O prêmio que leva o nome de Sócrates

O Prêmio Sócrates foi criado na cerimônia do Ballon d'Or em 2022. Entregue pela France Football, em parceria com a Peace and Sport, o prêmio reconhece o melhor trabalho humanitário realizado por um jogador de futebol em todo o mundo durante o ano anterior.

O nome é uma homenagem a um dos jogadores brasileiros mais famosos de todos os tempos, que, ao longo da carreira, ficou conhecido não apenas pela excelência em campo, mas também por usar sua influência e seus recursos para gerar um impacto positivo dentro e fora do futebol.

Mas quem foi Sócrates e por que o prêmio leva o nome dele?

Vamos descobrir.

A infância que moldou Sócrates

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira nasceu em 19 de fevereiro de 1954, em Belém, cidade do norte do Brasil, no estado do Pará.

Seu pai, Raimundo, nasceu em uma família pobre do Ceará e se mudou para Belém em busca de emprego. Além de trabalhar incansavelmente para sustentar a família, Raimundo era um leitor voraz. Nas palavras do próprio Sócrates: "Meu pai devorava livros. Era um sebo ambulante." (Grandes Momentos do Esporte - TV Cultura)

No ano em que Sócrates nasceu, seu pai prestou um concurso para um cargo público muito concorrido. Era a posição mais bem paga da federação na época, mas o concurso era realizado apenas uma vez a cada dez anos. Em 1954, havia somente 33 vagas em todo o país.

Raimundo, que enfrentava as dificuldades da vida em uma família pobre, passou. Trabalhava durante o dia para ajudar a sustentar a família e, à noite, voltava para casa e estudava sozinho o máximo que conseguia.

Em 1960, quando Sócrates tinha apenas seis anos, Raimundo foi transferido para o sul do país, e a família se mudou para Ribeirão Preto, no estado de São Paulo.

“Era como se eu tivesse passado boa parte dos meus primeiros anos de vida dentro de uma biblioteca." - Sócrates

O salário de Raimundo permitiu que Sócrates estudasse na melhor escola da cidade e também ajudou a montar uma pequena biblioteca na casa da família. Mais uma vez, os livros e o conhecimento tiveram um papel central na infância de Sócrates: "A imagem que eu tenho da minha infância, desde muito cedo, era a de uma biblioteca. Era como se eu tivesse passado boa parte dos meus primeiros anos de vida dentro de uma biblioteca." (Grandes Momentos do Esporte - TV Cultura)

A convivência com as dificuldades enfrentadas pelo pai teve um grande impacto na visão de mundo de Sócrates. Ele lembra, em especial, como foi marcante conhecer a realidade humilde da família paterna e acompanhar a trajetória do pai, que construiu uma carreira admirável e manteve uma relação próxima com os livros: "Essa experiência de ter convivido com a realidade da família do meu pai foi extremamente interessante para mim. Na primeira vez que fui para lá, por exemplo, meu pai colocou água encanada na casa do meu avô. Na segunda vez que fomos, ele colocou energia elétrica. Para quem morava aqui no Sul, aquilo era absurdo. Não dava para imaginar que alguém pudesse viver sem energia elétrica ou água encanada. Foi um choque de realidade brasileira. Isso, de alguma forma, obviamente, fez parte da minha formação." (Grandes Momentos do Esporte - TV Cultura)

O choque da ditadura

Mas o episódio que mais o marcou quando ainda era tão jovem aconteceu quando ele tinha 10 anos.

Em março de 1964, Sócrates flagrou o pai, sempre tão apaixonado por livros e tão falante a respeito deles, queimando os próprios exemplares. O motivo era o golpe de Estado que estava prestes a acontecer no Brasil e que instauraria uma ditadura militar no país, regime que duraria mais de duas décadas.

Sabendo que o novo regime imporia censura e perseguiria dissidentes, o pai não perdeu tempo e se desfez de alguns de seus bens mais queridos para proteger o emprego e a família.

"A partir do momento em que comecei a ter noção e capacidade de entender tudo aquilo que estava sendo mostrado historicamente, comecei a correr atrás de muito mais coisa." - Sócrates

Sócrates lembra do impacto de ter presenciado aquela cena: "A imagem que eu tinha era a de um cara que adorava livros queimando livros. Aquilo foi chocante para mim. Realmente chocante. Eu não entendi por que e ele não explicou. [...] Depois, fui atrás daquela literatura. O que era aquilo? Comecei a incomodá-lo. Fui atrás, tentando entender. Mesmo sem compreender muito o conteúdo de tudo aquilo, foi algo que ficou marcado em mim. A partir do momento em que comecei a ter noção e capacidade de entender tudo aquilo que estava sendo mostrado historicamente, comecei a correr atrás de muito mais coisa." (Grandes Momentos do Esporte - TV Cultura)

Do futebol à medicina

Foi em Ribeirão Preto que Sócrates começou a jogar futebol.

“Conviver com a realidade foi uma experiência que o futebol me proporcionou." - Sócrates

Por meio do jogo, suas convicções ideológicas, centradas na igualdade e na democracia, continuaram se desenvolvendo: "O futebol é muito democrático. Desde garoto, eu estava envolvido com esse jogo, mesmo sem nunca ter pensado em me tornar profissional. Então, convivia com pessoas de situações sociais e níveis educacionais completamente diferentes. Você está ao lado da realidade. Conviver com a realidade foi uma experiência que o futebol me proporcionou." (Grandes Momentos do Esporte - TV Cultura)

Alto e forte, Sócrates logo mostrou que era um meio-campista elegante e tecnicamente talentoso.

Ao mesmo tempo, assim como o pai, continuava dedicado aos estudos fora de campo.

Com talento em duas áreas diferentes, Sócrates precisou encontrar uma forma de conciliá-las.

Sua carreira no futebol começou no Botafogo-SP, que fez um acordo para que ele pudesse faltar a alguns treinos e continuar estudando. Nesse período, ele se formou em medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).

Depois de se formar, em 1977, Sócrates recebeu uma proposta do Botafogo-SP com um salário muito maior do que ganharia como médico e decidiu seguir carreira no futebol.

“O futebol apareceu na minha vida como uma oportunidade e, com a sequência da atividade esportiva, acabou se tornando tão importante quanto os estudos.” - Sócrates

Ao longo da carreira, porém, ele sempre ressaltou que a decisão foi principalmente uma questão prática e que sua verdadeira paixão continuava sendo a medicina e a busca por conhecimento: “Meu sonho sempre foi ser médico. Fiz tudo na vida para conseguir me formar. O futebol apareceu na minha vida como uma oportunidade e, com a sequência da atividade esportiva, acabou se tornando tão importante quanto os estudos. Então, depois, resolvi prolongar isso por mais algum tempo, porque o futebol é um espaço delimitado na minha vida. Ainda não está totalmente delimitado, mas é. A medicina, realmente, é a minha vida.” (TV Bandeirantes)

De qualquer forma, Sócrates se destacou pelo Botafogo-SP, marcando 67 gols em 172 partidas antes de se transferir, em 1978, para o Corinthians, um clube de maior expressão, sediado na capital paulista.

Sócrates chega ao Corinthians

Foi no Corinthians que o legado de Sócrates como uma figura marcante se consolidou, dentro e fora do futebol.

Em campo, passou seis anos no clube, marcou 150 gols em 269 partidas e conquistou três títulos do Campeonato Paulista.

Fora dele, seu impacto foi ainda maior.

O nascimento da Democracia Corinthiana

Depois de um mau desempenho no Campeonato Brasileiro de 1981, o Corinthians percebeu que precisava se renovar. O presidente Vicente Matheus deixou o cargo e foi substituído por Waldemar Pires, que passou a ampliar o diálogo com os jogadores. Pires nomeou Adilson Monteiro Alves, um sociólogo, como diretor de futebol do clube.

Com essa mudança, uma revolução começou a tomar forma dentro do Corinthians.

Alves priorizava ouvir os jogadores e os demais funcionários do clube.

Ao mesmo tempo, alguns jogadores do elenco, politicamente ativos e com forte consciência social, se tornaram líderes simbólicos do grupo: Wladimir, Casagrande, Zenon e, claro, Sócrates.

(Presse Sports)

Futebol e política: a luta pela democracia

Foi assim que nasceu a famosa "Democracia Corinthiana", o maior movimento ideológico da história do futebol brasileiro e um dos maiores da história do futebol mundial.

Um dos pilares do movimento era a defesa dos direitos dos jogadores. 

Ao longo da carreira, Sócrates defendeu a importância desses direitos, sem deixar de reconhecer a posição privilegiada que os jogadores ocupavam na sociedade brasileira. Em uma entrevista nos anos 1980, ele explicou essa visão: "Estou ganhando muito, um absurdo em relação à realidade do povo brasileiro. Mas acho pouco em relação ao que eu produzo e ao consumo que o povo faz de mim. Porque nós somos mecanismos de ação em relação às pessoas que nos consomem." (Globo Esporte)

Sócrates detestava a ideia de o jogador ser apenas um meio para um fim, um burro de carga contratado para executar tarefas sem parar. Com o apoio de Pires e Alves, ele buscava dar voz aos jogadores e a todos os outros funcionários do clube.

Assim, todos os jogadores e funcionários do Corinthians passaram a participar das decisões do clube, dando suas opiniões e ajudando a definir questões como contratações, horários e regras da concentração. Cada tema era decidido por votação, com o mesmo peso para todos: o voto do técnico valia tanto quanto o de um jogador ou do roupeiro.

Essa autogestão e auto-organização de um time era revolucionária no futebol da época e rompia com a estrutura hierárquica rígida e extremamente tradicional que existia no clube.

Diante do cenário do Brasil naquele momento, marcado pela ditadura militar, o movimento, sem precedentes, também passou a repercutir fora do futebol e na sociedade como um todo. 

De várias maneiras, o sistema democrático de votação que passou a fazer parte da identidade do clube representava o mesmo tipo de sistema que a maioria dos brasileiros queria ver de volta no país.

Sócrates e outros integrantes do clube fizeram questão de deixar isso claro.

Em uma época em que movimentos sociais se mobilizavam pela redemocratização do país, os jogadores entravam em campo com camisas estampando ‘Democracia Corinthiana’ e outros slogans políticos, como ‘Diretas Já’, que defendia a realização de eleições diretas para presidente.

Para o desgosto da ditadura, que ameaçou tomar providências e intervir, o clube se recusou a mudar de postura, e suas mensagens ganharam ainda mais alcance e reconhecimento graças aos bons resultados do time dentro de campo naquele período, com os títulos estaduais de 1982 e 1983.

Na final do segundo título, contra o São Paulo no estádio do Morumbi, os jogadores do Corinthians entraram em campo com uma faixa que dizia: ‘Ganhar ou perder, mas sempre com democracia’.

Mensagens como essa eram especialmente corajosas diante do contexto do regime, que restringia a liberdade de expressão e perseguia a oposição política não apenas com censura, mas também com exílio, tortura e assassinatos de dissidentes.

Mesmo assim, o movimento seguiu em frente.

O marketing, conduzido em grande parte pelo recém-contratado publicitário Washington Olivetto, foi muito eficiente nesse período, ajudando a quitar as dívidas do clube e a projetar o Corinthians para além das fronteiras do país. Seu sistema revolucionário continua sendo estudado por acadêmicos do mundo inteiro até hoje.

Isso também ajudou a levar ao mundo informações sobre a ditadura no Brasil.

O fim da Democracia Corinthiana

A força do movimento começou a diminuir em 1984, quando uma de suas principais figuras, Casagrande, assinou com o São Paulo.

Sócrates, que continuou sendo o porta-voz mais ativo do movimento durante todo esse período, também acabou saindo, mas não sem lutar.

Na época, tramitava uma proposta de mudança na legislação brasileira, a Emenda Dante de Oliveira, que buscava restabelecer as eleições diretas para presidente. Sócrates havia declarado que só deixaria o Corinthians para jogar no exterior se a emenda não fosse aprovada. Mas, embora tenha recebido apoio da maioria da população, a proposta acabou rejeitada em uma votação no Congresso.

Em resposta, Sócrates cumpriu a palavra e partiu para a Europa, onde assinou com a Fiorentina, na Itália.

Pouco depois, Alves foi derrotado nas eleições do clube em 1985, o que marcou o fim do período da Democracia Corinthiana.

1985 também foi o ano em que a ditadura militar brasileira chegou ao fim. Alguns anos depois, em 1988, uma nova Constituição democrática consolidou a transição e, em 1989, os brasileiros voltaram a eleger diretamente o presidente pela primeira vez desde 1960.

"Esse é meu país, esse é meu povo.” - Sócrates

Mas, embora tenha ido para a Europa, Sócrates não se adaptou e logo quis voltar para o Brasil - um país cheio de problemas, mas que ele tanto amava: "Esse é meu país, esse é meu povo. É aqui que eu tenho que lutar para que ele se aproxime daquilo que considero mais justo e dê mais oportunidades a um número maior de pessoas." (Grandes Momentos do Esporte - TV Cultura)

O legado de Sócrates dentro e fora do futebol

Esse amor complexo pelo Brasil talvez seja simbolizado pelo importante papel que desempenhou na Seleção nos anos 1980, com 22 gols em 60 jogos.

Também fica evidente no fato de ter voltado ao futebol brasileiro depois de passar apenas um ano na Itália. 

Embora nunca mais tenha jogado pelo Corinthians, passou rapidamente por Flamengo e Santos, além de retornar ao Botafogo-SP, antes de se aposentar em 1989. Depois, treinou alguns times nos anos 1990, até voltar de forma inesperada aos gramados em 2004 para jogar pelo Garforth Town, então na décima divisão do futebol inglês, antes de pendurar as chuteiras de vez.

Ele morreu aos 57 anos, em 4 de dezembro de 2011. No mesmo dia, o Corinthians enfrentou o arquirrival Palmeiras. A torcida do Timão levantou cartazes em homenagem ao lendário "Doutor" e fez um minuto de silêncio em sua memória. O jogo terminou em um empate sem gols, que garantiu ao Corinthians o primeiro título brasileiro em seis anos.

A conquista pareceu quase profética.

O legado de Sócrates no Ballon d'Or

Muito depois do auge da carreira, Sócrates continuou sendo um defensor ativo da mudança social e dos direitos humanos, além de defender transformações profundas no esporte que conhecemos e amamos, entendendo que as duas áreas estão totalmente interligadas, principalmente no tecido da sociedade brasileira. 

“Nós precisamos acelerar o processo de transformação do nosso país e, para isso, precisamos de jogadores de futebol." - Sócrates

Em 2001, já perto dos 50 anos, ele declarou em uma entrevista: "Eu quero ser um agente transformador do esporte nacional, principalmente na valorização do artista. Na valorização do indivíduo que gera o espetáculo. Porque é inadmissível que essas estruturas continuem estimulando essas pessoas a permanecerem pequenas, ignorantes, desinformadas, aculturadas e com medo. Acho que nós temos que criar uma nova geração de artistas do futebol, porque, infelizmente, o nosso país depende muito disso. Nossas referências hoje, quase exclusivamente, são jogadores de futebol. [...] Nós precisamos acelerar o processo de transformação do nosso país e, para isso, precisamos de jogadores de futebol." (TV Cultura)

Assim como Sócrates sempre reconheceu a importância dos jogadores na sociedade e o papel que eles desempenham fora do esporte, a France Football homenageia esse tipo de iniciativa desde 2022 com o Prêmio Sócrates do Ballon d'Or, batizado em homenagem a um dos jogadores mais importantes da história, não apenas pelas vitórias em campo, mas também pelo impacto que teve fora dele.

Até agora, o prêmio teve quatro vencedores.

Lista de vencedores do Prêmio Sócrates

  • 2022 - Sadio Mané: Venceu pelas amplas contribuições beneficentes no Senegal, incluindo o financiamento de um hospital e de uma escola em Bambali, sua cidade natal, além do apoio a diversos projetos sociais voltados à saúde e à educação.

  • 2023 - Vinícius Júnior: Venceu pelo trabalho de combate ao racismo e pela promoção de iniciativas educacionais no Brasil, principalmente por meio do Instituto Vini Jr., que busca reduzir a exclusão digital nas escolas públicas e oferecer soluções pedagógicas inovadoras.

  • 2024 - Jennifer Hermoso: Venceu pelo trabalho contra o abuso sexual, em especial por ter chamado a atenção para o tema depois de ser beijada na boca, sem consentimento, pelo então presidente da Federação Espanhola, Luis Rubiales.

  • 2025 - Fundação Xana (Luis Enrique): Venceu pelo compromisso com o apoio a crianças gravemente doentes e suas famílias, oferecendo assistência médica, financeira e psicológica.

Quem vai ganhar o Prêmio Sócrates em 2026?

Ano após ano, jogadores do mundo todo continuam honrando o legado de Sócrates ao usar seus recursos e sua influência para promover mudanças sociais positivas e realizar trabalhos humanitários.

Quem vai levar o prêmio este ano?

Vamos descobrir no dia 26 de outubro, em Londres.