Muito além do físico

João Neves é, hoje, um dos meio-campistas mais completos do futebol mundial.

Basta assistir a uma partida do PSG para entender o motivo. O português, indicado duas vezes ao Ballon d’Or e ao prêmio de Jovem Talento Masculino da Temporada, é incansável na hora de pressionar os adversários e recuperar a posse de bola, mas também sabe controlar o ritmo do jogo, encontrar os companheiros e colocá-los em boas condições para criar chances.

Com ou sem a bola, Neves é inteligente, intenso e está sempre envolvido no jogo. Sua presença em campo é tão forte que, às vezes, até fica fácil esquecer que o jogador de 21 anos tem apenas 1,74m.

No elenco atual do PSG, só um jogador é mais baixo: seu compatriota Vitinha, que mede 1,72m.

Mas Neves nunca deixou seu tamanho ser uma limitação. Pelo contrário: transformou aquilo que poderia ser uma fraqueza em uma de suas maiores armas.

E, para entender como isso aconteceu, é preciso voltar ao começo da história.

Um talento de Tavira

Neves nasceu em 27 de setembro de 2004, na pequena e histórica cidade de Tavira, no litoral do Algarve, em Portugal. Sua mãe era professora de educação física, enquanto seu pai trabalhava como policial e, nas horas vagas, treinava jovens em uma escolinha de futebol da região, ligada informalmente ao Benfica.

Foi ali que Neves começou a dar os primeiros passos no futebol. Seu talento logo chamou a atenção e, em 2016, aos 12 anos, ele foi selecionado para integrar as categorias de base do Benfica, nos arredores de Lisboa.

Para isso, deixou Tavira e se mudou para a capital portuguesa, onde passaria os quatro anos seguintes se desenvolvendo dentro de um dos principais centros de formação do país.

E suas qualidades eram difíceis de ignorar. O garoto se destacava tanto com quanto sem a bola, tinha ótima visão para encontrar passes decisivos, controle impressionante em espaços curtos, boa capacidade de desarme e um fôlego praticamente inesgotável. Inicialmente atacante, seu repertório cada vez mais completo logo fez dele um dos meio-campistas mais promissores da base.

Mas havia uma questão que sempre aparecia: sua altura.

Quando o tamanho virou dúvida

Nuno Gomes, diretor da base do Benfica na época, relembra: “O João sempre foi visto como um jogador de enorme potencial, mas sua altura e seu físico faziam com que algumas pessoas questionassem se ele seria capaz de chegar ao mais alto nível.” (The New York Times)

O próprio Neves sabia que esse era um ponto de preocupação.

Não havia muito que pudesse fazer a respeito. Não dava para treinar e simplesmente ficar mais alto. Aquele era o corpo que ele tinha - e precisava aprender a jogar com ele.

E uma das principais armas que encontrou para competir de igual para igual com adversários maiores e mais fortes foi a inteligência.

"Futebol não é só força. É também sobre o que você tem na cabeça." - João Neves

Em suas próprias palavras: “Às vezes, as pessoas me subestimam por causa do meu tamanho e da minha falta de força física. Mas futebol também é inteligência. Quando você não tem o físico para competir, precisa usar a cabeça. Futebol não é só força. É também sobre o que você tem na cabeça.” (The New York Times)

A partir daí, Neves passou a trabalhar ainda mais. Não apenas para jogar bem, mas para entender o jogo, antecipar o que aconteceria antes dos outros e encontrar maneiras de chegar primeiro às disputas.

Essa mentalidade o levou a evoluir constantemente. Com o passar dos anos, sua leitura de jogo se tornou cada vez mais apurada: ele aprendeu a identificar o momento certo para desarmar, recuperar a posse, proteger a bola e encontrar passes capazes de quebrar linhas defensivas e pegar os adversários de surpresa.

Luis Castro, que treinou Neves no sub-19 e no time B do Benfica, resumiu bem essa evolução: “Ele já era um jogador muito completo, mas foi a parte mental que fez a diferença.” (The New York Times)

E foi justamente essa combinação de talento e inteligência que começou a abrir para Neves uma porta que mudaria sua carreira.

A explosão no Benfica

A grande virada na carreira de Neves veio durante a Copa do Mundo de 2022.

O torneio aconteceu em dezembro, no meio da temporada europeia, e o Benfica, assim como muitos outros clubes do continente, ficou desfalcado. Vários de seus principais jogadores foram convocados por suas seleções, abrindo espaço para jovens da base.

Diante desse cenário, Roger Schmidt, então técnico do time principal, pediu a Luis Castro que indicasse alguns jogadores do time B que poderiam ser chamados para integrar o elenco profissional.

Neves foi o primeiro nome da lista.

Castro se lembra bem daquele momento: “Eu disse para minha comissão que não íamos mais vê-lo por lá. Eu sabia que ele não estaria no time principal apenas para completar o elenco.” (The New York Times)

E Neves logo provaria que ele estava certo.

Schmidt ficou impressionado com as habilidades de Neves e, principalmente, com sua compreensão do jogo. Aos 18 anos, o português já tinha uma leitura tática de veterano: inteligente, tranquilo e sempre atento ao que acontecia ao seu redor.

O técnico não perdeu tempo e fez questão de garantir a permanência do jovem no clube. Naquele mesmo mês, Neves renovou seu contrato com o Benfica.

Em janeiro de 2023, veio a estreia pelo time principal. E, mais uma vez, ele impressionou.

Poucos meses depois, em março, Neves fez sua estreia na Liga dos Campeões. Entrou no segundo tempo no lugar de João Mário e não demorou para deixar sua marca, dando uma assistência na goleada por 5 a 1 sobre o Club Brugge.

A partir dali, suas atuações cada vez mais consistentes fizeram com que ganhasse espaço entre os titulares. A saída do argentino Enzo Fernández abriu ainda mais espaço para o jovem meio-campista, que aos poucos passou a ser uma presença constante na equipe e acabou superando Florentino Luís na disputa por uma vaga no time.

"Você precisa ser mais esperto, antecipar as jogadas e estar sempre um passo à frente do adversário." - João Neves

O primeiro gol veio em maio, justamente no clássico de Lisboa contra o Sporting. No mesmo mês, ele também comemorou seu primeiro título de liga, com o Benfica voltando a conquistar o Campeonato Português depois de quatro anos.

Poucos meses depois, Neves foi eleito o Melhor em Campo na vitória por 2 a 0 sobre o Porto, pela Supertaça Cândido de Oliveira. Mais uma vez, parecia estar sempre um passo à frente. Lia o jogo como um livro, antecipando os movimentos de companheiros e adversários antes mesmo que acontecessem.

Na temporada seguinte, já como titular indiscutível, Neves consolidou de vez seu status como um dos melhores meio-campistas de Portugal e foi eleito para a Seleção do Ano da liga.

A ascensão tinha sido rápida, mas não acidental. Por trás dela estava justamente a característica que Neves havia aprendido a usar como resposta às dúvidas sobre seu físico: a inteligência. E o próprio Neves sabe o quanto ela é importante: “Acho que o futebol de hoje está cada vez mais tático. A inteligência futebolística, a noção de posicionamento e de timing, além da capacidade de jogar com um ou dois toques, dependendo da situação, se tornaram alguns dos aspectos mais importantes do jogo. Claro que resistência, força e velocidade ajudam no desempenho, mas não acho que sejam os fatores mais importantes. Essa é a minha visão de futebol: você precisa ser mais esperto, antecipar as jogadas e estar sempre um passo à frente do adversário.” (PSG)

Essa compreensão ampla do jogo faz de Neves um jogador extremamente versátil, capaz de se adaptar a diferentes funções com naturalidade. Foi justamente uma das características que chamaram a atenção de Luis Enrique e ajudaram a levar o português ao Paris Saint-Germain, em agosto de 2024. Nas palavras do próprio técnico: “As qualidades dele combinam com nossas ideias de jogo, tanto com a bola quanto defensivamente. É isso que buscamos: jogadores que sejam bons com a bola e também na defesa.” (The New York Times)

O encaixe perfeito em Paris

Em apenas duas temporadas na França, Neves já conquistou nove títulos pelo clube, incluindo dois Campeonatos Franceses e duas Ligas dos Campeões consecutivas - as primeiras da história do PSG.

E a versatilidade que tanto atraiu Luis Enrique tem sido fundamental nessa trajetória. Neves consegue ser decisivo tanto com quanto sem a bola, se adapta a diferentes funções e ajuda a organizar o time em diferentes esquemas e momentos da partida. É exatamente o tipo de jogador que combina com o estilo dinâmico e imprevisível do PSG.

O português, aliás, tem orgulho dessa capacidade de se adaptar: “Hoje consigo jogar como zagueiro, ponta, lateral, meio-campista ou atacante, e não sinto muita diferença, porque cada jogador sabe o que os outros fazem em cada posição. Nos treinos, trocamos muito de posição. Às vezes, jogo como lateral e avanço para o meio-campo. Pode parecer algo sem muita importância, mas é muito importante. São pequenos detalhes que, no fim das contas, fazem toda a diferença. Temos muita posse de bola em praticamente todos os jogos, então posso começar como lateral, mas acabar atuando mais como ponta ou meio-campista.” (The New York Times)

Só que versatilidade e inteligência, por si só, não explicam a maneira como Neves domina os jogos. Para isso, é preciso acrescentar outro ingrediente: uma disposição quase inesgotável para correr, pressionar e competir.

Basta assistir a uma partida do PSG e prestar atenção no pequeno meio-campista para perceber uma coisa: João Neves parece simplesmente não parar.

De um lado para o outro do campo durante os 90 minutos, o português é o verdadeiro motor do meio-campo. Quando está com a bola, faz de tudo para não perdê-la. Quando está sem ela, faz de tudo para recuperá-la. Ou, como ele próprio explica: “É muito bom atacar, mas a sensação de roubar a bola do adversário é diferente. Muitos jogadores não entendem isso, mas é aquela sensação de: ‘A gente não tem a bola, então precisamos recuperá-la’. Mesmo quando você está atacando, precisa pensar: ‘Se perdermos a bola, o que eu posso fazer?’. Essa parte do jogo, muita gente e muitos jogadores não consideram tão importante, mas, se você quer passar mais tempo atacando, precisa recuperar a bola quando a perde. Nos cinco a dez segundos depois de perder a bola, você precisa dar 100%, 120%, porque essa é a melhor maneira de voltar a atacar. Para o adversário, é muito difícil recuperar a bola e perdê-la novamente logo em seguida. Por isso, essa parte do jogo é muito satisfatória.” (The New York Times)

Essa mentalidade combina perfeitamente com a filosofia de Luis Enrique. E é justamente por isso que Neves gosta tanto de jogar no sistema do experiente técnico espanhol: “Quanto menos tempo os adversários tiverem para respirar, melhor para nós! O Luis Enrique quer um time que dê 100% nos momentos de ataque e 120% nos momentos de defesa. É por isso que estou aqui e por isso estou gostando tanto.” (The New York Times)

Não é apenas uma frase bonita. Neves transformou essa filosofia em números.

O motor do PSG

Na primeira campanha vitoriosa do PSG na Liga dos Campeões em 2025, ele foi um dos apenas dois jogadores - ao lado do companheiro Nuno Mendes - a superar 100 duelos vencidos no torneio. Além disso, terminou a competição com 57 desarmes, o maior número registrado por um jogador em uma única edição desde a temporada 2007-08.

Na final de 2026, contra o Arsenal, Neves voltou a dominar as estatísticas de intensidade. Foi o jogador que mais venceu duelos (16), teve mais toques na área adversária (11), sofreu mais faltas (7), venceu mais duelos aéreos (6) e fez mais desarmes (3).

Ele simplesmente parece não se cansar.

E a história não é diferente quando veste a camisa da seleção portuguesa, com quem conquistou a Liga das Nações da UEFA em 2025. Na Copa do Mundo de 2026, Neves se tornou o meio-campista central mais jovem a começar uma partida por Portugal na história do torneio e também foi o jogador português que mais correu, percorrendo 51,4 km ao longo da competição.

Por trás dessa intensidade existe, porém, algo ainda mais profundo: uma concentração que parece desligar Neves de tudo o que acontece ao seu redor.

A mente por trás da intensidade

Para Neves, futebol não é exatamente um “jogo”, pelo menos não enquanto está em campo. Por mais que o esporte seja, no fim das contas, uma fonte de alegria para jogadores e torcedores, aqueles 90 minutos representam, para ele, trabalho duro e foco absoluto: “Quando você está jogando, não fica pensando se está se divertindo ou não. Você está focado em fazer o seu melhor, tomar as melhores decisões e fazer o melhor pelo time. Mas, no fim, você lembra do que fez e pensa: ‘É, eu me diverti ali dentro’.” (The New York Times)

"Eu me desligo do que está ao meu redor e me concentro apenas no que está acontecendo em campo.” - João Neves

E o mais importante está justamente naquele “no final”. Para Neves, a diversão vem depois do apito final, não durante a partida: “Quando estou no estádio, mesmo com a torcida gritando muito alto, os aplausos e os cânticos ficam quase inaudíveis. Eu me desligo do que está ao meu redor e me concentro apenas no que está acontecendo em campo.” (SL Benfica)

É essa capacidade de se desligar de tudo ao redor e manter o foco no que está acontecendo em campo que ajuda a explicar como um jogador tão jovem consegue sustentar tamanha intensidade durante 90 minutos.

Mas de onde vem tanta dedicação?

Como um jogador tão jovem consegue demonstrar tamanho nível de disciplina e maturidade?

Parte da resposta está em sua criação.

Como o próprio Neves explica: “Meu pai era policial, então tudo sempre precisava estar em ordem, e levei isso para a minha vida adulta. Não acho que estaria onde estou hoje se não fosse por essa criação rígida. Eu não teria a perseverança e a resiliência que tenho. Lembro que fazíamos corridas durante o lockdown, na pandemia, quando treinávamos em casa. O plano era caminhar por 15 segundos e correr por 15, mas meu pai, sem me contar nada, me fazia correr por 17 segundos e descansar apenas 13. Eu não sabia de nada e achava que estava seguindo o esquema normal de 15 e 15. Essa história já dá uma ideia de como foi minha infância.” (UEFA)

Neves credita ao pai, que também trabalhava como treinador, boa parte dos valores que moldaram sua carreira. A experiência como policial e como técnico ajudou a transmitir ao filho, desde cedo, uma combinação de disciplina, trabalho duro e determinação.

"O mais importante não é marcar gols, é vencer.” - João Neves

Esses princípios aparecem até nos menores detalhes. Um exemplo é a mania de Neves de sempre jogar com a camisa por dentro do calção. Para ele, isso representa profissionalismo e respeito - algo que seu pai já cobrava desde os tempos em que o filho ainda jogava na primeira escolinha de futebol.

São os mesmos valores que ajudam a explicar por que Neves nunca parece satisfeito em simplesmente chegar ao topo. Para ele, chegar é apenas o começo. Ele continua trabalhando, continua correndo e continua buscando mais, sem jamais se acomodar: “Meu pai sempre me disse que a parte mais difícil não é chegar lá, mas se manter no topo. Então, depois de chegar, o mais difícil é manter esse padrão. E, acima de tudo, porque o mais importante não é marcar gols, é vencer.” (PSG)

Talvez seja justamente aí que todas as peças da história finalmente se encaixem.

Foi essa combinação de inteligência, versatilidade, dedicação e disciplina que transformou Neves no jogador que conhecemos hoje: dominante e imponente não por causa do tamanho, mas apesar dele. Como o próprio português explica: “Isso acabou jogando a meu favor! Em um duelo, meus adversários achavam que conseguiriam facilmente levar vantagem sobre mim. Então se surpreendiam com o meu empenho, porque dou 100% sempre, em cada disputa e em cada aspecto do jogo, até nas bolas paradas. Como sou o jogador mais baixo, não sou necessariamente o primeiro que os adversários vão marcar. Então aproveitei isso, trabalhando meu posicionamento e meu timing. Depois, foi uma questão de repetir nos treinos e nos jogos. Eu queria aperfeiçoar aquilo, até que se tornou algo natural, instintivo.” (PSG)

E todo esse trabalho claramente valeu a pena.

Baixa estatura, futebol gigante

Hoje, o físico de Neves deixou de ser uma limitação. Ele consegue enfrentar jogadores muito mais altos e levar perigo a defesas que parecem gigantes ao seu lado.

Isso ficou ainda mais evidente durante a Copa de 2026.

Logo no início da estreia de Portugal contra a RD Congo, Pedro Neto, ponta do Chelsea, levantou a bola na área. 

E quem apareceu para completar? João Neves, com seus 1,74m.

Mesmo diante de zagueiros que tinham, em média, quase 1,88m, Neves mostrou mais uma vez sua inteligência e seu excelente senso de tempo. Se antecipou à marcação, subiu no momento certo e cabeceou no ângulo superior direito do gol.

O gol fez dele o terceiro jogador mais jovem a marcar por Portugal na história das Copas do Mundo, atrás apenas de Cristiano Ronaldo, em 2006, e Gonçalo Ramos, em 2022.

Em poucos segundos, aquela jogada resumiu boa parte da história de João Neves.

Um jogador que não pode vencer pela altura, mas pode vencer pelo posicionamento. Que não precisa ser o mais forte para ganhar a disputa, porque chega antes dela. Que corre mais porque entende quando precisa correr e pensa mais rápido porque aprendeu a antecipar o jogo.

Em um cenário do futebol muitas vezes dominado por meio-campistas gigantes, o pequeno líder do PSG mostrou que tamanho não precisa definir o que um jogador pode fazer em campo. Com dedicação incansável e uma compreensão profunda do jogo, Neves transformou aquilo que poderia ser uma desvantagem em mais uma de suas armas.

Como ele mesmo resume: “Ser subestimado sempre me deu vantagem.” (Onze Mondial)