O entusiasmo e as expectativas
Desde muito jovem, grandes coisas eram esperadas de Kylian Mbappé, e foi exatamente isso que ele vem demonstrando.
Neste verão, o atacante se tornou o primeiro jogador em meio século a atingir os dois dígitos em uma Copa, tornando-se assim o maior goleador da história da França.
No futebol de clubes, foi eleito cinco vezes o Jogador do Ano da Ligue 1 e terminou como artilheiro da liga em seis ocasiões. Pelo Real Madrid, marcou 86 gols em 103 jogos, número que inclui três hat-tricks na Liga dos Campeões.
Durante sete anos consecutivos, terminou entre os dez primeiros no ranking do Ballon d'Or.
Sem dúvida, o garoto obcecado por futebol, natural de um subúrbio ao norte de Paris, concretizou o enorme potencial que era evidente para todos - potencial que levou o Real Madrid a levá-lo de avião para seu centro de treinamentos quando ele tinha 11 anos, e o Chelsea a fazer o mesmo três anos depois.
Ao ver Mbappé pela primeira vez em Clairefontaine, o centro nacional de futebol da França, Arsène Wenger teria, segundo relatos, dito quatro palavras às pessoas que estavam por perto: “Temos o Pelé aqui”.
Começa a construção
As qualidades do jovem eram tão impressionantes que, tanto para os amigos de infância quanto para os treinadores, parecia inevitável que ele tivesse sucesso no futebol profissional. Como poderia não ser, sendo abençoado com dons tão marcantes?
Mas, claro, o futebol - na verdade, a vida - nunca é tão simples assim, e são comuns as histórias de jovens prodígios aclamados que acabam ficando pelo caminho ou atingem seu limite de desenvolvimento prematuramente.
É, portanto, um enorme mérito da família Mbappé ter reconhecido desde cedo que o talento, por si só, nunca seria suficiente para que Kylian tivesse sucesso.
Era necessário ter ego para que ele pudesse lidar da melhor forma com as elevadas expectativas que lhe eram impostas. Por outro lado, também era necessária humildade para lidar com a fama que se aproximava.
A motivação interior estava presente desde o início, mas teria de ser canalizada corretamente, enquanto a força mental seria essencial para lidar com os reveses que certamente acompanhariam sua jornada rumo ao estrelato.
Em essência, sua personalidade foi deliberadamente moldada para prepará-lo para a vida que o esperava, um processo ao qual Mbappé se referiu certa vez, dizendo:
“Minha mãe sempre me disse que, antes de ser um grande jogador, eu precisava ser um grande homem.”
O ambiente certo
A primeira - e, sem dúvida, a mais determinante - consideração na formação do caráter de um indivíduo é, muitas vezes, justamente o aspecto que menos está sob seu controle.
Nesse sentido, a sorte desempenhou um papel significativo no fato de Mbappé ter tido, durante a infância, os meios e as oportunidades para desenvolver adequadamente suas capacidades emergentes, ao mesmo tempo que formava a mentalidade de um atleta de elite.
O pequeno apartamento onde cresceu tinha vista para o estádio do AS Bondy, clube da periferia de Paris onde seu pai, Wilfried, era treinador. De fato, da janela da cozinha era possível ter uma visão completa do campo.
Foi em Bondy que Mbappé iniciou sua jornada no futebol, jogando nas categorias de base enquanto era um adolescente precoce. Mas, mesmo antes disso, não havia como mantê-lo afastado daquele lugar.
Quando era criança, assistia religiosamente aos treinos dos jogadores. Ouvia com atenção as instruções dadas por seu pai. Absorvia tudo.
“Aprendi tudo ali”, disse ele mais tarde.
A inspiração certa
Escolher nossos heróis nunca é uma decisão arbitrária. Eles nos orientam e inspiram e, consciente ou inconscientemente, buscamos a maneira específica como fazem isso.
Os heróis de Mbappé na infância eram Cristiano Ronaldo e Zinedine Zidane, dois gigantes do futebol que o influenciaram de maneiras diferentes.
Existe uma fotografia famosa de Mbappé, aos seis anos, sentado na cama e cercado por uma infinidade de pôsteres de Ronaldo nas paredes. Naturalmente, em uma idade tão jovem, o que mais impressionava era a extraordinária capacidade do jogador de marcar gols fantásticos e superar os adversários.
No entanto, o craque português também fascinava o jovem por sua dedicação em melhorar. Sua motivação incansável e inabalável.
Anos mais tarde, seu companheiro de equipe no Monaco, Bernardo Silva - ele próprio indicado ao Ballon d’Or -, elogiaria o profissionalismo de Mbappé, comparando-o a uma “obsessão”.
Quanto a Zidane, um ícone da França muito além do futebol, Mbappé se sentia atraído por sua individualidade e, mais ainda, pela coragem que demonstrava ao expressá-la em campo.
Aos 11 anos, Mbappé foi a um barbeiro de sua região e pediu um “corte à Zidane”. O barbeiro ficou confuso, porque o jogador tinha o cabelo muito curto e o garoto à sua frente também.
O que Mbappé tinha em mente era a careca de Zidane. Ele também queria uma, para ficar exatamente igual ao seu ídolo.
A mentalidade certa
Mbappé é conhecido como um homem movido pela ambição, uma qualidade que tem sido muito útil para ele, afastando-o de compromissos e da ideia de se contentar com menos.
Também o ajudou a se manter totalmente concentrado em seu caminho até o topo. Em 2017, ainda adolescente, afirmou:
“Tenho um plano de carreira desde que me lembro. Sei o que quero fazer, para onde quero ir, e não vou deixar que nada me perturbe.”
Alguns também já insinuaram que ele tem um grande ego, uma característica que pode ter conotações negativas em muitos aspectos da vida, mas não quando 83 mil torcedores em êxtase no Bernabéu exigem espetáculo.
Nesse caso, a autoconfiança é essencial, tanto para se manter firme quanto para levar Mbappé a alturas espetaculares.
O jogador já falou anteriormente sobre as afirmações que usava para treinar sua mente e alimentar a autoestima necessária.
“Sempre que entro em campo, digo para mim mesmo que sou o melhor... porque, assim, você não coloca limites em si mesmo.”
Ele já era assim quando treinava em Bondy, insistindo com o pai para que o colocasse para enfrentar o melhor defensor disponível. Deve ter havido noites em que não queria isso - não de verdade -, mas, mesmo assim, se obrigava a pedir.
Ao fazer isso, colocava mais um tijolo na construção de uma mentalidade que garantiria que tudo o que viesse depois fosse encarado com naturalidade.
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