Gabriel Omar Batistuta foi o grande artilheiro durante a década de 90. Sua força física e seu instinto letal o mantiveram no topo do futebol mundial por anos, a ponto de somar 7 indicações consecutivas ao Ballon d’Or entre 1995 e 2001.

Sua trajetória é única: vestiu as camisas dos dois gigantes da Argentina (River Plate e Boca Juniors), se tornou um verdadeiro ídolo da Serie A italiana e foi o maior artilheiro da Seleção Argentina até a chegada de Lionel Messi, claro.

Nomes do futebol moderno, como Edinson Cavani, já admitiram que sonhavam em ser como ele. Uma geração inteira de crianças, inclusive, usava cabelo comprido para imitá-lo nos campos argentinos. “Batigol” era praticamente um super-herói.

No entanto, por trás desse artilheiro implacável, existia uma história de dor e sofrimento que, no fim da carreira, o levou ao extremo de pedir que “cortassem suas pernas” para parar de sofrer.

Batistuta, um goleador de época

Batistuta construiu uma carreira marcada por títulos e protagonismo. Depois de passar pelo futebol argentino, virou o maior ídolo da Fiorentina, clube ao qual foi fiel por uma década. Mais tarde, alcançou a consagração definitiva com a Roma, conquistando o histórico Scudetto de 2001.

“Bati”, como era conhecido, também foi peça fundamental na Seleção Argentina, com a qual conquistou duas Copas América (1991 e 1993) e uma Copa das Confederações (1992). Encerrou a carreira com mais de 300 gols e deixou uma marca enorme no futebol mundial.

A história de Batistuta no Ballon d’Or

Graças ao seu desempenho goleador nos anos 90, Batistuta recebeu 7 indicações consecutivas ao Ballon d’Or entre 1995 e 2001.

  • 1995: 20.ª posição

  • 1996: 14.ª posição

  • 1997: 23.ª posição

  • 1998: 6.ª posição

  • 1999: 4.ª posição

  • 2000: 7.ª posição

  • 2001: 30.ª posição

Uma proeza entre a dor e a glória

Em 1999, Batistuta alcançou a 4ª posição no Ballon d’Or, atrás de Rivaldo, David Beckham e Andriy Shevchenko. Esse feito foi além de qualquer estatística - foi uma verdadeira proeza.

O reconhecimento não foi apenas pelos gols, mas também pela capacidade de competir entre os melhores do mundo enquanto seu corpo já dava sinais claros de desgaste.

Naquele ano, “Bati” atingiu a elite convivendo com dores crônicas e infiltrações constantes nos tornozelos. Sua presença entre os melhores foi também um reconhecimento a um jogador que, para manter a Fiorentina competitiva, decidiu ignorar a própria dor.

Seu estilo de jogo era direto: Batistuta não apenas finalizava, ele executava com precisão e força. Sua marca registrada era o chute de peito do pé, extremamente potente. Era um verdadeiro predador de área, e seu nome virou sinônimo de gol.

O argentino dominava o jogo aéreo, tinha muita força física e um chute poderosíssimo com a perna direita. Essa combinação de força, técnica e faro de gol o colocou entre os melhores do mundo em várias ocasiões.

No entanto, sua maior virtude também foi sua maior condenação. Batistuta tinha uma vontade enorme de jogar e queria estar em campo sempre, independentemente das condições físicas. Essa “obsessão” o levou a recorrer constantemente a infiltrações para suportar a dor - algo que traria consequências graves depois da aposentadoria.

Anatomia de um sacrifício: o desgaste de um guerreiro

O que Batistuta enfrentava não era apenas desconforto: era uma artrose severa nos dois tornozelos. O uso contínuo de infiltrações acabou desgastando completamente suas cartilagens e tendões.

A força dos seus chutes - que passavam dos 100 km/h - gerava uma pressão extrema sobre o tornozelo. Com o tempo, os ossos passaram a se chocar diretamente, sem proteção.

O sofrimento de “Batigol” era praticamente impossível de medir. De certa forma, Batistuta sacrificou sua própria integridade física para manter o nível de desempenho que o futebol de elite exigia.

“Meu problema é que não tenho cartilagem nem tendões. Meus 86 quilos estão apoiados nos ossos. E osso contra osso gera dor. Dei tudo o que tinha, não me resta nada”, disse em entrevista ao Reconquista Hoy.

A situação chegou a um limite psicológico apenas dois dias depois da sua aposentadoria, em 2005. Em entrevista à TyC Sports, Batistuta contou que a dor o impedia de realizar tarefas básicas, como caminhar ou ir ao banheiro.

“Parei de jogar e, de um dia para o outro, não conseguia mais andar. Cheguei a urinar na cama, com o banheiro a poucos metros, porque não queria levantar. Eram 4 da manhã e eu sabia que ia sentir dor se levantasse”, relatou, emocionado.

O desespero foi tão grande que o goleador buscou uma solução extrema. Procurou o especialista Roberto Avanzi e chegou a pedir que amputasse suas pernas, porque não suportava mais a dor causada por anos de infiltrações.

“Fui ver o doutor Avanzi e disse: ‘Corte minhas pernas’. Ele disse que eu estava louco. Mas eu insistia, não aguentava mais. Não consigo descrever a dor, é impossível explicar”, contou “Bati”.

A prótese de titânio: o renascimento de uma lenda

Depois de anos buscando alternativas, em setembro de 2019 surgiu uma solução. Batistuta viajou para a Suíça para realizar uma cirurgia complexa de substituição do tornozelo, com o objetivo de implantar uma prótese de titânio que devolvesse sua mobilidade.

A operação foi um sucesso, e “Batigol” recuperou sua qualidade de vida. Voltou a caminhar sem dor e conseguiu retomar atividades do dia a dia - inclusive praticar esportes como golfe. O sofrimento finalmente chegou ao fim.

Por isso, Batistuta não será lembrado apenas pelo seu instinto goleador ou por ser um ídolo na Argentina e na Itália. Sua história é a de alguém que deu tudo - e mais - para alcançar a glória.

Por trás de cada grito de gol, existia um homem que entregou até o próprio corpo para seguir sua paixão e que mostrou que, muitas vezes, o verdadeiro preço do sucesso é um sacrifício silencioso.