Neste outono europeu, pela primeira vez em seus 70 anos de história, a cerimônia do Ballon d’Or acontecerá em Londres, na Inglaterra.

A mudança de local carrega um significado profundo, principalmente porque o primeiro vencedor do Ballon d'Or foi Sir Stanley Matthews, um jogador que personificava, em cada gesto, algumas das características mais marcantes da essência do futebol inglês.

O lendário ponta do Blackpool e do Stoke City foi um verdadeiro embaixador do futebol, dedicando a vida à sua arte, ao espetáculo e ao fair play.

Além disso, no momento em que o Ballon d’Or completa setenta anos, parece apropriado que, em uma edição tão simbólica, os maiores expoentes atuais do futebol mundial sejam celebrados justamente no coração do país que deu origem ao esporte.

E assim seguimos rumo à capital inglesa, deixando temporariamente o elegante Théâtre du Châtelet, em Paris, palco do Ballon d’Or desde 2019. Antes disso, a cerimônia passou por diversos locais da capital francesa, incluindo o Grand Palais e a Torre Eiffel.

Ar marinho e um prato de porcelana

Em 18 de dezembro de 1956, foi à sombra de uma torre famosa, embora muito diferente, que Matthews, então com 41 anos, recebeu sua homenagem, aceitando orgulhosamente o troféu em uma sala revestida por painéis de madeira na Prefeitura de Blackpool.

Hoje em dia, estamos acostumados a ver a cerimônia do Ballon d’Or como um evento extremamente glamouroso e prestigiado, reunindo uma constelação de jogadores e treinadores consagrados. Tem apresentações musicais. A cerimônia é televisionada e transmitida ao vivo para o mundo inteiro.

Treinadores campeões nacionais sentam-se ao lado de jogadores vencedores da Liga dos Campeões, muitos deles vestindo smokings.

Em contraste com toda essa grandiosidade, no fim de 1956, Matthews recebeu seu troféu das mãos de Gabriel Hanot, o visionário editor do L’Équipe que criou o Ballon d’Or. Em outro canto da sala, um pequeno grupo de autoridades acompanhava a cerimônia, incluindo o prefeito da cidade, que encomendou um prato de porcelana para marcar a ocasião.

Tímido sem suas chuteiras, Matthews fez um discurso breve, agradecendo a Hanot e atribuindo generosamente o mérito aos seus companheiros de clube e da seleção inglesa pelo papel que desempenharam. Teve alguns aplausos. Depois, todos foram para casa.

O eterno debate sobre o primeiro

Se uma reunião tão discreta é muito diferente da grandiosidade que cerca o Ballon d’Or no século XXI, uma coisa era tão verdadeira naquela época quanto continua sendo hoje: nem todos concordavam com o vencedor final.

Um grupo de jornalistas franceses escolheu, cada um, três jogadores que atuavam na Europa, e havia quem acreditasse, no momento do anúncio oficial, que o “Mago do Drible” tinha vencido muito mais pelo extraordinário conjunto de realizações acumuladas ao longo da carreira do que propriamente por um desempenho especialmente marcante naquele ano.

Não podemos esquecer que estávamos no inverno de 1956, poucos meses depois de Real Madrid e Reims disputarem a emocionante primeira final da Copa dos Campeões Europeus - competição que também foi criada pelo visionário Gabriel Hanot.

No comando do ataque dos “Los Blancos” naquela noite - e marcando o primeiro gol da vitória do Real Madrid por 4 a 3 - estava o lendário Alfredo Di Stéfano, então com 30 anos e ainda distante uma década da aposentadoria. Já o Reims era liderado pelo moderno Raymond Kopa, um atacante brilhante cujos movimentos e habilidades ofereciam um vislumbre do futuro.

Ambos esses talentos colossais seriam devidamente reconhecidos pelo Ballon d’Or pouco tempo depois: Di Stéfano venceria o prêmio em dois dos três anos seguintes, enquanto Kopa conquistaria o prêmio em 1958.

Pioneiro discreto

É claro que o debate sobre se Matthews realmente merecia vencer o primeiro Ballon d’Or não diminuía sua enorme reputação no futebol nem o imenso respeito que recebia ao redor do mundo.

O habilidoso ponta era reverenciado universalmente e continuaria encantando multidões muitas outras vezes antes de deixar os gramados enlameados sob aplausos nacionais, já aos impressionantes 50 anos de idade.

Era evidente que algumas pessoas acreditavam que, naquele caso, ele estava sendo premiado também por sua longevidade, já que suas duas décadas no mais alto nível do esporte lhe conferiam uma aura quase institucional.

Mas aquele prêmio recém-criado deveria reconhecer o conjunto da obra? Ou seria, como imaginava Gabriel Hanot, uma homenagem destinada a celebrar a grandeza do presente?

Vale lembrar que, na temporada 1955-56, Matthews sequer venceu o prêmio de Jogador do Ano da FWA, que acabou ficando com Bert Trautmann, do Manchester City.

Ainda assim, existem outros fatores igualmente importantes a considerar.

Principalmente o fato de Matthews não ser uma simples “relíquia” de uma era passada, admirada mais pela resistência do que pelo impacto dentro de campo. Ele era um pioneiro, constantemente ultrapassando limites em alimentação e preparação física, adotando métodos que, na época, eram vistos como excêntricos por companheiros que riam dele, mas que hoje se tornaram pilares das práticas modernas do esporte.

Ele estava anos à frente do seu tempo. Décadas.

Além disso, Matthews tinha 41 anos quando recebeu o prêmio, e milhares de torcedores adversários não lotavam os estádios semanalmente apenas para observar uma lenda do passado recente. Eles iam para se maravilhar com seu talento. Encantados por uma habilidade no drible que continuava incomparável.

Foi por isso que ele venceu em 1956. E uma lista histórica de vencedores que inclui nomes como Cruyff, Beckenbauer e Messi certamente pareceria um pouco menos completa sem sua presença.

Assim, em dezembro de 1956, Sir Stanley Matthews recebeu o maior reconhecimento de sua carreira em uma pequena prefeitura de Blackpool. E embora tenha sido apenas uma cerimônia modesta, e embora a gala deste ano aconteça cerca de 400 quilômetros ao sul da costa de Lancashire, é possível dizer que, neste outono europeu, o futebol está voltando para casa. De volta ao lugar onde tudo começou para o Ballon d'Or.