É apropriado e significativo que a cerimônia do Ballon d’Or deste ano seja realizada em Londres, na Inglaterra. Afinal, há 70 anos, a primeira entrega do Ballon d’Or levou um pequeno grupo de dignitários até Blackpool para conceder a Sir Stanley Matthews a honra de se tornar o primeiro vencedor.
Existe uma simetria requintada nisso. Um círculo que se fecha.
Esse desenvolvimento reforça a narrativa de que o Ballon d’Or está voltando para casa, e esse arco narrativo se fortalece ainda mais pelo fato do jogo ter surgido na Inglaterra, ter sido inventado lá e, com o tempo, exportado para todos os cantos do mundo.
Não é por acaso que Wembley ainda é chamada, em alguns círculos, de “a casa do futebol”. Foi lá que tudo começou, e essa pequena nação será para sempre o berço de um esporte que encanta e fascina pessoas há séculos.
Um presente devolvido com grandeza
A história nos mostra, no entanto, que oferecer ao mundo uma atividade tão maravilhosa inevitavelmente diminuiu a posição da Inglaterra dentro dela, e existem inúmeros exemplos que ilustram isso.
De maneira bastante simbólica, os 'Three Lions' só conquistaram uma Copa do Mundo em sua oitava edição, enquanto, em 1953, os “Poderosos Magiares” da Hungria chegaram a Wembley e abalaram até os alicerces o que, naquela época, era uma instituição rígida.
Com um futebol fluido e ousado, Ferenc Puskás e companhia venceram por 6 a 3, superando adversários completamente atônitos. O capitão da Inglaterra, Billy Wright, resumiu mais tarde o sentimento predominante de uma nação que teve os olhos abertos naquela tarde.
“O jogo teve um efeito profundo. Aquela única partida mudou a nossa forma de pensar. Achávamos que iríamos destruir aquele time - a Inglaterra em Wembley, nós somos os mestres, eles são os alunos. Foi exatamente o contrário.”
Longe dos holofotes
As decepções em grandes torneios acabaram provocando uma crise de identidade, mas, se a seleção inglesa sofreu em alguns momentos, também é preciso dizer que, do ponto de vista do Ballon d'Or, a Inglaterra continuou se mantendo firme.
Mesmo que outras nações tivessem superado o país em qualidade técnica e evolução tática, essa ilha separada do restante da Europa por um estreito de água continuava produzindo talentos individuais extraordinários.
Da vitória inaugural de Sir Stanley Matthews em 1956, até o ano 2000, a Inglaterra teve quatro vencedores do Ballon d’Or - o mesmo número da Itália e um total comparável ao de outras grandes potências europeias. A França teve três vencedores do Ballon d’Or nesse período. Holanda e Alemanha, sete.
A presença da Inglaterra no cenário internacional pode ter diminuído, empurrada para a margem dos holofotes, mas grandes jogadores continuaram surgindo, nomes como Sir Bobby Charlton – uma verdadeira lenda – e Kevin Keegan, que conquistou o Ballon d’Or em anos consecutivos na década de 1970.
Nos anos 1990, Alan Shearer e David Beckham terminaram ambos entre os três primeiros colocados da premiação.
Foi só então que algo começou a mudar. E é aí que a história se torna complexa e até contraintuitiva.
Porque, justamente em uma era em que a Premier League se transformou em uma potência global, atraindo os melhores jogadores do mundo com os maiores salários e conquistando uma audiência televisiva de bilhões de pessoas, o status da Inglaterra no Ballon d’Or diminuiu.
O último jogador inglês a conquistar a Bola de Ouro foi Michael Owen, em 2001, há quase um quarto de século.
Um novo século, uma nova realidade
A ausência de um vencedor inglês durante duas décadas e meia sugere que a importação de superestrelas já consolidadas do exterior teve um impacto negativo no desenvolvimento dos jovens jogadores, um tema debatido inúmeras vezes ao longo dos anos no discurso público.
A ascensão de Harry Kane, Jude Bellingham, Phil Foden, Bukayo Saka e Cole Palmer – todos indicados ao Ballon d’Or nos últimos tempos - contradiz, até certo ponto, essa preocupação.
Talvez seja justo dizer, portanto, que isso já foi um problema, mas hoje não parece mais ser.
Além disso, mesmo que a produção insuficiente de talentos locais de nível mundial realmente fosse um problema - o que, de qualquer forma, é uma interpretação subjetiva quando analisada isoladamente -, isso ainda não explica por que tão poucas estrelas da Premier League foram reconhecidas como vencedoras do Ballon d’Or desde o triunfo de Michael Owen.
Desde 2001, apenas Cristiano Ronaldo, pelo Manchester United, e Rodri, pelo Manchester City, receberam o prêmio no palco do Théâtre du Châtelet enquanto atuavam na primeira divisão inglesa.
É o mesmo número da Ligue 1, uma liga que possui apenas uma fração dos recursos, do prestígio e do poder financeiro da sua equivalente inglesa.
Naturalmente, e de maneira bastante evidente, o famoso duopólio formado por Lionel Messi e Cristiano Ronaldo explica grande parte disso, já que a dupla conquistou, ao todo, 13 Ballons d’Or desde 2008.
Ainda assim, mesmo levando em consideração o domínio e a genialidade sustentada dos dois, surpreende o fato de tão poucos talentos da Premier League terem conseguido desafiá-los, considerando a escala colossal dos investimentos da liga em brilho individual.
Somente nos últimos 10 anos, os clubes da primeira divisão inglesa gastaram mais de 23 bilhões de libras em transferências, um valor três vezes superior ao investimento coletivo da La Liga. Dados divulgados em 2025 revelaram que os clubes da Premier League geram o dobro das receitas dos seus equivalentes espanhóis.
É uma dimensão de poder que fez com que a Premier League passasse a ser considerada um soft power da economia do Reino Unido, gerando 9,8 bilhões de libras em valor agregado bruto para os cofres do país em 2023-24.
Um reencontro para acertar contas
Com tantas vantagens, prestígio e influência global, os clubes ingleses certamente colheram benefícios nas competições continentais, como mostra o gráfico abaixo.
Na última década, apenas a Espanha esteve mais representada nas semifinais da Liga dos Campeões - e a diferença é realmente mínima.
Então, por que esse domínio da liga não se traduziu em maior reconhecimento individual?
Uma possível explicação pode estar justamente em uma das grandes virtudes da Premier League que, no fim das contas, acaba prejudicando suas próprias estrelas: a intensidade física da competição proporciona jogos emocionantes, mas também desgasta seus principais jogadores à medida que a primavera europeia se aproxima.
Repetidamente, vemos os grandes nomes do futebol inglês registrando números impressionantes que começam a cair quando o calendário da temporada fica congestionado e os atletas ultrapassam os 2.500 minutos em campo.
E, mais uma vez, é preciso destacar que as alturas quase sobrenaturais alcançadas por Messi e Cristiano Ronaldo em sua geração deixaram pouquíssimo espaço para que qualquer outro jogador fosse reconhecido - inglês ou não.
A última estrela da Bundesliga a conquistar uma Bola de Ouro foi Karl-Heinz Rummenigge, do Bayern de Munique, em 1981. A última da Serie A foi Kaká, pelo Milan, em 2007.
Com a Inglaterra tendo produzido a já mencionada geração de talentos extraordinários nos últimos anos - Bellingham, Kane e outros - e com a hegemonia compartilhada de Messi e Cristiano Ronaldo chegando ao fim, é razoável esperar que jogadores ingleses e/ou atletas da Premier League voltem a ocupar um papel de destaque na disputa pelo Ballon d’Or.
A relação entre a Inglaterra e o Ballon d’Or foi, em muitos momentos, complexa ao longo do século XXI. Agora, já não é mais.