Quarenta e dois gols pelo clube e uma participação histórica na Copa do Mundo renderam a Kylian Mbappé sua nona indicação consecutiva ao Ballon d’Or em 2026.
O entusiasmo e as expectativas
Desde muito jovem, esperavam-se grandes feitos de Kylian Mbappé - e foi exatamente isso que ele vem fazendo.
Neste verão, o atacante se tornou o primeiro jogador em meio século a alcançar dois dígitos em gols em uma Copa do Mundo, tornando-se também o maior artilheiro da história da França.
No futebol de clubes, foi eleito cinco vezes Jogador do Ano da Ligue 1 e terminou como artilheiro do campeonato em seis ocasiões. Pelo Real Madrid, marcou 89 gols em 105 jogos, incluindo três hat-tricks na Liga dos Campeões.
Desde 2017, ele aparece entre os dez primeiros do ranking do Ballon d’Or.
Sem dúvida, o garoto apaixonado por futebol, criado em um subúrbio ao norte de Paris, transformou em realidade o enorme potencial que todos já enxergavam - potencial que levou o Real Madrid a levá-lo de avião para seu centro de treinamento quando ele tinha apenas 11 anos, e o Chelsea a fazer o mesmo três anos depois.
Ao ver Mbappé pela primeira vez em Clairefontaine, o centro nacional de futebol da França, Arsène Wenger teria dito a quem estava por perto: "Temos o Pelé aqui".
Começa a construção
As qualidades do jovem eram tão impressionantes que parecia inevitável, tanto para os amigos de infância quanto para os treinadores, que ele teria sucesso no futebol profissional. Afinal, como poderia não ter, sendo tão talentoso?
Mas, claro, o futebol - e, na verdade, a vida - nunca é tão simples. Histórias de jovens prodígios celebrados desde cedo que acabam ficando pelo caminho ou atingindo rapidamente seu limite de desenvolvimento não são raras.
É, portanto, um enorme mérito da família Mbappé ter percebido desde cedo que talento, por si só, nunca seria suficiente para garantir o sucesso de Kylian.
Era preciso ter ego para lidar da melhor maneira possível com as enormes expectativas colocadas sobre ele. Ao mesmo tempo, também era necessária humildade para enfrentar a fama que se aproximava.
A motivação interior já estava presente desde o início, mas precisava ser canalizada da maneira certa, enquanto a força mental seria essencial para lidar com os obstáculos que certamente surgiriam em sua caminhada rumo ao estrelato.
Em essência, uma personalidade foi deliberadamente moldada para prepará-lo para a vida que o esperava - um processo ao qual Mbappé se referiu certa vez:
"Minha mãe sempre me disse que, antes de ser um grande jogador, tenho que ser um grande homem."
O ambiente certo
A primeira - e, sem dúvida, a mais importante - influência na formação do caráter de uma pessoa muitas vezes é justamente aquela sobre a qual ela tem menos controle.
Nesse sentido, Mbappé teve a sorte de crescer em um ambiente que lhe oferecia os meios e as oportunidades para desenvolver suas habilidades enquanto construía a mentalidade necessária para se tornar um atleta de elite.
O pequeno apartamento onde cresceu tinha vista para o estádio do AS Bondy, clube dos subúrbios de Paris onde seu pai, Wilfried, era treinador. Da janela da cozinha, era possível ver praticamente todo o campo.
Foi em Bondy que Mbappé começou sua jornada no futebol, jogando nas categorias de base enquanto se destacava pela precocidade. Mas, mesmo antes disso, não havia como mantê-lo longe daquele lugar.
Quando criança, ele assistia religiosamente aos treinos dos jogadores. Prestava atenção às instruções que o pai gritava à beira do campo. Absorvia tudo.
"Aprendi tudo ali", disse ele mais tarde.
A inspiração certa
Escolher nossos heróis nunca é uma decisão aleatória. Eles nos orientam e inspiram e, consciente ou inconscientemente, buscamos entender exatamente o que os torna especiais.
Os heróis de Mbappé na infância eram Cristiano Ronaldo e Zinedine Zidane, dois gigantes do futebol que o influenciaram de maneiras diferentes.
Existe uma foto famosa de Mbappé, aos seis anos, sentado na cama e cercado por inúmeros pôsteres de Ronaldo nas paredes. Naturalmente, nessa idade, o que mais impressionava era a capacidade extraordinária do português de marcar gols espetaculares e superar os adversários.
Mas o craque também fascinava o jovem Mbappé por sua dedicação em melhorar. Por sua motivação incansável e implacável.
Anos mais tarde, seu companheiro de equipe no Monaco, Bernardo Silva - ele próprio indicado ao Ballon d’Or -, elogiaria o profissionalismo de Mbappé, comparando-o a uma "obsessão".
Quanto a Zidane, um ícone da França muito além do futebol, Mbappé se identificava com sua individualidade e, sobretudo, com a coragem de expressá-la em campo, assumindo riscos.
Aos 11 anos, Mbappé foi ao barbeiro de seu bairro e pediu um "corte à Zidane". O barbeiro ficou confuso, já que o jogador usava o cabelo muito curto — assim como o garoto sentado à sua frente.
O que Mbappé queria dizer era a careca de Zidane. Ele também queria ficar careca para ser exatamente igual ao seu ídolo.
A mentalidade certa
Mbappé é conhecido como um jogador movido pela ambição, uma qualidade que tem sido fundamental para mantê-lo longe de concessões e de qualquer tendência a se contentar com o mínimo.
Essa ambição também o ajudou a permanecer totalmente focado em seu caminho até o topo. Em 2017, ainda adolescente, afirmou:
"Tenho um plano de carreira desde que me lembro. Sei o que quero fazer, para onde quero ir, e não vou deixar que nada me perturbe."
Alguns também já disseram que ele tem um grande ego, uma característica que pode ter conotações negativas em muitos aspectos da vida, mas não quando 83 mil torcedores enlouquecidos no Bernabéu estão exigindo algo espetacular.
Nesse contexto, a autoconfiança é essencial, tanto para se manter firme quanto para impulsionar Mbappé a alcançar feitos extraordinários.
O jogador já falou sobre as afirmações que usava para treinar sua mente e alimentar a autoestima necessária.
"Sempre que entro em campo, digo a mim mesmo que sou o melhor... porque assim você não impõe limites a si mesmo."
Ele já era assim nos tempos em que treinava em Bondy, insistindo com o pai para colocá-lo contra o melhor defensor disponível. Deve ter havido noites em que ele não queria aquilo - não de verdade -, mas, ainda assim, se obrigava a pedir o desafio.
A cada vez que fazia isso, colocava mais um tijolo na construção de uma mentalidade que garantiria que tudo o que viesse depois fosse encarado com naturalidade.
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