O começo de uma história extraordinária

Quando pensamos nas seleções africanas de maior sucesso no futebol, vários nomes vêm à mente: Camarões, Egito, Nigéria, Gana, Argélia, Marrocos, Costa do Marfim, Tunísia, África do Sul, Senegal...

Um país que não costuma vir à mente é o Malawi.

Afinal, a seleção masculina nunca disputou uma Copa do Mundo e, apesar de ter participado três vezes da Copa Africana de Nações, nunca conseguiu passar das oitavas de final.

Mas isso parece estar mudando - e de forma significativa.

A força por trás dessa transformação, no entanto, não vem de um jogador masculino, mas de uma das grandes estrelas do futebol feminino: Temwa Chaŵinga, atacante de 27 anos do Kansas City Current.

Temwa é a irmã mais nova de Tabitha Chaŵinga, de 30 anos, atacante do Olympique Lyon e também considerada uma das melhores jogadoras de futebol feminino dos últimos anos.

"Eu nunca tive telas para assistir futebol feminino, eu só seguia minha irmã." - Temwa Chaŵinga

As duas, cujo sucesso já foi comparado ao das estrelas do tênis americano Venus e Serena Williams, cresceram no distrito de Rumphi, no norte do Malawi, ao lado de outros três irmãos.

Na infância, seus pais proibiam as duas de jogar futebol por considerarem que era um esporte "de menino". Mesmo assim, elas treinavam com os garotos até se mudarem para Lilongwe, capital do país, para correr atrás dos próprios sonhos. Como Temwa relembrou: "Era muito difícil para a gente jogar, porque, na África, muitos países acham que futebol não é coisa para menina. Nossa mãe não nos deixava jogar, mas a gente não dava ouvidos a ela." (Olympics)

Foi no clube local Blantyre Zero que o talento inegável das irmãs começou a chamar atenção. Não demorou para que as duas partissem para o exterior em busca dos primeiros contratos profissionais, com o Kvarnsveden IK, da famosa Damallsvenskan, a principal liga feminina da Suécia.

Tabitha foi primeiro, e Temwa logo a seguiu. O mesmo aconteceu quando as duas se mudaram para a China para jogar no futebol feminino local. Como Temwa explicou: "Crescendo, eu segui muito minha irmã, porque foi ela quem me convenceu a jogar. Eu nunca tive telas para assistir futebol feminino, eu só seguia minha irmã." (Olympics)

O nascimento de uma artilheira

Foi na China que Temwa começou a se destacar de verdade como uma das grandes artilheiras do futebol feminino.

Enquanto Tabitha foi para o Jiangsu, então campeão da liga, no leste do país, Temwa seguiu um caminho diferente pela primeira vez. A atacante se juntou ao Wuhan Jianghan University, no centro da China.

Em sua primeira temporada na Ásia, Temwa marcou nove gols, terminando como a segunda maior artilheira da liga, atrás apenas de Barbra Banda, do Shanghai Shenli. Ainda assim, foi o Wuhan quem ficou com o título naquele ano.

A forte ligação entre as irmãs fez com que Tabitha se juntasse novamente a Temwa no Wuhan em 2021, depois de um breve período separadas.

Naquele ano, Tabitha terminou no topo da artilharia da liga, com nove gols, enquanto Temwa marcou sete. E o Wuhan voltou a conquistar o título.

Em 2022, porém, os caminhos das duas finalmente se separaram de vez. Tabitha levou seu talento para a Itália, onde passou a defender a Inter de Milão, enquanto Temwa continuou no Wuhan. E o time manteve a excelente fase, conquistando o terceiro título consecutivo, desta vez com Temwa como artilheira da competição, com 10 gols.

63 gols: um feito histórico

2023 seria um ano ainda mais marcante para a ascendente estrela malauiana.

Além de conquistar o quarto título consecutivo com o Wuhan, Temwa marcou 63 gols e terminou o ano como a maior artilheira do futebol mundial, entre homens e mulheres. Para efeito de comparação, a segunda maior goleadora do futebol feminino naquele ano foi a mexicana Charlyn Corral, com 39 gols.

As maiores artilheiras do futebol feminino em 2023:

  1. Temwa Chaŵinga (Malawi / Wuhan Jianghan University) - 63 gols

  2. Charlyn Corral (México / Pachuca) - 39 gols

  3. Kiana Palacios (México / Club América) - 38 gols

Temwa também superou com folga o maior artilheiro do futebol masculino naquele ano: nada menos que Cristiano Ronaldo, cinco vezes vencedor do Ballon d'Or, que marcou 54 gols.

O feito colocou Temwa entre os jogadores que mais marcaram gols em um único ano. Na verdade, ela é a única mulher entre os dez primeiros da lista e também a única jogadora africana a alcançar essa marca.

Jogadores com mais gols marcados em um único ano-calendário (homens e mulheres):

  1. Lionel Messi (2012) - 91 gols

  2. Gerd Müller (1972) - 85 gols

  3. Pelé (1958) - 75 gols

  4. Pelé (1965) / Zico (1979) / Romário (2000) - 72 gols

  5. Cristiano Ronaldo (2013) / Robert Lewandowski (2021) - 69 gols

  6. Kylian Mbappé (2025) - 66 gols

  7. Cristiano Ronaldo (2012) / Temwa Chaŵinga (2023) - 63 gols

  8. Viktor Gyökeres (2024) - 62 gols

  9. Cristiano Ronaldo (2014) - 61 gols

  10. Cristiano Ronaldo (2011) / Harry Kane (2025) - 60 gols

Foi também em 2023 que Temwa ajudou a seleção feminina do Malawi a conquistar seu primeiro título no Campeonato Feminino da COSAFA (Conselho das Associações de Futebol da África Austral). Ela marcou nove gols durante o torneio, incluindo um hat-trick contra a África do Sul e quatro gols diante da Essuatíni.

Não era a primeira vez que ela deixava sua marca pela seleção. Em 2019, por exemplo, ela ficou conhecida por marcar cinco gols em uma única partida - uma goleada de 11x1 sobre Moçambique, no Torneio Classificatório Olímpico Feminino da CAF. 

Ainda assim, foi em 2023 que Temwa realmente se consolidou como uma das jogadoras mais imparáveis do futebol feminino mundial.

O salto para a NWSL

Sem se acomodar, Temwa decidiu levar sua carreira a um novo patamar em 2024, quando assinou com o Kansas City Current, da National Women's Soccer League (NWSL), considerada uma das ligas femininas mais competitivas do mundo.

O primeiro gol pelo clube não demorou a sair, fazendo dela a primeira jogadora malauiana a marcar na história da liga americana.

Logo em sua primeira temporada, ela começou a quebrar recordes e se firmou rapidamente como uma das melhores atacantes da NWSL. 

Temwa se tornou a primeira jogadora da história da liga a marcar 20 gols em uma única temporada, superando o antigo recorde de 18 gols da australiana Sam Kerr, estabelecido em 2019.

Ela também se tornou a primeira jogadora a marcar contra todas as outras 13 equipes da liga em uma mesma temporada.

Em outubro, Temwa mostrou que também podia decidir jogos importantes. Na final da NWSL x Liga Femenil Summer Cup, ela marcou os dois únicos gols da partida contra o NJ/NY Gotham, garantindo o título para o Kansas City Current.

Mais recordes vieram na temporada seguinte.

Em maio de 2025, ela se tornou a jogadora mais rápida a chegar aos 25 gols na temporada regular da NWSL, precisando de apenas 34 partidas para alcançar a marca.

Em setembro, marcou na vitória do Current por 2 a 0 sobre o Seattle Reign, resultado que garantiu o primeiro NWSL Shield da história do clube. Naquela campanha, o time também estabeleceu vários recordes da liga, incluindo o maior número de pontos e vitórias e o menor número de gols sofridos em uma única temporada.

No final de 2025, Temwa recebeu sua primeira indicação ao Ballon d'Or Feminino, apenas um ano depois de sua irmã Tabitha também aparecer pela primeira vez entre as indicadas.

Temwa continua impressionando na NWSL em 2026. Em maio, ela marcou o primeiro hat-trick da história do Current em uma partida de temporada regular, na vitória por 3 a 0 sobre o Chicago Stars.

A heroína do Malawi

Mas, enquanto sua carreira nos Estados Unidos seguia em plena ascensão, Temwa nunca deixou de lado um de seus maiores objetivos: levar o Malawi a grandes conquistas.

Ela sempre demonstrou orgulho pelo fato de suas atuações na NWSL ajudarem a colocar o Malawi - e outros países africanos menos conhecidos no futebol mundial - sob os holofotes.

Embora a seleção masculina do Malawi já tivesse participado de três edições da Copa Africana de Nações (em 1984, 2010 e 2021), a seleção feminina - formada no início dos anos 2000 - nunca tinha conseguido chegar ao torneio.

Isso mudou quando Temwa ajudou a equipe a se classificar para a edição de 2026.

Ela ficou emocionada e orgulhosa com essa conquista histórica - deixando claro que queria sair de lá com algo a mais, e não apenas como participante: "Significa muito para mim, para o Malawi, estarmos lá agora. Não vai ser só sobre mim e a Tabitha, porque temos muito talento no Malawi. Estamos indo para conquistar alguma coisa, não só para participar." (The Guardian)

E o pequeno país realmente conquistou algo. Superando todas as expectativas, o Malawi chegou à final - superando o recorde da seleção masculina, que havia parado nas oitavas de final em 2021.

Temwa marcou cinco gols ao longo do caminho - todos em vitórias memoráveis contra seleções históricas do futebol africano: duas contra a Nigéria, uma contra o Egito, uma contra Gana e uma contra a Argélia.

Ela terminou como artilheira do torneio, apesar da derrota para Camarões na grande final.

E outra página histórica já espera pelo futebol malauiano em 2027: a seleção feminina vai disputar a Copa do Mundo Feminina pela primeira vez na história.

A seleção masculina, por sua vez, nunca se classificou para uma Copa do Mundo masculina.

Inspirando a próxima geração

Mas Temwa não tem ajudado seu país apenas dentro de campo. Fora dele, ela também faz questão de retribuir e ajudar a próxima geração a ter acesso a oportunidades pelas quais ela mesma precisou lutar.

No ano passado, ao lado de companheiras de equipe e voluntários, Temwa ajudou a montar 8.000 kits de higiene, que foram distribuídos em escolas de áreas rurais do Malawi.

"Trabalhem duro e não desistam dos seus sonhos. Mesmo que as pessoas digam que futebol não é para meninas, joguem assim mesmo." - Temwa Chaŵinga

Além da ajuda prática, Temwa também tem orgulho de servir como fonte de inspiração para meninas no Malawi e em outras partes da África que sonham em construir uma carreira no futebol: "É incrível que muitas meninas e jovens na África, no Malawi, se inspirem em mim. Quero dizer que sou muito grata, e quero dizer a elas que precisam trabalhar duro e não desistir dos seus sonhos. Mesmo que as pessoas digam que futebol não é para meninas, façam assim mesmo. Vão em frente e façam." (Olympics)

Temwa é a prova viva de que coragem, trabalho duro e perseverança podem trazer resultados enormes.

Em 2026, ela adiciona mais uma conquista incrível a uma lista que só cresce: sua segunda indicação ao Ballon d'Or Feminino.