Uma encruzilhada: encontrar outro rumo
Muitos jogadores se deparam com uma grande encruzilhada ao longo da carreira, e, muitas vezes, isso acontece logo nos primeiros passos.
Essa encruzilhada pode surgir de várias formas, mas, na maioria dos casos, representa um momento de dúvida sobre uma convicção que parecia inabalável: a de que o futebol de alto nível era o seu destino.
Wayne Rooney tinha 14 anos quando disse ao pai que queria abandonar o futebol para se dedicar ao boxe, sua outra grande paixão.
O atacante já fazia parte das categorias de base do Everton havia cinco anos e era muito bem avaliado pelo clube. No entanto, a rotina intensa de treinamentos e a necessidade de seguir uma disciplina tática começaram a desgastá-lo. No fundo, Rooney sempre foi um jogador de rua.
Ele adorava treinar na academia do tio, enquanto calçar as chuteiras já não despertava o mesmo entusiasmo. Era hora de tomar uma decisão que mudaria o rumo de sua vida para sempre.
Na mesma época, mas a cerca de 16 mil quilômetros de distância, Tim Cahill enfrentava o próprio momento decisivo. Durante a avaliação anual do Sydney Olympic, foi considerado pequeno e lento demais para continuar no clube.
Depois de passar cinco anos nas categorias de base - e, mais importante, de superar uma ansiedade incapacitante na infância para perseguir o sonho de ser jogador -, a notícia abalou profundamente o jovem australiano, que passou a conviver com insegurança e desânimo.
Mesmo assim, ele encontrou forças para seguir em frente. Entrou no Instituto de Esporte de Nova Gales do Sul para melhorar sua velocidade e assinou com o Belmore Hercules, um pequeno clube que disputava divisões muito inferiores do futebol australiano.
Ele precisou dar alguns passos para trás antes de conseguir dar um salto gigantesco para a frente.
Combustível para a alma
O futebol poderia ter perdido grandes jogadores se eles não tivessem encontrado forças dentro de si para continuar acreditando no próprio caminho.
No caso de Rooney, foi o amor pelo jogo que falou mais alto. Já Cahill encontrou motivação em um dos maiores combustíveis que existem: o desejo de provar que aqueles que duvidavam dele estavam errados.
Anos depois, o indicado ao Ballon d'Or de 2006 resumiu esse sentimento ao anunciar sua aposentadoria da seleção australiana, depois de disputar 108 partidas pelo país.
"Às pessoas que disseram que eu não era capaz, digo: obrigado."
Dilema: o início turbulento de Gvardiol
Por volta de 2018, no quinto andar de um prédio em Zagreb, um jovem Joško Gvardiol estava mergulhado em dúvidas.
Assim como Cahill, ele queria desesperadamente provar que os céticos estavam errados. Queria mostrar que já estava pronto, apesar de quem insistia em dizer que sua hora ainda não havia chegado.
O problema era que ele sequer tinha a chance de provar isso. Semana após semana, permanecia no banco da equipe de base do Dinamo Zagreb.
Parecia uma situação sem saída.
Fora da Croácia, o zagueiro já começava a chamar a atenção de algumas pessoas como um talento promissor, elogiado pela força nos desarmes, pela inteligência na leitura de jogo e pela impressionante aceleração.
Mas, no clube de sua cidade natal, seu desenvolvimento parecia estagnado. Será que o futebol realmente era o caminho certo?
Todas as manhãs, seu pai acordava às quatro da manhã para vender peixe no Mercado Dolac, em Zagreb. Muitas vezes, o próprio peixe era pescado por ele, que enfrentava o agitado Mar Adriático em um barco alugado.
Em certa ocasião, Joško acompanhou o pai e ficou impressionado com o quanto aquele trabalho era duro e exigente.
Trabalhar na banca do mercado, porém, era algo que ele sabia fazer. Afinal, já estava acostumado àquele ambiente, passando por lá inúmeras vezes depois da escola e, mais tarde, dos treinos.
A carreira de Joško Gvardiol mal havia começado. A transferência de € 90 milhões para o Manchester City, concretizada em 2023, parecia um sonho impossível. Disputar uma semifinal de Copa do Mundo com a Croácia era pura fantasia.
Mesmo assim, o risco de tudo acabar antes mesmo de começar já era bastante real.
Princípios para a jornada
No fim das contas, quem ajudou a mudar essa situação foi um amigo da família Gvardiol. Em uma tarde, ele apareceu no apartamento da família com um mapa mental feito à mão, mostrando um caminho para o sucesso.
A ideia teve um impacto profundo em Joško, que deixou de se culpar pelo momento que vivia.
Essa iniciativa chama a atenção porque os mapas mentais se tornaram uma ferramenta importante da psicologia do esporte nos dias de hoje. Grandes clubes os utilizam para desenvolver seus atletas e ajudá-los a construir uma mentalidade vencedora.
Cientes das enormes exigências impostas aos jovens talentos - e da necessidade de reduzir o risco de esgotamento ou até mesmo de frustração à medida que essas cobranças aumentam -, muitos clubes incentivam técnicas de visualização. Com elas, os atletas aprendem a enxergar o sucesso por meio de pequenas evoluções, além de lidar melhor com os erros e manter a calma em momentos de pressão.
Essas técnicas não se limitam aos treinos ou às partidas. Elas também ajudam os jogadores a entender o momento que vivem e a enxergar a própria trajetória de forma mais equilibrada.
Além disso, outros pilares da psicologia do esporte têm relação direta com as histórias dos jogadores citados anteriormente.
Um deles é incentivar o amor pelo jogo acima das recompensas externas ou do medo de punições.
Se esse tipo de abordagem já existisse nos bastidores de Goodison Park no fim dos anos 1990, será que Rooney teria chegado a uma encruzilhada antes mesmo de sua carreira realmente começar?
Os atletas também são incentivados a enxergar a adversidade sob outra perspectiva. Em vez de tratar uma sequência de jogos no banco ou derrotas frequentes como fracassos, aprendem a vê-las como oportunidades fundamentais de aprendizado e crescimento.
Mais uma vez, esse processo certamente teria ajudado Gvardiol durante aquele período difícil em Zagreb.
Por fim, os jogadores de hoje são estimulados a assumir a responsabilidade pelo próprio desenvolvimento.
Esse conceito era pouco difundido no fim dos anos 1990 e foi justamente o que Tim Cahill precisou fazer por conta própria, guiado apenas pela própria motivação.
Quando a coragem e a confiança da infância dão lugar às inseguranças e pressões da adolescência, os jovens jogadores de hoje, ao menos, contam com o apoio da psicologia do esporte.
Seus princípios existem para protegê-los e prepará-los, garantindo que, quando chegarem a uma encruzilhada, saibam exatamente qual caminho seguir.