O clube inglês que virou a segunda casa de Portugal

No mês passado, o Wolverhampton Wanderers foi rebaixado da Premier League após oito anos na primeira divisão inglesa.

A queda marcou o fim simbólico - ainda que possivelmente temporário - de um ciclo histórico no clube. Um período marcado por investimento, conquistas e, principalmente… talento português.

Isso mesmo. Talento português.

Pode parecer estranho à primeira vista, mas a história do Wolves foi profundamente marcada pela pequena nação ibérica. Muitos dos melhores e mais queridos jogadores portugueses da última década vestiram, em algum momento, a camisa do "Old Gold". Para entender o porquê, é preciso voltar ao que ficou conhecido como a "Revolução Portuguesa" do Wolves.

Como Portugal tomou conta de Wolverhampton

Durante muitos anos, o Wolves era um clube que trazia o que era mais britânico - nas mãos do tradicional Jack Hayward nos anos 90, e depois de Steve Morgan em meados dos anos 2000. O elenco era formado majoritariamente por ingleses, com alguns escoceses e galeses no meio. O primeiro jogador português do clube, Silas, chegou em 2003, disputou apenas nove partidas e retornou a Portugal três anos depois. Uma passagem breve, um caso isolado.

Tudo isso mudou em 2016, quando o grupo chinês Fosun International assumiu o clube com uma missão clara: devolver o Wolves à Premier League, da qual havia sido rebaixado em 2012. Para isso, foram buscar na Europa um treinador à altura do projeto. E o encontraram em Nuno Espírito Santo.

O ex-goleiro português chegou do Porto com um estilo de jogo criativo e propositivo que imediatamente chamou a atenção da Fosun. Foi contratado em maio de 2017. E foi aí que tudo começou a mudar.

Na sua primeira temporada em Wolverhampton, Nuno conduziu o clube em uma campanha deslumbrante no Championship. Vinha uma vitória decisiva atrás da outra. O time jogava com confiança, com energia, com alegria. E quando o acesso à Premier League foi confirmado em 2018, após seis longos anos de ausência, Nuno já era ídolo.

Charlotte Wilson (Presse Sports)

Mas ele não estava sozinho nessa história.

Ao seu lado, uma comissão técnica cada vez mais portuguesa - com o auxiliar Rui Pedro Silva à frente. E nos bastidores, uma figura decisiva: o "super-agente" Jorge Mendes, que virou conselheiro do clube após a chegada da Fosun. Mendes conhecia Nuno havia mais de 20 anos, desde quando o treinador ainda era jogador. Com sua enorme rede de contatos, passou a conectar o Wolves a alguns dos maiores reveladores de talento de Portugal.

Os primeiros heróis da “Revolução Portuguesa”

O primeiro fruto dessa parceria foi Hélder Costa. O meia ofensivo - que mais tarde optaria por defender Angola na seleção - fez uma estreia brilhante, foi o artilheiro do clube e foi eleito o Jogador do Ano de 2017 pela torcida e pelos companheiros. O empréstimo logo virou contrato definitivo, para a alegria de todos.

Mas foi no verão de 2017 que as comportas se abriram de vez. Entre os novos reforços portugueses, dois nomes se destacavam sobre os demais: Rúben Neves e Diogo Jota.

Pressinphoto (Presse Sports)

A dupla, que já havia jogado junta no Porto, era de outro nível. Neves, um volante construtor de rara elegância, que trouxe estabilidade e organização ao meio-campo. Jota, um atacante elétrico, com faro de gol e aquela capacidade de decidir nos momentos mais improváveis. Em pouco tempo, os dois viraram pilares da revolução portuguesa do Wolves.

Neves foi eleito Jogador do Ano após a temporada de estreia e ficou no clube por mais seis anos, virando lenda. Até hoje detém o recorde de jogador português com mais partidas pelo clube: 253.

"É como se fosse nossa família. Às vezes a gente sente que está em Portugal quando jantamos juntos." – Rúben Neves

Jota ficou menos tempo, mas deixou uma marca igualmente profunda. Seus 44 gols ainda são o recorde entre os portugueses do Wolves. Após partir para o Liverpool em 2020, tornou-se um dos atacantes mais decisivos do mundo, conquistando a Premier League e a FA Cup. Fez parte do elenco do Liverpool indicado duas vezes ao Ballon d'Or de Melhor Clube Masculino do Ano - em 2022 e em 2025. 

Depois de sua morte trágica no ano passado, os torcedores do clube homenagearam o jogador antes de uma partida contra o Manchester City, exibindo um enorme bandeirão com a imagem de Jota enquanto ‘Fields of Gold’, de Sting - música favorita do atacante - ecoava pelo Molineux. Ainda naquele ano, ele também recebeu uma homenagem póstuma ao ser incluído no Hall da Fama do clube.

Simon Stacpoole (Presse Sports)

Deixar Portugal para encarar uma cultura, um clima e uma língua completamente diferentes nunca é fácil - mas a estratégia de Mendes e Nuno tratou de trazer um pedaço de casa junto. Com tantos compatriotas no clube, nenhum novo reforço chegava se sentindo perdido. Como Neves disse em 2018: "Agora é como se fosse nossa família. Às vezes a gente sente que está em Portugal quando jantamos juntos. Minha filha fez um aninho [mês passado]. Trouxe a minha família e a família da minha noiva de Portugal, e com todos os jogadores portugueses também, éramos 30 pessoas." (The Guardian)

Quando o Wolves ganhou uma nova identidade

Em 2018, como já estava virando costume, mais portugueses chegaram a Wolverhampton. Rúben Vinagre conquistou o prêmio de Jogador Jovem da Temporada. Rui Patrício assumiu o gol. João Moutinho encantou a torcida e foi eleito Jogador da Temporada. Os dois últimos eram titulares absolutos da seleção portuguesa e tinham ajudado o país a conquistar a Euro 2016 - o primeiro grande título da história de Portugal. Naquele ano, Patrício foi até indicado ao Ballon d'Or.

O Wolves já não era mais apenas um clube inglês com alguns jogadores portugueses. Era outra coisa - algo novo, algo vivo.

"Quando tem muitos portugueses, você pode perguntar sobre as regras daqui e eles te ajudam." - José Sá

Os jogadores eram conhecidos pela determinação e pelo profissionalismo. Evitavam bebidas e festas, moravam perto do centro de treinamento em Compton Park - uma decisão coletiva que dizia muito sobre o espírito do grupo. Os torcedores viam a diferença com os próprios olhos. O time tinha um ar diferente. Um propósito. Qualquer torcedor do Wolves teria que estar fora de si para não abraçar a Revolução Portuguesa.

E o efeito dominó fazia o resto: cada português que chegava atraía outros, que encontrariam um ambiente familiar, acolhedor, cheio de caras conhecidas de clubes anteriores, das categorias de base ou da seleção.

A barreira do idioma era um fator central nisso tudo. Pedro Neto, que chegou em 2019, explicou bem: "Faz muita diferença. Quando fui para a Lazio, não conhecia os outros jogadores. O primeiro ano foi difícil, meu italiano não era tão bom." (The Athletic) José Sá completou: "Conheço muitos dos rapazes da seleção. Foi muito bom para me adaptar - quando tem muitos portugueses, você pode perguntar sobre as regras daqui e eles te ajudam." (Sky Sports)

Mas Nuno sempre deixou claro que o objetivo não era criar uma bolha portuguesa no meio das West Midlands. Era integrar - ao clube, ao país, à cultura, ao idioma: "Ter momentos sem barreira linguística ajuda na integração. Ao mesmo tempo, optamos por falar apenas inglês entre nós, para que o jogador tenha que se atualizar." (The New York Times)

"É muito importante fazer com que [os novos contratados] se adaptem o mais rápido possível, e para isso, treinar junto não é suficiente." - Nélson Semedo

O clube apoia os jogadores nesse processo - em 2016, Hélder Costa comentou: "Agora estou fazendo aulas de inglês. [...] Estamos aprendendo e em breve vamos poder ter conversas fluentes. O clube disponibiliza o professor, que nos dá lições duas vezes por semana." (O Jogo)

Nuno sempre acreditou que futebol se constrói dentro e fora de campo. Para ele, estar rodeado de pessoas de confiança faz toda a diferença: "É muito bom ter um amigo que mora perto para poder passar um tempo junto - inclusive com a família e as esposas. Tudo isso ajuda." (The New York Times)

Essa mentalidade ficou enraizada no vestiário do Wolves e segue viva até hoje. No ano passado, o capitão Nélson Semedo disse: "É muito importante fazer com que [os novos contratados] se adaptem o mais rápido possível, e para isso, treinar junto não é suficiente. Temos que mostrar para eles outras versões de nós mesmos fora do clube." (Wolves)

Esse acolhimento se estendia para além do vestiário - os torcedores também sentiam. Em 2021, a fundação do clube lançou o projeto 'Feed Our Pack' para combater a pobreza na área e ajudar os mais afetados pela COVID-19. Nuno doou £250.000 para a iniciativa. O Wolves não estava só jogando futebol. Estava construindo algo numa cidade.

E quando um clube constrói algo assim - uma identidade, uma comunidade, um propósito - os resultados aparecem.

Da Europa ao Ballon d'Or: o auge do Wolves português

Na primeira temporada de volta à Premier League, o clube terminou em 7º - a melhor colocação desde 1980 - e garantiu vaga na Europa League: sua primeira competição na Europa desde 1980-81. Chegaram às quartas de final, sendo eliminados pelo Sevilla, que levaria o troféu. No ano seguinte, novamente 7º.

Marc Atkins (Presse Sports)

Na temporada de 2022-23, havia 11 jogadores portugueses no elenco principal. Por três anos consecutivos, o Jogador do Ano foi português: Pedro Neto em 2021, José Sá em 2022, Rúben Neves em 2023. Em agosto de 2022, Matheus Nunes chegou do Sporting CP por £38 milhões - recorde do clube. Um ano depois, partiu para o Manchester City de Guardiola por £53 milhões - outro recorde.

E depois havia Vitinha.

Em 2026, quando se olha para os ex-jogadores portugueses do Wolves, um nome paira acima de todos os outros. No ano passado, o maestro do meio-campo ficou em terceiro lugar no Ballon d'Or, atrás apenas de Ousmane Dembélé e Lamine Yamal. Sua versatilidade e liderança foram decisivas para o PSG conquistar a primeira Liga dos Campeões da história do clube, e para Portugal vencer a Liga das Nações pela segunda vez.

"Me sinto totalmente integrado no Wolves e na sociedade também." - Vitinha

Simon Stacpoole (Presse Sports)

Mas houve um momento em que Vitinha era apenas mais um talento promissor a passar pelo vestiário do Wolves. Chegou por empréstimo do Porto em 2020, participou de 22 partidas, e foi embora. O clube não via espaço para ele - as táticas priorizavam transições rápidas e contra-ataques, enquanto Vitinha preferia controlar a posse de bola e organizar o jogo. Mas ele nunca esqueceu o que sentiu ali: "É sempre mais fácil quando uma grande parte do grupo é portuguesa. Me sinto totalmente integrado no time e na sociedade também." (Wolves). E deixou sua marca - um golaço de 32 metros de distância que decidiu o jogo contra o Chorley na EFL Cup.

O fim de uma era… ou apenas uma pausa?

Em 2021, o Wolves terminou em 13º - uma queda e tanto depois de duas temporadas seguidas em 7º. Nuno deixou o time logo depois. Outros dois técnicos portugueses assumiram o comando do time nos anos seguintes - Bruno Lage e Vítor Pereira - mas nenhum conseguiu reacender a chama.

A posição na tabela foi caindo. Esta temporada foi a gota d'água. O clube está de volta à segunda divisão. E no caminho, houve uma debandada de jogadores portugueses.

Em outubro do ano passado, o Wolves escalou uma equipe titular na Premier League sem nenhum jogador português - encerrando uma sequência de sete anos e 272 partidas consecutivas com pelo menos um português em campo.

O foco parece ter se deslocado para outro polo lusófono: o Brasil. Reforços como André, Pedro Lima e João Gomes sinalizam uma nova direção, provavelmente por conta de restrições financeiras recentes.

Mas esse não é o final da história.

Para o Championship, o clube ainda conta com quatro portugueses: o goleiro José Sá, o zagueiro e capitão Toti Gomes, o atacante Rodrigo Gomes - e o jovem prodígio de 18 anos Mateus Mané, que disse à BBC no início deste ano: "Quero um dia ganhar o Ballon d'Or." (BBC Sport)

E as conexões do Wolves com Portugal se espalham por toda parte. Rui Pedro Silva ainda é auxiliar técnico. O fisioterapeuta do elenco, Rui Fuste, também é português. No ano passado, o elenco passou dez dias no Algarve na pré-temporada. A região tem seu próprio clube oficial de torcedores do Wolves, fundado em 2018. Este mês, olheiros do clube foram vistos numa partida entre Porto e Alverca. E vale lembrar: o terceiro uniforme da temporada de 2020-21 tinha uma semelhança suspeita com a camisa da seleção portuguesa.

Por todo Portugal, as pessoas ainda se reúnem em bares para assistir ao Wolves, curiosas para saber quem será o próximo Neves, o próximo Jota, o próximo Vitinha.

Muito além do futebol: o legado que Portugal deixou no Wolves

O efeito duradouro mais importante da geração portuguesa não é um troféu, nem um recorde, nem uma estatística. É o caráter. Antes de Nuno, antes de Mendes, antes da primeira leva de 2016, o clube buscava encontrar seu caminho de volta ao topo. Precisava de novos horizontes, de um sopro de vida.

A Revolução Portuguesa deu exatamente isso. E a ideologia de Nuno reverbera no clube até hoje: "O primeiro passo de um projeto é criar uma identidade. Se você não tem uma identidade, hoje quer este jogador e amanhã quer outro. Todos no elenco sabem quais são as suas tarefas. Eles vão para casa sabendo o que podem esperar no dia seguinte. Eu realmente acredito que essa é a melhor maneira de desenvolver o time." (Sky Sports)

Marc Atkins (Presse Sports)

O Wolverhampton Wanderers atravessa um momento difícil. Mas o clube já viu esse filme antes e sabe o caminho de volta - e não precisa ir muito longe para se lembrar disso. Basta olhar para a pequena nação que faz fronteira com a Espanha.

Na última década, o Wolves foi um celeiro indispensável de talentos portugueses, criando um elo inesperado, mas sólido, entre duas culturas tão diferentes. 

O impacto dessa relação pode ser sentido no clube, e pode ser sentido em Portugal - onde muitos dos jogadores mais importantes da última década têm um nome improvável no currículo: Wolverhampton Wanderers.

Jogadores como Vitinha. Atualmente um dos melhores do mundo, sem qualquer discussão.

O Wolves e a Premier League podem estar seguindo caminhos separados por ora. Mas o Wolves e Portugal jamais estarão desconectados - os dois estão agora, nas alegrias e nas dificuldades, lado a lado. Cada um fez parte da história do outro.

E essa história conjunta é linda de se ver.