Não seria verdade dizer que os mexicanos deixaram de apoiar o El Tri, sua seleção nacional.
Esse amor é incondicional. Eterno.
Ainda assim, é justo afirmar que, nos últimos tempos, surgiu algo mais difícil de definir: uma perda coletiva de confiança, tanto nos jogadores, que vêm acumulando decepções, quanto nos deuses do futebol lá de cima.
Talvez a ausência de uma verdadeira superestrela ajude a explicar parte disso, porque nunca é demais destacar o quanto um jogador especial pode inspirar uma nação que, de outra forma, estaria enfrentando dificuldades.
A forma como Gareth Bale impulsionou o País de Gales é o exemplo perfeito. O mesmo vale para Hristo Stoichkov, vencedor da Ballon d'Or, que levou a Bulgária a patamares inéditos.
A última grande superestrela do México foi Hugo Sánchez, que segue idolatrado pelos feitos históricos com a camisa verde e que mal consegue caminhar pelas ruas de Guadalajara ou da Cidade do México sem ser cercado por torcedores.
Mas o atacante mostrou seu brilho pela última vez em meados dos anos 1990 e - com exceção de alguns nomes de destaque desde então, como Rafael Márquez e o "Chicharito" Javier Hernández - o nível geral dos jogadores mexicanos vem caindo.
Na última Copa do Mundo, no Catar, o El Tri foi eliminado de forma decepcionante ainda na fase de grupos. Dois anos depois, na Copa América, o roteiro se repetiu.
Quanto à frustração com os deuses do futebol, é preciso dizer que eles têm sido cruéis com o México há bastante tempo, como demonstra a obsessão pelo "quinto jogo". Uma verdadeira maldição.
Durante sete edições consecutivas da Copa do Mundo, o El Tri caiu nas oitavas de final, alimentando um sentimento nacional de desespero em torno da busca por essa quinta partida.
Isso se transformou em algo maior do que uma simples barreira mental. Ao longo de quase três décadas, passou a simbolizar uma limitação. Algo que parecia inevitável e fora do controle humano.
A paixão e o espetáculo
Tudo isso ajuda a contextualizar a coorganização da Copa do Mundo deste verão pelo México e o que aconteceu no lendário Estádio Azteca em 11 de junho, quando o torneio começou.
Mais de 80 mil torcedores lotaram o histórico estádio, vestidos de verde e com largos sorrisos, determinados a transformar a ocasião em uma grande festa.
Tinha uma banda de mariachi tocando. Tacos e carnitas por todos os lados. Maracas e até um ou outro sombrero usado de forma bem-humorada.
O México venceu sua estreia por 2 a 0 contra uma decepcionante África do Sul e, claro, o resultado teve enorme importância, tanto naquele dia quanto no contexto mais amplo da competição. Ajudou a alimentar o clima de carnaval. Deu ainda mais sentido à celebração.
Mas talvez a história mais importante tenha acontecido fora das quatro linhas, em meio à alegria e ao caos das arquibancadas.
Visto de longe, era difícil não se deixar contagiar pela energia que tomava conta do estádio, uma reconexão com sua alma futebolística após um longo período de estagnação.
Parecia quase uma experiência coletiva. Uma forma de descobrir se a paixão pelo El Tri e a maneira como os mexicanos abraçam a celebração, o patriotismo e o otimismo ainda existiam com a mesma força de antes.
E a resposta foi clara: existiam.
Ochoa, um elo com o passado
Duas figuras importantes à beira do campo na partida contra a África do Sul ajudam a conectar o México do passado à sua versão atual; a um país que reencontrou sua energia e sua paixão.
Comandando a área técnica estava Javier Aguirre, treinador da seleção mexicana e responsável por levar o El Tri ao título da Gold Cup no ano passado, após vencer os Estados Unidos na final.
Na Copa do Mundo de 1986 - a última realizada em solo mexicano - Aguirre era jogador. Formava a dupla de ataque com Hugo Sánchez e ajudou sua equipe a alcançar as quartas de final, onde enfrentou a Alemanha Ocidental.
Os alemães avançaram nos pênaltis, e Aguirre acabou expulso naquela partida.
Logo atrás dele, observando tudo atentamente, estava Guillermo Ochoa, o experiente goleiro de 40 anos convocado não apenas por sua liderança e trajetória, mas também pela qualidade que ainda demonstra debaixo das traves.
Esta é a sexta Copa do Mundo do lendário arqueiro, marca que ele divide com Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. Em uma entrevista emocionante concedida recentemente, Ochoa explicou por que pretende encerrar a carreira após o torneio.
"A seleção mexicana sempre foi a minha bússola, tanto na carreira quanto na vida. Foi ela que me deu direção."
"Não sei como teria sido minha carreira sem a seleção. E agora que minha trajetória com ela está chegando ao fim, já não vejo mais sentido no futebol. Já não vejo sentido em continuar jogando."
Conquistas de Guillermo Ochoa
Campeão da Gold Cup da CONCACAF em 2009, 2011, 2015, 2019, 2023 e 2025
Melhor goleiro da Copa América de 2007
Indicado ao Ballon d'Or em 2007
Vencedor da Luva de Ouro da Liga MX em 2006 e 2007
Melhor goleiro de La Liga em 2011/12, 2012/13 e 2013/14
Autor da melhor defesa da Copa do Mundo de 2014
Até hoje, Ochoa é o único jogador mexicano indicado à Ballon d'Or. A nomeação veio após um brilhante ano de 2007, quando conquistou sua segunda Luva de Ouro pelo Club América e acumulou atuações de destaque na Liga dos Campeões da CONCACAF.
Doze meses antes, na Alemanha, ele havia feito sua estreia em Copas do Mundo. E, salvo lesões de Raúl Rangel e Carlos Acevedo, deixará a seleção com 152 partidas disputadas, consolidando seu nome entre os maiores da história do futebol mexicano.
Aguirre e Ochoa são dois fios condutores da trajetória do México em Copas do Mundo, presentes tanto nos momentos mais marcantes quanto nas maiores decepções.
Por isso, parece apropriado que ambos voltem a ocupar papel de destaque justamente agora, quando o El Tri começa a escrever um capítulo completamente novo de sua história.
O futebol como catedral
Quando olhamos para o México, o olhar naturalmente recai primeiro sobre a equipe e os jogadores vestidos com a icônica camisa verde, tentando repetir as glórias do passado. Vêm à memória as imagens de Manuel Negrete marcando seu gol acrobático de bicicleta em 1986, quando a seleção chegou às quartas de final com grande estilo.
Também pensamos nos torcedores. Em seu entusiasmo vibrante.
No entanto, existe uma terceira figura que não pode ser ignorada: um estádio lendário que, na semana passada, se tornou o primeiro a receber três jogos de abertura de Copas do Mundo. É também o único estádio a ter sediado duas finais de Copa do Mundo.
O Estádio Azteca é a catedral do futebol, um templo das Américas. Sua combinação intensa de altitude, calor e fervor é capaz de criar lendas e destruir sonhos em uma única tarde. Após uma reforma cara para este verão, surge agora mais impressionante do que nunca.
Mas sua beleza pode enganar.
"É um cenário brutal. Faz com que as pernas tremam um pouco."
Essas foram as palavras de Javier Aguirre na semana passada, ao acrescentar que jogar diante de suas arquibancadas históricas pode provocar "um estado emocional muito intenso".
Foi ali que Diego Maradona contou com a famosa "mão de Deus". Foi ali que Carlos Alberto completou um gol coletivo inesquecível, que segue como referência até hoje, décadas depois.
Foi ali que Manuel Negrete voou de pé em direção ao céu.
É um estádio que produz momentos inesquecíveis e, na última quinta-feira, deu origem a mais um.
Num dia de celebração, o México abraçou seu legado em Copas do Mundo e olhou para o futuro com um sorriso no rosto.
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