Dados de Haaland, Kane e Gyökeres
Erling Haaland (pelo clube): 337 jogos, 293 gols, 66 assistências
Erling Haaland (pela Noruega): 52 jogos, 59 gols, 7 assistências
Harry Kane (pelo clube): 624 jogos, 447 gols, 112 assistências
Harry Kane (pela Inglaterra): 116 jogos, 81 gols, 19 assistências
Viktor Gyökeres (pelo clube): 317 jogos, 169 gols, 66 assistências
Viktor Gyökeres (pela Suécia): 35 jogos, 21 gols, 8 assistências
Durante anos, um verdadeiro panteão de atacantes de elite dominou os prêmios do Ballon d’Or - centroavantes cuja principal missão era simples: colocar a bola na rede com a maior regularidade possível.
No início dos anos 80, Karl-Heinz Rummenigge venceu o Ballon d'Or em duas edições seguidas, um finalizador letal do Bayern de Munique e da Alemanha Ocidental. Paolo Rossi foi o vencedor seguinte, logo após marcar seis gols pela Itália na Copa.
Nos anos seguintes, Marco van Basten - amplamente visto como o número 9 mais completo de todos os tempos - foi coroado três vezes, enquanto Jean-Pierre Papin também recebeu reconhecimento pelos seus instintos dentro da área.
Mais tarde, surgiram nomes como Michael Owen e Andriy Shevchenko, atacantes rápidos, móveis e extremamente eficientes.
Em 2005, o ucraniano foi o último centroavante “puro” a vencer o Ballon d’Or. E embora o domínio prolongado de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo ajude a explicar esse cenário, isso não conta toda a história.
O quadro geral mostra outra coisa: o futebol foi mudando - e de forma que parecia irreversível.
Uma mudança tática radical
Os gols sempre foram a “moeda” mais valiosa do futebol e, por isso, fazia todo sentido que os atacantes que mais marcavam fossem também os mais celebrados. Até isso deixar de ser bem assim.
A ascensão do Barcelona de Pep Guardiola e da seleção espanhola no fim dos anos 2000 apresentou o tiki-taka ao mundo - um estilo de jogo que acabou sendo rapidamente adotado por praticamente todos os clubes, da Liga dos Campeões às divisões inferiores.
Essa revolução tática, por si só, reduziu drasticamente o espaço para os centroavantes tradicionais. As duplas de ataque saíram de moda, enquanto a posse de bola passou a redefinir o papel de praticamente todos os jogadores ofensivos.
Já não bastava ficar aberto na linha e aparecer só para finalizar dentro da área. Também já não dava para “sumir” do jogo por longos períodos e surgir apenas no momento do gol decisivo.
Os atacantes passaram a fazer parte ativa da construção, baixar para participar, dar apoio constante e se integrar ao próprio processo ofensivo. Isso acabou dando origem ao chamado atacante híbrido e, mais à frente, ao “falso 9”.
Claro que houve exceções - e a principal delas é Robert Lewandowski, um verdadeiro número 9 em uma era que produziu poucos como ele.
Ainda assim, como regra geral, o centroavante clássico foi perdendo espaço. Foi ficando para trás, quase como um anacronismo no futebol moderno.
Uma função letal mais uma vez em alta
Até que isso deixou de ser verdade.
A última década trouxe um renascimento bem-vindo do centroavante, e esta Copa viu os números 9”assumirem o protagonismo de forma clara, numa escala que já não se via há algum tempo em grandes torneios.
Até este momento da competição, Harry Kane, Erling Haaland e Viktor Gyökeres marcaram, no total, sete gols - um dado relevante, já que os três foram vencedores do Troféu Gerd Müller nos últimos anos.
Na essência, cada um deles é um jogador decisivo, que hoje resolve jogos com a sua principal arma: a capacidade de finalizar nos maiores palcos do futebol.
Números de Kane, Haaland e Gyökeres em 2025-26
Harry Kane: 61 gols, 4050 minutos, um gol a cada 66,3 minutos
Erling Haaland: 38 gols, 4144 minutos, um gol a cada 109 minutos
Viktor Gyökeres: 21 gols, 3481 minutos, um gol a cada 165,7 minutos
Além disso, embora nomes como Kylian Mbappé, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo continuem sendo inevitáveis nos holofotes, o foco, de forma um pouco diferente do habitual, não tem sido a criatividade ou o brilho no jogo, mas sim a capacidade de marcar gols.
Mbappé foi assunto no mundo todo após o jogo de estreia da França, ao se tornar o maior artilheiro da história da seleção.
Messi foi amplamente celebrado nesta semana depois de se tornar o maior goleador de todos os tempos em Copas do Mundo.
Leia tudo sobre isso, junto com outros prêmios conquistados pelo argentino neste verão, acima.
Já Cristiano Ronaldo, com dois gols contra o Uzbequistão na terça-feira, se tornou o primeiro jogador a marcar em seis Copas do Mundo.
Naturalmente, esses gigantes do futebol moderno sempre foram exaltados ao longo de suas carreiras, com suas qualidades sendo constantemente destacadas. Mas raramente uma única delas recebeu tanta atenção.
A capacidade de finalização. A frieza.
De volta ao natural: o futebol volta a valorizar o que sempre funcionou
Então, por que a arte de marcar gols voltou a ganhar tanto peso e por que os treinadores estão, outra vez, recorrendo a atacantes mais altos, fortes e físicos para liderar suas equipes?
Para entender isso, vale voltar ao tiki-taka - uma ideia bonita de ver, extremamente eficaz em muitos contextos, capaz de desmontar adversários com uma sequência de passes curtos, mas que também pode esbarrar em problemas contra blocos baixos bem organizados.
A popularização do bloco baixo fez com que muitos treinadores passassem a valorizar mais a presença física na área, o jogo aéreo e a capacidade de aguentar o contato. Ao mesmo tempo, furar linhas defensivas com cinco ou seis jogadores bem compactos virou uma das tarefas mais difíceis do futebol moderno.
Arrastar defensores para fora de posição passou a ser essencial - assim como ter alguém capaz de finalizar com consistência quando o espaço finalmente aparece.
Mas o retorno do centroavante não é só uma questão tática. Existe também um elemento mais simples, quase aleatório: a genética.
Erling Haaland não foi “desenhado” para ter 1,95m e uma obsessão por gols pensando em como o futebol mudaria no futuro. Ele simplesmente é assim.
O mesmo vale, em diferentes perfis, para Harry Kane e Viktor Gyökeres. E, voltando ao “Striking Viking”, para ilustrar o quanto os “números 9” voltaram ao centro do jogo, vale destacar um momento simbólico: 13 de junho de 2022.
Foi quando Pep Guardiola — uma das maiores referências do futebol de posse de bola — pagou 52,5 milhões de libras por um finalizador puro, um jogador que, em muitos sentidos, parece ter nascido para vestir a camisa 9.
O futebol muda. Às vezes, se reinventa. Outras vezes, parece simplesmente voltar ao que sempre funcionou.
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