Ao ser nomeada treinadora principal da seleção feminina dos Estados Unidos, Emma Hayes não perdeu tempo em dar continuidade ao seu histórico de criação de equipes vencedoras e ambientes de sucesso.

Sua passagem pelos Estados Unidos começou oficialmente em maio de 2024, o que lhe deu apenas dois meses para se aprofundar na cultura já existente do elenco, melhorá-la onde achasse necessário e moldar uma equipe pronta para competir com a elite mundial nos Jogos Olímpicos de verão.

Em 10 de agosto de 2024, em Paris, depois de derrotar o Brasil por 1 a 0 em um jogo emocionante, Hayes comemorou com suas jogadoras enquanto a USWNT conquistava um recorde de quinto título olímpico. Ela descreveu a vitória como o “maior momento da minha carreira”.

Dado o número de troféus que já conquistou no futebol inglês, essa afirmação não deve ser subestimada. Ao longo de onze temporadas no Chelsea, Hayes levou o clube a seis títulos da WSL, além de cinco Copas da Inglaterra e duas Copas da Liga. Sem dúvida, é uma das treinadoras mais bem-sucedidas de sua geração - e “grandes momentos” não faltaram.

Caixa de dados - Em quatro das últimas cinco temporadas no Chelsea, a equipe de Hayes teve média de três ou mais gols por 90 minutos na WSL.

Ainda assim, isso era a USWNT. Um desafio de enorme dimensão - e uma oportunidade de impactar positivamente uma nação inteira.

Emma Hayes levou apenas alguns meses para trazer o ouro de volta aos Estados Unidos. Agora, ela passou a se dedicar a desenvolver uma “mentalidade dourada”, uma abordagem mais ampla que não só ajuda a formar talentos individuais excepcionais, mas também busca estruturar melhor o futebol feminino no país para os próximos anos.

Vendo o jogo de outra forma

Para um observador casual, a chegada de Hayes à USWNT parecia simples: ela é amplamente considerada - ao lado de Sarina Wiegman - a melhor treinadora do mundo, e a seleção americana já é uma potência. Juntar os dois parecia garantia de títulos.

Mas, embora a federação estivesse impressionada com seu currículo, também sabia que Hayes não é uma treinadora que pensa apenas em treinos e escalações.

Ao longo da carreira, ela sempre olhou para o quadro geral. Inclusive, escreveu dois livros sobre liderança e desenvolvimento de pessoas.

O primeiro, “Kill The Unicorn” (Mata o Unicórnio), questiona a ideia de que o sucesso depende de uma única grande liderança. O segundo, “A Completely Different Game” (Um Jogo Completamente Diferente), defende que humanidade e respeito são fundamentais para construir uma mentalidade coletiva vencedora.

Uma frase resume bem sua visão: “Se você não for alguém que sabe lidar com pessoas, um líder empático, o sistema vai acabar te rejeitando. O sucesso duradouro se constrói em equipe.”

A filosofia da USWNT: cultura acima de tudo

Depois do sucesso olímpico, Hayes criou o “The WNT Way” (O Caminho da WNT), um plano para reformular a forma como o futebol feminino é visto nos Estados Unidos - tanto internamente quanto pelo público.

A base disso é tomar decisões em todos os níveis - da comissão técnica à estrutura organizacional - sempre a partir da realidade do futebol feminino, sem se basear no masculino.

“Durante muito tempo, tudo no nosso esporte foi pensado a partir de uma visão masculina”, explicou Hayes.

E essa mudança de visão traz várias consequências práticas.

Ela defendeu a criação de um conselho consultivo com representantes de todos os níveis do futebol americano, da NWSL até as categorias de base.

Também sugeriu alinhar todas as seleções nacionais, em todas as idades, com a mesma filosofia.

No aspecto humano, o “WNT Way” também propõe maior atenção a temas como imagem corporal e distúrbios alimentares. Porque, embora vencer seja o objetivo, o bem-estar das jogadoras está no centro de tudo.

Mentoria de alto nível: formando a próxima vencedora

Essas ideias têm como objetivo preparar a USWNT para os próximos desafios - com a Copa do Mundo de 2027, no Brasil, já no horizonte.

Enquanto isso, o foco principal de Hayes é desenvolver o talento que já tem nas mãos - jogadoras que, no futuro, podem disputar o Ballon d’Or. E nisso, poucas treinadoras se comparam a ela.

Katie Holtham, que trabalhou com Hayes no Chelsea, destaca essa capacidade:

“A Emma tem uma habilidade incrível não só para identificar talento, mas para desenvolver, orientar e lapidar jogadoras. O nível de detalhe no trabalho, tanto físico quanto mental, faz dela uma das melhores treinadoras do futebol feminino.”

Desde sua chegada, já dá para ver evolução clara em algumas atletas.

Lily Yohannes, meio-campista de 18 anos do Lyon, ganhou espaço rapidamente, somando 11 jogos pela seleção em 2025 e mostrando crescimento evidente.

A ponta Alyssa Thompson também teve atuações de destaque no último ano, dando o salto de promessa para uma jogadora decisiva.

E, com Trinity Rodman recuperada de lesões, ela também entra na lista de possíveis candidatas ao Ballon d’Or - uma atacante com talento raro.

Essas jogadoras, e muitas outras, podem se considerar sortudas por trabalhar com Emma Hayes. Porque, repetidamente, ela consegue extrair o melhor de cada uma.

E, ao mesmo tempo, o futebol feminino nos Estados Unidos continua crescendo - dentro e fora de campo.