Um sonho interrompido
A seleção francesa de Didier Deschamps acaba de ser eliminada pela Espanha nas semifinais da Copa de 2026.
Para muita gente, o resultado foi um grande choque.
Não porque a Espanha fosse considerada uma adversária fácil. Muito pelo contrário: torcedores ao redor do mundo sabiam da força da equipe de Luis de la Fuente, campeã da Eurocopa em 2024.
Ainda assim, a França vinha sendo, de longe, a seleção mais dominante do torneio. Venceu todos os jogos até aqui, marcou gols impressionantes e praticamente não sofreu defensivamente.
Considerada por muitos a equipe mais forte do mundo, existia uma expectativa de que os franceses, no mínimo, balançariam as redes em algum momento da semifinal.
Mas não foi o que aconteceu.
Mikel Oyarzabal e Pedro Porro marcaram os gols que colocaram um ponto final na campanha dos Les Bleus.
Apesar da surpresa, essa não é a primeira vez que a França chega a uma Copa com um elenco extraordinário - apontada por muitos como a principal favorita ao título - e acaba tendo o sonho interrompido ao longo do caminho.
Vamos ver os outros exemplos, em ordem cronológica.
1958 - terceiro lugar
Para os torcedores franceses, uma das primeiras grandes decepções em Copas remonta a 1958.
Embora aquela edição seja lembrada principalmente pelo primeiro título do Brasil e pela explosão de um jovem Pelé, de apenas 17 anos, a França também chegou ao torneio cercada de expectativas e era apontada como uma das favoritas ao título.
E não era por acaso. A equipe contava com Just Fontaine, que terminou como artilheiro da Copa com 13 gols - recorde de mais gols marcados por um jogador em uma única edição do torneio até hoje.
Ao lado do craque Raymond Kopa, Fontaine comandou uma campanha excelente nas primeiras fases, com goleadas por 7 a 3 sobre o Paraguai e 4 a 0 sobre a Irlanda do Norte.
Na semifinal contra o Brasil, porém, a equipe desmoronou.
Grande parte da derrota foi atribuída à grave lesão do capitão Robert Jonquet, que quebrou a perna aos 36 minutos depois de uma dividida com o atacante brasileiro Vavá.
Na época, substituições ainda não eram permitidas nas Copas do Mundo. Sem poder repor o zagueiro, a França disputou praticamente toda a segunda metade da partida com um jogador a menos e acabou derrotada por 5 a 2.
Os franceses ainda encerraram a campanha em alta, goleando a Alemanha Ocidental por 6 a 3 na disputa pelo terceiro lugar.
Mesmo assim, a eliminação na semifinal deixou um gosto amargo para uma geração que sonhava em conquistar o primeiro título mundial.
Indicados ao Ballon d'Or na seleção francesa na Copa de 1958:
André Lerond - 1 indicação
Just Fontaine - 2 indicações
Raymond Kopa - 6 indicações e 1 vitória
Roger Marche - 1 indicação
Roger Piantoni - 1 indicação
1982 - quarto lugar
A França voltaria a viver uma decepção parecida em 1982, quando alcançou sua primeira semifinal de Copa desde a geração de Just Fontaine e Raymond Kopa, em 1958.
Mais de duas décadas depois, os franceses tinham outro craque capaz de liderar a equipe: Michel Platini. Vencedor de três Ballons d'Or, ele já acumulava seis indicações ao prêmio quando o torneio começou.
Apesar de o time ter perdido sua estreia para a Inglaterra, eles se recuperaram, conquistando vitórias sobre Kuwait, Áustria e Irlanda do Norte.
Uma semifinal dramática contra a Alemanha Ocidental veio a seguir.
Os alemães abriram o placar no primeiro tempo, mas Platini empatou para a França. Na prorrogação, Marius Trésor e Alain Giresse colocaram os franceses em vantagem por 3 a 1, deixando a vaga na final muito perto.
Só que a reação alemã foi devastadora. Karl-Heinz Rummenigge diminuiu, Klaus Fischer empatou, e a decisão foi para os pênaltis.
Na disputa, Harald Schumacher defendeu a cobrança de Didier Six, e a França acabou eliminada.
Ao contrário de 1958, os franceses também não conseguiram terminar a campanha no pódio, sendo derrotados pela Polônia na disputa pelo terceiro lugar.
Indicados ao Ballon d'Or na seleção francesa na Copa de 1982:
Alain Giresse - 4 indicações
Didier Six - 1 indicação
Dominique Rocheteau - 1 indicação
Gérard Janvion - 2 indicações
Jean Tigana - 2 indicações
Manuel Amoros - 2 indicações
Marius Trésor - 5 indicações
Maxime Bossis - 2 indicações
Michel Platini - 11 indicações e 3 vitórias
1986 - terceiro lugar
Quatro anos depois, a França de Michel Platini chegou à Copa de 1986 determinada a deixar para trás a frustração da edição anterior.
A confiança era enorme. A seleção vinha do título da Eurocopa de 1984, conquistado em casa - o primeiro grande troféu internacional da história do país - e Platini já tinha completado sua coleção de três Ballon d'Or, sendo amplamente considerado o melhor jogador do mundo.
A campanha começou sem grande brilho, com uma vitória por 1 a 0 sobre o Canadá e um empate por 1 a 1 com a União Soviética. Mas a equipe cresceu ao longo do torneio, goleando a Hungria por 3 a 0 e eliminando a Itália, campeã de 1982, por 2 a 0 nas oitavas de final.
Nas quartas, a França eliminou o Brasil nos pênaltis, superando uma equipe repleta de craques, como Zico, Sócrates e Falcão, e garantiu vaga entre as quatro melhores.
Mas, nas semifinais, a história se repetiu.
Assim como em 1982, a Alemanha levou a melhor, vencendo por 2 a 0 e encerrando o sonho francês de disputar a final.
Desta vez, porém, a França pelo menos voltou para casa com a medalha de bronze, derrotando a Bélgica por 4 a 2 na disputa pelo terceiro lugar.
Indicados ao Ballon d'Or na seleção francesa na Copa de 1986:
Alain Giresse - 4 indicações
Jean-Pierre Papin - 5 indicações e 1 vitória
Jean Tigana - 2 indicações
Luis Fernandez - 2 indicações
Manuel Amoros - 2 indicações
Maxime Bossis - 2 indicações
Michel Platini - 11 indicações e 3 vitórias
2006 - vice-campeã
Duas décadas depois da frustração de Platini, a França voltou a viver um roteiro parecido, desta vez com Zinedine Zidane como protagonista.
Mesmo após uma fase de grupos irregular, a equipe cresceu no momento certo e chegou à final da Copa de 2006 como uma das grandes favoritas ao título.
Os franceses estrearam com um empate sem gols diante da Suíça e depois ficaram no 1 a 1 com a Coreia do Sul, mas engrenaram no mata-mata.
Nas oitavas de final, venceram a Espanha por 3 a 1 de virada. Em seguida, eliminaram o Brasil, campeão de 2002, por 1 a 0, em um resultado que chocou o mundo. O elenco brasileiro, afinal, contava com três vencedores do Ballon d'Or: Ronaldo, Ronaldinho e Kaká.
Só para completar, a França tinha então eliminado a "Geração de Ouro" de Portugal na semifinal, na primeira Copa de Cristiano Ronaldo.
À frente destas vitórias estava Zidane, campeão mundial em 1998 e vencedor do Ballon d'Or no mesmo ano.
O elenco francês era tão talentoso que todos os titulares da final receberam ao menos uma indicação ao Ballon d'Or ao longo da carreira.
Mas o sonho do segundo título mundial terminou de forma dolorosa.
Depois do empate por 1 a 1, a Itália levou a melhor na disputa por pênaltis.
Embora David Trezeguet tenha desperdiçado a cobrança decisiva, a imagem que eternizou aquela final foi a expulsão de Zidane, que recebeu cartão vermelho por dar uma cabeçada no zagueiro italiano Marco Materazzi.
Foi um desfecho amargo para um dos maiores jogadores da história da França, que se despediu das Copas da forma mais inesperada possível.
Indicados ao Ballon d'Or na seleção francesa na Copa de 2006:
Claude Makélélé - 4 indicações
David Trezeguet - 5 indicações
Eric Abidal - 2 indicações
Fabien Barthez - 5 indicações
Florent Malouda - 2 indicações
Franck Ribéry - 5 indicações
Grégory Coupet - 2 indicações
Lilian Thuram - 7 indicações
Patrick Vieira - 6 indicações
Sylvain Wiltord - 4 indicações
Thierry Henry - 9 indicações
William Gallas - 1 indicação
Willy Sagnol - 1 indicação
Zinedine Zidane - 11 indicações e 1 vitória
2022 - vice-campeã
Há quatro anos, a França novamente ficou sem o título, apesar de ter uma das equipes mais fortes do torneio, com diversos indicados ao Ballon d'Or e jogadores que tinham levado o país ao segundo título mundial em 2018.
No caminho até a final, os franceses passaram por Austrália, Dinamarca, Polônia, Inglaterra e Marrocos.
O grande nome da equipe era Kylian Mbappé, vencedor do Troféu Kopa e eleito o Melhor Jogador Jovem da Copa de 2018.
Mas, apesar de uma atuação histórica na decisão, o atacante não conseguiu levar a França ao título.
O fato é especialmente decepcionante dado seu desempenho exemplar na final contra a Argentina - trazendo a França de volta de uma desvantagem de dois gols para um empate de 3 a 3 ao marcar um hat-trick - apenas o segundo jogador da história a fazer isso em uma final de Copa, depois de Geoff Hurst pela Inglaterra em 1966.
Ele ainda converteu sua cobrança na disputa por pênaltis, terminando a decisão com quatro gols marcados contra o goleiro Emiliano Martínez, vencedor do dois Troféus Yashin.
Mbappé terminou a Copa com a Chuteira de Ouro, mas, no fim, foi Lionel Messi e sua equipe que levaram a melhor, convertendo todos os pênaltis e ficando com o título.
Indicados ao Ballon d'Or na seleção francesa na Copa de 2022:
Antoine Griezmann - 5 indicações
Hugo Lloris - 3 indicações
Karim Benzema - 12 indicações e 1 vitória
Kylian Mbappé - 8 indicações
Ousmane Dembélé - 1 indicação e 1 vitória
Randal Kolo Muani - 1 indicação
Raphaël Varane - 1 indicação
William Saliba - 1 indicação
2026 - terceiro ou quarto lugar
O que nos leva à Copa deste ano.
Para muitos torcedores, a França de Didier Deschamps entrou no torneio como uma das grandes favoritas ao título.
A lista de convocados parecia uma coleção dos melhores jogadores do mundo - com estrelas já consolidadas e jovens talentos prontos para assumir o protagonismo.
A campanha até a semifinal tinha sido impressionante: a França venceu todos os seus jogos, marcou 16 gols e sofreu apenas dois.
Mbappé era o artilheiro da competição, empatado com Messi, com oito gols cada. Dembélé também vinha se destacando, com cinco gols, enquanto Michael Olise estava a apenas uma assistência de igualar o recorde de Pelé de seis em uma única edição de Copa.
Mas, desta vez, o sonho acabou antes da final.
A França foi eliminada pela Espanha, e agora resta apenas imaginar o que poderia ter sido para uma geração tão talentosa.
Indicados ao Ballon d'Or na seleção francesa na Copa de 2026:
Désiré Doué - 1 indicação
Kylian Mbappé - 8 indicações
Michael Olise - 1 indicação
Mike Maignan - 1 indicação
N'Golo Kanté - 3 indicações
Ousmane Dembélé - 1 indicação e 1 vitória
William Saliba - 1 indicação
O que vem pela frente
Resta saber se a equipe de Luis de la Fuente conseguirá conquistar o título - algo que aconteceria apenas pela segunda vez na história do país, depois da vitória marcante de 2010.
Inglaterra e Argentina se enfrentam amanhã para ver quem vai tentar impedir isso.
Para a França, o momento agora é de levantar a cabeça e olhar para o futuro.
Deschamps já confirmou que deixará o cargo de treinador, mas a seleção francesa está longe de chegar ao fim de um ciclo. O elenco segue repleto de talento, com grandes jogadores em praticamente todas as posições do campo.
A história das Copas mostra que os Les Bleus já passaram por muitas decepções dolorosas, mas também conheceram a glória duas vezes - em 1998 e 2018.
E, com uma nova geração de craques surgindo, a França certamente vai tentar se reconstruir e voltar a lutar pelo título em 2030.
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