Uma voz contra o racismo

Na cerimônia do Ballon d'Or de 2023, o astro brasileiro Vinícius Júnior recebeu o Prêmio Sócrates por seu trabalho contínuo no combate ao racismo e à discriminação no futebol.

Desde que chegou ao Real Madrid, em 2018, Vinícius tem sido alvo constante de abusos racistas, mas nunca baixou a cabeça. Pelo contrário: sempre se posicionou, levantou a voz contra o preconceito e lutou não só por si, mas também por tantos outros jogadores negros que enfrentam situações semelhantes dentro e fora de campo.

Sua luta colocou o tema no centro das discussões ao redor do mundo, dentro e fora do futebol, chamando cada vez mais a atenção de autoridades esportivas, jogadores, treinadores, torcedores, jornalistas e até políticos.

Neste ano, tivemos mais um exemplo de como essa luta incansável tem gerado resultados, ajudando a promover mudanças importantes e duradouras no esporte que tanto amamos.

O incidente no Estádio da Luz

No dia 17 de fevereiro deste ano, durante o primeiro jogo das oitavas de final da Liga dos Campeões entre Real Madrid e Benfica, Vinícius voltou a estar no centro de um incidente que ganhou as manchetes de jornais ao redor do mundo.

Depois de marcar o gol da vitória no Estádio da Luz, em Lisboa, o ponta brasileiro comemorou dançando ao lado da bandeirinha de escanteio, em frente à torcida do Benfica. A comemoração foi vista por jogadores, comissão técnica e torcedores do Benfica como uma provocação e acabou gerando um confronto acalorado entre os dois lados. O árbitro francês François Letexier mostrou cartão amarelo a Vinícius em resposta.

Mas foi aí que a situação ficou muito mais séria. Pouco depois de receber o cartão, Vinícius correu até Letexier para dizer que o ponta argentino do Benfica, Gianluca Prestianni, havia dirigido ofensas racistas a ele. A denúncia acionou o protocolo antirracismo da UEFA, e a partida ficou paralisada por 10 minutos.

Ao rever as imagens, porém, o árbitro não conseguiu identificar o que Prestianni havia dito, já que o jogador cobriu a boca com a camisa enquanto falava. A partida, então, seguiu normalmente.

O jogo terminou em 1 a 0, mas o principal assunto depois do apito final foi o incidente que revoltou não apenas os jogadores do Real Madrid, mas também torcedores e fãs de futebol ao redor do mundo - algo que, justamente porque Prestianni cobriu a boca, não pôde ser comprovado nem punido de forma adequada.

O que veio depois foi um efeito dominó.

A reação do mundo do futebol

Após a partida, Vinícius usou as redes sociais para escrever: ‘Os racistas são, acima de tudo, covardes. Eles precisam colocar suas camisas na boca para mostrar o quanto são fracos. Mas eles têm a proteção de outras pessoas que, teoricamente, têm a obrigação de puni-los. Nada do que aconteceu hoje é novidade na minha vida ou na vida do meu time. Recebi um cartão amarelo por comemorar um gol. Ainda não entendo por quê. Por outro lado, foi apenas um protocolo mal executado que não serviu para nada. Não gosto de aparecer em situações como essa, especialmente depois de uma grande vitória e quando as manchetes deveriam ser sobre o Real Madrid, mas é necessário.’ (Instagram)

Vários jogadores do Real Madrid se manifestaram em apoio ao companheiro.

Kylian Mbappé, oito vezes indicado ao Ballon d'Or, afirmou ter ouvido Prestianni chamar Vinícius por um termo racista: "Ele falou isso cinco vezes. Estou sendo o mais claro possível." (Real Madrid)

O lateral-direito Trent Alexander-Arnold também condenou o episódio: "Isso arruinou a noite. É uma vergonha para o esporte e também para a sociedade. Não há lugar para esse tipo de coisa." (CBS Sports Golazo)

O então técnico do clube, Álvaro Arbeloa, também se manifestou sobre o episódio, enquanto o próprio Real Madrid divulgou uma nota: ‘O Real Madrid vai continuar trabalhando, em colaboração com todas as instituições, para erradicar o racismo, a violência e o ódio no esporte e na sociedade.’ (Real Madrid)

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também divulgou uma nota em apoio a Vinícius.

Prestianni, por sua vez, negou veementemente a acusação. Após a partida, ele escreveu nas redes sociais: ‘Quero esclarecer que em nenhum momento dirigi insultos racistas a Vinícius Júnior, que infelizmente interpretou mal o que pensou ter ouvido. Nunca fui racista com ninguém e lamento as ameaças que recebi dos jogadores do Real Madrid.’ (Instagram)

O Benfica deu total apoio ao jogador e classificou as acusações como uma ‘campanha de difamação’. (BBC Sport)

Mourinho entra na discussão

Na época, o clube português era comandado pelo técnico José Mourinho, que também falou sobre o episódio, comentando a comemoração de Vinícius, que considerou provocativa: "Isso acontece em tantos estádios, e sempre com o mesmo cara. Alguma coisa não está certa. Em campo, eu disse ao Vinícius: 'Você marcou um gol que o mundo inteiro vai ver. Por que você foi comemorar assim? Por quê?'" (beIN Sports)

A declaração gerou críticas no mundo do futebol, principalmente por colocar o foco na comemoração, em vez do episódio denunciado por Vinícius. 

O técnico do Bayern de Munique, Vincent Kompany, questionou a postura do técnico português: "Mourinho basicamente questiona o caráter do Vinícius Júnior ao trazer a comemoração à tona para desacreditar o que aconteceu naquele momento. Para mim, como líder, isso é um erro enorme. É algo que não podemos aceitar." (Diario AS)

Kompany, no entanto, fez questão de ressaltar que, para ele, aquilo foi um erro pontual e não um reflexo do caráter de Mourinho: "Todos os jogadores que trabalharam com ele o admiram. Eu sei que tipo de pessoa ele é. Entendo que ele está defendendo o time e o clube dele, e foi por isso que tomou essa decisão. Você não pode ser uma pessoa ruim e, ao mesmo tempo, ter tantos ex-jogadores falando tão bem de você. Por isso, sei que ele é uma boa pessoa. Não preciso julgá-lo como pessoa, mas também sei o que ouvi. Ele cometeu um erro." (Diario AS)

Em resposta às críticas, Mourinho esclareceu sua posição: não tomaria partido nem diria ter certeza sobre o que aconteceu sem provas que confirmassem a versão de um dos lados. Vinícius dizia uma coisa, enquanto Prestianni dizia outra. 

Mourinho, porém, deixou claro que, se as acusações fossem comprovadas, retiraria imediatamente seu apoio ao ponta argentino: "Se o meu jogador não respeitou esses princípios, que são meus e do Benfica, a carreira dele com um treinador chamado Mourinho e em um clube como o Benfica chega ao fim. Não sou um letrado, mas também não sou ignorante: a presunção de inocência é um direito. [...] Se o jogador for realmente culpado, não vou mais olhar para ele da mesma forma e, comigo, estará tudo acabado. Mas preciso colocar muitos 'ses' nessa situação." (GE)

No fundo, a questão central era simples - como resumiu Thierry Henry: "A gente não sabe o que o Prestianni disse, porque ele colocou a camisa na boca para que ninguém pudesse ver. Isso, obviamente, é suspeito. Claramente, ele não queria que as pessoas vissem o que estava dizendo." (CBS Sports Golazo)

A investigação do caso

No dia seguinte ao incidente, a UEFA abriu uma investigação sobre o caso. Uma ofensa racista, como a que Vinícius alegava, resultaria em uma suspensão obrigatória de 10 jogos para Prestianni, mas, antes disso, seria necessário comprovar o ocorrido.

Prestianni recebeu uma suspensão provisória de uma partida e ficou fora do jogo de volta do Benfica contra o Real Madrid, na semana seguinte. De forma quase poética, Vinícius também marcou o gol da vitória nessa partida. Depois, correu para comemorar de forma parecida junto à bandeirinha de escanteio, desta vez no seu querido Santiago Bernabéu.

Durante a partida, torcedores do Real Madrid ergueram uma enorme faixa com uma mensagem simples: ‘Não ao racismo’.

Mas, por causa da camisa que cobriu a boca de Prestianni, parecia que o episódio não teria muitas consequências.

Poucas semanas depois, ele foi convocado pelo técnico da seleção argentina, Lionel Scaloni, para os amistosos seguintes.

Uma punição controversa

Levaria mais de dois meses até que novas consequências por suas ações fossem anunciadas - e, para muitos, elas deixaram a desejar.

Prestianni alegou que havia coberto a boca para dizer um insulto homofóbico, e não racista, e que Vinícius teria entendido errado o que ouviu.

No fim de abril, a UEFA anunciou uma suspensão de seis jogos para Prestianni por ‘conduta discriminatória’, relacionada ao uso de linguagem homofóbica. No entanto, três dessas seis partidas ficaram sujeitas a um período probatório de dois anos. Na prática, isso significava que ele cumpriria apenas três jogos de suspensão, desde que não cometesse nenhuma nova infração durante esse período. A UEFA também informou que a punição já incluía a suspensão provisória que ele havia cumprido no jogo de volta contra o Real Madrid, pela Liga dos Campeões.

Seria esse o fim da história? 

Não haveria nenhuma regra ou ferramenta para lidar com casos parecidos no futuro?

Felizmente, a recusa de Vinícius em ficar calado sobre o episódio - mais um entre tantos que ele infelizmente já sofreu ao longo da carreira -, somada ao apoio de tantas outras vozes do futebol mundial, ajudou a impulsionar novas medidas.

Nasce a Lei Vini Jr.

Poucos dias depois do anúncio da suspensão de seis jogos de Prestianni, uma reunião especial do International Football Association Board (IFAB) resultou na aprovação, pela FIFA, de uma mudança histórica no futebol mundial: jogadores que cobrirem a boca durante confrontos passarão a receber cartão vermelho direto.

Após a aprovação da nova regra, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, falou sobre sua importância: "Se um jogador cobre a boca e diz alguma coisa de cunho racista, ele precisa ser expulso - obviamente. Precisamos assumir que ele disse algo que não deveria, porque, senão, não teria motivo para cobrir a boca." (GE)

Motivada pelo episódio entre Vinícius e Prestianni, a nova regra representa um passo importante na proteção dos jogadores e no combate ao racismo no esporte.

Batizada de forma bastante apropriada como ‘Lei Vini Jr.’, a regra homenageia o jogador que se tornou símbolo de tantas vitórias históricas, dentro e fora de campo.

Dennis Agyeman (Presse Sports)

A Lei Vini Jr. chega à Copa

Na recente Copa do Mundo, vimos de perto como uma única pessoa pode impulsionar mudanças tão necessárias no esporte que amamos.

Durante o torneio, a Lei Vini Jr. foi aplicada em duas partidas diferentes.

Primeiro, na partida entre Paraguai e Turquia, Miguel Almirón recebeu cartão vermelho direto por cobrir a boca durante um confronto com Mert Müldür. Dias depois, o equatoriano Piero Hincapié também foi expulso por uma atitude semelhante contra o mexicano Santi Giménez.

A aplicação da nova regra foi bem recebida e elogiada ao redor do mundo.

É claro que ainda existem ressalvas. A forma como a regra é aplicada depende do árbitro de cada partida e, de modo geral, sua utilização ainda é opcional, ficando a critério de cada organizador de competição. Ou seja, ela não é obrigatória em todos os torneios.

Além disso, é importante lembrar que o racismo infelizmente continua presente no esporte, com ou sem a nova regra. Depois de analisar cerca de seis milhões de publicações, a FIFA identificou 89 mil casos de abuso nas redes sociais apenas durante a fase de grupos da Copa deste ano, sendo 11% deles de natureza racista.

Ainda assim, a Lei Vini Jr. estabelece um precedente importante: esse tipo de abuso nunca será tolerado entre jogadores e comissões técnicas, por mais disfarçado que seja.

O Brasil adota a nova regra

O sucesso da implementação da regra no maior torneio do futebol certamente ajudou a impulsionar sua expansão. Em meados de julho, a CONMEBOL seguiu o exemplo da FIFA e adotou a regra em suas competições.

Depois, ainda neste mês, a CBF aprovou um amplo pacote de mudanças nas regras do futebol brasileiro, incluindo a Lei Vini Jr. As novas regras serão aplicadas na Série A do Campeonato Brasileiro (onde Vinícius começou a carreira pelo Flamengo), além da Série B, da Copa do Brasil masculina e do Campeonato Brasileiro Feminino A1.

Essa é a segunda ‘Lei Vini Jr.’ a ser implementada no Brasil.

Em 2023, uma outra lei com o mesmo nome já havia sido sancionada no país para combater o racismo em eventos esportivos. Diferentemente da nova regra da FIFA, essa legislação - oficialmente chamada de Política Estadual Vini Jr. de Combate ao Racismo nos Estádios e Arenas Esportivas - tem caráter jurídico e estabelece protocolos para lidar com casos de discriminação dentro dos estádios.

A lei determina que os organizadores de eventos esportivos adotem procedimentos específicos nesses casos, como a interrupção temporária das partidas, a identificação dos responsáveis, a notificação às autoridades competentes e até a suspensão definitiva dos eventos. Ela também permite que qualquer cidadão denuncie casos de racismo nos estádios e prevê campanhas educativas antirracistas durante as partidas, principalmente por meio de telões e alto-falantes.

O Rio de Janeiro, estado natal de Vinícius, foi o primeiro a sancionar a lei, seguido por outros estados que passaram a adotar regulamentações semelhantes.

Um legado que vai além do futebol

Com apenas 26 anos, Vini se tornou o nome por trás de mudanças importantes e abrangentes, que vêm ajudando a transformar tanto o esporte que amamos quanto a sociedade como um todo.

E um último capítulo interessante dessa história aconteceu nos últimos meses.

Depois da saída de Arbeloa do comando do Real Madrid, ao fim da temporada, ele foi substituído justamente por José Mourinho, que também deixou o Benfica. O português, que já havia comandado o clube a três títulos no início dos anos 2010, voltou ao Santiago Bernabéu com uma missão importante na pré-temporada.

Em sua primeira grande decisão, o veterano técnico trabalhou para garantir que um jogador em especial não deixasse o clube - como você já deve imaginar: Vinícius Júnior.

O contrato do brasileiro estava previsto para vencer em junho do ano que vem, e o Arsenal, campeão da Premier League inglesa, preparava uma proposta milionária para contratá-lo. Em resposta, o Real Madrid melhorou sua oferta para manter o jogador, que agora renovou contrato com o clube até 2032.

Priorizar a permanência de Vinícius foi uma escolha natural e que pode trazer resultados muito positivos.

Afinal, ele é um dos jogadores mais importantes do clube nos últimos anos, com 128 gols e 100 assistências, além de 14 títulos conquistados ao longo do caminho - incluindo, claro, duas Ligas dos Campeões.

Como o próprio Mourinho explicou: "O mais importante é a renovação do contrato do Vinicius. É importante para ele, obviamente, mas também é uma alegria para todos nós." (ESPN)

Sob o comando de Mourinho, Vinícius vai continuar encantando o público dentro de campo, enquanto segue firme em sua luta fora dele.

E, apesar de ser um caminho longo e desgastante, cheio de contratempos e decepções, a luta de Vinícius contra o racismo no futebol tem gerado resultados importantes - como as leis que levam seu nome - não apenas para ele, mas também para qualquer outro jogador que sonhe em ver o lado mais feio do esporte mais bonito do mundo desaparecer de vez.