O paradoxo do futebol: suor e gelo

Futebol é um jogo cheio de emoção. Um jogo de sentimentos fortes - alegria, raiva, frustração, surpresa. Um jogo de paixões intensas. Durante 90 minutos, a bola quase não para de rolar e as pernas quase não param de correr. Calor, esforço, suor, cansaço. Por isso, uma das últimas imagens que vem à nossa cabeça quando pensamos no jogo é justamente a de frio.

Mas futebol e frio talvez não estejam tão separados quanto muita gente imagina. Na verdade, nos últimos anos ficou cada vez mais claro que o frio pode ser uma ferramenta usada para melhorar a qualidade e a intensidade do jogo que a gente tanto ama.

Um milagre esportivo - com ciência nos bastidores

Em 2016, o Leicester City venceu a Premier League inglesa numa das conquistas mais chocantes e improváveis do futebol moderno. Foi a primeira vez que o clube levou o troféu da primeira divisão, e isso veio apenas uma temporada depois de quase terem sido rebaixados, passando 140 dias na última posição da tabela. Antes disso, o último clube a conquistar o título pela primeira vez tinha sido o Nottingham Forest, em 1978.

Existem muitos motivos para esse feito histórico - muito se falou dos jogadores, do treinador, do espírito de equipe e das ideias táticas. Mas um ponto que não dá para ignorar é a tecnologia que eles passaram a usar no dia a dia de treino.

Mais especificamente, o clube tinha comprado uma câmara de crioterapia antes do início daquela temporada.

“A câmara de crioterapia é congelante, mas ajuda na recuperação" - Jamie Vardy

Mas… o que é crioterapia?

O frio como ferramenta de recuperação

Como explicou Adnan Haq, professor de Ciência do Esporte na Universidade de South Wales: “Quando muitas pessoas usam o termo crioterapia, estão se referindo à crioterapia de corpo inteiro (WBC), que envolve exposição a ar extremamente frio, abaixo de -100°C, por cerca de três minutos - mais frio do que a temperatura mais baixa já registrada na Terra. [...] A ideia é explorar as respostas do corpo a esses extremos para acelerar a recuperação.” (GOAL)

Na prática, a exposição a temperaturas tão baixas ajuda o corpo a se recuperar e se fortalecer, reduzindo inflamações, tensão muscular e danos causados pelos treinos e jogos.

Menos lesões, mais consistência

O atacante inglês Jamie Vardy, artilheiro do Leicester naquela campanha histórica, usou a crioterapia ao longo de toda a temporada, inclusive durante o tratamento de uma lesão no quadril: “A câmara de crioterapia é congelante, mas ajuda na recuperação, então foi muito bom o clube ter investido nisso”. (The Guardian) Ele terminou a temporada com 24 gols em 36 jogos e foi eleito o melhor jogador da Premier League de 2016.

E ele não foi o único beneficiado. O Leicester teve menos lesões do que qualquer outro clube da Premier League naquela temporada, algo que muitos atribuíram ao uso contínuo da crioterapia.

Depois disso, vários clubes ingleses passaram a adotar o método em suas estruturas de treino, como Arsenal, Everton e Bournemouth.

A elite do futebol e a rotina do gelo

A visibilidade da crioterapia só aumentou nos anos seguintes - não só na Inglaterra, mas no mundo inteiro - com alguns dos maiores jogadores do futebol atual falando abertamente sobre seus benefícios.

Um dos principais nomes é Cristiano Ronaldo, pentacampeão do Ballon d’Or e uma das maiores referências de longevidade no esporte. 

"Muita gente ao redor do mundo [...] acha que o frio não faz bem [...] Isso está completamente errado." - Cristiano Ronaldo

Ronaldo utiliza crioterapia há mais de uma década. Em 2025, a WHOOP relatou que o método melhora sua recuperação em 7%, enquanto banhos frios adicionam mais 4,5%. Ele também faz imersões em água gelada diariamente ao acordar. Esses hábitos ajudam a explicar como, mesmo aos 41 anos, ele segue competindo em alto nível - com recuperação rápida entre jogos e treinos.

Ele mesmo já disse: “[A terapia do frio] é uma ótima ferramenta que as pessoas deveriam entender. Muita gente ao redor do mundo não entende isso e acha que o frio não faz bem - que se você tomar banho frio ou fizer um banho de gelo, vai pegar gripe. Isso está completamente errado. É o contrário. Quanto mais você faz, menos doente você fica.” (WHOOP)

Os números ajudam a reforçar essa ideia: desde que chegou ao Al-Nassr em dezembro de 2022, Ronaldo perdeu apenas 5 jogos por lesão ou doença - algo impressionante para alguém com mais de 1.300 partidas profissionais na carreira.

Outro nome associado ao método é Neymar, 9 vezes indicado ao Ballon d’Or. 

Além das câmaras de crioterapia, ele também usa compressa fria localizada para tratar lesões. Após sofrer uma lesão ligamentar no tornozelo durante a Copa do Mundo de 2022, iniciou rapidamente o processo de recuperação e conseguiu voltar a jogar pelo Brasil em menos de duas semanas. Hoje, é o maior artilheiro da seleção principal brasileira, com 79 gols.

Cristiano Ronaldo também utiliza compressa fria localizada, explicando: “[o tratamento] pressiona os músculos e ao mesmo tempo esfria articulações e músculos. Ajuda muito na recuperação.” (WHOOP)

Lionel Messi, vencedor do Ballon d’Or um recorde de 8 vezes, também já utilizou o tratamento, inclusive sendo fotografado em 2015 tratando uma lesão no joelho enquanto jogava pelo Barcelona.

Corpo e mente: a recuperação completa

Mas a crioterapia não traz benefícios só físicos. Ela também tem impacto mental e emocional. David Rennie, fisioterapeuta-chefe do Leicester na temporada do título, destacou mudanças hormonais nos jogadores, com melhora de humor e motivação. Já Ian Saunders, da CryoAction, explicou: “A maioria dos jogadores relata que se sente completamente renovada, com mais energia e já em processo de recuperação após os esforços de um treino ou de um dia de jogo. Eles também dizem que passam a ter um sono mais profundo e duradouro. No dia a dia, muitos jogadores acabam ficando superestimulados e com padrões de sono ruins. A crioterapia ajuda a aumentar os níveis de dopamina e serotonina, contribuindo para uma recuperação do sono mais saudável.” (GOAL)

O frio como diferencial

No fim das contas, o futebol é um esporte inevitavelmente marcado por lesões - estiramentos, entorses, rupturas. Elas fazem parte do jogo. O que muda é a forma como os atletas se recuperam delas.

E é aí que a terapia do frio entra: ajudando a acelerar a recuperação, reduzir o desgaste e permitir que os maiores jogadores do mundo voltem ao campo mais rápido - com mais energia, mais foco e uma mente mais equilibrada para encarar o próximo desafio.