Artigo original da France Football, publicado em 2024.

A sua família contou para nós que, quando você era criança, nunca largava a bola de futebol. E se alguém tirasse dela de você porque era hora de comer ou dormir, começava a chorar…

É verdade! (Ele sorri.) Lembro que, quando ia para a escola, levava ela em um saco. Mesmo antes de entrar na sala de aula, escondia ela na mochila porque o professor não queria que eu colocasse na mesa. Em casa, adorava jogar futebol com os meus cães. O meu pai dizia que eu não tinha nada para temer, que eles não me mordiam, então eu me divertia com eles. Driblar um cão é a coisa mais difícil de fazer! (Risos.) Fazia parte do meu processo de aprendizagem, era como treinar.

Qual é a sua primeira memória relacionada com o futebol?

O meu primeiro treino com o La Torreta (aos 3 anos!). Eu não sabia muito bem o que fazer: todo mundo começou a fazer exercícios de aquecimento... Eu nunca tinha feito aquilo antes, queria ir para casa. O meu pai disse para eu não entrar em pânico, que tudo ficaria bem e que eu iria me divertir quando o treino começasse para valer. E já na segunda sessão, me passaram para a faixa etária seguinte. O La Torreta me deu uma certa base: saber jogar em equipe, como me movimentar e como interagir com os meus colegas de equipe.

Que jogadores te inspiraram?

O Neymar ainda estava no Santos e eu gostava muito de ver vídeos dele. Eu ia para a casa de um amigo que tinha computador e passávamos tardes inteiras vendo vídeos na internet; depois, eu ia para casa e tentava reproduzir as mesmas jogadas no meu quarto antes de dormir. Também adorava o Lionel Messi, obviamente! Sem falar do (David) Villa, do Pedro e de todo aquele time do Barça, que eu via na televisão.

Os jogos em equipes reduzidas no campo de concreto de Rocafonda, em Mataró, ao norte de Barcelona, influenciaram o seu estilo de jogo?

Jogar no Polideportivo (o campo municipal de concreto) me ajudou a desenvolver a inteligência de rua que faz parte do meu jogo, a melhorar em situações de um contra um e a aprender a sair do tipo de situações com que me deparo nos jogos. Também aprendi a controlar o meu medo de jogar com pessoas mais velhas e a me divertir apesar disso. No fim, eu sempre jogava contra adversários que eram sete ou oito anos mais velhos do que eu e tinha que encontrar formas de me esquivar deles para evitar ser atingido.

"Se me compararem com o Leo Messi, o melhor jogador da história, significa que estou fazendo as coisas bem."

De onde vem esse dom para o futebol: do seu pai, que supostamente era bastante talentoso, ou do Leo Messi, que te abençoou durante um evento de caridade quando você era criança?

O meu pai era péssimo! (Ele cai na risada.) Ele fala para todo mundo que jogava bem, mas não é verdade! Apesar de ter sido ele quem me levava ao parque para jogar futebol e quem me inscreveu no La Torreta com a minha mãe. Sinceramente, não lembro da foto com o Messi, eu era muito novo. A minha mãe me contou isso quando eu tinha 7 ou 8 anos. É incrível pensar que o melhor jogador do mundo me deu banho, mas acho que é só uma coincidência.

Você não acha que ele te deu um pouco da magia dele naquele momento?

Espero que sim! (Ele ri.) Com um pouco da magia dele, eu poderia me tornar um jogador de futebol incrível, certo? Mas é uma coincidência, nada mais.

Foi em homenagem a ele que você escolheu o número 19 para o Barça e para a seleção (o Messi usou esse número no início da carreira profissional, de 2005 a 2008)?

Quando fui convocado para a seleção (em 8 de setembro de 2023, contra a Geórgia, numa vitória por 7 a 1 com um gol), escolhi o número 19 porque era um dos únicos que sobravam, já que eu era o novato. Foi com esse número que conquistei o primeiro grande título da minha carreira (a Euro), sabendo que no Barça eu só tinha jogado sete minutos quando ganhamos a La Liga (em 2022-2023, eu usei o número 41 com os Blaugranas e o 27 na temporada passada). Depois, vi que as pessoas começaram a dizer que era o número que o Leo usou em determinado momento no Barça e na seleção. Aí fui me sentindo cada vez mais ligado a ele. É um número muito especial para mim, que vou usar a vida toda. Mas tento não pensar muito nas comparações, para ser sempre eu mesmo. Como eu digo para os meus amigos, para mim o mais importante é deixar a minha marca no futebol, ter uma grande carreira.

Depois, eu penso que, se as pessoas estão me comparando com o melhor jogador da história, isso deve significar que estou fazendo as coisas bem. Não me incomoda, mas sigo focado em mim mesmo.

Você prefere dar uma assistência linda, no estilo do Iniesta, ou marcar um gol sozinho desde o meio-campo, como o Messi?

Uma jogada no estilo do Leo! (Sem hesitar.) Lembro do gol que ele marcou contra o Athletic de Bilbao (uma jogada individual na final da Copa do Rei de 2015). Eu estava saindo do banho e perguntei para a minha mãe: “Qual é o placar?” Nesse momento, vi o Leo receber a bola perto do banco e começar a driblar todos os defensores até o gol. Fiquei impressionado!

Você lembra do dia em que o Barça foi te observar?

Eu estava voltando da escola e um amigo meu, que tinha ouvido a minha mãe falando com as amigas, correu até mim gritando: “Você vai para o Barça!” Eu não acreditei nele, mas mesmo assim perguntei para a minha mãe se era verdade quando cheguei em casa. Ela admitiu que não queria me contar porque ainda não estava totalmente confirmado. Foi um choque! Eu estava pensando em comer um lanche e ir para o parque com os meus amigos e, de repente, me dizem que vou assinar com o Barça! Quando cheguei à La Torreta, eu já tinha aquele domínio no um contra um, aquela ousadia e o meu estilo de jogo, mas me faltava autocontrole. Naquela época, eu era um jogador meio “caótico”: recebia a bola e já ia direto desafiar o meu adversário com um drible. Na La Masia, aprendi a manter a calma e a saber quando jogar rápido, quando jogar mais devagar, a jogar em equipe - tudo o que forma o estilo de jogo único do Barça.

“Na La Masia, aprendi a saber quando jogar rápido e quando jogar devagar.”

Em que áreas você acha que tem espaço para melhorar?

Principalmente na defesa. Os atacantes de grandes clubes como o Barça ou o Real Madrid não defendem muito, e eu acredito que isso é algo que preciso melhorar. Vou tentar focar nisso.

Do que você lembra do seu primeiro dia de treino com o time principal?

Dois dias antes do jogo da Liga dos Campeões contra o Viktoria Plzen (7 de setembro de 2022, uma vitória por 5 a 1), o Xavi convocou os jogadores que tinham jogado pouco ou nada no campeonato de domingo para o treino, e pediram para eu participar. Eu não tive coragem de entrar no vestiário; fiquei um tempo na academia na bicicleta, sem fazer nada... O Ansu (Fati), que eu conhecia um pouco, me acompanhou até lá. O Jordi Alba, o Gerard Piqué, o Miralem Pjanić estavam lá... Eu estava bem nervoso porque eram jogadores que eu estava acostumado a ver na televisão e, de repente, estava jogando com eles. Aos poucos, o constrangimento foi passando. Quando fiz a minha estreia em jogo (em 29 de abril de 2023, na La Liga contra o Betis), me senti bem, sem estresse.

Você é um jovem com pressa?

Não, não, não tenho pressa, mas sou um cara que não gosta de... (Ele para.) Digamos só que, quando sinto que posso jogar em um nível mais alto, não gosto de me acomodar. Gosto de desafios. Prefiro jogar menos, mas com os melhores, do que jogar sempre e ser fácil demais. Já era assim nas equipes de base. Não tenho pressa, mas quero sempre mais.

Junto com o Nico Williams, você foi uma das estrelas da Euro, mostrando tanto serenidade quanto concentração. Como você lida com a pressão?

No fim das contas, o que importa é se divertir jogando futebol. Somos dois amigos jogando juntos. Imagina se você e o seu melhor amigo estivessem na seleção; provavelmente fariam o mesmo que a gente faz. A gente só pensa em aproveitar, em se divertir. A nossa conexão fica clara quando um de nós marca e a gente dança, porque é assim que vemos o futebol: como uma forma de se divertir. Isso também ajuda a gente a ficar mais relaxado, a ser nós mesmos e a dar o nosso melhor.

Vocês achavam que iam ganhar o Euro?

Todos nós confiávamos uns nos outros. O fato de toda a imprensa dizer que não chegaríamos às quartas de final motivou ainda mais a gente. Sabíamos o que tínhamos que fazer para chegar até o fim. E mostramos que éramos o melhor time. Quando você joga com jogadores como o Dani Carvajal, o Rodri, o Nico (Williams), o Dani Olmo, o Pedri... você sabe que é capaz de jogar em alto nível. Temos um grupo muito bom e já estamos pensando na próxima competição.

Na semifinal contra a França, apesar de terem sofrido um gol logo no início (9º minuto), vocês mantiveram a calma e seguiram com o estilo de jogo para virar o resultado.

A gente também estava perdendo nas oitavas de final contra a Geórgia (4 a 1), e isso serviu de lição para nós. Tínhamos entrado um pouco em pânico, perdendo a bola. Por isso, dissemos para nós mesmos que, se levássemos um gol - como aconteceu contra a França, mesmo a gente jogando muito melhor -, teríamos que manter a calma. Felizmente, eu empatei rápido (21º minuto), o que colocou a gente de volta no caminho certo. A França é uma das melhores seleções do mundo. O jogo foi muito físico e a gente venceu graças ao nosso estilo de jogo e ao nosso caráter.

Fale sobre o seu gol incrível...

Nos primeiros 15 minutos, percebi que havia espaço entre a defesa e o meio-campo da França. Eu ficava sozinho nessa zona quando tínhamos a bola. Nessa jogada, vi que tinha espaço à minha frente para chutar, então arrisquei.

É preciso ter ousadia para tentar um chute desses...

É uma questão de confiança. Os meus companheiros de equipe me deram essa confiança, dizendo para eu jogar do jeito que eu sei. O nosso capitão, (Álvaro) Morata, me disse durante a preparação que sabia que eu era capaz de grandes coisas. Com essa confiança, dá para chutar de qualquer lugar do campo.

Antes do jogo, o Adrien Rabiot, depois de te elogiar, disse: “Para jogar numa final da Euro, ele vai ter que fazer muito mais do que fez até agora.” Esse gol foi a sua resposta?

Eu percebi mais tarde que era ele quem estava defendendo à minha frente. Naquele momento, não prestei atenção nisso. No fim, mesmo que tenha sido talvez um mal-entendido, isso me ajudou a ficar mais motivado para fazer um bom jogo. Mas eu não guardo rancor dele. Ele é um excelente jogador e vai ser um prazer enfrentá-lo de novo em campo.

“Eu podia pensar que sou o rei do mundo, mas não é o caso”

Com esse título, você estabeleceu um novo recorde ao se tornar o jogador mais jovem a conquistar um troféu internacional, ultrapassando Pelé. É um peso grande para carregar?

Pelé é um dos melhores jogadores da história; ele está, sem dúvida, entre os três melhores. Bater o recorde de um jogador tão incrível é algo que vai ficar comigo para a vida toda. Era disso que eu falava quando disse que queria deixar a minha marca no futebol.

Em 2021, você assistiu ao Euro com seus amigos em um centro comercial em Mataró. O tempo voa, não é?

É verdade que eu passei de assistir à competição na televisão, quando nem sequer era profissional, a ser um dos principais jogadores que as crianças gostam de ver. E, além disso, ganhamos o torneio, o que foi um sonho, obviamente! Incrível, não é?

O que essa vitória mudou para você? Houve uma espécie de “Yamalmania” nesse verão...

Eu não me dei necessariamente conta disso durante a competição, porque a gente estava um pouco isolado do mundo; não entendíamos a dimensão do fenômeno. Só percebi mesmo no aeroporto. As pessoas estavam loucas para nos ver, para celebrar com a gente. Agora eu sou mais famoso. Antes, as pessoas pediam fotos, mas eu conseguia sair sem grandes problemas. Agora é impossível. Quando estou no carro, as pessoas me reconhecem pela janela. Mas, admito, eu prefiro isso a não ter ganho a Euro!

Isso não impede a sua mãe de te mandar ajudar nas tarefas de casa, pelo que ouvimos...

Eu poderia pensar que sou o rei do mundo por ser campeão europeu, mas não é o caso, porque a minha mãe continua me pedindo para ir comprar isso ou aquilo, para calçar as minhas sandálias, para fazer isso ou aquilo... (Risos.) Isso me ajuda a manter os pés no chão e me faz querer continuar melhorando dia após dia.

Você se vê no Barça por muitos anos ou acha que vai continuar a carreira em outro lugar?

Quero aproveitar este momento, fazendo parte do melhor clube do mundo. Quero fazer história no Barça; isso é o que mais importa para mim.

Houve Clássicos acalorados, alimentados pela rivalidade entre Messi e Ronaldo. Será que a era do duelo Yamal-Mbappé está chegando?

Eu me lembro daqueles Clássicos de que todo mundo falava: era uma loucura!

Quanto mais grandes jogadores houver, tanto no Madrid quanto no Barça, melhor para a La Liga. Mas não, não acho que agora seja a era Mbappé-Lamine. Vai ser a era Barça-Madrid, como sempre foi. E vamos fazer tudo o que pudermos para vencer os Clássicos que vierem, para conquistar títulos.

Com o que você sonha mais: a Liga dos Campeões, a Copa do Mundo ou o Ballon d’Or?

Eu diria a Copa do Mundo e a Liga dos Campeões, mas não consigo escolher... depois, o Ballon d’Or.

Você é o claro favorito ao Troféu Kopa, que homenageia o melhor jogador jovem com menos de 21 anos e será entregue pela France Football no dia 28 de outubro, durante a cerimônia do Ballon d'Or. Seria uma conquista satisfatória ou você já está mirando mais alto?

Espero ganhar esse Troféu Kopa, me deem ele! (Risos.) Como já disse, eu quero sempre mais. Gostaria de ganhar a Liga dos Campeões, a Bola de Ouro. Se eu conseguir ganhar, ótimo, mas não penso muito nisso. Estou principalmente focado em começar bem a temporada com o Barça. Acho que ainda não é o meu ano, não tenho pressa. Nesta temporada, vou tentar dar o meu melhor, conquistar títulos com o Barça para poder ganhar isso. Se eu ganhar o prêmio de melhor jovem jogador este ano, aceito com prazer e depois miro mais alto, como sempre fiz.