“Não sou uma volante inglesa tradicional. Não sou uma desarmadora implacável que quebra o jogo, não é o meu forte.”

Foi assim que Keira Walsh falou em entrevista ao The Guardian em 2020. E, embora a segunda parte da frase diminua um pouco o próprio jogo, ela toca em algo central: uma mudança interessante no futebol moderno, em que uma posição essencial evoluiu para algo bem diferente.

Uma nova tradição: a reinvenção da volante

Antes de chegar nisso, vale olhar para essa autocrítica, porque Walsh é, sim, uma desarmadora implacável - tão intensa quanto qualquer jogadora no meio da disputa. O tempo de bola dela nos desarmes costuma ser excelente e sempre com total comprometimento. Além disso, o posicionamento e a leitura de jogo fazem com que muitas vezes ela intercepte a bola antes mesmo de precisar dar o bote.

Nesse sentido, Walsh é uma “âncora”, um “escudo”. Ela protege a defesa do mesmo jeito combativo das volantes clássicas que vieram antes dela.

Mas uma leitura mais precisa da própria fala dela seria: Walsh não é só uma volante. Ela não é apenas uma desarmadora.

Tão criativa quanto defensiva, sua qualidade no passe é inventiva e o alcance é enorme. Ela conecta o jogo, dita o ritmo e está sempre buscando criar oportunidades.

Ela funciona como uma regista recuada - uma armadora que joga mais atrás, mesmo estando cercada por outras jogadoras com função criativa.

Assim como Andrea Pirlo e o vencedor do Ballon d'Or de 2024, Rodri, no futebol masculino, Walsh ajudou a redefinir o papel do camisa 6 - algo que, no começo, até confundiu torcedores das Lionesses.

Por que uma jogadora de porte físico mais leve e estilo ousado estava jogando tão recuada?

Múltiplas grandes finais depois - com Walsh a ser fundamental em cada sucesso - e já não questionam o porquê.

QI tático: jogando sempre à frente

Na base do Blackburn, Walsh começou principalmente como lateral-esquerda (mesmo sendo destra), antes de avançar para posições mais ofensivas.

Quando o Manchester City contratou ela em 2014, era uma jogadora “faz-tudo”, ainda em formação, com várias qualidades, mas sem uma função totalmente definida.

Quem moldou isso foi Nick Cushing, uma influência importante no início da carreira. Ele colocou Walsh no coração do time, confiando na leitura quase perfeita que ela tem do jogo e na capacidade de antecipar os movimentos dos companheiros - como se estivesse sempre dois lances à frente.

Essa inteligência levou Walsh ao topo do futebol: títulos de liga com City, Barcelona e Chelsea, além de dois Euros com a Inglaterra. E é impossível separar esse sucesso da inteligência dentro de campo.

Dado: desde 2020, Walsh tem 32 finalizações na WSL - 25 delas de fora da área.

Posicionada logo à frente da defesa, Walsh é responsável por iniciar as jogadas desde trás, construindo ataques com uma leitura de jogo extremamente rápida. Isso não se ensina do zero - se aperfeiçoa.

É um QI tático que Suzanne Wrack, do Guardian, admira bastante:

“Em 2019, Nick Cushing disse: ‘Não vou me segurar: ela está lá em cima, é incomparável entre as jogadoras mais inteligentes com quem já trabalhei.’ Na época, muita gente pode ter estranhado, apesar do talento evidente, mas acabou sendo profético.

A leitura de jogo, o passe e o posicionamento sempre estiveram ali, mas foram refinados - e o tempo em Barcelona levou isso a outro nível, especialmente no jogo de passes rápidos.

Agora ela está recebendo, com razão, mais reconhecimento global. E é totalmente merecido.”

A influência do Barcelona: refinando o jogo

Depois de ser peça fundamental no Manchester City, Walsh se transferiu para o Barcelona em 2022 por um valor recorde e se adaptou muito bem às exigências do estilo de jogo do clube.

Logo na primeira temporada, foi o centro de uma equipe campeã da Liga das Campeãs, que também conquistou o título da Liga F.

Na temporada seguinte, ajudou a comandar um histórico quadruple, consolidando o Barça como um time dominante.

“Não é fácil chegar ao Barça e jogar como número 6. Ela fez isso parecer simples”, disse a companheira de equipe Caroline Graham Hansen. “A leitura de jogo dela, o entendimento de onde recuperar a bola e manter o time atacando, têm sido incríveis.”

Estar cercada por jogadoras do nível de Aitana Bonmatí - vencedora do Ballon d'Or feminino - e Patri Guijarro certamente ajudou Walsh a se firmar como uma das meio-campistas mais inteligentes do mundo. E a Inglaterra colheu os frutos disso.

Na final da Euro 2025, Walsh enfrentou diretamente essas duas jogadoras e teve atuação decisiva em uma vitória histórica das Lionesses. Naquela noite, esteve no mesmo nível delas - uma verdadeira igualdade entre grandes jogadoras.

Quando a Inglaterra foi campeã, Walsh já tinha deixado a Espanha para jogar no Chelsea. E talvez faça sentido que sua “formação futebolística” tenha passado por Barcelona, considerando sua infância.

Mesmo sendo torcedora fanática do Manchester City, seu pai incentivava ela a assistir ao Barcelona sempre que podia - principalmente para observar Sergio Busquets, um jogador que parecia atuar com um GPS em campo.

Talvez, no fim das contas, esse tipo de qualidade também possa ser aprendido.