinha feito no Brasil: atropelou. Pelo PSV Eindhoven, marcou 54 gols em 58 jogos - praticamente um por partida - e ainda levou a Copa da Holanda em 1996. Era jovem, mas jogava como veterano. As atuações chamaram a atenção de Bobby Robson, técnico do Barcelona, que bancou para ver e pagou uma taxa recorde para levá-lo à Catalunha. “Estou no futebol há muito tempo e nunca vi um jogador de 20 anos com tanto talento”, disse Robson (The New York Times). Ronaldo não era mais promessa - era realidade.
Enquanto isso, nos Jogos Olímpicos de 1996, o clima em torno de Rivaldo era bem diferente. Um erro decisivo contra a Nigéria acabou com o sonho do ouro olímpico e colocou Rivaldo no alvo das críticas. O técnico Zagallo chegou a dizer que ele tinha sido o pior jogador brasileiro na competição. De protagonista no Brasil, virou alvo fácil. Voltou cabisbaixo - e, para piorar, as negociações que tinham avançado entre o Palmeiras e o Parma não deram em nada. Por um momento, parecia que tudo ia desmoronar.
Só que o futebol adora uma reviravolta.
Veio uma ligação, uma nova proposta, novas negociações. E, quase de repente, Rivaldo estava embarcando para a Europa - não para a Itália, mas para o Deportivo de La Coruña, na Espanha.
Enquanto Ronaldo saiu do Brasil como fenômeno em ascensão, Rivaldo precisou cair antes de dar o salto para o futebol europeu - mas os dois estavam, finalmente, no mesmo palco.
Barcelona e La Coruña: choque de mundos na Espanha
Na Espanha, Ronaldo e Rivaldo encontraram cenários bem diferentes.
No caso de Ronaldo, a pressão era imensa. O Barcelona tinha apostado alto, e a estreia foi logo num jogo decisivo contra o Atlético de Madrid, pela Supercopa da Espanha. Era o tipo de noite que podia pesar para qualquer jovem de 20 anos. Mas Ronaldo lembra como o técnico Bobby Robson soube acalmá-lo: “[Ele] me fez sentir tão calmo, tão relaxado. Ele disse: ‘Divirta-se, aproveite e traga a taça para casa.’” (Bobby Robson - More Than a Manager)
E foi isso que Ronaldo fez. Lembrou que podia, que nunca houve dúvida sobre sua capacidade. Passava pelos defensores com facilidade, corria pelo campo como um raio e acabou marcando um gol decisivo. Em um único jogo, deixou claro para companheiros, adversários e torcida que não era só promessa ou aposta cara - era protagonista.
Já o desafio de Rivaldo era outro. O Deportivo de La Coruña vivia o fim de uma era. O chamado “Super Depor”, que tinha encantado a Espanha no início dos anos 90, já não tinha mais o mesmo brilho. O clube tinha caído do 3º para o 9º lugar na liga, e seu grande ídolo, Bebeto, tinha voltado ao Brasil para jogar no Flamengo. Faltava uma nova referência.
“Eu sabia que a maneira que eu jogo eles iam gostar, porque eu ia fazer algo diferente. Eu ia inventar coisas que eles não viram.” - Rivaldo
Foi nesse contexto que Rivaldo desembarcou, aos 24 anos, carregando críticas recentes, mas também uma enorme vontade de provar seu valor. O clube acreditou que o erro nas Olimpíadas não definia sua carreira - e ele abraçou a segunda chance com fome de mostrar que aquilo tinha sido apenas um acidente.
Na apresentação, cerca de 7 mil torcedores foram recebê-lo em La Coruña. Muitos esperavam um “novo Bebeto”, mas Rivaldo nunca quis ser substituto de ninguém. Queria ser ele mesmo - inventivo, imprevisível, diferente: “Eu sabia que a maneira que eu jogo eles iam gostar, porque eu ia fazer algo diferente. Eu ia inventar coisas que eles não viram. [...] Porque o futebol é alegria, futebol é um espetáculo. Os torcedores têm que voltar para casa felizes com algo diferente.” (Aqui com Benja! - ESPN Brasil)
E, de certa forma, os dois cumpriram exatamente o que se esperava - cada um à sua maneira. Ronaldo confirmou o status de fenômeno quase imediatamente, virando o centro do palco no Barça. Rivaldo, por outro lado, reconstruiu sua imagem jogo a jogo, devolvendo entusiasmo a um clube que buscava uma nova identidade.
Arte, força e eficiência: a afirmação no mesmo palco
No Barcelona, Ronaldo fez uma temporada que parece exagero até hoje: 47 gols em 49 jogos. Foi artilheiro da liga e ajudou o clube a conquistar a Supercopa da Espanha, a Copa do Rei e a Recopa Europeia - inclusive marcando o gol do título na final.
Mas mais do que os números, ficaram as imagens. Em 11 de outubro de 1996, contra o SD Compostela, ele marcou aquele que muitos consideram um dos gols mais incríveis da história: disparou pelo campo, deixando defensores para trás como se fossem cones e finalizando com frieza. O técnico Bobby Robson apareceu com as mãos na cabeça, incrédulo. Até a torcida adversária ficou em choque. O gol foi reprisado dezenas e dezenas de vezes na TV espanhola nos dias seguintes.
Duas semanas depois, veio um hat-trick contra o Valencia, e a torcida do Barça respondeu com lenços brancos nas arquibancadas - gesto reservado para admiração total. Ronaldo não era apenas eficiente; era espetáculo puro.
Ronaldo no Barcelona
Enquanto isso, Rivaldo construía algo igualmente impressionante. Pelo Deportivo de La Coruña, marcou 21 gols em 41 jogos e ajudou o clube a terminar em 3º lugar na liga, garantindo vaga na Copa da UEFA. Em apenas uma temporada, devolveu o time ao nível competitivo dos tempos de “Super Depor”.
A versatilidade era sua marca: jogava como meia, segundo atacante, aberto pelas pontas. Criava, finalizava, decidia. Fazia gols de cabeça, de longe, de falta, de pênalti - parecia ter sempre uma solução diferente. E, de certa forma, aquela promessa de levar alegria ao torcedor estava sendo cumprida.
Rivaldo no Deportivo La Coruña
Saída dolorosa, chegada inesperada: a transferência que os conectou
O verão de 1997 mudou completamente o rumo de Ronaldo e Rivaldo - e, curiosamente, conectou ainda mais suas histórias.
Depois de sua temporada fantástica no Barcelona, o clube tentou de tudo para manter Ronaldo. Houve acordo verbal, promessa de aumento, conversas para renovação. Mas disputas contratuais, pressões financeiras e conflitos internos fizeram tudo desandar. Ronaldo ficou arrasado - estava feliz na cidade, adaptado, voando em campo: “Aquilo para mim foi um soco no peito, forte.” (Romário TV)
“Acho que o Barcelona foi a minha melhor temporada.” - Ronaldo
Quando a renovação não saiu, a Inter de Milão pagou a cláusula de rescisão: 27 milhões de dólares. Ronaldo quebrou pela segunda vez o recorde mundial de transferências - algo que só Diego Maradona tinha conseguido antes. Na Itália, continuou dominante e, em 1997, ganhou a Ballon d'Or pelas atuações no Barça e na Inter.
Mas mesmo com todo o sucesso que veio depois, inclusive no Real Madrid, muita gente ainda aponta aquela única temporada na Catalunha como o auge mais mágico da sua carreira. O próprio Ronaldo admitiu sentir uma gratidão e saudade daquele ano decisivo: “Acho que o Barcelona foi a minha melhor temporada.” (Bobby Robson - More Than a Manager)
Só que a saída deixou um vazio enorme. O Barcelona precisava de um novo protagonista. E, enquanto isso, em La Coruña, o telefone de Rivaldo tocava.
Na manhã de 14 de agosto de 1997, hospedado num hotel antes da final do Torneio Teresa Herrera contra o PSV Eindhoven, Rivaldo recebia a ligação do agente Josep Maria Minguella: o Barcelona queria ele.
Ninguém esperava por aquilo. O Deportivo de La Coruña planejava montar uma base brasileira forte, e Rivaldo estava feliz, adaptado, tinha acabado de comprar uma casa na cidade. Tentou até dificultar a negociação, pedindo um salário altíssimo. O Barça aceitou. Pagou 4 bilhões de pesetas pela cláusula.
Ronaldo saiu triste por não conseguir ficar. Rivaldo ficou assustado por ter que sair. Pediu conselho ao amigo Mauro Silva, que resumiu tudo: “Eu queria que você ficasse, mas o Barcelona é o Barcelona.” (Palmeiras Cast - TV Palmeiras Sportingbet)
Era o último dia da janela. Não dava para pensar demais. Rivaldo entrou em campo pelo La Coruña naquela mesma noite, já sabendo que seria sua despedida. A notícia vazou, e a recepção foi de vaias. De herói a “traidor” em questão de horas. Marcou pênalti, o time venceu, mas os torcedores não perdoaram. No dia seguinte, saiu cedo para evitar confusão no aeroporto, deixando a família para trás e carregando medo, culpa e ansiedade.
Se a ida de Ronaldo ao Barça foi explosiva e natural, a chegada de Rivaldo foi tensa e emocional - mas o resultado acabou sendo igualmente grandioso. No Barcelona, Rivaldo conquistou duas La Ligas (1998 e 1999), uma Copa do Rei e uma Supercopa da UEFA. Substituiu Bebeto no La Coruña. Substituiu Ronaldo no Barça. E fez parecer que era destino.
Dois anos depois de Ronaldo, Rivaldo também levantaria o Ballon d'Or, em 1999.
No fim, o bastão passou de um para o outro no mesmo clube, na mesma liga, no mesmo palco. Ronaldo saiu como fenômeno consagrado. Rivaldo entrou sob desconfiança - e saiu como o melhor do mundo.
E foi assim que Ronaldo e Rivaldo tiveram, em paralelo, dois dos anos mais importantes de suas carreiras, no mesmo país, na mesma liga. Nunca vestiram a mesma camisa de clube ao mesmo tempo, mas suas trajetórias pareciam espelhadas: quando Rivaldo chegou ao Barcelona, foi justamente para ocupar o espaço deixado por Ronaldo. Um saía, o outro entrava.
Em nível de clubes eles se desencontraram por muito pouco, mas para a sorte dos fãs de futebol, na seleção brasileira o encaixe finalmente aconteceu. Na Copa do Mundo de 2002, ao lado de Ronaldinho - futuro vencedor do Ballon d'Or de 2005 - formaram os lendários “Três R’s”, um dos ataques mais temidos da história.
Ali, as trajetórias paralelas se fundiram de vez. A química era natural: Rivaldo organizava, pensava, criava; Ronaldo atacava o espaço, finalizava, decidia. Um parecia entender o movimento do outro antes mesmo da bola chegar. Rivaldo marcou 5 gols no torneio. Ronaldo marcou 8 e levou a Chuteira de Ouro - desempenho que o levou ao seu segundo Ballon d’Or, também em 2002, entrando para o grupo seleto de múltiplos vencedores.
Ronaldo e Rivaldo na Seleção Brasileira
Jogador | Partidas | Estreia | Última partida | Gols | Assistências |
Ronaldo | 99 | 1994 | 2011 | 62 | 32 |
Rivaldo | 76 | 1993 | 2003 | 35 | 17 |
Apesar das narrativas da imprensa, nunca houve rivalidade entre eles. Pelo contrário. Rivaldo sempre disse que um camisa 10 sonha em ter um 9 como Ronaldo. E Ronaldo, por sua vez, reconheceu que o time fluía quando Rivaldo comandava - que talvez ele próprio não tivesse brilhado tanto sem a força e a criatividade do companheiro.
Do palco espanhol ao trono mundial
O mais fascinante é perceber como aquela mesma temporada na Espanha - 1996/97 - funcionou como ponto de virada para os dois. Ronaldo se firmou como superestrela global no Barcelona, frequentemente visto como o talento mais próximo de Pelé desde o próprio Rei. E no Deportivo de La Coruña, Rivaldo mostrou ao mundo que era muito mais do que um coadjuvante - era criador e finalizador, artista e líder.
Mesmo que o tempo em cada clube tenha sido curto, Barcelona e La Coruña sempre poderão dizer que, naquela mesma temporada, tiveram nos seus times dois futuros campeões do mundo e dois futuros vencedores do Ballon d’Or - duas carreiras que não apenas correram em paralelo, mas que se cruzaram, se completaram e, de certa forma, se impulsionaram mutuamente.
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