Em meados dos anos 1990, outdoors espalhados por todo o Reino Unido mostravam Eric Cantona com seu habitual ar enigmático diante de uma bandeira de São Jorge.

O slogan da campanha dizia que 1966 havia sido um grande ano para o futebol inglês, mas não pelo motivo óbvio: aquele foi o ano em que os Três Leões conquistaram seu único título de Copa do Mundo. A razão, na verdade, era outra: foi quando nasceu a futura estrela do Manchester United.

A ideia era uma maneira inteligente de fugir do convencional e teve um impacto cultural duradouro. Ao relembrá-la recentemente, surgiu uma reflexão: seguindo a mesma lógica, qual teria sido um grande ano para o Ballon d’Or?

Anos de excelência

Ao procurar anos marcantes na história do Ballon d’Or, vários candidatos aparecem - e 1955 certamente está entre eles.

Foi em junho daquele ano que nasceu o muito celebrado Michel Platini. Apenas três meses depois, em Lippstadt, na Alemanha Ocidental, veio ao mundo o prolífico Karl-Heinz Rummenigge.

Juntos, esses dois talentos extraordinários conquistaram cinco Ballon d’Or no início dos anos 1980.

Outro ano que merece destaque é 1945, quando nasceram mais dois gigantes do futebol alemão.

As incríveis façanhas de Gerd Müller diante do gol entraram para a história, enquanto Franz Beckenbauer não apenas ajudou a transformar a função de líbero: ele a dominou como poucos.

Müller conquistou o Ballon d’Or em 1970, depois de marcar dez gols na Copa do Mundo daquele verão. Já o incomparável Beckenbauer levou o prestigioso prêmio em 1972 e 1976.

Ainda assim, ao revisitar a ilustre lista de vencedores do Ballon d’Or, um ano em particular se destaca: aquele que produziu nada menos que quatro campeões.

Então, em homenagem àquela famosa campanha publicitária - cujo cartaz original hoje faz parte do acervo do Victoria and Albert Museum -, podemos dizer o seguinte...

1972 foi um grande ano para o Ballon d’Or. Foi quando nasceram Zinedine Zidane, Rivaldo, Figo e Pavel Nedvěd.

Zinedine Zidane - O mágico de uma geração

Havia pouca dúvida sobre quem venceria o Ballon d’Or de 1998. Antes da cerimônia, a principal discussão era sobre o tamanho da vantagem que o gênio francês conseguiria abrir.

No fim, a vitória foi incontestável: Zinedine Zidane conquistou 31,9% do total de votos.

Quatro meses antes, o meia havia comandado a França rumo ao primeiro título de Copa do Mundo de sua história, marcando dois gols na final. Pela Juventus, sua capacidade de criar oportunidades para Alessandro Del Piero e outros companheiros havia contribuído para a conquista da Serie A, além de uma vaga na final da Liga dos Campeões.

Em um nível mais difícil de medir, "Zizou" era também, sem dúvida, um talento geracional, no auge de suas capacidades e plenamente merecedor daquele reconhecimento.

Nascido em 23 de junho de 1972, em La Castellane, uma região pobre e difícil de Marselha, o filho de imigrantes argelinos teve uma origem humilde, mas acabou alcançando a grandeza.

Rivaldo - O artista nato

O vencedor do Ballon d’Or de 1999 tinha apenas nove semanas de vida quando Zidane nasceu. E o brasileiro era tão naturalmente habilidoso que, presumivelmente, já seria capaz de fazer algumas de suas mágicas com a bola ainda no berço.

Assim como seu colega francês, Rivaldo cresceu na pobreza, criado em uma favela de Recife. A desnutrição durante a infância fez com que tivesse as pernas arqueadas e, aos 16 anos, ele quase deixou de conseguir um contrato profissional, depois que treinadores do Paulistano o consideraram fisicamente fraco demais para ter sucesso no futebol.

Essas dúvidas surgiram em 1989. Uma década depois, porém, Rivaldo recebeu a maior honraria individual do futebol, depois de marcar 24 gols na La Liga pelo Barcelona e ajudar o clube a conquistar o título espanhol.

E alguns desses gols foram, no mínimo, verdadeiras obras de arte.

Luís Figo - O alquimista determinado

Em novembro de 2000, o criativo português se tornou o primeiro jogador do Real Madrid a conquistar um Ballon d’Or desde Alfredo Di Stéfano. Mas, curiosamente, boa parte da alquimia que o colocou no centro das atenções havia sido construída em seu grande rival, o Barcelona, na temporada anterior.

Em sua última temporada na Catalunha, Figo registrou 39 participações em gols, um número impressionante que incluía 10 assistências na Liga dos Campeões.

Além das manchetes frenéticas e da rivalidade que cercaram sua transferência para o outro lado da Espanha, o ponta continuou encantando pelo novo clube e o levou ao título da La Liga pouco tempo depois.

Nascido no inverno de 1972, em Almada, perto de Lisboa, Figo também teve papel fundamental na campanha que levou Portugal às semifinais da Eurocopa naquele verão.

Pavel Nedvěd - O mestre de sua arte

Apelidado de "Furia Ceca" (Fúria Tcheca) pelos torcedores da Juventus, Nedvěd foi o mais velho da geração de 1972 a conquistar um Ballon d’Or. Ele recebeu o prêmio aos 31 anos, em 2003.

A essa altura, o meia já havia se consolidado como um dos melhores em sua posição. Suas corridas incansáveis e sua criatividade ajudaram a Lazio a alcançar um período de sucesso sem precedentes em meados e no fim dos anos 1990.

Uma transferência milionária para Turim no verão de 2001 - justamente para substituir Zidane, que havia deixado o clube - levou seu futebol a um nível ainda mais alto. Isso ficou especialmente evidente em sua segunda temporada, quando passou dez meses exibindo um nível de excelência constante e absoluto.

Muitos torcedores da Juve acreditam que o clube teria vencido a final da Liga dos Campeões de 2003 se seu principal jogador não tivesse sido suspenso para aquela partida.