Artigo original da France Football, publicado em 2023.

Jude, fecha os olhos. Você está de volta a Hagley, onde cresceu. Como era?

Era uma vila, um lugar muito tranquilo (a oeste de Birmingham, no centro da Inglaterra). Algumas pessoas têm condições de vida muito difíceis, outras são realmente privilegiadas; eu estava mais ou menos no meio, na verdade. Meus pais trabalhavam muito para que meu irmão (Jobe, 18 anos, meio-campista do Sunderland) e eu pudéssemos aproveitar a vida. Não me lembro de um único dia em que não estivéssemos jogando futebol, num parque ou num pedaço de grama na frente de casa. Só tenho boas lembranças. Era uma forma de liberdade. Sempre fui muito livre para fazer o que queria. A escola era divertida, era sempre uma questão de brincar, e eu gostava disso. Eu era um garoto bastante animado, mas também sabia ouvir, porque queria dar o meu melhor para agradar aos meus pais e poder fazer o que queria, que era jogar futebol.

Que memórias você tem da sua vida familiar naquela época?

Com a minha mãe, eu costumava sentar e ver muitos filmes, e foi aí que, de um ponto de vista cultural - suponho -, aprendi muito com ela em termos de música, filmes e moda. Com o meu pai, era mais o lado do futebol. Costumávamos acompanhá-lo quando ele jogava aos fins de semana, e é aí que se sente realmente a emoção pura do jogo. Eu me apaixonei por isso. A relação com a minha mãe e o meu pai é muito próxima e me dá equilíbrio. Recebi uma mistura dos meus pais. Eles tiveram empregos durante toda a vida antes de começarem a gerir a minha carreira. Depois vi como lidavam com as situações, especialmente desde que me tornei profissional. Eles fazem um trabalho tão bom, sem experiência real, e eu sempre me pergunto como conseguem. Admiro a forma como conseguem se adaptar a qualquer ambiente e dar o seu melhor. E, por isso, acho mesmo que herdei isso deles.

É tranquilizador ter a sua família gerindo a sua carreira?

Sim, é crucial. Muitos jogadores assinam com agentes que estão mais interessados no dinheiro do que nos melhores interesses do jogador. Eu nunca precisei realmente pensar nisso porque sempre tive meus pais com quem discutir o assunto. Eles se preocupam com o meu bem-estar e sabem que os nossos sonhos estão todos alinhados. Quando entram agentes, existem os próprios incentivos deles, o desejo de ganhar dinheiro... Para mim, nunca é sobre isso. Eu só quero manter o ambiente familiar. E isso acaba gerando ótimas conversas na mesa de jantar. Pode ir de uma discussão sobre um filme ou algo que aconteceu para: "A propósito, o Real Madrid está interessado." (Risos.)

O que você acha desse mundo único do futebol?

Acontecem coisas incríveis nele, histórias lindas e outras bastante infelizes, especialmente na indústria dos agentes. Já vi pessoas muito próximas de mim sendo levadas na direção errada. Se você ama o futebol apenas pelo jogo, você sempre será recompensado. Se jogar pela atenção e pela fama, essa não é a maneira certa de agir, na minha opinião. Eu sempre tenho a minha família para me lembrar disso. Nunca pensei realmente em querer me tornar uma grande estrela; só quero ser um bom jogador de futebol. Mas me sinto confortável neste mundo. Minha família me cerca e eu nunca tive pessoas de fora entrando na minha vida para me dizer como devo me comportar ou com quais marcas devo assinar. Isso me deixaria desconfortável. Meus pais usam suas experiências de vida e o que aprendem no futebol para colocar tudo no lugar certo. Ninguém me conhece melhor do que eles e o meu irmão mais novo, então, quando sabemos o que queremos fazer, funciona.

"No início, eu não gostava de futebol. Nos treinos do meu pai, eu ia catar margaridas para a minha mãe."

O seu pai era o Cristiano local? Dizem que ele marcou mais de 700 gols nas ligas inferiores...

Sim, ele nunca me deixa esquecer isso; para ser sincero, fala muito sobre isso. Mesmo quando eu marco, ele sempre diz: "Sim, mas eu teria marcado mais três ou quatro." (Ele ri.) Era um prazer vê-lo jogar. E, quando marcava, ele era muito bom em interagir com as pessoas. Era tudo pela pureza do jogo, o dinheiro não importava, e isso é algo que ficou muito marcado em mim desde aquela época.

Quando você saiu da escola primária, escreveu o seu sonho em um livro da turma.

Sim, jogar pela Inglaterra. Sempre tive isso. Ao crescer, me tornar jogador profissional era um dos meus objetivos. Mas, quando eu escrevia coisas assim na escola, era mais para terminar logo a aula e poder ir jogar. (Ele ri.) Eu só queria jogar todos os dias, jogar futebol, não importava onde. Naquela época, se alguém me dissesse que eu passaria três anos na Alemanha e depois iria para a Espanha sem nunca ter jogado na Premier League, eu teria ficado chocado. Quando criança, eu não era obcecado por futebol. Ia a muitos treinos do meu pai, mas eu só gostava dos jogos - pega-pega, esconde-esconde... Quando o futebol começava, eu não me interessava muito.

Quando ele te levava aos treinos, você estava mais interessado em catar grama do que em brincar com a bola?

No início, eu não gostava de futebol. Eu sei que isso é incrível, porque se alguém me tirasse o futebol hoje, eu enlouqueceria. Eu ia aos treinos dele e ficava apenas catando grama e flores. Fazia um pequeno buquê de margaridas para a minha mãe. Meus pais nunca me pressionaram. Meu pai continuava me levando, mas basicamente dizia: "Se você quiser brincar de esconde-esconde ou catar flores, pode fazer isso." E depois, eu me apaixonei por isso... Você mencionou liberdade, e isso é algo que eu tive na minha infância. Meus pais nunca me obrigaram a fazer nada, desde que eu fosse um bom menino e cuidasse dos outros.

Então, como foi que você pegou o gosto pelo futebol?

Meu amor pelo futebol vem da competição. Sempre fui muito competitivo. Até no esconde-esconde. Se estivesse colhendo flores, eu queria colher as melhores. No pega-pega, queria ser o mais rápido. O futebol acabou se tornando a forma definitiva de expressar essa minha competitividade. Enquanto crescia, eu tinha muitos problemas, especialmente quando perdia. Eu era um pesadelo para as outras pessoas. Não queria cumprimentar ninguém. Aprendi que é preciso mostrar respeito... Foi definitivamente a competição que me fez amar o jogo 100%.

Quem eram seus ídolos de infância? Seu pai, Zidane, Rooney?

Eu admirava os jogadores do Birmingham, o time que ganhou a Copa da Liga em Wembley (2 a 1 contra o Arsenal em 2011). Meus heróis eram Seb Larsson, Craig Gardner e Lee Bowyer. À medida que fui me interessando mais pelo futebol, meu pai se tornou a figura mais importante. Depois disso, meus primeiros modelos foram Wayne Rooney e Steven Gerrard, simplesmente porque jogavam na Inglaterra. E, conforme você vai crescendo, começa a assistir mais jogos. Meu pai tinha uma camisa falsa do Zidane que ele comprou na praia. Ele usava em todo lugar, muitas vezes dentro de casa. Um dia, perguntei: "A propósito, quem é esse cara?" Ele disse: "Vai no YouTube e dá uma olhada." Desde então, provavelmente nunca mais parei. Zidane representava o jogador que eu queria ser. Tive a sorte de conhecê-lo na final da Liga dos Campeões entre o Real Madrid e o Liverpool (1 a 0, em 2022). Eu fiquei como uma criança, de olhos arregalados. Ele é muito humilde para alguém que conquistou tanto. Tinha uma presença incrível. E, segundo jogadores que trabalharam sob o comando dele, também era um grande treinador. Isso é igualmente importante.

Meu pai tinha uma camisa falsa do Zidane [...] Um dia, perguntei: "A propósito, quem é esse cara?" Ele disse: "Vai no YouTube e dá uma olhada."

É por isso que você quis a camisa número 5 no Real Madrid?

É uma espécie de homenagem, sem dúvida. Mas, ao mesmo tempo, estou trilhando o meu próprio caminho, e é quase como pegar isso e moldar à minha maneira, fazendo desse número aquilo que eu quero que ele seja: o número 5 moderno do Real Madrid.

Quando o Birmingham retirou a sua camisa número 22, o que você pensou?

Eu fiquei sabendo um dia antes de o mundo saber. Tivemos um pequeno jantar de despedida, minha camisa foi exibida no estádio e disseram: "Ninguém vai usar ela até você voltar ao Birmingham." Eu fiquei tipo (com um ar espantado): "Sério?" Eu tive uma boa temporada (2019–2020), mas não foi nada extraordinário. Fiquei olhando ao redor: "Mas espera, a gente pode fazer isso?" Isso colocou um pouco de pressão em mim. Mas eu entendo a posição e a decisão. Minha transferência (para o Dortmund, por cerca de 25 milhões de euros) salvou o clube, que estava em uma situação difícil. Esse dinheiro impediu que o clube quebrasse.

Como você passou tão rápido de ‘não estou interessado em futebol’ para ‘sou uma das maiores promessas do meu clube e do meu país’?

Eu sempre encarei o futebol dia a dia. Dou o meu melhor todos os dias na academia, em campo, na recuperação, etc. No Birmingham, eu aprendi com os jogadores mais velhos ao meu redor. Estou sempre aprendendo pequenas coisas com todo mundo. No Dortmund, foi um novo desafio e tudo ficou um pouco mais intenso. Eu sempre me dei bem em situações de alta pressão. E agora há muitas expectativas em torno de mim, e é muito bom saber que posso fazer tantas pessoas felizes sendo bom jogador.

O futebol é fácil para você?

Digamos que é natural. Em campo, eu me sinto livre, confortável quando tenho a bola. Fico mais tenso com coisas externas, como entrevistas. Mesmo estando bem neste momento, aqui na sua frente, eu fico um pouco nervoso porque tenho que pensar no que quero dizer. É mais estressante do que o jogo. Com a bola, tudo é livre e sem esforço.

Você alguma vez tem dúvidas?

Não acho que seja arrogância, mas tenho confiança nas minhas capacidades, nos meus companheiros de equipe, na comissão técnica e na minha família. E sei que sempre vou ter esse sistema de apoio, mesmo quando as coisas não estiverem indo tão bem. Eu consigo fazer coisas boas em campo e, se estiver livre, consigo me expressar de verdade. Quando você joga com dúvidas e preocupações, é aí que começa a perder o que te torna especial. Por isso, tento pensar de forma positiva.

É difícil viver com o status de futura estrela do futebol?

Sim, é um pouco irritante, para ser sincero. Eu quero ser reconhecido pelo que estou fazendo agora, sem que as pessoas fiquem pensando: "Ah, mas imagina como ele vai ser." Nesse nível, você já não quer mais ouvir falar da sua idade, só quer jogar. Mas acho que é assim que o futebol funciona, e tem tantos jovens talentos incríveis hoje em dia que as pessoas ficam empolgadas para ver o que vai acontecer.

Sua maturidade é muito elogiada. O que ainda te faz uma pessoa jovem hoje?

Parece loucura porque eu sou jovem (20 anos). Num vestiário com jogadores muito mais velhos, você acaba tendo que amadurecer mais rápido. Mas em casa, eu não quero fingir que tenho 28 anos. Não tenho as responsabilidades de alguém casado, com filhos. Com a minha mãe, vemos filmes, conversamos, rimos, brincamos, dançamos. De vez em quando recebo meus amigos e relaxo, jogamos videogame. Isso me ajuda a manter a minha idade. Vocês, jornalistas e fãs, veem só uma parte de mim, no sábado às 15h, mas tem muito mais do que isso. Eu não quero ser maduro o tempo todo. Sou jovem e quero aproveitar isso.

Dizem que a sua mãe ainda te faz a cama...

Sim, não, bem… às vezes. (Ele sorri.) E o Hendo (Jordan Henderson) tirou um pouco de sarro disso durante a Copa. Todo mundo falava da minha maturidade, e ele disse: "Não, ele não é tão maduro assim, a mãe dele ainda faz a cama dele." Foi um pouco embaraçoso. Estou começando a assumir mais responsabilidades em casa. Já está na hora.

"Quando você joga com dúvidas e preocupações, é aí que começa a perder o que te torna especial."

Ainda assim, dá para questionar se Pep Guardiola e Rio Ferdinand não estavam certos quando disseram que duvidavam da sua idade...

Já ouvi isso muitas vezes, pela forma como me comporto em campo e pela minha capacidade de reagir às situações. O problema é que as pessoas te colocam num pedestal: "Ah, ele é tão maduro." E depois, quando eu cometo pequenos erros, porque sou humano, perco a cabeça, as pessoas quase dizem: "Olha, ele não é tão maduro assim" ou "ele ainda é impulsivo". A verdade é que isso faz parte de mim. Eu não sou um robô. Quero sempre sentir essa paixão pelo jogo a ponto de, às vezes, me deixar levar. Mas eu valorizo o que as pessoas dizem sobre mim, especialmente o Guardiola e o Rio Ferdinand.

Você não quer nos mostrar seus documentos para confirmar?

(Ele ri e finge procurar nos bolsos.) Não estou com o meu passaporte.

Quando você entra pela primeira vez no vestiário do Real Madrid e vê Modrić, Kroos, Courtois, o que sente?

Fico um pouco impressionado. Nunca tinha ficado assim antes. Mas quando você vem para cá, com tudo o que eles conquistaram, é difícil não pensar: "Uau, isso aqui é o auge do futebol." Nas primeiras semanas, enquanto ia conhecendo eles, eu comia ao lado do Toni (Kroos) e pensava: "Será que ele está comendo ouro?" E depois você percebe que são apenas caras normais, que te ajudam a se sentir à vontade. Eles são muito humildes. Isso é uma grande lição para mim. Não importa o sucesso que você tenha, não importa o que tenha conquistado, você ainda pode ser um grande ser humano como esses caras, que são inspiradores como jogadores e como homens.

"Quando eu era mais novo, queria que o meu jogo fosse perfeito. Agora eu entendo que isso nem sempre é possível."

E a primeira vez que você vestiu aquela camisa branca e entrou em campo no Santiago Bernabéu?

É indescritível. É um sonho realizado. A camisa é tão famosa. Quando você a veste, quase se sente como se estivesse com um uniforme de super-herói. É um privilégio, uma honra. Você precisa estar em um certo nível para usá-la semana após semana.

Você alguma vez teve medo em relação ao futebol?

Não, não posso dizer isso. Mas, sinceramente, desde a minha estreia pelo Birmingham, acho que nunca entrei em um jogo pensando: "E se isso acontecer?" Tenho a sorte de ter companheiros de equipe e uma comissão técnica que sempre me fizeram sentir confortável. Também tenho confiança nas minhas próprias capacidades e, além disso, o futebol é um jogo. Eu não vejo como trabalho, vejo como um passatempo que posso praticar todos os dias. O que eu preferiria estar fazendo agora em vez de jogar futebol? Nada. É exatamente aqui que eu quero estar. Então, por que perder a oportunidade de mostrar o que sei fazer e de aproveitar isso?

Mike Dodds, um dos seus antigos treinadores, disse: 'O que o diferenciava dos outros rapazes era que ele queria ser diferente.' O que significa ser diferente?

No jogo, significa ser alguém que consegue fazer tudo, que pode ser colocado em quatro posições diferentes dentro de uma formação. Como no basquete, o jogador que consegue driblar, enterrar, passar e defender. Sempre admirei atletas que conseguem fazer tudo. É isso que torna os jogadores diferentes e especiais. Mike Dodds me ensinou isso desde muito jovem: você pode ser muito bom em uma coisa ou pode trabalhar para ser excepcional em tudo. E eu acho que isso é simplesmente mais útil para a equipe e mais interessante desse jeito. Além disso, minha abordagem mental é bem diferente da de outras pessoas da minha idade. Isso provavelmente vem, mais uma vez, de ter sido exposto a situações de alta pressão. Aos 20 anos, eu já joguei em Copa do Mundo e em jogos eliminatórios da Liga dos Campeões. E sempre fui aquele em quem os outros confiam, aquele a quem recorrem. Todas essas experiências certamente me moldaram mentalmente.

Você sente que é único?

Às vezes, sinto que sou meio único, sim. Em parte por causa da minha idade e coisas assim. As pessoas gostam de me lembrar o quão jovem eu sou e que, às vezes, preciso ir com calma. Em alguns momentos, paramos e pensamos: "O que eu estou fazendo está bem bom." Mas quando encaramos o futebol dia a dia, com a mentalidade de "hoje eu tenho que ser melhor", a gente foca mais nos aspectos negativos para melhorar. Eu sou assim. Tive dificuldades com isso quando era mais novo. Eu ficava muito frustrado; queria que o meu jogo fosse perfeito. Agora, ainda quero que seja perfeito, mas entendo que isso nem sempre é possível. A gente precisa continuar aprendendo com a bola, observando o jogo e treinando para evoluir. Não vai acontecer ficando com raiva, mas sim trabalhando.

A sua capacidade de adaptação é impressionante. Da Inglaterra para a Alemanha e agora para a Espanha, você muda de mundo, chega e brilha imediatamente. Qual é o seu segredo?

Você tem que mergulhar de cabeça. Não pode só molhar os pés para testar a água. Tem que se jogar na aventura. Às vezes é difícil, mas você precisa se comprometer. E precisa manter a cabeça fria; eu não posso me deixar levar. Tenho que seguir o meu caminho, quer as pessoas falem bem ou mal de mim. É importante para a saúde mental não ouvir tudo isso, manter-se neutro. Todos os dias, eu saio e trabalho duro para ser a melhor versão de mim mesmo, nunca satisfeito com o que tenho, sempre querendo mais. Provavelmente evoluí mais rápido do que o esperado porque, embora eu sempre tivesse certeza de que poderia chegar nesse nível, nunca pensei que tudo isso aconteceria tão cedo. Mas eu não penso nisso. Nunca olho para trás e digo: "Uau, olha até onde você chegou." Ainda tenho um longo caminho pela frente.

"Ainda posso ser um pouco emocional em campo. Preciso gerenciar isso."

Quais são suas fraquezas atuais?

Ainda posso ser um pouco emocional em campo. Preciso gerenciar isso. E depois, sempre há pequenos ajustes no meu jogo, no meu posicionamento. Na última temporada, marquei um bom número de gols (15 em 51 jogos), mas às vezes quase sentia que não estava no lugar certo na hora certa, que deveria ter chegado dois segundos antes. É algo que eu mudei no meu jogo e que me coloca em uma posição para ser mais eficiente e marcar ainda mais gols (14 gols em 14 jogos na temporada 2023-24, incluindo dois no último Clásico, uma vitória por 2 a 1 no Camp Nou). Com a ajuda dos treinadores, assistindo aos meus jogos, conseguimos identificar essas pequenas coisas. Sabemos que não é perfeito e que ainda há muito a fazer.

Uma vez você disse: ‘Quero ganhar tudo, pelo clube e pela seleção. Quero fazer tudo no futebol. Quero ser um ícone do futebol, alguém lembrado, alguém que mudou o jogo.’ É fácil estar à altura disso?

Acho que eu era jovem quando disse isso. Então acabei colocando um pouco de pressão em mim mesmo. (Risos.) Eu me lembro dessa entrevista; foi a minha primeira. Fiquei um pouco intimidado pela câmera. Agora que já joguei com ícones, acho que eu não diria exatamente a mesma coisa. O principal é simplesmente ganhar tudo o que for possível.

Falando em ícones, já te vimos jogando com a língua de fora... você está tentando imitar o Michael Jordan?

Sim, já me disseram isso antes. (Risos.) Eu faço isso naturalmente, assim, sem pensar muito. Quando eu tinha 7 anos e escrevia na escola, eu já ficava com a língua de fora. Não é algo que eu tento fazer diferente; é simplesmente natural.

Tornar-se um ícone também significa assumir posições firmes sobre temas além do futebol, como o racismo?

Isso é algo muito forte dentro de mim, algo que pessoas da minha idade talvez queiram evitar porque pode ser um tema controverso. Se eu fosse ver o que recebo no meu celular nas últimas 24 horas, sei que encontraria mensagens racistas. Hoje eu tenho a pele mais grossa, mas desenvolvi consciência ao ver como isso pode afetar outras pessoas. Eu vi isso com meus próprios olhos com alguns jogadores que perderam seus pênaltis na final da Euro (Marcus Rashford, Jadon Sancho e Bukayo Saka foram alvo de insultos racistas depois de falharem suas cobranças na final contra a Itália, 1 a 1 no tempo normal, 2 a 3 nos pênaltis, em 11 de julho de 2021). Foi muito difícil de ver, muito triste. Isso teve um grande impacto neles. E isso acontece com pessoas todos os dias. Eu tenho uma plataforma e quero continuar me posicionando e falando alto para dizer que isso é inaceitável. Houve outro incidente com o Vini outro dia. Se você é um jogador importante, não pode ficar em silêncio. E eu nunca vou ficar em silêncio.

Você se sente forte o suficiente para ser um líder geracional?

Quando você entra em campo, não pensa em ser um modelo a seguir; pensa apenas em ser um bom jogador. Mas você precisa entender que, ao ser um jogador que aparece na televisão e nos jornais todos os dias, você inevitavelmente tem influência, especialmente sobre os jovens, e precisa transmitir as mensagens certas. Eu fui criado com os valores certos, graças à minha família, então só posso agradecer aos meus pais. É natural encorajar as pessoas a fazer o que é certo. Como eu disse, se existe algo com que eu me importo, eu vou defender, pelas pessoas que não têm a audiência que eu tenho, para defender suas convicções. Eu tenho uma plataforma e quero continuar falando alto para dizer que o racismo é inaceitável.

Para concluir, vamos fazer o que fizemos no início: feche os olhos. Cinco anos se passaram. Onde você está? O que conquistou? Em que você se tornou? O que você representa no seu esporte?

ser o mais otimista possível. Não vejo sentido em jogar pensando que vamos perder. Temos que entrar em todas as competições todos os anos pensando que podemos ganhar. Caso contrário, qual é o sentido? Então é difícil dar um número exato de títulos, quantos disso e quantos daquilo. Eu prefiro simplesmente continuar fazendo coisas boas, jogando do jeito que eu jogo. Daqui a cinco anos, se minha família estiver saudável e feliz, isso é o mais importante.

E nesse momento, você já terá ganhado um Ballon d'Or?

Seria uma grande honra. Luka (Modrić), Ronaldo, Zidane (aponta para eles na parede), seguir os passos desses jogadores que ganharam seria incrível.