Antes de conquistar tudo com a seleção argentina, houve um período difícil e até cruel na carreira do Di María. As lesões frequentes e as ausências em momentos decisivos criaram uma distância entre o talento enorme que ele tinha e o reconhecimento do público.
As críticas não paravam. Muitas eram duras demais. A ponto de jornalistas e torcedores argentinos pedirem que ele deixasse a “Albiceleste”. O nome dele, longe dos aplausos, passou a ser associado à frustração e até a certo rejeição. A situação era realmente pesada.
Mesmo assim, Di María nunca desistiu. O jogador de Rosário começou a travar uma batalha silenciosa, porque já não lutava só contra o próprio corpo, mas também contra a sensação de falhar justamente quando mais precisavam dele.
O sofrimento de Di María
Essa “lenda” não foi invenção da imprensa. Foi, de fato, uma sequência de “tragédias” esportivas que parecia até roteiro de filme. Esse sofrimento começou na Copa do Mundo de 2014, no Brasil, depois de uma temporada espetacular no Real Madrid - que, inclusive, rendeu a ele sua única indicação ao Ballon d'Or.
Depois de marcar um gol decisivo contra a Suíça nas oitavas de final, Di María sofreu uma lesão muscular no jogo contra a Bélgica, nas quartas. Ali acabava a participação dele na copa. O argentino fez de tudo para jogar a final contra a Alemanha, mas não conseguiu.
E não foi algo pontual. Virou um padrão. Um ano depois, a Argentina chegou à final da Copa América de 2015, contra o Chile. Di María começou jogando, mas as lesões apareceram de novo - já parecia até ironia do destino.
Aos 29 minutos, o “Fideo” sentiu o posterior da coxa e teve que sair de campo, chorando, enquanto Lionel Messi tentava consolá-lo no caminho para o banco. Para piorar, a Argentina perdeu aquela final.
E, como se não bastasse, a história se repetiu um ano depois, na final da Copa América de 2016 - novamente contra o Chile, e novamente com derrota. Di María já chegou para o jogo no limite físico e precisou ser substituído poucos minutos depois do início do segundo tempo. Naquele dia, tudo desmoronou.
A partir daí, a seleção argentina passou a ser tratada como nunca antes, e aquela geração ficou marcada como “perdedora”. E, claro, Di María acabou sendo o principal alvo. O “Fideo” ficou no centro das críticas porque, por causa das lesões, praticamente não conseguiu estar presente nas três finais.
O apoio da família como porto seguro
Longe de desistir, Di María transformou a adversidade em combustível e encontrou na família um verdadeiro escudo para enfrentar tudo isso. Enquanto muita gente de fora gritava “basta”, o jogador de Rosário começou a fazer um trabalho mental que não deixou ele desmoronar.
Nesse processo, a esposa dele, Jorgelina Cardoso, virou um pilar essencial e teve um papel decisivo para mantê-lo de pé. Ela encarou as críticas de frente e, em várias ocasiões, precisou até se pronunciar publicamente para defender o marido. Amor, nesse caso, foi realmente incondicional.
“Eu sou a que aguenta tudo, a que chora em silêncio, mas ele nunca abaixou os braços. Eu dizia para ele: ‘Você não vai embora, vai continuar tentando até conseguir’”, contou Jorgelina no documentário Romper la pared, da Netflix. Esse apoio dentro de casa foi fundamental em todos os sentidos.
Di María entendeu que o mais importante era o amor da família, que “os de fora são de pau”, e que a constância seria o caminho para virar esse cenário. Mesmo com as críticas e a dor das finais perdidas, o “Fideo” seguiu insistindo. E do jeito que ele fez isso…
A insistência como bandeira
Apesar de tudo, Di María não desistiu da Seleção Argentina. Mas no começo do ciclo de Lionel Scaloni, houve um período em que o telefone simplesmente não tocava. Depois da copa do mundo 2018, a renovação geracional quase o deixou de fora, mas o “Fideo” não estava pronto pra dizer adeus.
Mais uma vez, Jorgelina Cardoso entrou em cena. Ao vê-lo abatido em casa por não aparecer na lista de convocados, ela foi crucial pra que ele voltasse a lutar pela camisa Albiceleste.
“Faz uma nota, sai falando e diz que morres por estar”, aconselhou Jorgelina, como contou no documentário Romper la pared. Di María entendeu que precisava agir se queria voltar a fazer parte da equipe, e a chave era insistir.
“Não sei por que não estou, não encontro explicação. Pra mim a Seleção é o máximo. Se me esforço ao máximo no clube é pra tentar ter a chance na Seleção e poder competir”, disse ele na época à Radio Continental - um verdadeiro grito de desespero.
Essa postura acabou abrindo-lhe as portas novamente. Di María procurou Scaloni para deixar tudo claro: “Vou pro banco, vou pro que for, mas quero estar”. O treinador entendeu a mensagem: não estava lidando com alguém que buscava reconhecimento fácil, mas com um verdadeiro faminto por revanche.
A glória e o adeus
Anos depois, a justiça divina chegou em forma de gols eternos e títulos: Maracanã, Wembley e Lusail. Scaloni confiou nele quando poucos o faziam e sempre destacou sua determinação: “Ángel é um cara que transmite alegria, que não se dá por vencido e contagia isso ao grupo”.
Depois de conquistar a Copa América 2021 e romper a bendita parede, o próprio Messi deixou claro o que aquele triunfo significava pra Di María: “Vê-lo feliz me deixa muito contente por tudo o que ele passou, pelo quanto foram injustos com ele. Ele teve a sua vingança”, disse o capitão no documentário da Netflix.
Di María passou de jogador criticado pelas lesões a herói nacional, especialista em finais e autor dos gols que deram três títulos à sua amada Seleção Argentina. O destino finalmente premiou sua constância.
“Antes, alguns queriam que eu fosse embora, e agora querem que eu continue. Depois de tudo que conquistei com a Seleção, hoje tenho a tranquilidade de dizer basta”, declarou Di María à France Football ao anunciar sua aposentadoria da seleção após a Copa América 2024.
Hoje, a história tem o final que merecia. Di María se despediu da Seleção Argentina pela porta da frente, ovacionado e em paz. Foi um reconhecimento por não ter desistido diante da adversidade e por ter tido a coragem de tentar mais uma vez, mesmo quando todos diziam que já não valia a pena.
Os títulos de Di María com a Seleção Principal da Argentina
Copa América 2021: campeão no Maracanã contra o Brasil. (Marcou o único gol da final).
Finalíssima 2022: campeão frente à Itália em Wembley. (Marcou o segundo gol do jogo).
Copa do Mundo 2022: campeão do mundo no Catar contra a França (Marcou o segundo gol do jogo).
Copa América 2024: campeão nos Estados Unidos frente à Colômbia. (Foi o seu jogo de despedida da Seleção).
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