Quando se pensa em Michael Owen em 2026, a carreira dele é analisada como um todo: desde a explosão ainda adolescente até a aposentadoria, aos 33 anos, em 2013, já com suas principais qualidades há muito afetadas pelas lesões.
Foram 17 anos jogando no mais alto nível, com picos impressionantes e quedas duras. Nos melhores momentos, ele atingiu um nível reservado a poucos talentos realmente grandes. Já os períodos ruins, vale reforçar, aconteceram em grande parte por causa das lesões. Teve uma ruptura nos isquiotibiais aos 19 anos, da qual nunca se recuperou totalmente. Depois, uma ruptura do ligamento cruzado anterior no joelho direito o tirou dos gramados por um ano.
Mas, claro, o que mais facilmente vem à mente são os golos, tantos deles, a maioria convertidos combinando a sua velocidade estonteante com uma finalização clínica.
Mas, claro, o que mais fica na memória são os gols - muitos gols - a maioria marcados combinando sua velocidade absurda com uma finalização precisa.
Ao todo, Owen marcou 262 gols na carreira profissional, um número expressivo que inclui gols decisivos em finais e também um gol individual espetacular pela Inglaterra, que o colocou de vez no cenário mundial.
No fim das contas, é por isso que ele é lembrado - e sempre será. Por colocar a bola no fundo da rede.
Nesse sentido, Owen era como um supercarro: quando estava em perfeito estado, aterrorizava qualquer defesa, fosse ela forte, boa ou mediana. Em 2001, tornou-se o primeiro inglês a ganhar o Ballon d'Or desde Kevin Keegan e, antes disso, já havia quebrado inúmeros recordes de gols ainda muito jovem.
Infelizmente, como será explicado a seguir, o que faltou a ele foi a durabilidade de um carro comum.
Um fenômeno adolescente: antes das lesões
Se olharmos para os anos de Michael Owen no Liverpool, os pontos negativos são poucos.
É verdade que a lesão nos isquiotibiais ainda na adolescência já dava sinais do que viria depois. E foi pouco tempo depois de ajudar o clube a conquistar a FA Cup, a Copa da Liga e a Copa da UEFA no início do novo século que ele começou a questionar as ambições do Liverpool - e se elas estavam alinhadas com as suas.
Isso acabou levando, em 2004, à sua transferência para o Real Madrid, tornando-se mais um “Galáctico”, em uma negociação por um valor relativamente baixo após uma longa disputa contratual.
Antes disso tudo, porém, Owen era, sem dúvida, o grande “menino prodígio” do Liverpool. Nascido no norte do País de Gales, entrou para a base do clube aos 12 anos e rapidamente se destacou em todas as categorias.
Ele marcou na estreia profissional, em 1997, precisando de apenas 16 minutos em campo, saindo do banco, contra o Wimbledon.
Na primeira temporada completa na Premier League, ainda adolescente, fez 18 gols e dividiu a Chuteira de Ouro com Chris Sutton e Dion Dublin.
Dado: Aos 10 anos, Owen marcou 97 gols em uma única temporada pela equipe sub-11 da Deeside Primary School, quebrando um recorde de 25 anos que pertencia a Ian Rush.
Resumindo: era um fenômeno. Um finalizador com talento quase sobrenatural, cuja ascensão foi impressionante - mesmo com expectativas já altíssimas, já que ele quebrava recordes com facilidade.
“Parar Michael Owen de marcar e você está 50% mais perto de conseguir um resultado em Anfield.” Foi o que disse Sam Allardyce nos tempos de Bolton. E, se isso parecer um leve desmerecimento dos companheiros dele, vale lembrar quem eram:
Na defesa, [Stéphane] Henchoz, [Sami] Hyypiä e [Jamie] Carragher eram sólidos. No meio, Steven Gerrard comandava. No ataque, Emile Heskey dava um suporte fundamental ao principal artilheiro da liga.
Na temporada 2000-01, sob o comando de Gérard Houllier, o Liverpool estava em ascensão - culminando em um ano memorável tanto para o clube quanto para sua grande estrela.
A temporada mágica: o menino de ouro do Liverpool
O Liverpool não brigou de forma realista pelo título da Premier League em 2000-01, mas fez uma boa campanha e terminou em terceiro.
Nas copas, porém, foi implacável, mostrando força em jogos eliminatórios - e Owen quase sempre aparecia para decidir.
O primeiro título veio em fevereiro, com a vitória sobre o Birmingham City nos pênaltis na final da Copa da Liga. Owen, no entanto, teve participação limitada, já que era poupado com frequência nesses jogos, sendo preservado para competições mais importantes.
Na Copa da UEFA, a história foi diferente: marcou dois gols contra a Roma e um contra o Porto, ajudando o Liverpool a chegar à final em Dortmund.
Na decisão, um jogo maluco com nove gols. Curiosamente, Owen foi um dos poucos atacantes que não marcaram, mas contribuiu com duas assistências importantes.
E então veio a FA Cup, com uma final marcante contra o Arsenal, disputada no Millennium Stadium, já que Wembley estava em reforma.
O impacto de Owen foi tão grande que a partida ficou conhecida como “a final de Owen”, graças aos dois gols no fim que viraram o jogo.
John Gibbins, do The Anfield Wrap, lembra bem daquele dia: “Na temporada 2000/01, o Liverpool tinha muitos talentos ofensivos, mas Gérard Houllier sempre escolhia Michael para os jogos grandes - e ele sempre entregava.
A temporada dele é mais lembrada pela atuação decisiva na FA Cup contra o Arsenal. Em um esporte coletivo, é raro um jogador definir tanto uma partida. Se colocássemos Owen naquele time do Arsenal, eles teriam vencido por 3 ou 4 a 0. Mas o Arsenal desperdiçou suas chances, e Owen não - incluindo um golaço no ângulo.
Outro momento impressionante foi o jogo contra a Roma fora de casa. Eles estavam invictos e a caminho do título italiano, mas o Liverpool venceu por 2 a 0 com mais uma atuação clínica dele. As temporadas anteriores já mostravam seu talento, mas foi essa que consolidou sua fama de jogador decisivo em jogos grandes.”
Velocidade e precisão: a fórmula de 2001
O gol da vitória na final da FA Cup resume perfeitamente as qualidades que levaram Owen ao Ballon d'Or em outubro.
O jogo está 1 a 1, já nos minutos finais. O cansaço é evidente. O Arsenal pressiona, e o Liverpool se defende - algo comum naquela temporada. Então, os Reds lançam a bola para frente, apostando que Owen consiga escapar da marcação.
Dessa vez, não estava totalmente livre: o Arsenal se preveniu e deixou dois jogadores na cobertura.
Mas uma arrancada explosiva muda tudo. Owen deixa Lee Dixon para trás e avança em direção ao gol. Aos 14 anos, ele corria os 100 metros em 10,8 segundos - e Dixon, já exausto, não tinha nenhuma chance.
Dado: Em 2008, no Newcastle, Owen chegou a contratar um treinador especializado em velocidade para tentar recuperar sua explosão após as lesões.
Muitas das lesões que sofreu ao longo da carreira - geralmente na virilha ou nos isquiotibiais - são atribuídas à sua tendência de arrancar em velocidade a partir da imobilidade. Mas, no auge, era algo impressionante de ver.
Era como um foguete sendo lançado. Uma bala disparada.
Com Dixon batido, restava apenas um defensor: Tony Adams. Em vez de partir para o duelo direto, Owen percebe um pequeno espaço à esquerda do goleiro - e isso já era suficiente.
Mesmo em um ângulo difícil, ele finaliza em alta velocidade com uma precisão absurda. Uma finalização treinada milhares de vezes no centro de treinamento de Melwood.
O gol da vitória em Cardiff foi dramático, icônico - e mais uma prova de que, naquele momento, ele era o finalizador mais letal da Europa.
Somando essa precisão à sua velocidade impressionante, Michael Owen se tornou praticamente imbatível - até que as lesões o tornaram mais humano. E foi isso que, com justiça, o levou a conquistar o Ballon d'Or naquele ano.
Estatísticas de Michael Owen em 2000-01 | |
Premier League | 28 jogos, 16 gols |
FA Cup | 5 jogos, 3 gols |
Copa da Liga | 2 jogos, 1 gol |