Bem-vindos ao País de Gales - mais precisamente a Northop, um pequeno vilarejo a cerca de quinze quilômetros do rio Dee, que marca a fronteira entre o nordeste do principado e a Inglaterra. Nosso taxista, que roda por essa região há mais de vinte anos, acabou se perdendo num labirinto de estradinhas que cortam paisagens dignas de uma pintura pastoral de Gainsborough. Lower Soughton Hall, onde Michael Owen (41) mora, simplesmente não aparece em nenhum mapa. Quando tentamos buscar o endereço, o GPS ficou em silêncio. E, no entanto, essa mansão vitoriana - construída sobre as fundações de uma antiga casa da era Tudor - é um patrimônio histórico tombado.

Só conseguimos chegar quando o próprio Michael Owen nos ajudou por mensagem de texto. Foi assim que finalmente encontramos um portão de ferro preto, discreto, mas imponente, com três letras: L, S, H - as iniciais da casa onde ele vive há quase 20 anos. “Comprei essa casa no ano em que ganhei o Ballon d'Or, no dia seguinte à nossa vitória por 5 a 1 sobre a Alemanha, em Munique (1º de setembro de 2001, com um hat-trick meu)”, contou. Ele tinha apenas 21 anos na época. Um ano depois, se mudou para o Hall já totalmente restaurado com sua futura esposa, Louise Bonsall, que ele conheceu ainda na escola primária, quando ambos tinham só cinco anos.

A carta ao pai

Tudo aconteceu muito cedo na vida do Michael Owen: amor, fama e dinheiro - a Lower Soughton Hall custou algo em torno de quase 5 milhões de euros. Com 8 anos, ele já aterrorizava defesas de times formados por jogadores de 11, mostrando um talento tão fora do comum que um dos seus treinadores conseguiu até mudar as regras da liga local para permitir que ele subisse de categoria e jogasse no campeonato sub-11. Aos 9, quebrou o recorde de gols em uma única temporada na Deeside School League, uma liga que reúne regiões de Flintshire, no País de Gales, e Cheshire, na Inglaterra. Esse recorde era do Ian Rush, o atacante mais goleador da história do Liverpool, que tinha feito 72 gols. Owen foi lá e marcou 97.

Quando completou 10 anos (“Eu só queria uma coisa: ser o melhor jogador do mundo, e tinha certeza de que seria”), olheiros de alguns dos maiores clubes da Inglaterra - Manchester United, que mandou o Brian Kidd, além de Liverpool, Chelsea e Arsenal - já faziam fila para ver o prodígio jogar. Dois anos depois, após Steve Heighway, quatro vezes campeão inglês e duas vezes campeão europeu com os Reds, escrever uma carta entusiasmada para o seu pai, Terry, o jovem Michael assinou com o Liverpool.

A partir daí, tudo seguiu naturalmente. Veio a primeira convocação para a seleção (com 28 gols em 20 jogos pelas seleções sub-15 e sub-16 da Inglaterra). Logo depois, na temporada 1995-96, participou de uma campanha histórica na FA Youth Cup, vencida pelo Liverpool pela primeira vez, com Owen marcando 11 gols em 5 jogos. Pouco tempo depois, assinou seu primeiro contrato profissional. Na estreia, contra o Wimbledon, em 6 de maio de 1997, o adolescente já marcou - como não poderia deixar de ser - o primeiro dos seus 158 gols pelos Reds.

13 meses e meio depois, veio o jogo inesquecível contra a Argentina, em Saint-Étienne, nas oitavas de final da Copa do Mundo (30 de junho de 1998, 2-2 após a prorrogação, 4-3 nos pênaltis para os sul-americanos): o drible que deixou José Chamot para trás, o gol que entrou para a história - e que ele não hesitou em recriar em uma das salas da sua casa poucas horas depois da nossa chegada. Os primeiros anos foram um verdadeiro turbilhão. Era até natural que uma criança que cresceu tão rápido buscasse viver em um lugar onde só a família e os amigos pudessem encontrá-lo.

Um lar “para a vida”

A estrada que liga o portão da propriedade a um segundo portão mais discreto - o da casa - tem quase um quilômetro de extensão e serpenteia por uma paisagem de campos ondulados e árvores antigas. Dá para ouvir o som seco dos tacos batendo nas bolas no campo de golfe ao lado, o canto de um pica-pau levantando voo e o barulho do cascalho sob os pés. Cordeiros e cavalos pastam tranquilamente ao sol de maio. Tudo isso compõe um cenário bucólico, daqueles em que até Maria Antonieta teria gostado de brincar de pastora com suas companheiras.

O dono da casa nos espera sozinho na entrada, sorridente, fazendo perfeitamente o papel de anfitrião - e totalmente disposto a atender, com boa vontade, aos pedidos do nosso fotógrafo.

Ao contrário do que suas aparições frequentes na televisão podem sugerir, Owen é comunicativo, bem-humorado e muito mais solto do que os comentários contidos que costuma fazer diante das câmeras deixam transparecer. De certa forma, ele está no seu ambiente. “Foi aqui que eu cresci”, conta. “A casa dos meus pais fica a cinco minutos. Meu pai é de Liverpool, mas um dos últimos clubes dele foi o Chester City, e ele se apaixonou por essa região. Nós, crianças, estudamos em escolas locais, então meus pais decidiram ficar. Para mim, escolher viver aqui foi a coisa mais natural do mundo. Então, quando vi uma casa tão bonita como esta à venda tão perto de onde cresci, pensei: ‘Uau! Essa é a casa para a vida toda.’”

Os tesouros da sala de sinuca

O pai de Owen, Terry, deixou uma marca tão grande no Chester City que muitas fotos dele ainda decoram as paredes do estádio, que visitamos antes de chegar à casa do filho. Michael ainda vai lá de vez em quando, mesmo agora que o time joga na Sexta Divisão. “Tenho um carinho especial por eles”, confessa. E a ideia de dar um último passo no clube do pai alguma vez passou pela sua cabeça? “Não”, responde, rindo. “Já joguei futebol tempo suficiente.” A declaração sugere que, para Michael Owen, a aposentadoria foi mais uma libertação, o começo de uma nova vida, do que um motivo de arrependimento. Mas esse pensamento desaparece assim que se atravessa a porta da sua casa.

Lower Soughton Hall não é apenas uma enorme residência onde Michael, Louise e os quatro filhos vivem de forma tranquila, quase idílica. É também um museu particular dedicado à carreira do próprio Owen. Além do hall de entrada, das salas de estar e da grande cozinha onde dois amigáveis Staffordshire bull terriers circulam livremente, uma escadaria com um vão decorado por dezenas de camisetas impecavelmente emolduradas leva ao santuário da casa: a sala de sinuca, onde Owen reúne as lembranças mais preciosas da sua carreira.

Lá estão os bonés bordados entregues aos internacionais ingleses pela FA por cada jogo ou torneio com a seleção, a camisa que usou na histórica vitória por 5-1 sobre a Alemanha, a da final da FA Cup de 2001, quando seus gols aos 83 e 88 minutos garantiram o título ao Liverpool contra um Arsenal que parecia ter a taça nas mãos. E, claro, o mais valioso de todos: o seu Ballon d’Or.

O troféu tem sua própria vitrine, colocado sobre um pedestal giratório para que possa - literalmente - brilhar intensamente sob a luz de mini-projetores. É o ponto central da sala, que Owen gosta de mostrar a todos os visitantes. Mas quando o recebeu, apesar do orgulho, ele admite que não compreendeu totalmente o que o Ballon d’Or representava. “Para a maioria dos atletas de alto nível”, diz ele, “no momento em que ganha um prêmio, ele se torna teu, e você já começa a pensar no próximo. Você fica ganancioso, eu acho. Aproveita mais a jornada do que o destino. E quer voltar a viajar. O problema é que você já chegou a algum lugar. Então, para que lado ir?”

Essa reflexão apareceu várias vezes na longa conversa que tivemos depois - tão longa que ele acabou perdendo a corrida de um de seus cavalos - e só terminou quando era hora de ele pegar o volante do Bentley para buscar três dos filhos na escola. O tema recorrente era a natureza efêmera do sucesso, a necessidade de todo atleta de alto nível viver num estado de privação, sempre querendo mais, algo que ele sentiu desde criança.

A diferença é que, muito cedo na carreira, aos 25 ou 26 anos, Owen percebeu que não alcançaria mais os mesmos patamares. Cada sprint podia resultar em outra lesão muscular. Ele teve que reinventar seu jogo, deixar de depender apenas da velocidade e se tornar, nas suas palavras, “um jogador que pensa, em vez de um jogador de instinto”. O Ballon d’Or passou a lembrá-lo de quem ele foi, não de quem poderia voltar a ser. Com o tempo, aprendeu a valorizar cada vez mais seu próprio valor.

E só soube que tinha ganhado o prêmio muito tempo depois, em circunstâncias que hoje o fazem sorrir. “Foi em Roma”, lembra. “Pouco antes de um jogo da Liga dos Campeões contra a Roma (0-0, 5 de dezembro de 2001). Não podíamos usar celulares no vestiário. O treinador era Phil Thompson, porque Gérard Houllier ainda se recuperava de um ataque cardíaco, que aconteceu em 13 de outubro. Uns quarenta e cinco minutos antes do jogo, Phil se aproximou: ‘Posso falar com você?’ Fui com ele para um corredor, onde ninguém podia nos ver. ‘O chefe está ao telefone.’ E Gérard disse: ‘Quero que você saiba que é o vencedor do Ballon d’Or.’”

O Ballon d’Or sob escrutínio

Como sempre que o nome de Gérard Houllier surge na conversa, o tom de Owen muda, quase sem perceber. “Ninguém no mundo estava mais orgulhoso do que ele”, lembra. “Eu estava completamente absorvido pela minha carreira. Assim que recebi o Ballon d’Or, disse a mim mesmo: ‘Tens de ganhar de novo no próximo ano.’ Sei que soa mal, pode parecer horrível ou arrogante agora, mas não conseguia pensar de outra forma. O sucesso te dá gosto por mais sucesso, é isso que te impulsiona. Para mim, era tudo novo. Uau! Ganhei o Ballon d’Or, incrível! Mas Gérard... por causa da nacionalidade dele, mas também pela experiência e pelo entendimento do que aquele prêmio significava, ele conhecia a história, sabia quem o tinha ganho antes de mim... E, de certa forma, meu próprio prazer aumentou por causa disso, porque eu sabia o quanto isso o deixava feliz. Ver aquele sorriso no rosto dele quando levantei o troféu, sentir a alegria dele... Era como se eu fosse filho dele. E, para mim, a reação de Gérard Houllier continua sendo, talvez, a memória mais forte.”

Chegou o momento de Owen retirar o troféu da vitrine. Um gesto carregado de significado, em todos os sentidos da palavra. “Não fazia ideia do quão pesado ele era”, diz, sorrindo. Depois de colocá-lo com todo cuidado na moldura da sua mesa de bilhar, conta: “Sabes, há três ou quatro anos me pediram para participar de um evento promocional na China, mas com a condição de levar o Ballon d’Or comigo. E eu não ia colocá-lo no porão! Então arrastei essa caixa, que pesa uma tonelada, durante toda a viagem: ida para o aeroporto, passagem pela alfândega - eles fizeram raio-X! (Risos) - e o voo, a caixa no meu colo. Não é algo que eu vá esquecer tão cedo.”

O conselho de Carragher

O ano do Ballon d’Or foi 2001, o ano dos cinco troféus conquistados com o Liverpool (FA Cup, Taça da Liga, Taça UEFA, Charity Shield e Supertaça Europeia), o ano da famosa eliminatória de qualificação para a copa de 2002 contra a Alemanha, que, na opinião dele, não foi necessariamente sua melhor temporada pessoal. Talvez ele se sentisse ainda mais forte nas duas temporadas anteriores, quando ganhou a Chuteira de Ouro da Premier League aos 18 e 19 anos. “Ninguém fará o mesmo.”

Muito rapidamente, rápido demais, seu corpo interromperia sua ascensão irresistível, e o prazer evidente que sente ao reviver momentos de triunfo, cercado pelas recordações que preservam sua memória, vem acompanhado das frustrações que ele admite sentir às vezes. Entre essas lembranças do passado, uma camisa do Real Madrid ocupa lugar de destaque: a que usou em 10 de abril de 2005, quando marcou um dos quatro gols na vitória do Real sobre o Barcelona no Bernabéu (4-2). Florentino Pérez pretendia adicionar mais um Ballon d’Or à coleção de três outros vencedores - Zinedine Zidane, Ronaldo e Luís Figo - reunindo-os numa equipe que Owen considera “uma das maiores que já vimos, em qualquer lugar, a qualquer hora.”

Seu amigo e colega de quarto no Liverpool, Jamie Carragher, tentou, no entanto, dissuadi-lo de pensar em se transferir para um clube onde seus concorrentes diretos, além de Ronaldo, seriam a lenda Raúl e Fernando Morientes. Owen ignorou as reservas de “Carro”, como chama ao amigo, e hoje se diz feliz por ter feito isso, mesmo que não entre em detalhes sobre o motivo pelo qual sua passagem pela Espanha durou apenas um ano, apesar de ter registrado a melhor média de gols por minuto de qualquer atacante do Real Madrid (16 gols em 45 jogos, 26 deles como titular).

O fim do jogador "excepcional"

“Tinha tanta confiança nas minhas capacidades”, lembra Owen. “Mas os outros também precisavam acreditar em mim, e ser vencedor do Ballon d’Or ajudou bastante nisso. Quando olhava para os outros no vestiário, dizia a mim mesmo que era tão bom quanto qualquer um deles. Barcelona e Real Madrid eram provavelmente os dois melhores clubes do mundo na época. Todo jogador que chegava lá tinha de estar entre os melhores e acreditar que merecia estar. Não dá para se permitir falhar no Real Madrid. Assim que você chega, a pressão é enorme. E se ganhou o Ballon d’Or, precisa corresponder. Tem um alvo nas costas. É como usar a camisa 7 no Manchester United ou a 10 na seleção brasileira.”

Sim, o troféu pesa. E é difícil carregá-lo nos anos em que o corpo começa a fraquejar. Não é fácil começar um declínio aos 26. É um tema doloroso de viver, mas Owen encara sem autopiedade. “Com a primeira lesão, você pensa: ‘Ok, vou voltar.’ A mesma coisa na segunda, na terceira. Depois disso, é muito mais complicado. Eu sabia que cada sprint de alta intensidade me deixava vulnerável, então fui obrigado a mudar meu estilo, a atuar como elo da equipe e focar no meu papel de marcador de gols. Eu sabia cumpri-lo. Mas já não era ‘à parte’.”

Ele fala disso de forma factual, sem amargura. Afinal, não foi um dos melhores do mundo durante anos? As centenas de recordações na sua coleção pessoal provam isso.

Outros grandes atacantes, como Thierry Henry - “o único jogador que alguma vez me assustou, que eu sabia que nunca seria melhor que ele”, admite Owen - conseguem descrever quase todos os seus gols em detalhe. Owen, por outro lado, nem lembra ao certo quantos marcou: “Cerca de cinquenta, no máximo”, sem conseguir precisar datas, mesmo com uma margem de uma ou duas temporadas.

Hoje, ele tem outras paixões, e as corridas de cavalos são a principal. Duas ou três vezes por semana, quando os contratos de consultoria e publicidade permitem, ele visita a sua quinta, transformada em haras, a cerca de trinta minutos de carro da mansão. Até tentou a sorte como jóquei numa corrida de caridade em 2017, em Ascot, terminando em segundo na prova de sete furlongs do Prince’s Countryside Trust. “A experiência mais emocionante e aterrorizante da minha vida”, lembra.

No restante do tempo, segue o conselho da fábula de Florian: “Para viver feliz, vive escondido”, desde que os tabloides o deixem em paz - o que nem sempre acontece. O olhar público nunca o abraçou tanto quanto abraçou Rooney ou Gerrard, mesmo em seu auge. Owen era polido demais, sério demais, até “chato” para o próprio gosto.

Mesmo sem arrependimentos ou desejos não realizados, há um toque de melancolia nele, sutil, quase imperceptível. É só mais tarde, no trem de volta para casa, duas horas depois de nos despedirmos na porta da sua casa-museu (“Volte em breve!”), revivendo mentalmente o que dissera na sala de estar, que uma frase ecoa: dita no mesmo tom com que perguntara se queríamos algo para beber, mas carregada de peso, vindo de um homem de apenas 41 anos: “É tudo o que tenho agora. Memórias.”