Quando a escolha deixa de ser simples

Quem acompanhou o Campeonato Europeu Sub-17 pôde se deparar, de vez em quando, com um rosto bastante conhecido nas arquibancadas: Marcelo, o lendário lateral-esquerdo brasileiro que se tornou um dos jogadores mais vitoriosos da história do Real Madrid, com 25 títulos conquistados pelo clube.

O ex-lateral, duas vezes indicado ao Ballon d’Or, estava no torneio para apoiar o filho, Enzo Alves, de 16 anos, capitão da seleção espanhola na competição.

Apesar de ser filho de dois brasileiros - Marcelo e a atriz Clarice Alves -, Enzo nasceu e cresceu em Madri, cidade onde o pai construiu grande parte de sua carreira, e decidiu representar a Espanha no futebol internacional em vez da Seleção Brasileira.

Com o primeiro contrato profissional já assinado com o Real Madrid, o jovem atacante vem acumulando números impressionantes nas categorias de base do clube e também na seleção espanhola. Na estreia pelo Infantil B, marcou um hat-trick. Depois, repetiu a dose em apenas 35 minutos na goleada sobre o Diocesano. E também balançou as redes pela Espanha diante da anfitriã Estônia no Europeu Sub-17.

Para muitos brasileiros que sonhavam vê-lo vestindo a camisa da Amarelinha, a escolha não foi fácil de aceitar. Há alguns anos, Enzo ainda demonstrava dúvidas sobre qual seleção defenderia, mas hoje a sensação é de que seu futuro internacional está cada vez mais ligado à Espanha.

Marcelo, que apresentou o filho ao futebol ainda na infância - com treinos improvisados na sala e no jardim de casa - explicou: "O importante é que ele seja feliz. Enzo nasceu na Espanha, a vida dele está aqui. Ele ama o Brasil, mas tem tudo aqui." (GE)

Embora uma mudança para a Seleção Brasileira ainda seja possível, já que Enzo nunca disputou uma partida oficial pela seleção principal da Espanha, esse cenário parece cada vez mais improvável.

Enzo Alves (16)

Nascido em 16 de setembro de 2009, em Madri (Espanha). Jogador do Real Madrid.

E casos como o dele tendem a se tornar mais frequentes.

O desafio da CBF em um futebol sem fronteiras

Em um mundo cada vez mais marcado pela mobilidade internacional, cresce o número de jovens brasileiros com dupla nacionalidade que precisam escolher qual seleção representar.

A CBF está atenta a essa realidade. Desde a chegada de Samir Xaud à presidência da entidade no ano passado, a confederação intensificou o monitoramento de atletas elegíveis para defender o Brasil que atuam no exterior, numa tentativa de evitar que talentos promissores escapem do radar.

Mas, diante do número crescente de jogadores espalhados pelo mundo e com múltiplas nacionalidades, o desafio é cada vez maior.

A tradição ítalo-brasileira: o caminho mais comum

Outro caso de destaque, além de Enzo, é o de Samuele Inácio. O atacante de 18 anos é filho do ex-jogador brasileiro Piá. Como o pai passou a maior parte da carreira jogando na Itália, Samuele nasceu em Bérgamo, de mãe italiana.

Ainda criança, ingressou nas categorias de base da Atalanta, clube onde Piá também iniciou sua trajetória profissional no fim dos anos 1990. No entanto, foi nos últimos dois anos, depois de sua transferência para o Borussia Dortmund, que seu nome começou a ganhar projeção internacional.

Na Alemanha, Samuele vem chamando a atenção de torcedores, dirigentes e companheiros. Depois de sua primeira partida como titular da equipe principal no início deste ano, o técnico Niko Kovač não poupou elogios: "Esse menino ainda vai nos dar muita alegria. É um enorme talento." (Trivela)

No cenário internacional, porém, tudo indica que ele seguirá um caminho semelhante ao de Enzo. Depois de ficar fora de uma terceira Copa do Mundo consecutiva, a Itália iniciou uma renovação profunda em sua seleção e convocou diversos jovens talentos para os amistosos mais recentes. Mesmo sendo acompanhado pela CBF há anos, Samuele optou por representar os Azzurri e passou a integrar o projeto de longo prazo da equipe, que já mira a Copa de 2030.

A ligação com a Itália não é nova. No ano passado, ele disputou a Copa do Mundo Sub-17 como camisa 10 da seleção italiana e ajudou a equipe a conquistar o terceiro lugar, superando justamente o Brasil nos pênaltis.

Mas não significa que Samuele tenha deixado para trás sua conexão com o futebol brasileiro. Em diversas entrevistas, o atacante já demonstrou admiração por alguns dos principais talentos do país. No ano passado, afirmou que o jogador com características mais parecidas com as suas é Rodrygo, do Real Madrid. Quando questionado sobre seu maior ídolo, foi direto: "Meu herói no futebol é Neymar, ele me inspira muito." (FIFA)

Samuele Inácio (18)

Nascido em 2 de abril de 2008, em Bergamo (Itália). Jogador do Borussia Dortmund.

Outro jovem talento que pode acabar trocando a camisa amarela pela azul é Renato Marin, goleiro de 19 anos nascido em São Paulo.

Renato começou sua trajetória no Palmeiras, onde atuou como zagueiro antes de migrar para o gol. Ao lado de Endrick, hoje um dos principais nomes da Seleção Brasileira, fez parte de uma geração vencedora nas categorias de base do clube. Mais tarde, se transferiu para o São Paulo e conquistou o Campeonato Paulista Sub-13 em 2019.

Durante a pandemia de COVID-19, se mudou para Roma com a mãe e recebeu uma oportunidade na equipe da capital italiana. Foi ali que sua carreira ganhou impulso. Pela Roma, conquistou os títulos das categorias Sub-16 e Sub-17 da Copa Primavera, além de alcançar uma final com a equipe Sub-20. Em 2024, foi eleito o melhor goleiro Sub-20 da Itália.

A ascensão continuou no ano seguinte, quando assinou contrato com o Paris Saint-Germain. Desde então, vem ganhando cada vez mais espaço no elenco principal. Depois de estrear profissionalmente em dezembro, passou a ser utilizado com maior frequência nas partidas da Ligue 1, especialmente diante dos problemas físicos enfrentados por outros goleiros da equipe, como Lucas Chevalier. 

Mesmo com apenas 19 anos, Renato já soma cinco títulos pelo PSG de Luis Enrique em uma temporada, incluindo a Liga dos Campeões. O brasileiro também recebeu elogios públicos do treinador espanhol, que destacou suas qualidades: "Gosto dos seus treinos. Ele tem qualidades físicas e técnicas." (Lance!)

Assim como Samuele, Renato possui dupla nacionalidade. Convocado pela primeira vez para a seleção italiana Sub-19 em 2023, disputou o Europeu da categoria no ano seguinte e segue integrado às equipes de base da Azzurra. Ainda assim, como nunca atuou pela seleção principal, permanece elegível para defender o Brasil caso a CBF decida investir em sua convocação no futuro.

Renato Marin (19)

Nascido em 10 de julho de 2006, em São Paulo (Brasil). Jogador do Paris Saint-Germain.

Devido ao grande número de famílias de origem italiana no Brasil, essa dupla cidadania em específico continua sendo uma das mais comuns entre os jovens mais promissores do futebol mundial. E os exemplos não param de surgir.

Um deles é Emanuel Benjamín, defensor de 18 anos que pertence ao Real Madrid. Nascido em Santa Catarina, ele nunca chegou a atuar por um clube brasileiro. Em 2018, aos 11 anos, se mudou para a Espanha com a família e deu sequência à sua formação no futebol europeu.

Com avós originários de Pievepelago, na região de Módena, Emanuel optou por representar a Itália internacionalmente. A escolha já rendeu frutos: ele conquistou o Europeu Sub-17 com os Azzurri e foi eleito o melhor lateral-direito da competição. Desde o início, nunca demonstrou dúvidas sobre qual seleção defender, e chegou a declarar: "Estou muito feliz por vestir a camisa azul. Assim que tive a oportunidade de vesti-la, não pensei duas vezes." (GE)

Emanuel Benjamín (18)

Nascido em 14 de julho de 2007, em Blumenau (Brasil). Jogador do Real Madrid.

Outro nome que chama atenção é Matheos Ferreira, ponta de 20 anos do Newcastle United. Nascido na Inglaterra, filho de pai brasileiro e mãe italiana, ele reúne credenciais para defender três seleções diferentes: Brasil, Itália ou Inglaterra.

Embora ainda não tenha definido seu futuro internacional, Matheos já demonstrou ser um grande admirador dos compatriotas brasileiros do Newcastle, Bruno Guimarães e Joelinton, referências dentro do elenco do clube inglês.

Matheos Ferreira (17)

Nascido em 2 de agosto de 2008, em Ashington (Inglaterra). Jogador do Newcastle United.

Tem também Fellipe Jack. Nascido em São Paulo, o zagueiro de 20 anos se destacou nas categorias de base do Palmeiras, conquistando diversos títulos antes de se transferir para o Como, da Itália, em 2024.

Sua situação talvez seja uma das mais abertas entre os nomes citados. Apesar de ter participado de atividades da seleção italiana Sub-19 no ano passado, Fellipe já vestiu a camisa do Brasil em competições oficiais de base, integrando a equipe campeã do Torneio de Montaigu de 2022. Entre suas principais referências na posição está um dos maiores defensores da história recente da Seleção Brasileira: Thiago Silva.

Fellipe Jack (20)

Nascido em 12 de janeiro de 2006, em São Paulo (Brasil). Jogador do Catanzaro, por empréstimo do Como.

Por falar em Thiago Silva, os filhos do ex-zagueiro - Isago, de 17 anos, e Iago, de 15 - também seguem carreira no futebol e, em algum momento, vão ter que decidir qual seleção representar. Ambos atuam nas categorias de base do Chelsea, clube pelo qual o pai conquistou três títulos em quatro temporadas. O mais novo dos dois, inclusive, foi recentemente convocado para um período de treinamentos da seleção inglesa Sub-15.

Isago Silva (17)

Nascido em 12 de novembro de 2008, no Rio de Janeiro (Brasil). Jogador do Chelsea.

Ainda é cedo para saber qual caminho os irmãos irão seguir, mas eles representam outro exemplo de uma realidade cada vez mais comum: jovens talentos brasileiros criados no exterior que crescem divididos entre diferentes países, culturas e camisas.

Iago Silva (15)

Nascido em 4 de abril de 2011, em Milão (Itália). Jogador do Chelsea.

Gustavo Garello (Presse Sports)

Espanha e Portugal: disputando talentos com o Brasil

Além da Itália, as outras duas nacionalidades mais comuns entre jovens brasileiros que crescem no exterior são a portuguesa e a espanhola.

Tem o exemplo de João Muniz. Nascido na Ilha da Madeira, o zagueiro de 20 anos atua pelo Sporting CP B e possui dupla nacionalidade. Embora ainda seja elegível para defender o Brasil, sua trajetória nas seleções de base portuguesas sugere um caminho diferente. João já disputou o Europeu Sub-17 de 2022 por Portugal e voltou a ser convocado para o Europeu Sub-21 de 2025.

João Muniz (20)

Nascido em 26 de junho de 2005, na Ilha da Madeira (Portugal). Jogador do Sporting CP.

Outro nome em ascensão é Mateus Mide. O meio-campista de 18 anos estreou profissionalmente pelo Porto nesta temporada depois de passar praticamente toda a formação no clube português.

Filho do ex-jogador e atleta de futsal brasileiro Adriano Mide, ele também possui dupla cidadania, mas tudo indica que sua escolha internacional já está definida. Nascido em Portugal, Mateus foi um dos destaques da campanha que levou a seleção portuguesa ao título do Europeu Sub-17 de 2025.

No Mundial Sub-17, recebeu a Bola de Ouro como melhor jogador da competição e teve papel decisivo na campanha portuguesa, que eliminou o Brasil durante o torneio.

Mateus Mide (18)

Nascido em 10 de maio de 2008, no Porto (Portugal). Jogador do Porto.

Quanto à Espanha, dois outros nomes se destacam ao lado de Enzo Alves.

O primeiro é Bryan Bugarín, companheiro de Enzo nas categorias de base do Real Madrid. Aos 17 anos, o meia-atacante vem se consolidando como uma das promessas mais talentosas de sua geração.

Filho de pai espanhol e mãe brasileira, Bryan nasceu e cresceu na Espanha e teve contato limitado com o Brasil, tendo visitado o país apenas uma vez quando era bebê. Ainda assim, a CBF acompanha sua evolução de perto, atraída pela criatividade e pela qualidade técnica que o tornaram uma das joias mais valorizadas de sua faixa etária.

Essas características já eram evidentes nos tempos de Celta de Vigo, onde era apontado como a principal promessa das categorias de base e chegou a ser visto por muitos como um possível sucessor de Iago Aspas.

Desde que foi contratado pelo Real Madrid em 2021, sua projeção só aumentou. Com a obtenção da dupla cidadania no início do ano passado, Bryan passou a ser mais um nome que pode alimentar esperanças entre os dirigentes brasileiros. Embora tenha atuado pelas seleções espanholas de base, uma mudança de filiação esportiva ainda é possível.

Existe sinais animadores para a CBF: o meia já citou Neymar, Rodrygo e Vinícius Júnior entre suas principais referências. Em casa, porém, o debate continua aberto. Como brincou sua mãe, Gisele Gonçalves: "Eu gostaria que ele fosse para a seleção brasileira. Já o meu marido quer menos, porque ele é espanhol (risos). Não sei... Como ele nunca provou a seleção brasileira, a gente não sabe. Vai que ele é convocado e gosta." (GE)

Bryan Bugarín (17)

Nascido em 17 de março de 2009, em Vigo (Espanha). Jogador do Real Madrid.

Outro nome que merece atenção é Selton Sánchez.

O meio-campista de 19 anos nasceu na Espanha e ingressou na base do Athletic Bilbao aos 10 anos. A trajetória é particularmente interessante porque o clube basco mantém uma política histórica de priorizar atletas ligados à região. Como Selton nasceu em Durango, na província de Biscaia, estava plenamente enquadrado nos critérios da equipe.

Suas atuações na UEFA Youth League rapidamente chamaram atenção. Pela capacidade técnica, visão de jogo e inteligência com a bola, passou a ser comparado a Pedri, do Barcelona. O desempenho também convenceu Ernesto Valverde a promovê-lo ao elenco principal do Bilbao pela primeira vez no fim do ano passado.

Embora já tenha defendido as seleções espanholas Sub-18 e Sub-19, Selton continua elegível para representar o Brasil graças à nacionalidade herdada da mãe.

É justamente pelo lado materno que surge uma conexão curiosa com o futebol brasileiro. Selton é primo de Roberto Firmino, ex-atacante da Seleção Brasileira e duas vezes indicado ao Ballon d’Or. 

Por enquanto, o futuro internacional de Selton segue em aberto. Resta saber se ele seguirá os passos do primo vestindo a camisa da Seleção Brasileira ou se continuará construindo sua trajetória nas categorias de base da Espanha.

Selton Sánchez (19)

Nascido em 20 de fevereiro de 2007, em Durango (Espanha). Jogador do Athletic Bilbao.

Casos espalhados pelo mundo

Fora da Península Ibérica, encontramos muitos outros jovens talentos espalhados pelo mundo que, cedo ou tarde, também terão de decidir qual seleção representar.

Um deles é Rafael Cirino, de 17 anos, mais conhecido como Belinho. Nascido no Rio de Janeiro, ele se destacou nas categorias de base do Vasco, mas viu sua trajetória tomar um rumo inesperado aos 11 anos, quando se mudou para a Europa com o pai, Misael.

A mudança aconteceu depois de Misael receber uma proposta de trabalho na Croácia. Instalado no país do sudeste europeu, Belinho rapidamente encontrou espaço para continuar sua formação no futebol.

Seu primeiro clube foi o NK Vinodol, onde precisou de apenas três meses para se tornar artilheiro da liga local. O desempenho chamou atenção e abriu as portas para uma transferência ao Dinamo Zagreb, principal potência do futebol croata.

Na equipe da capital, acumulou experiências importantes nas categorias de base, participando de competições internacionais e conquistando títulos como a Gol League e a Lubjila. Em uma curiosa volta às origens, chegou a retornar ao Rio de Janeiro para disputar a Copa Adidas Sub-16 do Flamengo com a camisa do clube croata.

Apesar do interesse do RB Leipzig, da Alemanha, Belinho decidiu permanecer na Croácia no início deste ano, acertando sua transferência para o NK Kustošija depois de receber garantias de que faria parte do projeto da equipe principal.

A adaptação ao país foi tão bem-sucedida que ele se tornou fluente em croata e recebeu apoio direto da federação local para obter a cidadania. Hoje, fala abertamente sobre o desejo de defender a seleção croata: "Consegui o passaporte croata, é uma coisa muito difícil de ter. A federação que me ajudou. Já fizeram o convite para eu jogar, o treinador está doido para eu jogar logo. Só estou esperando a próxima convocação, já falaram que vão me chamar." (Net Vasco)

As comparações com Eduardo da Silva surgiram naturalmente. Assim como Belinho, o ex-atacante nasceu no Brasil, construiu sua carreira no Dinamo Zagreb e acabou optando por representar a Croácia no cenário internacional.

Mas, por trás do entusiasmo com a seleção croata, ainda aparecem sinais do vínculo emocional que mantém com o Brasil. Ao lembrar a eliminação brasileira para a Croácia nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022, Belinho demonstrou esse sentimento de forma bem-humorada: "Já tirei foto com o Bruno Petković, que joga no Dínamo Zagreb e fez o gol contra o Brasil. Fizemos embaixadinhas juntos. Falei com ele que não era pra ter feito o gol, porque eliminou o nosso Brasil da Copa do Mundo." (Net Vasco)

Belinho (17)

Nascido em 13 de janeiro de 2009, no Rio de Janeiro (Brasil). Jogador do NK Kustosija.

Outro exemplo interessante é Pedro Soma.

Pedro foi capitão da seleção dos Estados Unidos na Copa do Mundo Sub-17 de 2023 e também participou do Campeonato Sub-20 da CONCACAF em 2024, consolidando-se como um dos nomes mais promissores da nova geração do país.

Apesar da decisão de atuar pela seleção norte-americana, ele faz questão de destacar suas raízes brasileiras sempre que possível, afirmando: "As pessoas dizem que eu tenho a ginga brasileira. Talvez eu já tenha nascido com ela. Adoro jogar e isso se manifesta de forma natural." (Chasing a Cup)

As influências que moldaram seu estilo refletem justamente essa dupla identidade. Entre seus maiores ídolos, Pedro cita tanto Michael Bradley, um dos principais capitães da história da seleção americana, quanto Casemiro, referência do meio-campo brasileiro na última década.

Pedro Soma (19)

Nascido em 30 de junho de 2006, em Boca Raton (Estados Unidos). Jogador do San Diego FC.

Entre o Brasil e a Ásia

Por fim, a lista inclui dois jovens talentos que mantêm portas abertas para seleções asiáticas.

O primeiro deles é Kaique Kenji, ponta de 20 anos do Cruzeiro.

Nascido em São Paulo, Kaique começou a jogar futebol nas categorias de base do Corinthians ainda criança, mas foi sua chegada ao Cruzeiro, em 2022, que realmente o colocou no radar de observadores e recrutadores internacionais.

Promovido ao elenco profissional em 2024, o atacante vem ganhando cada vez mais espaço na equipe principal. Nesta temporada, se consolidou como uma das revelações do clube e aproveitou as oportunidades entre os titulares para chamar atenção em âmbito nacional. No mês passado, marcou o gol da vitória sobre o Bahia no Brasileirão e foi apontado como o principal nome da partida.

Sua herança familiar ajuda a explicar por que seu futuro internacional ainda permanece em aberto. Pelo lado paterno, Kaique é filho do ex-lateral-esquerdo da Seleção Brasileira Kléber e possui ascendência afro-brasileira. Já por parte de mãe, carrega raízes japonesas e italianas.

Embora tenha vivido toda a vida no Brasil e já tenha representado a Seleção Brasileira no Campeonato Sul-Americano Sub-20 do ano passado, a Federação Japonesa acompanha sua evolução de perto. O jogador, inclusive, está em processo de obtenção da cidadania japonesa, o que mantém aberta a possibilidade de defender o país asiático no futuro.

Kaique Kenji (20)

Nascido em 30 de janeiro de 2006, em São Paulo (Brasil). Jogador do Cruzeiro.

Por último, tem o caso de Maycon Cardozo.

Filho do ex-jogador Douglas Rodrigues, o atacante de 17 anos nasceu em São Bernardo do Campo, mas deixou o Brasil ainda muito pequeno. Quando tinha apenas dois anos, a família se mudou para a Tailândia por conta da carreira do pai. Aos quatro, Maycon já dava seus primeiros passos no futebol na academia do Ratchaburi, clube onde Douglas trabalhava como auxiliar técnico.

O talento apareceu cedo. Suas atuações nas categorias de base rapidamente chamaram a atenção da mídia local e, aos nove anos, ele chegou a ser destaque de um programa de TV chamado 'Super 10', voltado para mostrar o talento e as habilidades de crianças no país.

A partir daí, sua trajetória ganhou velocidade. Depois de passar por diferentes equipes do futebol tailandês, ajudou o Chainat Hornbill a conquistar a FA Thailand Youth League em 2023 e, no ano seguinte, recebeu um convite para integrar o World Squad, iniciativa internacional de desenvolvimento de talentos promovida pelo Bayern de Munique.

Foi nesse projeto que seu nome passou a repercutir globalmente.

Maycon marcou oito gols durante os amistosos internacionais do programa - incluindo dois justamente contra a equipe juvenil do Bayern - e impressionou tanto que recebeu elogios públicos do técnico Roy Makaay.

A consequência foi quase imediata. No início de 2025, o Bayern oficializou sua contratação, tornando Maycon o primeiro jogador da história a ser incorporado diretamente ao clube através do World Squad.

Desde então, sua ascensão não desacelerou. Nesta temporada, estreou profissionalmente pelo Bayern na Bundesliga, virando o brasileiro mais jovem a atuar pelo clube alemão, e também marcou seu primeiro gol pela equipe principal.

Quando o assunto é seleção, Maycon tem pelo menos três caminhos possíveis.

O primeiro é a Tailândia, país onde viveu praticamente toda a vida e construiu sua formação como atleta. A federação local acompanha sua evolução há anos, mas existe um obstáculo burocrático: a legislação tailandesa só permite a naturalização a partir dos 20 anos, o que significa que ele ainda precisaria esperar algum tempo para se tornar elegível.

Outra possibilidade é Portugal. Por conta de sua ascendência portuguesa, a Federação Portuguesa já realizou contatos preliminares para avaliar seu interesse em representar o país.

Mas, pelo menos por enquanto, tudo indica que o sonho de Maycon continua sendo vestir a camisa amarela. Como explicou seu pai, Douglas: "Ele tem esse sonho, desde garoto, de vestir a camisa da Seleção Brasileira. Pelo fato de ter grandes ídolos como Neymar e Ronaldinho, esses grandes jogadores brasileiros, ele tem esse anseio e desejo de jogar pela Seleção." (CNN Brasil)

Maycon Cardozo (17)

Nascido em 10 de outubro de 2008, em São Paulo (Brasil). Jogador do Bayern de Munique.

O peso da identidade e as lições do passado

Existem muitos outros casos semelhantes aos apresentados neste artigo que, por falta de espaço, não puderam ser explorados em maior profundidade.

Para a CBF, isso significa um desafio cada vez maior. Em um futebol globalizado, onde famílias se mudam de país com frequência e jovens talentos são formados nos mais diversos cantos do planeta, acompanhar jogadores elegíveis para defender o Brasil se tornou uma tarefa complexa e permanente.

O objetivo é claro: identificar cedo os atletas mais promissores e evitar que futuras estrelas acabem escolhendo outras seleções nacionais.

O receio não é infundado. Ao longo do século XXI, o Brasil viu diversos jogadores de alto nível seguirem caminhos diferentes no cenário internacional. Nomes como Deco, Pepe, Marcos Senna, Diego Costa, Jorginho e Thiago Alcântara poderiam ter vestido a camisa da Seleção Brasileira, mas acabaram representando outros países.

Quem vestirá a Amarelinha?

Naturalmente, nem todos os jovens citados ao longo deste texto alcançarão o mais alto nível do futebol mundial. Esse é o destino de muitas promessas. Mas alguns deles certamente chegarão lá.

A grande questão é: quais?

Qual desses talentos espalhados pelo mundo poderá se tornar uma das peças centrais da próxima geração da Seleção Brasileira?

Qual deles poderá disputar os maiores títulos do futebol internacional?

Por enquanto, não existem respostas definitivas. Só o tempo dirá quais desses jovens escolherão vestir a Amarelinha e quais construirão suas carreiras defendendo outras bandeiras.

Mas uma coisa parece certa: o futuro do futebol brasileiro não está apenas dentro das fronteiras do país.

Ele também está espalhado pelo mundo, à espera de uma escolha.