Entre aplausos e cicatrizes
Ontem, no Museu do Amanhã no Rio de Janeiro, Carlo Ancelotti anunciou a lista de 26 convocados para a Copa do Mundo de 2026. E quando o nome de Neymar saiu de seus lábios, o local explodiu - torcedores celebrando o retorno de uma lenda consagrada da Amarelinha.
A última vez que ele tinha recebido uma convocação foi em março de 2025, mas problemas físicos o impediram de jogar. E a última vez que de fato entrou em campo pela Seleção foi há mais de dois anos e meio, em outubro de 2023, quando uma grave lesão no joelho, sofrida numa partida contra o Uruguai, o tirou de circulação.
Lesões. Sempre as lesões. Elas acompanharam Neymar como uma sombra ao longo de toda a carreira, tanto pela Seleção quanto pelos clubes. De volta ao Santos, clube que o revelou ao mundo, o craque de 34 anos aguardava ansioso. Tinha ficado fora de todas as convocações anteriores de Ancelotti, mas uma sequência sólida em 2026, com 6 gols e 4 assistências em 15 partidas, falou mais alto. O técnico italiano bateu o martelo: Neymar vai à Copa.
E faz todo sentido. O legado dele com a Seleção é imenso.
O peso do tempo
Neymar é o maior artilheiro da história do Brasil, com 79 gols - superando a marca de 77 de Pelé. Foi peça fundamental na conquista da Copa das Confederações de 2013 e do ouro olímpico em 2016.
Mas na Copa do Mundo, a história foi sempre mais cruel.
Em 2010, Dunga não o chamou. Tinha apenas 18 anos, e o técnico achava que faltava experiência. 14.000 pessoas assinaram um abaixo-assinado pedindo sua inclusão - em vão. Neymar não foi convocado e o Brasil caiu nas quartas para os Países Baixos.
Ainda naquele ano, já sob Mano Menezes, Neymar estreou pela Seleção. Marcou na estreia, claro.
Em 2014, era o grande nome do Brasil numa Copa em casa, sob o comando de Felipão. Começou em chamas: 4 gols na fase de grupos e uma assistência para David Luiz nas oitavas. Mas nas quartas contra a Colômbia, uma entrada feia de Juan Camilo Zúñiga fraturou sua vértebra e o tirou do torneio. O que veio depois - o 7 a 1 na semifinal contra a Alemanha - entrou para a história pelo pior motivo. Mas Neymar, mesmo ausente, foi reconhecido: levou a Chuteira de Bronze do torneio e integrou o ‘Dream Team’ da competição.
Em 2018, chegou às quartas ainda em recuperação de uma fratura no metatarso. Marcou 2 gols, deu 2 assistências, mas não estava no seu melhor. O Brasil, agora com Tite, foi eliminado pela ‘geração de ouro’ da Bélgica.
E então veio 2022 - a Copa que parecia ser a dele. Vinha de um dos melhores momentos da carreira, liderava uma seleção que o mundo respeitava. Nas oitavas, marcou um pênalti e deu uma assistência para Vinícius Júnior contra a Coreia do Sul. Nas quartas, marcou um golaço na prorrogação contra a Croácia - um daqueles momentos que parecem anunciar o destino. Mas a Croácia empatou. E nos pênaltis, o sonho acabou.
As imagens de Neymar chorando, quase sem conseguir se levantar do gramado, correram o mundo. Logo depois, no Instagram, ele desabou: "Estou destruído psicologicamente, essa com certeza foi a derrota que mais me doeu, que me fez ficar paralisado durante 10 minutos e logo após caí no choro sem parar. Vai doer por muuuuuito tempo, infelizmente. Lutamos até o fim, disso eu tenho orgulho dos meus companheiros porque não faltou empenho e nem dedicação. Esse grupo merecia, nós merecíamos, o BRASIL merecia… Mas essa não era a vontade de DEUS!" (Instagram)
Desde então, a pergunta pairava no ar: seria aquela a última Copa de Neymar?
Mais um capítulo para a história
Não. O destino reservou mais um capítulo.
Neymar entra agora para um grupo seleto de brasileiros que disputaram 4 Copas do Mundo.
Ancelotti, ao justificar a convocação do camisa 10 - indicado 9 vezes ao Ballon d'Or, mas ausente em mais de 100 partidas por lesão desde o Qatar -, foi direto: "Fizemos a avaliação do Neymar o ano inteiro e vimos que nesse último período, ele jogou com continuidade, que melhorou a sua condição física. Pensamos que ele é um jogador importante para essa Copa do Mundo." Mas deixou claro também que o status e a popularidade de Neymar entre os torcedores não farão com que ele receba um tratamento diferenciado durante o torneio: "Ele tem o mesmo papel, a mesma obrigação de todos os outros 25, e a mesma possibilidade de jogar ou não jogar, de estar no banco, de entrar… Ele tem a mesma responsabilidade que os outros." (TNT Sports Brasil)
É o momento da verdade.
No crepúsculo da carreira, de volta ao Santos, com o peso de tudo que viveu e de tudo que ficou pelo caminho - Neymar tem mais uma chance de escrever o final que sempre quis para a sua história com a Seleção.
Só o tempo dirá se esse será o seu ano. Mas a convocação em si já é, de alguma forma, uma vitória.
Brasil na Copa do Mundo 2026: confira os convocados
Goleiros
Alisson (Liverpool)
Ederson (Fenerbahçe)
Weverton (Grêmio)
Zagueiros
Bremer (Juventus)
Gabriel Magalhães (Arsenal)
Léo Pereira (Flamengo)
Marquinhos (Paris Saint-Germain)
Roger Ibañez (Al-Ahli)
Laterais
Alex Sandro (Flamengo)
Danilo (Flamengo)
Douglas Santos (Zenit Saint Petersburg)
Wesley (Roma)
Meio-campistas
Bruno Guimarães (Newcastle United)
Casemiro (Manchester United)
Danilo (Botafogo)
Fabinho (Al-Ittihad)
Lucas Paquetá (Flamengo)
Atacantes
Endrick (Olympique Lyon / Real Madrid)
Gabriel Martinelli (Arsenal)
Igor Thiago (Brentford)
Luiz Henrique (Zenit Saint Petersburg)
Matheus Cunha (Manchester United)
Neymar (Santos)
Raphinha (Barcelona)
Rayan (Bournemouth)
Vinícius Júnior (Real Madrid)