O lateral que virou lenda
O Brasil se prepara para enfrentar a Escócia na quarta-feira, pela terceira rodada da Copa do Mundo de 2026. A competição marca a 23ª participação da Seleção na história, mantendo o país como o único presente em todas as edições do torneio.
Já são quase 100 anos desde a primeira Copa, em 1930, e o Brasil construiu uma trajetória única, com cinco títulos mundiais - mais do que qualquer outra seleção - conquistados em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002.
Essas campanhas ajudaram a consolidar o legado de alguns dos maiores nomes do futebol mundial. Jogadores como Pelé, Ronaldo e Ronaldinho marcaram época ao unir técnica, visão de jogo, drible e uma capacidade de finalização que virou marca registrada do chamado “jogo bonito” brasileiro.
Mas houve um jogador que chamou atenção justamente por reunir tudo isso partindo de outra função em campo - como lateral-esquerdo. Um defensor com características ofensivas raríssimas, que combinava velocidade, explosão e uma força física fora do comum.
Ao longo de uma carreira de 25 anos, com participações em três Copas do Mundo - incluindo o título de 2002 -, ele ficou conhecido por um atributo em especial: as pernas. Poucos jogadores na história tiveram uma potência tão impressionante, capaz de arrancadas longas pelo campo inteiro e finalizações de muito longe com força quase impossível de conter.
Ele não só conquistou a Copa do Mundo, como também duas Copas América pela Seleção e três Ligas dos Campeões pelo Real Madrid, além de ter sido indicado ao Ballon d’Or oito vezes entre 1997 e 2005.
Seu nome é Roberto Carlos.
Um talento impossível de ignorar
No fim dos anos 90, ele já era um nome conhecido no futebol mundial.
Nascido em 10 de abril de 1973, em Garça (São Paulo), o lateral-esquerdo, de baixa estatura e físico forte, começou a carreira em 1988, no União São João, de Araras. Em 1992, com apenas 19 anos, já era convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira, mesmo atuando por um clube do interior - um sinal claro do nível das suas atuações.
Depois de um empréstimo ao Atlético Mineiro, foi contratado pelo Palmeiras em 1993. Lá, viveu um início de destaque e conquistou dois títulos consecutivos do Brasileirão Série A em suas duas temporadas no clube.
Foi nesse período que Roberto Carlos começou a chamar atenção por uma característica muito marcante do seu jogo: o chute de longa distância, especialmente nas cobranças de falta. Ele marcou diversos gols pelo Verdão dessa forma, incluindo batidas memoráveis contra o Grêmio e o Emelec, do Equador, pela Copa Libertadores.
Como muitos talentos sul-americanos em ascensão, acabou dando o salto para a Europa em 1995, quando assinou com a Inter de Milão. Logo na estreia, fez um golaço de falta de cerca de 30 metros, garantindo a vitória por 1 a 0 sobre o Vicenza.
Apesar do impacto imediato, a passagem pela Inter não durou muito. O técnico Roy Hodgson via nele um jogador mais ofensivo e tentou utilizá-lo como ponta. Carlos, no entanto, era claro sobre o que queria: atuar como lateral-esquerdo. Ele se inspirava no ídolo Júnior, lateral da Seleção de 1982, e sabia que mudar de posição poderia até prejudicar suas chances na Amarelinha. Por isso, acabou optando por sair.
E foi aí que tomou a decisão que mudaria sua carreira.
Em 1996, chegou ao Real Madrid e, ao longo de 527 jogos em dez temporadas, se tornou uma das maiores referências da história do clube. Considerado um dos melhores laterais-esquerdos de todos os tempos, também superou Alfredo Di Stéfano como o estrangeiro com mais partidas na história da La Liga na época.
Com a camisa merengue, conquistou quatro títulos da La Liga, três Ligas dos Campeões, três Supercopas da Espanha, uma Supercopa da UEFA e uma Copa Intercontinental.
O gol que desafiou a lógica
Mas foi em 3 de junho de 1997 que um dos momentos mais icônicos da carreira de Roberto Carlos aconteceu. Naquela altura, ele ainda tinha apenas uma temporada completa pelo Real Madrid - já marcada por um título da La Liga logo de cara.
A data marcava a abertura do Tournoi de France, um torneio amistoso internacional organizado como preparação para a Copa do Mundo de 1998, que seria disputada em solo francês. Brasil e França se enfrentavam no Stade de Gerland, em Lyon.
Aos 21 minutos, o Brasil ganhou uma falta muito distante, em torno de 35 metros do gol. Roberto Carlos foi para a cobrança. Ele recuou bastante, preparando aquela corrida longa e característica. Ficava claro que não era uma bola para cruzar - a ideia era bater direto. Carlos contou depois que o técnico Mário Zagallo disse que achou que era uma tentativa impossível. O capitão Dunga também disse que era longe demais.
Mas, como o destino quis, o que veio depois entrou para a história do futebol como um dos gols mais impressionantes já registrados.
Carlos tomou distância, correu e acertou a bola com força absurda. Ela saiu alta, indo para fora da barreira, enquanto girava de forma quase inacreditável. Em um efeito visual que até hoje parece desafiar a lógica, a bola fez uma curva improvável, contornou a barreira francesa por fora e voltou em direção ao gol, morrendo no fundo da rede.
O goleiro Fabien Barthez ficou parado, sem reação, tão surpreso quanto todos os torcedores no estádio e ao redor do mundo.
A ciência por trás do impossível
O gol, um “banana kick” perfeito, foi tão impressionante que ultrapassou o universo do futebol e virou tema de discussão até entre cientistas e pesquisadores.
Um estudo publicado no New Journal of Physics em 2010 analisou as condições físicas necessárias para que uma cobrança daquele tipo fosse possível.
"Foi coisa do destino. Um gol para nunca ser esquecido.” - Roberto Carlos
Já em 2015, em uma análise do TED-Ed, o cientista Erez Garty descreve o lance como um exemplo clássico do chamado 'Efeito Magnus' - fenômeno identificado originalmente por Isaac Newton em 1670 - em que o giro de uma bola altera a pressão do ar ao seu redor, fazendo com que ela curve em direção à região de menor pressão.
Garty destaca ainda como esse tipo de cobrança é extremamente raro, justamente por depender de uma combinação muito precisa de fatores: “Curvar a bola com precisão suficiente para ela contornar a barreira e ainda voltar em direção ao gol é muito difícil. Se for alta demais, passa por cima; se for baixa demais, quica no chão antes de fazer a curva. Muito aberta, não chega ao gol; muito fechada, é interceptada pelos defensores. Lenta demais, a curva acontece cedo demais ou nem chega a acontecer; rápida demais, ela acontece tarde demais.” (TED-Ed)
Essa raridade também é reforçada pelo Dr. José Fernando Fontanari, professor do IFSC (Instituto de Física de São Carlos), que vê o lance como algo quase irrepetível: “Embora a física explique perfeitamente a trajetória da bola, as condições - como potência do chute, ponto de contato e distância do gol - são tão específicas que podemos chamar o gol de milagroso. Não acredito que veremos algo assim novamente.” (ESPN)
O próprio Roberto Carlos também costuma tratar o lance com certo mistério. Ao longo dos anos, já foi questionado inúmeras vezes sobre como conseguiu marcar aquele gol, mas sua resposta raramente muda - ele não sabe explicar: “As pessoas fazem pesquisas e análises, mas não tem explicação. Se nem eu, que chutei a bola, tenho como explicar, como alguém vai conseguir? Foi coisa do destino. Um gol para nunca ser esquecido.” (Umbro)
A arte das cobranças de falta
Apesar de esse gol seguir sendo o mais famoso do repertório de cobranças de falta de Roberto Carlos, ele está longe de ter sido o único. Ao longo da passagem pelo Real Madrid, ele continuou marcando gols de bola parada em jogos decisivos - como na goleada por 3 a 0 sobre o Barcelona em um clássico em fevereiro de 2000, contra o Bayern de Munique em uma partida da Liga dos Campeões quatro anos depois, e na final da Copa do Rei de março de 2004, na vitória do Real Zaragoza.
Já nos anos finais de carreira, distante do auge no Real Madrid, Carlos ainda seguia mostrando a mesma potência nas cobranças de falta. Um dos últimos exemplos veio em sua passagem pelo Anzhi Makhachkala, da Rússia: em setembro de 2011, aos 38 anos, marcou mais um dos seus gols de falta, contra o Volga Nizhny Novgorod, pela Premier Liga.
Pela Seleção Brasileira, também deixou sua marca em grande estilo: marcou um verdadeiro foguete de falta na fase de grupos da Copa do Mundo de 2002, contra a China - torneio que o Brasil acabaria conquistando. No mesmo ano, terminou em segundo lugar na disputa do Ballon d’Or, atrás apenas de Ronaldo.
Ao todo, em 128 jogos na Liga dos Campeões (incluindo fases preliminares), Roberto Carlos marcou 17 gols, sendo sete deles em cobranças de falta diretas.
Os números ofensivos impressionam ainda mais por se tratar de um defensor: foram mais de 100 gols na carreira, muitos deles em chutes de longa distância ou em faltas cobradas com precisão e força.
Ele mesmo já explicou várias vezes sua técnica: bater na parte mais dura da bola, perto da válvula; dar alguns passos de distância para ganhar potência; usar a parte externa do pé - os três dedos de fora - para gerar o efeito; manter foco total; e, acima de tudo, confiar que a bola vai entrar, mesmo em situações improváveis.
Outros nomes também ficaram marcados pelas cobranças de falta ao longo da história, como Cristiano Ronaldo, cinco vezes vencedor do Ballon d’Or, que o próprio Carlos costuma colocar como o segundo melhor cobrador de falta da história, atrás apenas dele.
O "canhão"
Mas esse domínio da técnica não é algo que se replica facilmente. Isso porque uma parte essencial do que tornava os chutes de longa distância de Roberto Carlos tão especiais era algo que não se treina: uma força praticamente fora do comum.
Pode parecer exagero, mas não há outra forma de descrever: as pernas de Roberto Carlos pareciam de outro nível.
Na época da Copa do Mundo de 2002, suas coxas chegaram a ser medidas em cerca de 60 centímetros de circunferência - um número comparável ao de Muhammad Ali no auge da carreira, com a diferença de que o boxeador media 1,93 m, enquanto Roberto Carlos media 1,68 m.
"Se eu via a academia, ia para o outro lado. Nunca gostei." - Roberto Carlos
Essa massa muscular impressionante ajudava a explicar a potência dos seus chutes, que podiam chegar a cerca de 170 km/h, segundo algumas estimativas e estudos sobre o tema.
A força nas pernas também se refletia na velocidade: tem registros que apontam que ele teria feito 100 metros em cerca de 10,6 segundos, o que ajudou a consolidar seu apelido na Espanha - “hombre bala”, o homem-bala.
Como já destacou José Luis San Martín, ex-preparador físico do Real Madrid que trabalhou no clube por 37 anos: “Ele tinha pernas de outro planeta. Pareciam as de um fisiculturista.” (Tribuna)
Essa potência permaneceu como uma marca registrada mesmo depois da aposentadoria. Em 2024, em um vídeo para o canal de YouTube 'Shoot for Love', Carlos chegou a quebrar 15 placas de isopor com apenas um chute na bola, mostrando que o impacto ainda impressiona.
Ainda assim, a rotina de treinos dele não era exatamente o que muitos imaginam.
Segundo o próprio jogador, academia nunca foi um ambiente querido: “Se eu via a academia, ia para o outro lado. Nunca gostei. Odeio academia.” (Desimpedidos)
Para ele, simplesmente nasceu com o dom das suas coxas monumentais: “É totalmente natural, coisa de família. Eu não treinava isso.” (Four Four Two)
A origem da força
Embora as pernas fortes possam até ter um componente hereditário, os anos de criança de Roberto Carlos também ajuda a entender como ele desenvolveu um físico tão potente, apesar da baixa estatura.
Na infância, Carlos passava horas no campo ajudando no trabalho do pai, empurrando e puxando equipamentos de fazenda pesados durante o dia. Quando não estava trabalhando, jogava futebol descalço, muitas vezes com uma bola improvisada, cheia de areia no lugar de ar.
Já na adolescência, quando entrou no União São João, a rotina era ainda mais puxada: trabalhava das 10h às 14h e depois seguia para os treinos, pedalando 13 km até Araras numa bicicleta herdada do avô - que era o único veículo da família até Carlos ter 20 anos. O trajeto levava em torno de 40 minutos. Depois do treino, fazia o mesmo caminho de bicicleta de volta para trabalhar mais, das 18h às 22h.
Muita gente vê essa fase como parte importante da construção da força que ele carregaria na carreira - um corpo acostumado desde cedo a esforço contínuo: pedalar longas distâncias, treinar, empurrar e puxar peso, chutar bolas cheias de areia. Suas pernas estavam perfeitamente preparadas para as exigências do futebol - subir e descer o campo sob o calor por 90 minutos, controlar bolas em alta velocidade e disparar para as redes com força total. Carlos acredita que esse poder só ficou mais evidente a partir do início dos anos 90, quando as bolas passaram a ser feitas com materiais mais sintéticos - superfícies mais lisas que as tornavam mais leves no contato com o pé.
Quanto à origem da sua força, porém, ele insiste que é simplesmente um dom natural, e não necessariamente resultado desse tipo de rotina: “Isso não ajudou no meu condicionamento físico. É só uma história para contar. Até atrapalhava, porque eu chegava cansado no treino.” (Desimpedidos)
Uma arma aperfeiçoada com o tempo
Mas apesar do cansaço que sentia nos treinos, Carlos se dedicava com uma disposição inabalável e levava seu corpo ao limite em cada sessão, ao longo de toda a carreira. Foi com essa mentalidade que aperfeiçoou a arte da finalização de longa distância.
Ainda nos tempos do União São João, ele treinou ao lado de Éder - o atacante que jogou pela seleção na Copa de 1982 e que também era celebrado pela potência impressionante dos seus chutes de longa distância.
Depois, nos primeiros anos com a Seleção Brasileira, Carlos era reserva do lateral-esquerdo Branco. Quando os treinos coletivos terminavam, os dois ficavam mais 30 ou 40 minutos no campo praticando cobranças de falta.
Essas experiências no início da carreira profissional acabaram sendo fundamentais para lapidar o que viria a ser uma das cobranças de falta mais poderosas e reconhecíveis da história do futebol.
Um legado que permanece
E foi assim que Roberto Carlos se tornou sinônimo de grandeza no futebol - acima de tudo, ficou marcado pelas cobranças de falta e pela combinação única de potência explosiva com precisão quase cirúrgica.
Nenhuma delas, porém, ficou mais gravada na memória do que aquele gol histórico contra a França, em 1997, revisto milhões de vezes por torcedores no mundo inteiro ao longo dos anos.
É um momento especial para todos os envolvidos - e em especial para o próprio Carlos. Consciente da natureza quase milagrosa daquele gol, ele fez questão de guardar tudo o que pudesse do momento, para sempre poder olhar para trás e lembrar do que suas pernas sobre-humanas foram capazes de fazer. Ele trata esse gol como algo valioso: “Tenho tudo desse gol. Tenho a chuteira, tenho a camisa… A bola só não tenho porque não me deram.” (Umbro)
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