Raízes brasileiras, destinos diferentes
A Copa do Mundo de 2026 está a poucas semanas de começar, e as convocações vêm sendo anunciadas uma atrás da outra.
Na semana passada, Carlo Ancelotti divulgou a lista de 26 jogadores da seleção brasileira para o torneio.
Mais uma vez, os pentacampeões chegam cercados de expectativa. O Brasil não conquista o título há mais de duas décadas, e esta pode ser a última Copa de Neymar - artilheiro histórico da seleção e indicado ao Ballon d'Or nove vezes.
Seria a chance final de levantar o troféu mais icônico do futebol e consolidar de vez seu legado entre os maiores da história do país. Afinal, a taça já passou pelas mãos de alguns dos maiores nomes do esporte: Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Cafu, Roberto Carlos, Ronaldinho e Kaká.
A relação entre o Brasil e a Copa do Mundo é quase inseparável. O torneio simplesmente não seria o mesmo sem a Seleção.
Mas você sabia que tem jogadores brasileiros que marcaram época no futebol mundial… sem jamais terem vestido a camisa da Seleção?
Isso mesmo: vários nomes de destaque construíram carreiras icônicas defendendo outras seleções. E oito deles chegaram a ser indicados ao maior prêmio do futebol mundial, o Ballon d'Or.
Estes são esses jogadores.
José "Mazzola" Altafini
José João Altafini nasceu em 1938, em Piracicaba, no interior de São Paulo, em uma família operária de origem italiana. Ainda criança, começou a dar os primeiros passos no futebol em uma cidade marcada pela forte presença da comunidade italiana.
Foi nesse contexto que surgiu o apelido “Mazzola”, uma referência ao lendário jogador Valentino Mazzola, devido à semelhança entre os dois.
Aos 17 anos, Altafini chegou ao Palmeiras - clube historicamente ligado à imigração italiana. Centroavante de faro artilheiro, marcou logo na estreia, em 1956, tornando-se o jogador mais jovem a balançar as redes na história do clube.
No ano seguinte, também estreou pela Seleção Brasileira e deixou sua marca de imediato, ajudando o Brasil a conquistar a Copa Roca contra a Argentina em 1957.
As boas atuações o levaram à Copa do Mundo de 1958, aos 19 anos, como o segundo jogador mais jovem do elenco - atrás apenas de Pelé. Altafini começou o torneio em grande estilo, com dois gols na estreia contra a Áustria, mas acabou perdendo espaço ao longo da competição por conta de uma lesão, sendo substituído por Vavá no time titular.
Ainda assim, participou de um lance importante nas quartas de final contra o País de Gales, que terminou com gol de Pelé. O Brasil, claro, conquistaria o título - o primeiro da sua coleção de cinco Copas do Mundo.
Após o Mundial, Altafini deixou o Palmeiras e se transferiu para o Milan, iniciando uma carreira de destaque no futebol italiano. Ele também passaria por Napoli e Juventus, se firmando como um dos grandes atacantes da Serie A.
A partir daí, nunca mais voltou a vestir a camisa da Seleção Brasileira.
O motivo é que, na época, a seleção só convocava jogadores que atuavam no Brasil, e Altafini já era figura consolidada no futebol italiano.
Com o tempo, acabou se tornando elegível para a seleção da Itália - e passou a defendê-la. Chegou a ajudar a Azzurra na classificação para a Copa de 1962, mas a campanha terminou em decepção, com eliminação ainda na fase de grupos.
Mais tarde, a FIFA passou a impedir a convocação de jogadores que tivessem defendido duas seleções diferentes em Copas do Mundo, o que encerrou de vez qualquer possibilidade de retorno internacional para Altafini - seja pelo Brasil ou pela Itália.
No total, somou 8 jogos e 4 gols pela Seleção Brasileira, além de 6 jogos e 5 gols pela Itália.
Hoje, aos 87 anos e vivendo em Alessandria, na Itália, Altafini ainda carrega certa nostalgia pelo que poderia ter sido sua trajetória com a camisa da Seleção. Em entrevista, resumiu esse sentimento: "Se você nasceu brasileiro, você é brasileiro. Devo agradecer à Itália, porque aprendi muita coisa e melhorei minha vida aqui. Mas se o Brasil jogar contra a Itália, infelizmente vou ter que torcer para o Brasil." (Band)
José "Mazzola" Altafini pela Itália (1961-1962)
6 jogos. 5 gols. 0 títulos.
Angelo Sormani
Um ano depois de Altafini, Angelo Benedicto Miguel Sormani nasceu na cidade de Jaú, também no interior de São Paulo. Cresceu jogando futebol e se tornou um atacante forte e versátil, capaz de atuar em qualquer posição do ataque.
Começou a carreira no Santos, inicialmente como reserva de Pelé, antes de conquistar espaço no elenco principal e chamar atenção pelo seu potencial.
Aos 20 anos, foi para a Itália defender o Mantova, onde rapidamente impressionou e ganhou o apelido de “Pelé Branco”. Ele conta que sua decisão teve muito a ver com a qualidade de vida no país na época : "Vim morar na Itália num momento maravilhoso, onde a indústria e o comércio estavam no boom do pós-guerra. Todo mundo tinha trabalho. Todo mundo comprava automóvel." (O Historiador do Futebol)
Com a cidadania italiana adquirida pela sua ascendência, Sormani jogou brevemente pela seleção italiana, marcando 2 gols em 7 partidas entre 1962 e 1963.
Chegou a representar a Itália na Copa do Mundo de 1962, no Chile, ao lado de Altafini, mas assim como seu compatriota ítalo-brasileiro, não deixou grande marca - a Itália foi eliminada na primeira fase.
No futebol de clubes, Sormani construiu uma carreira sólida, especialmente no Milan, onde conquistou cinco títulos em cinco temporadas e chegou a ser indicado ao Ballon d'Or em 1969.
Apesar do sucesso na Europa, sua trajetória pela seleção foi curta. Em uma entrevista recente, ele admitiu sentir saudade do Brasil, e especialmente da sua cidade natal de Jaú, mas afirmou ter construído sua vida na Itália ao lado da família: "Eu sou atraído a ficar aqui, logicamente, pelos meus filhos, que cresceram aqui. [...] As nossas raízes entraram nessa terra e agora estamos aqui." (O Historiador do Futebol)
Angelo Sormani pela Itália (1962-1963)
7 jogos. 2 gols. 0 títulos.
Donato
Quando o zagueiro Donato Gama da Silva recebeu uma indicação ao Ballon d'Or em 1995, já era uma figura consolidada no futebol espanhol.
Revelado no Vasco, chegou ao Atlético de Madrid em 1984 e rapidamente se firmou no futebol europeu. No clube da capital, conquistou duas Copas del Rey consecutivas antes de se transferir para o Deportivo La Coruña em 1993.
Foi no chamado “Super Depor” que Donato atingiu o auge da carreira, se tornando peça fundamental em uma das fases mais marcantes da história do clube. Ele ajudou o Deportivo a conquistar duas Copas do Rei e o histórico título da La Liga na temporada 1999-2000.
Ao todo, passou uma década em La Coruña, onde também encerrou a carreira, somando 54 gols em 393 partidas. No seu último ano, ainda entrou para a história como o jogador mais velho a marcar um gol no futebol espanhol.
Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro em 1962 - no mesmo ano em que Altafini e Sormani disputavam sua única Copa do Mundo pela Itália - Donato nunca vestiu a camisa da Seleção Brasileira em nível internacional.
Em vez disso, obteve a cidadania espanhola em 1990 e passou a defender a seleção da Espanha, pela qual disputou 12 partidas entre 1994 e 1996.
Mesmo após a aposentadoria, seguiu vivendo em La Coruña e construiu uma forte ligação com o país. Em entrevista, resumiu esse sentimento: "Hoje eu sou uma pessoa muito querida na Espanha. Onde você vai até hoje na Espanha e perguntar por Donato, geralmente o pessoal lembra de mim." (Museu da Pelada)
Donato pela Espanha (1994-1996)
12 jogos. 3 gols. 0 títulos.
Deco
Quando o assunto é brasileiros que optaram por defender outras seleções, poucos casos são tão marcantes quanto o de Deco.
Anderson Luís de Souza, o "Deco", nasceu em 1977 em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Desde cedo, já chamava atenção pela qualidade técnica. Meia versátil e criativo, combinava inteligência com grande intensidade em campo, sendo descoberto por olheiros do Benfica enquanto atuava pelo CSA, no fim dos anos 1990.
Após aceitar a proposta e se mudar para Portugal, o elegante meia construiu uma carreira de enorme sucesso no futebol europeu.
Suas maiores conquistas vieram em dois clubes: no Porto, pelo qual conquistou 10 títulos em 5 temporadas, incluindo a Liga dos Campeões em 2004, e depois no Barcelona, pelo qual venceu duas ligas consecutivas e novamente a Liga dos Campeões, em 2006.
Foi indicado ao Ballon d'Or cinco vezes seguidas entre 2003 e 2007, chegando a ser vice-campeão do prêmio em 2004, superado apenas por Andriy Shevchenko.
A escolha de defender Portugal em vez do Brasil sempre gerou debate ao longo da carreira e continua sendo tema de discussão mesmo após a aposentadoria.
Nenhum dos pais de Deco era português - nem os avós ou bisavós. Ainda assim, seis anos após chegar ao país, ele obteve a cidadania e passou a representar a seleção portuguesa.
Na época, a escolha deixou muita gente confusa. Muitos torcedores brasileiros se sentiram traídos por um dos seus escolher defender outra nação, enquanto alguns em Portugal questionavam sua ligação com o país. Um desses críticos foi Luís Figo, vencedor do Ballon d'Or em 2000, que considerou a convocação de Deco um precedente ‘perigoso’, pois "permite que no futuro a equipe de um país tenha vários jogadores nascidos em outras nações." (BBC Brasil)
Existem relatos de que Deco esperou por uma convocação do Brasil, especialmente para a Copa de 2002, mas acabou não sendo chamado. Enquanto isso, a Federação Portuguesa já acompanhava o jogador desde 2000 e acelerou seu processo de naturalização. Diante da falta de espaço na Seleção Brasileira e do interesse português, acabou optando por Portugal.
Por ironia do destino, sua estreia por Portugal, em março de 2003, foi justamente contra o Brasil - em um jogo ainda mais simbólico por ter sido convocado por Luiz Felipe Scolari, técnico recém-chegado à seleção portuguesa depois de conquistar a Copa do Mundo com o Brasil em 2002.
Antes da partida, Deco resumiu o conflito de forma direta: "Uma coisa não mudará nunca: o Brasil é o país que amo. Não deixo de ser brasileiro. Não sei o que passará na minha cabeça se eu tiver que enfrentar o Brasil. O coração estará dividido, mas em campo serei todo Portugal." (Folha de São Paulo)
E essa última frase não poderia ser mais verdadeira. No dia seguinte, em sua estreia, marcou o gol da vitória portuguesa sobre o Brasil, em uma cobrança de falta.
A partir daí, virou peça central da seleção portuguesa, disputando duas Eurocopas e duas Copas do Mundo.
Anos depois, ao refletir sobre a decisão, manteve a convicção de que fez a escolha certa: "Quando eu tomei a decisão, primeiro, eu estava seguro do que eu queria fazer - pela relação que eu tenho com Portugal, com os jogadores da seleção portuguesa, com a minha geração da seleção. Então eu não fico pensando nisso, porque foi uma decisão que eu sentia que eu tinha que fazer, e porque eu me sentia bem fazendo. Então eu não fico pensando nesses cenários 'e se isso acontecesse assim?'" (Abre Aspas, GE)
Deco por Portugal (2003-2010)
74 jogos. 5 gols. 0 títulos.
Marcos Senna
Em 2017, o zagueiro Gerard Piqué gerou polêmica na Espanha ao afirmar que jogadores naturalizados da seleção espanhola “não sentem a seleção” da mesma forma que os nascidos no país.
Vários jogadores naturalizados rebateram a declaração. Entre eles estava Donato, mas também outro importante brasileiro que marcou época com a camisa da Espanha - Marcos Senna, que respondeu: "Me sinto cada vez mais espanhol. Agora mesmo, posso dizer que, desde que cheguei, cada dia me sentia um pouco mais espanhol. Agora, já não tenho mais essa sensação, pois me sinto totalmente espanhol. Sou mais um daqui." (UOL)
A reação forte de Senna ajuda a entender a profundidade da sua ligação com o futebol espanhol.
Em 2002, Marcos Antônio Senna da Silva deixou o São Caetano para defender o Villarreal. Nascido em São Paulo em 1976, o volante já havia conquistado o Mundial de Clubes pelo Corinthians e sido vice-campeão da Libertadores pelo São Caetano antes de se transferir para a Europa.
Nos primeiros anos na Espanha, teve a trajetória atrapalhada por uma grave lesão no joelho, que limitou suas atuações. Após a recuperação, porém, se firmou como peça fundamental do Villarreal.
Rapidamente se tornou titular absoluto e um dos líderes da equipe, ajudando o clube a alcançar as semifinais da Liga dos Campeões em 2005-06. Posteriormente, assumiu a braçadeira de capitão e participou também da histórica campanha de 2007-08, quando o Villarreal terminou a La Liga na segunda colocação, sua melhor posição na história.
Senna permaneceu mais de uma década no clube e foi indicado ao Ballon d’Or em 2008.
Naturalizado espanhol em 2006, foi convocado por Luis Aragonés para defender a seleção da Espanha, integrando um meio-campo histórico ao lado de indicados ao Ballon d'Or como Andrés Iniesta, Sergio Busquets e Xavi.
Assim como Deco, Senna nutriu alguma esperança de ser convocado pelo Brasil, mas acabou optando pela Espanha diante da incerteza. Ele explicou: "Se eu não tivesse recebido o convite do Luis Aragonés para defender a seleção espanhola, eu ia seguir com a esperança de jogar na seleção brasileira. Mas quando ele me convidou eu pensei 'Não sei se na seleção brasileira eu vou ser convocado', porque são muitos jogadores. Na minha situação, acho que qualquer um aceitaria a proposta. Porque e se a convocação brasileira não saísse? Como ficaria minha cabeça? Aí sim eu me arrependeria." (UOL)
Para Senna e para a Espanha, a decisão valeu a pena. O meia participou da Copa do Mundo de 2006 e da vitoriosa Eurocopa de 2008, torneio em que muitos o elegeram o melhor jogador.
Marcos Senna pela Espanha (2006-2010)
28 jogos. 1 gol. 1 título (Eurocopa de 2008).
Pepe
Há dois anos, Pepe se aposentou do futebol profissional, encerrando uma carreira marcada por conquistas no Porto, no Real Madrid e na seleção portuguesa. Ídolo em todos esses cenários, o zagueiro também se tornou mais um exemplo de brasileiro que optou por defender outra nação no futebol internacional.
Kepler Laveran de Lima Ferreira, o "Pepe", nasceu em 1983 em Maceió, no estado de Alagoas. Zagueiro de forte imposição física e agressividade característica, começou a se destacar no Corinthians Alagoano antes de se transferir para a Europa ainda jovem.
Em 2001, foi para a Ilha da Madeira para defender o Marítimo, onde iniciou sua trajetória no futebol português. Depois de uma primeira temporada dividida entre a equipe principal e o time B, passou a ganhar espaço e se firmou como uma das promessas defensivas do clube.
Em 2004, deu o salto para o Porto - onde sua carreira mudaria de patamar.
No clube, conquistou dois Campeonatos Portugueses consecutivos, além da Taça de Portugal, da Supertaça Cândido de Oliveira e da Copa Intercontinental, se tornando peça importante de uma das equipes mais dominantes do país naquele período.
Depois foi para a Espanha, onde viveu o auge da carreira no Real Madrid. Com os ‘Blancos’, conquistou três La Ligas e três Ligas dos Campeões, além de receber duas indicações ao Ballon d’Or, em 2008 e 2016.
Mas, no fundo, o coração de Pepe sempre esteve com os Dragões do norte de Portugal. Em 2019, retornou ao Porto, onde permaneceu por mais cinco temporadas, acumulando novos títulos até encerrar a carreira em 2024.
A trajetória de Pepe se tornou profundamente ligada a Portugal. Ele nunca chegou a representar o Brasil em nível internacional, apesar de ter nascido no país. Segundo relatos, chegou a ser sondado por Dunga em 2006, mas optou por aguardar a cidadania portuguesa para defender a seleção europeia. No ano seguinte, foi naturalizado e convocado pela primeira vez por Portugal.
Pepe já falou sobre como nunca considerou outra opção, apesar da frustração dos pais, que sonhavam em ver o filho vestir a Amarelinha. Quando questionado sobre sua decisão, ele explicou: "Eu sentia essa dívida com Portugal. Porque Portugal me abriu as portas. Portugal fez com que eu fosse o Pepe que eu sou hoje." (Conversas com Campeões - O Jogo)
Pepe foi além e entrou para a história de Portugal, ajudando a liderar o país ao seu primeiro grande título internacional - a Eurocopa de 2016. Na final contra a anfitriã França, foi eleito o melhor jogador em campo pela sua entrega incansável.
Na Eurocopa de 2024, já no fim da carreira, tornou-se o jogador mais velho a atuar na história da competição, aos 41 anos, além de entrar para o grupo de atletas que disputaram cinco edições do torneio.
Ao todo, somou 141 partidas pela seleção portuguesa e se consolidou como um dos maiores símbolos da história do país no futebol.
Pepe sempre deixou claro que não se arrepende da decisão. Em entrevista, reforçou esse sentimento: "Não me arrependo de nada e nem me passa pela cabeça ter dúvidas sobre a decisão que tomei. Costumo dizer que Portugal me deu tudo. Queria ter nascido em Portugal, é só isso que me separa." (GE - O Jogo)
Pepe por Portugal (2007-2024)
141 jogos. 8 gols. 2 títulos (Eurocopa de 2016 e Liga das Nações de 2018-19).
Diego Costa
Entre os jogadores desta lista, poucos geraram tanta polêmica com a decisão de não jogar pelo Brasil quanto Diego Costa.
O atacante de temperamento explosivo - mas de talento inegável - nasceu na cidade de Lagarto, em Sergipe, em 1988. Recebeu o nome de Diego da Silva Costa em homenagem a um dos ídolos do pai, Diego Maradona. Seu irmão, por sua vez, foi batizado de Jair, em referência a Jairzinho.
Ainda jovem, atuando pelo Barcelona Esportivo Capela, em São Paulo, chamou a atenção do empresário Jorge Mendes, que o levou para o Braga, em Portugal. Mesmo com a resistência do pai em permitir a mudança, Diego aceitou o desafio e se transferiu em 2006.
Ao longo da carreira, passou por clubes em Portugal, Espanha e Inglaterra, mas foi no Atlético de Madrid que viveu seu auge. No clube espanhol, conquistou dois Campeonatos Espanhóis e uma Europa League, além de alcançar a final da Liga dos Campeões de 2013-14.
Artilheiro decisivo, marcou 83 gols pelo Atlético e foi peça-chave em conquistas importantes. Foi o goleador da campanha da Copa do Rei de 2013–14, marcando também na final contra o Real Madrid. Naquele mesmo ano, recebeu uma indicação ao Ballon d'Or. Mais tarde, voltou a marcar em decisões, incluindo dois gols na Supercopa da UEFA de 2018 contra o Real.
O ano de 2013 marcou uma virada na sua carreira internacional.
Em março, tinha sido convocado pelo técnico Luiz Felipe Scolari para amistosos do Brasil contra Itália e Rússia, onde entrou como substituto. Poucos meses depois, Costa obteve a cidadania espanhola, e a Federação Espanhola entrou com um pedido oficial à FIFA para poder convocá-lo. O pedido foi aprovado, e em outubro, Costa enviou uma carta à CBF pedindo autorização para jogar pela Espanha. A CBF aceitou, e ele estreou pela seleção espanhola em março de 2014.
Na época, o Felipão não poupou críticas ao ser questionado sobre a decisão de Costa: "Um jogador brasileiro que se recusa a vestir a camisa da Seleção Brasileira e a disputar uma Copa do Mundo no seu país só pode estar automaticamente desconvocado. Ele está dando as costas para um sonho de milhões, o de representar a nossa Seleção pentacampeã em uma Copa do Mundo no Brasil." (CBF)
Mas por quê? Se Costa já tinha sido convocado pelo Brasil meses antes, por que decidiu mudar de seleção de forma tão repentina?
Segundo o próprio atacante, ele se sentia desvalorizado no Brasil - especialmente pela federação e pela imprensa. Insatisfeito com a pouca oportunidade pela Amarelinha, sua frustração virou revolta quando não foi convocado mesmo com Hulk e Fred, os outros atacantes do time, lesionados.
Em resposta às críticas do Felipão, Costa rebateu: "Ele foi falar no Jornal Nacional que eu dei as costas para o sonho de milhões de brasileiros? Pelo amor de Deus, como é que vou dar as costas? Por que não fala que não me procurou? Por que não fala que não me convocou antes?" (ESPN)
E foi além, descrevendo a decisão como um dos momentos mais difíceis de sua carreira: "Quero que as pessoas entendam que, em momento nenhum, eu renunciei ao Brasil. Não vejo assim. Simplesmente eu me sinto valorizado aqui. Tudo o que eu sou eu devo ao país. Foi uma decisão muito pensada, mas não foi uma renúncia." (BBC News Brasil)
No total, Diego Costa disputou 24 partidas pela seleção espanhola, marcando 10 gols entre 2014 e 2018.
Diego Costa pela Espanha (2014-2018)
24 jogos. 10 gols. 0 títulos.
Jorginho
Enquanto muitos jogadores desta lista enfrentaram grandes dificuldades na hora de escolher qual seleção defender, o mesmo não se pode dizer de Jorginho.
Jorge Luiz Frello Filho, o "Jorginho", nasceu em 1991 na cidade de Imbituba, em Santa Catarina, e é - como alguns outros nesta lista - um brasileiro de ascendência italiana. Seu bisavô paterno, Giacomo Frello, é de Lusiana, no Vêneto - ligação que garantiu ao meio-campista a cidadania italiana ainda na adolescência.
Aos 15 anos, deixou o Brasil para viver na Itália, onde iniciou sua formação nas categorias de base do Hellas Verona. A partir daí, construiu uma carreira sólida no futebol europeu, passando por Napoli, Chelsea e Arsenal, sempre como um meio-campista de inteligência tática, precisão nos passes e leitura de jogo refinada.
Desde o ano passado, está no Flamengo, no Brasil, e apesar de falar português fluentemente e estar totalmente adaptado à cultura do país, nunca demonstrou dúvida em relação à sua escolha internacional. Mesmo com dupla cidadania, sempre optou por representar a Itália em nível de seleções.
Sua estreia pela Azzurra veio há mais de uma década, e desde então Jorginho se tornou uma peça-chave de equilíbrio e liderança no meio-campo italiano. O ponto alto veio na Eurocopa de 2020 (que foi disputada em 2021 por causa da pandemia), quando foi um dos pilares do título europeu, liderando métricas defensivas e de controle de jogo ao longo da competição - desempenho que o levou a ser indicado ao Ballon d’Or naquele ano.
Apesar de nunca ter disputado uma Copa do Mundo com a Itália, Jorginho mantém total convicção na decisão de não vestir a camisa da Seleção Brasileira. Como ele próprio explicou: "Sempre vi a seleção brasileira como uma coisa muito distante, pelo fato de nunca ter atuado no Brasil profissionalmente e ter chegado aqui com 15 anos de idade. Então, como a Itália abriu as portas para mim, eu não podia fechar. Pesou muito essa questão de ter vindo bem cedo." (ESPN)
Jorginho pela Itália (2016-2024)
57 jogos. 5 gols. 1 título (Eurocopa de 2020).
Uma história que continua se repetindo
Esses são os oito brasileiros indicados ao Ballon d’Or que optaram por representar outras seleções no cenário internacional.
Claro, existem vários outros jogadores brasileiros que fizeram a mesma escolha ao longo dos anos, mas que não chegaram a ser indicados ao prêmio mais prestigioso do futebol profissional.
Será interessante ver quais desses nomes vão marcar presença na Copa do Mundo que está por vir.
Afinal, jogadores brasileiros representando outras seleções na Copa do Mundo não é nenhuma novidade - isso acontece desde a primeira edição do torneio, em 1934, quando o paulistano Anfilogino Guarisi, mais conhecido como "Filó", ajudou a Itália a conquistar o título.
Desde então, 29 jogadores brasileiros diferentes já disputaram a Copa do Mundo representando outras nações: oito países europeus, três das Américas, um africano e um asiático.
Na última Copa do Mundo, foram três casos: Pepe, em seu último grande capítulo no palco mais importante do futebol, além de Matheus Nunes e Otávio - todos vestindo a camisa de Portugal.
Quanto à edição deste ano, as listas ainda estão sendo divulgadas, mas esse número pode crescer bastante. Entre os possíveis nomes estão Matheus Nunes (Portugal), Carlos Coronel e Maurício (Paraguai), Tiago Coimbra (Canadá), além de Edmilson Junior, Lucas Mendes e Pedro Miguel (Catar). Se Johnny Cardoso não tivesse se lesionado recentemente, provavelmente também estaria na lista dos Estados Unidos.
De qualquer forma, o Brasil - país do futebol - pode se orgulhar dos talentos que continua revelando ano após ano, jogadores que expressam sua qualidade e identidade dentro de campo, seja pela Seleção Brasileira ou por outras nações.
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