Durante a última temporada, Fabián Ruiz se consolidou como um dos meio-campistas do momento. Seu desempenho em campo foi fundamental para que o Paris Saint-Germain conquistasse a Liga dos Campeões 2024-25 e para que a seleção espanhola se impusesse na Euro 2024.

Além disso, todo esse peso competitivo lhe valeu a indicação ao Ballon d'Or de 2025. No entanto, seu caminho até o topo sofreu um revés importante que acabou obrigando o próprio treinador a admitir um erro. Algo pouco comum na elite.

Luis Enrique, que hoje o treina em Paris, deixou-o de fora da convocação da Espanha para a Copa do Mundo do Catar 2022. Algum tempo depois, o treinador não hesitou em reconhecer seu arrependimento: “Não o levei para a Copa do Mundo e acho que me enganei, agora posso dizer isso. Ele devia ter estado lá”.

Mas o que ele fez exatamente em campo para que o seu treinador mudasse de opinião? A resposta veio do próprio treinador: “É um dos melhores jogadores que tenho quando se trata de jogar em função dos seus companheiros”.

Essa transformação não aconteceu magicamente: existe uma explicação técnica. Neste artigo, vamos entender por que Luis Enrique teve de admitir o seu erro e por que Fabián Ruiz se tornou uma peça fundamental para suas equipes.

O altruísmo tático: Fabián multiplica os outros

O altruísmo, em poucas palavras, significa agir pensando no benefício dos outros antes do próprio. No futebol, o “altruísmo tático” acontece quando um jogador toma decisões em campo que facilitam o trabalho dos companheiros, mesmo que isso signifique não aparecer na foto do gol. Fabián Ruiz é especialista nisso.

Grande parte desse trabalho invisível acontece quando ele não tem a bola. Fabián se movimenta constantemente para atrair marcações e liberar espaços no campo. Se um zagueiro ou um ponta precisa de uma opção segura, ele se aproxima para oferecer um passe simples. Se o time precisa progredir, ele ocupa os espaços certos para desorganizar o adversário.

Luis Enrique resumiu bem essas qualidades, destacando o quão completo é o seu jogo: “Ele é capaz de jogar de frente com muita clareza e dar passes decisivos com facilidade. É capaz de jogar entre as linhas, é capaz de jogar sem a bola. Tem penetração, tem chute, tem trabalho defensivo”.

Essa capacidade de fazer tudo permite que ele se adapte ao que o time precisa em cada momento. Sua postura corporal ao receber a bola permite que ele se vire e avance rapidamente, dando velocidade ao ataque. Ao mesmo tempo, seu esforço para recuperar a bola ajuda a manter a ordem na defesa.

Esse trabalho coletivo não passa despercebido na elite. Como o próprio treinador espanhol destacou: “Ele foi indicado no Eurocopa como o melhor meio-campista do campeonato. Lembro disso para o caso de alguém achar que é invenção minha”. Fabián é a prova de que jogar para o time é a melhor forma de ganhar jogos.

O meio-campista completo: análise técnica em 5 pontos-chave

Para entender como Fabián aplica esse “altruísmo tático” em campo, basta observar cinco aspectos técnicos fundamentais que definem seu jogo:

  • Observação constante: antes de receber a bola, ele está sempre olhando ao redor. Isso permite saber a posição exata dos companheiros e dos adversários, então ele toma a decisão certa antes mesmo de a bola chegar aos seus pés.
  • Posicionamento corporal: ao receber um passe, ele orienta o corpo para o campo adversário. Essa postura economiza tempo, já que não precisa parar para se virar, o que dá fluidez e velocidade ao ataque.
  • Atrair para liberar: muitas vezes, Fabián conduz a bola em direção aos adversários. Não é para driblar ou buscar protagonismo, mas para obrigar os defensores a saírem da posição, deixando um companheiro livre em vantagem.
  • Passes que quebram linhas: ele se destaca pela precisão ao filtrar passes verticais que quebram as linhas defensivas do adversário. Funciona como uma ponte entre defesa e ataque.
  • Recomposição defensiva: o trabalho não termina quando o time perde a bola. Ele usa sua boa passada e noção tática para pressionar a saída adversária, interceptar passes e recuperar a posse.

Equilíbrio em todas as posições: a importância de Fabián

Tanto no Paris Saint-Germain de Luis Enrique quanto na seleção espanhola, o sistema de jogo depende muito dos pontas. Nesse tipo de esquema, Fabián Ruiz é a peça que dá sentido às transições. Seu trabalho no meio-campo é a ponte que liga a defesa ao ataque.

Sua principal função é colocar os jogadores de lado em condições ideais. Através de seus passes entre linhas, Fabián consegue encontrar rapidamente pontas velozes como Ousmane Dembélé e Bradley Barcola no PSG, ou como Lamine Yamal e Nico Williams na Espanha. Sua precisão permite que eles recebam a bola em vantagem, prontos para o um contra um.

Mas seu papel não se limita a organizar o jogo desde trás. Fabián também se destaca pelas infiltrações na área adversária. Ele sabe ler os espaços vazios e entrar na zona de perigo de surpresa, acompanhando a jogada. Isso permite que ele contribua com chutes de média distância e gols importantes, uma qualidade que demonstrou em grande estilo durante a Euro 2024.

Além disso, sua inteligência tática é essencial para manter o equilíbrio geral da equipe. Quando os companheiros mais ofensivos sobem ao ataque, Fabián atua como um excelente reforço defensivo. Ele cobre os espaços vazios e neutraliza os contra-ataques adversários, dando a segurança necessária para que eles ataquem sem medo.

“Não o levei para a Copa do Mundo e acho que me enganei, agora posso dizer isso.” - Luis Enrique

Por tudo isso, Luis Enrique teve que reconhecer o seu erro… Fabián Ruiz mostrou que, para dominar os jogos, não é preciso monopolizar os holofotes, mas sim entender o que o time precisa em cada momento.

Assim, sua indicação ao Ballon d'Or 2025 surge como a recompensa definitiva para um jogador que joga para tornar os outros melhores e que, para surpresa de muitos, fez com que o treinador espanhol se arrependesse.