Na sua sexta temporada no Barcelona, Pedri deixou para trás os problemas físicos e voltou a se firmar como peça-chave no meio-campo do time. Em entrevista exclusiva à France Football, o espanhol analisa o grande momento da equipe na temporada 2025-26 sob o comando de Hansi Flick e aponta como principal objetivo chegar à final da Liga dos Campeões.

Além disso, o meio-campista comenta a situação atual do clube, o impacto de La Masia e o bom ambiente dentro do elenco. Pedri também fala sobre a reconstrução do time após a saída de Lionel Messi, a retomada do estilo de jogo característico do Barça e a sequência recente de vitórias nos Clássicos contra o Real Madrid.

No plano internacional e pessoal, o jogador reflete sobre a conquista da Euro 2024 com a Espanha e analisa as possibilidades da seleção para a copa do mundo de 2026. Por fim, inspirado pelo prêmio conquistado pelo seu compatriota Rodri, Pedri destaca a importância atual dos meio-campistas e não esconde sua maior ambição individual: um dia levantar o Ballon d'Or.

O momento do Barça e o seu papel na equipe

Qual é o objetivo do Barcelona na temporada 2025-26?

Nesta temporada, vamos dar tudo para fazer ainda melhor do que na anterior. O objetivo é claro: chegar à final da Liga dos Campeões (em Budapeste, no dia 30 de maio de 2026). Pessoalmente, estou me sentindo muito bem, encontrei a continuidade que vinha buscando. O treinador, Hansi Flick, me deu confiança, e isso para mim é essencial para conseguir dar o meu melhor.

Pode falar sobre o Hansi Flick e a influência dele?

Eu vinha de um período difícil, com várias lesões, mas ele apostou em mim e me incentivou a manter a confiança. Ter um treinador que acredita totalmente em você ajuda a ficar tranquilo e simplesmente curtir a vida como jogador. De fora, o Hansi Flick parece um técnico bem sério e direto - e às vezes ele é mesmo. Mas, na verdade, ele é como um pai para a gente, sempre atento ao que precisamos. Ele conseguiu trazer uma mudança real para o grupo, com uma mentalidade vencedora e essa vontade constante de dar tudo em todos os momentos.

Vocês têm um elenco jovem com alguns veteranos. Como é esse vestiário?

Essa mistura de gerações funciona muito bem. Tem muitos jovens, a gente se diverte bastante, brinca o tempo todo. As brincadeiras entre o Robert (Lewandowski, 37 anos) e o Lamine (Yamal, 18 anos). Isso acontece todos os dias. O Robert é mais sério nos treinos, enquanto o Lamine gosta de provocar ele, sempre de forma leve. Tem muita risada, mas os mais experientes também sabem colocar ordem quando precisa e chamar a atenção. Quando é hora de focar, todo mundo leva a sério. Essa mistura de juventude e experiência é muito boa para o time.

Que papel você tem dentro do grupo?

Quando precisa ser sério, normalmente eu sou um dos primeiros. Gosto de treinar e trabalhar duro, porque sei que isso faz diferença no longo prazo. Mas, claro, na hora da brincadeira, também estou dentro! Dou muita risada com o Lamine, o Gavi (vencedor do Troféu Kopa em 2022), o Ferran Torres e com todo mundo.

Você não pintou o cabelo de loiro como Gavi, Lewandowski, Lamine Yamal e Szczesny…

(Risos) Não, não… isso eu deixo para eles, fica melhor neles do que em mim.

A adaptação depois da saída de Lionel Messi

Parecem um grupo muito mais forte e unido do que no início, na última temporada do Messi em 2020-2021. Como você lidou com a saída dele?

A saída do Leo (para o PSG) foi muito dura para o clube, principalmente porque ninguém esperava. Quando fiquei sabendo, eu estava no Japão para os Jogos Olímpicos e, sinceramente, foi difícil de acreditar. Assimilar que ele não estaria mais com a gente foi um choque, porque o Leo tinha essa capacidade de ganhar jogos praticamente sozinho, e isso mudava tudo.

Que lembranças você guarda dele?

Quando eu estava com a bola e dois ou três jogadores vinham me pressionar, eu sempre procurava passar para ele. Porque era óbvio que ele faria melhor do que eu. Nos treinos, ele fazia coisas incríveis, quase irreais, que só nós, companheiros de equipe, tínhamos a sorte de ver. Era absurdo!

Depois disso, o Barcelona perdeu parte da sua força. Queda de nível no elenco, dificuldade até na Liga Europa… Você chegou a pensar em sair?

Não, nunca, porque jogar aqui é o meu sonho desde criança. Quando um jogador desse nível sai, é normal ter uma ou duas temporadas mais complicadas, é preciso tempo para se adaptar. Passamos por momentos difíceis, e me doía não poder jogar a Liga dos Campeões. Mas conseguimos nos reconstruir. Montamos um novo grupo, fomos nos conhecendo cada vez melhor e surgiram jovens talentos capazes de fazer a diferença. Hoje somos uma grande equipe. Tenho certeza de que vamos alcançar um nível incrível.

A boa fase nos Clássicos contra o Real Madrid

Em 2025, vocês venceram os quatro Clássicos e recuperaram a vantagem sobre o Real Madrid, que, nesse meio tempo, ganhou mais duas Ligas dos Campeões. Dá um gostinho especial?

Depois de um período em que a gente tinha dificuldade para ganhar do Real, emendar quatro vitórias (4-0 e 4-3 na Liga; 5-2 na Supercopa da Espanha) é motivo de muito orgulho. Conseguimos isso jogando um futebol bonito, curtindo dentro de campo. Esses Clássicos são muito importantes, principalmente para os torcedores. Eles adoram quando a gente ganha - sabem que no dia seguinte podem zoar os madridistas!

Como são os duelos com Jude Bellingham, seu rival direto?

O Jude é realmente impressionante. Ele mistura força física com qualidade técnica, o que torna muito difícil de marcar. Nesses últimos quatro Clássicos, conseguimos controlá-lo bem e, principalmente, dominar o jogo, o que é essencial para nós. A gente gosta de ditar o ritmo, ficar com a bola, em vez de deixar o Jude, o Vinícius ou o Mbappé tomarem a iniciativa. É assim que a gente joga melhor e se sente mais confortável. Essa rivalidade é um grande desafio, faz a gente evoluir.

Na sua opinião, quem é o melhor jogador do Real Madrid?

O Real tem muitos jogadores de altíssimo nível. Quando o Kylian [Mbappé] pega a bola e fica no um contra um, é muito difícil de parar.

A importância de La Masia no Barça

Com você, Dani Olmo ou Fermín López como “10”, Frenkie de Jong, Gavi, Marc Casadó... como o meio-campo do Barça voltou a um nível tão alto?

Cada um sabe exatamente o que precisa fazer no seu papel. Desde o começo, a gente se entendeu muito bem. Como todos compartilham o mesmo estilo de jogo, o do Barça, a conexão aconteceu de forma natural. A sequência de jogos também ajudou a fortalecer esse entrosamento. Em campo, é fácil se encontrar. Claro, ainda não estamos no nível de Xavi, Iniesta, Busquets... Espero que um dia a gente chegue lá, porque eles fizeram muito pelo clube e pela seleção. A gente tenta seguir o exemplo deles.

O Barça voltou a ser o Barça graças, em parte, ao surgimento de talentos de La Masia. O que esses jogadores têm de especial?

Esses jogadores chegaram ao Barça ainda crianças e já carregam essa filosofia dentro deles. Aqui, o estilo de jogo ensinado desde as categorias de base é muito parecido com o da equipe principal. Então, quando os jovens sobem, já vêm prontos. Todo mundo fala do Lamine, mas também tem o Pau Cubarsí, o Fermín López... Vários jovens subiram nas últimas temporadas e o nível deles é impressionante, ajudaram muito a equipe. Além da qualidade técnica, mostram uma preparação física e mental excelente. São apaixonados pelo clube e dão tudo pelo time dos sonhos.

O renascimento de Pedri

Essa juventude precisa ser protegida. Você mesmo teve uma primeira temporada muito pesada (52 jogos pelo clube em 2020-2021), que acabou resultando em uma sequência de lesões musculares por três anos...

São períodos difíceis de atravessar. Não dá para saber exatamente as causas. O futebol é um esporte exigente, muitas vezes duro para o corpo. Não existe uma fórmula mágica. Uma lesão pode acontecer por qualquer motivo, até quando você está no seu melhor momento. A minha última lesão, no Euro com a seleção (logo no começo das quartas de final contra a Alemanha, 2-1 depois da prorrogação), foi um momento bem complicado. Eu vinha de uma sequência boa de jogos, me sentia bem fisicamente, e aí levei aquela pancada (do Toni Kroos). É azar, algo que não dá para controlar. Claro que, nesses momentos, você pensa: “Por que isso está acontecendo de novo? O que posso mudar, melhorar?”. Mas consegui manter a calma, porque sabia que não era falta de trabalho e que o verão me permitiria voltar 100%.

Na temporada passada você voltou a ter sequência de jogos (69, entre clube e seleção). Sentiu isso como um renascimento?

Não sei se usaria essa palavra, mas estou muito feliz por ter recuperado esse ritmo. Meu jogo não mudou tanto, mas o meu corpo evoluiu. Encontrei uma rotina de treino na academia que funciona melhor para mim. O importante é que esse período ficou para trás. Agora, só quero aproveitar essa continuidade, porque, no fim das contas, o que todo jogador quer é estar o máximo de tempo possível em campo.

Em que o Pedri de hoje é diferente daquele de quatro anos atrás? Sua mãe diz que agora você joga como um veterano...

Com o tempo e a experiência, você entende melhor o posicionamento de todo mundo, enxerga melhor o jogo, e isso te faz evoluir. Muitos erros que eu cometia quando era mais novo vinham da vontade de fazer demais: não saber quando acelerar, quando segurar, quando dar o passe no momento certo... Tudo isso você aprende jogando, vivendo as situações. É isso que o futebol te dá com os anos.

Pode parecer surpreendente, mas você também é um dos jogadores que mais recupera bolas por jogo na Europa. Como explica essa evolução? O Gavi te deu alguma dica?

O Gavi nem precisa dar dica, é só ver ele treinando para entender como defende e o quanto se entrega em tudo o que faz. O nosso posicionamento mais avançado também me ajuda a recuperar mais bolas. Muitas vezes sou eu que recupero, mas isso é resultado do trabalho de toda a equipe.

Pedri e o sonho de ganhar o Ballon d’Or

Depois dessa temporada de destaque (7 gols, 10 assistências), onde você se coloca entre os melhores meio-campistas do mundo?

Não cabe a mim dizer quem é o melhor. Tem gente mais preparada para julgar isso, principalmente quem vota nos prêmios individuais. É verdade que estão falando bastante de mim e do Vitinha ultimamente. No fim, é o público que decide, cada um tem a sua opinião. O certo é que tanto ele quanto eu fizemos uma grande temporada.

Ao ganhar o Ballon d'Or no ano passado, seu compatriota Rodri mostrou que esse prêmio também é possível para jogadores com o seu perfil. Você sonha em chegar lá?

Durante muito tempo, esse prêmio era dado principalmente para atacantes. A vitória do Rodri mostra que o papel do meio-campista está sendo valorizado como merece, porque o futebol passa muito pelo meio-campo. Quando um time domina essa área, fica mais fácil ganhar os jogos. Então sim, por que não sonhar em ganhar o Ballon d'Or ao longo da minha carreira? Para isso, o mais importante é, antes de tudo, fazer uma grande temporada coletiva.

Como joga Pedri: análise do seu estilo de jogo

Fale um pouco da sua conexão com Lamine Yamal e Raphinha em campo. Estamos errados ao dizer que você dita o ritmo da equipe e eles criam o desequilíbrio?

Não, faz sentido. Eu tento trazer calma para o jogo. Temos jogadores muito talentosos na frente, então a ideia é aproveitar isso ao máximo, dando a eles as melhores bolas possíveis. O Lamine e o Raphinha gostam muito do um contra um e, mesmo que nem sempre seja fácil, tentamos dar o espaço necessário para que eles mostrem o talento. O Raphinha, por exemplo, se movimenta muito bem para encontrar espaços, e a gente se entende bem em campo. Ele é um jogador incrível, muito eficiente (38 gols, 24 assistências em 2024-2025), e a gente sempre tenta explorar essa conexão ao máximo. Fora de campo também nos damos muito bem - ele vive me chamando de Pedrinho. (Risos).

Dá a impressão de que você é um jogador mais “raiz”, um criador que não depende tanto da velocidade com a bola, mas que pensa e executa muito rápido, no estilo Zidane, Riquelme, Pirlo...

É verdade que eu não tenho o físico de alguns jogadores mais fortes. Então preciso compensar de outras formas. Tento pensar mais rápido do que os outros, estar sempre um passo à frente. Compenso a falta de força com inteligência de jogo. Isso tem muito a ver com a minha trajetória. A maioria dos jogadores de hoje passou por grandes centros de formação. Eu comecei de outra forma, vendo o Barça na casa dos meus pais e jogando no clube da minha cidade. Aprendi muito com esse futebol mais de rua, mais instintivo, onde se joga por prazer. É isso que faz com que, em campo, eu jogue com naturalidade, porque vem desde a infância.

Um pouco como os sul-americanos?

Exatamente, principalmente os brasileiros. A gente sempre ouve falar desses jogadores que cresceram jogando nas favelas, em campos improvisados, só pelo prazer de jogar. Nas Ilhas Canárias é parecido: a gente joga em qualquer lugar, improvisa, cria metas, joga com os amigos. É essa paixão e esse instinto que fazem a gente evoluir. Na minha posição, encontrar o passe perfeito também vem muito do instinto, como se fosse uma visão natural que te faz enxergar o espaço livre.

Pedri, empolgado com a Copa do Mundo de 2026

Como você viveu a conquista do Euro 2024, mesmo ficando de fora a partir das quartas de final? A frustração diminuiu a alegria?

Claro que eu teria preferido estar em campo para aproveitar ao máximo. Tive que viver aquilo de outra forma, de fora. Foi a primeira vez que ganhei um título sem jogar, mas consegui lidar bem com isso. Meus companheiros sempre perguntavam como eu estava, e isso me ajudou muito. Talvez eu tenha sofrido mais emocionalmente do que fisicamente, na verdade. O mais importante é que a gente ganhou. Eu estava lá, nas arquibancadas, com o joelho esquerdo enfaixado. O fisioterapeuta tinha pedido para eu ficar tranquilo, não pular muito para não piorar a lesão. Mas, sinceramente, era impossível não ficar feliz, não comemorar com eles. Foi um momento incrível.

A Espanha será uma das favoritas para a Copa do Mundo de 2026. Em que essa seleção ainda pode melhorar para buscar a segunda estrela, depois da de 2010 na África do Sul?

Mostramos coisas muito boas nos últimos torneios (título no Euro 2024, semifinal em 2021; vitória na Liga das Nações em 2023, finais em 2021 e 2025; oitavas de final na Copa de 2022), então é normal estarmos entre os favoritos para 2026. Mesmo assim, ainda temos muito a evoluir. Vai depender dos jogadores que chegarem, de como a equipe vai evoluir como coletivo... Ganhar uma copa do mundo é algo muito difícil, é um caminho longo. Mas por que não? Temos um time jovem, com muito talento, e acredito que vamos continuar evoluindo. Levantar esse troféu, o maior de todos, é o sonho de qualquer criança que joga futebol. E, claro, também é o meu.

Para terminar, onde você se vê daqui a 10 anos? Com uma Copa do Mundo e um Ballon d'Or?

Claro que eu gostaria de ter os dois! Dá para sonhar, né? Mas, acima de tudo, espero estar com saúde, perto da minha família e feliz, aproveitando ao máximo o futebol.