O cérebro da seleção francesa
A seleção francesa de Didier Deschamps está fazendo uma Copa do Mundo impressionante.
Com nomes como Ousmane Dembélé, vencedor do Ballon d'Or do ano passado, e Kylian Mbappé, que já recebeu oito indicações ao prêmio, não chega a ser surpresa que ‘Les Bleus’ estejam dominando o torneio. A equipe venceu os seis jogos que disputou até aqui, marcou 16 gols e sofreu apenas dois.
Um dos principais responsáveis por essa campanha é Michael Olise, de 24 anos. Indicado ao Ballon d'Or pela primeira vez no ano passado, o craque foi titular em todas as partidas da França nesta Copa.
Mesmo sem marcar nenhum gol, o jogador do Bayern de Munique já distribuiu cinco assistências e está a apenas uma de igualar o recorde histórico de seis em uma única Copa, estabelecido pelo lendário Pelé na campanha do tricampeonato brasileiro em 1970.
O número mostra o tamanho da importância de Olise para a seleção francesa. Os holofotes naturalmente ficam voltados para Mbappé, que, com oito gols, divide a artilharia desta edição com Lionel Messi e está a apenas um de superar o recorde histórico de gols em Copas do argentino, vencedor de oito Ballons d’Or. Mas a campanha da França dificilmente seria a mesma sem a visão de jogo, a criatividade e o controle que Olise oferece.
Olise se destaca justamente pelo que faz sem chamar tanta atenção. É ele quem dita o ritmo da equipe e organiza o ataque francês, encontrando espaços na defesa adversária antes mesmo de eles aparecerem. Isso permite que seus companheiros façam os movimentos certos na hora certa.
Por isso, o domínio da França em campo passa diretamente pela inteligência tática e pela leitura de jogo que Olise demonstra a cada partida.
Os números ajudam a explicar esse impacto. Até aqui, ele completou 50 passes no terço final do campo e criou 12 chances para os companheiros.Nos dois primeiros jogos da França na Copa, foi o jogador que mais criou oportunidades de gol. Na segunda partida, também liderou em dribles certos. Em duas das outras partidas, foi quem mais tocou na bola em campo. E seu trabalho não se limita ao ataque: o jogador do Bayern também soma 10 ações defensivas e 29 recuperações de posse de bola.
Em outras palavras, praticamente tudo o que a França faz de melhor passa pelos pés de Olise.
A arte de antecipar o jogo
Esses números impressionantes não surpreendem quem acompanhou sua última temporada pelo Bayern, na qual suas 26 assistências o deixaram quatro à frente de qualquer outro jogador entre as cinco maiores ligas da Europa.
"Quando Olise pega a bola, ele enxerga coisas que poucos conseguem ver." - Thierry Henry
Como resumiu o lendário atacante francês Thierry Henry, nove vezes indicado ao Ballon d'Or: "Quando Olise pega a bola, ele enxerga coisas que poucos conseguem ver. Ele lê o jogo de um jeito diferente, quase mais com a mente do que com os olhos. Desde o momento em que a bola sai das mãos do goleiro, já tenta prever o que pode acontecer. É a capacidade de antecipar a próxima jogada." (GOAL)
Essa capacidade de enxergar o jogo não apenas com os olhos, mas também com a mente, antecipando o que pode acontecer antes mesmo da jogada se desenvolver, é uma das características mais marcantes de Olise. E ela pode ter origem em uma de suas maiores paixões fora dos gramados: o xadrez.
"Gosto de pensar nas minhas jogadas e de entender as consequências que cada movimento pode ter." - Michael Olise
Uma paixão fora dos gramados
O francês joga xadrez desde a infância. Como ele mesmo relembra: "Minha mãe me ensinou o básico. Quando fiquei mais velho, comecei a me interessar mais pelo jogo e a evoluir por conta própria. Gosto de pensar nas minhas jogadas e de entender as consequências que cada movimento pode ter." (Bavarian Football Works)
Essa forma de pensar se encaixa perfeitamente no futebol. Assim como no xadrez, Olise parece estar sempre dois passos à frente, calculando os desdobramentos de cada decisão antes mesmo de a jogada acontecer.
Com uma classificação de xadrez de aproximadamente 1400 pontos - um nível sólido para um amador ambicioso -, Olise gosta de jogar com vários companheiros de equipe, atuais e antigos, como Eberechi Eze, Jamal Musiala e Kingsley Coman.
Vários outros astros do futebol também já foram citados como apaixonados por xadrez, entre eles Mohamed Salah, Harry Kane, Bryan Mbeumo, Borna Sosa, Christian Pulisic e Antoine Griezmann.
O lateral do Real Madrid Trent Alexander-Arnold já comentou sobre a relação entre os dois esportes: "O futebol moderno tem muito em comum com o xadrez." (BBC Sport)
O inglês, que cresceu jogando xadrez com os irmãos, enfrentou o grandmaster norueguês Magnus Carlsen em uma partida de exibição em 2018, mas perdeu rapidamente.
"O xadrez estimula a mente, e as semelhanças com o futebol são claras." - Erling Haaland
Carlsen, o nome mais famoso do xadrez mundial, por sua vez se descreve como um grande fã de futebol e chegou a liderar o ranking oficial do Fantasy Football em 2020, à frente de mais de 7 milhões. Ele também traça semelhanças entre as duas modalidades: "Acho que, tanto no xadrez quanto no futebol, o mais importante é controlar o meio. Se você controla o meio, controla o campo, ou o tabuleiro. Além disso, no xadrez, muitas vezes você começa atacando por um lado, o adversário reforça aquele setor e, então, você muda o ataque para o outro, onde agora tem vantagem. Nesse aspecto, principalmente em relação ao uso dos espaços, os dois são muito parecidos." (Manchester City - YouTube)
Recentemente, Carlsen esteve na Copa para acompanhar a seleção da Noruega. Duas das maiores estrelas do time norueguês, Erling Haaland e Martin Ødegaard, também são fãs declarados do xadrez. No início deste ano, Haaland investiu no torneio Norway Chess e também lançou a Chess Mates, empresa dedicada à organização de eventos de xadrez competitivo. Como explicou o atacante: "O xadrez estimula a mente, e as semelhanças com o futebol são claras. Você precisa pensar rápido, confiar nos seus instintos e estar sempre várias jogadas à frente." (Fortune)
Essa visão é compartilhada por seu ex-técnico no Manchester City, Pep Guardiola, campeão de seis Premier Leagues e uma Liga dos Campeões pelo clube. Para o espanhol: "A forma como você ataca depende dos movimentos do adversário. Por isso, é preciso prestar atenção o tempo todo no que ele está fazendo e reagir a cada situação. O Magnus não tem duas horas para fazer a próxima jogada, e nós temos apenas meio segundo para reagir ou tomar uma decisão.” (Manchester City - YouTube)
Uma mente feita para competir
Pensando por esse lado, faz sentido que tantos jogadores de futebol também sejam apaixonados por xadrez. As duas modalidades exigem tomada de decisão, controle emocional e força mental.
No caso de Olise, essa ligação parece ainda mais natural: o francês tem um QI de 127, acima da média. Mais do que vencer, ele parece gostar de superar os adversários também no raciocínio.
Outro ponto em comum é a competitividade. Tanto no futebol quanto no xadrez, a motivação é a mesma: vencer, encontrar soluções melhores que as do adversário e buscar constantemente evoluir.
Como resume Emil Sutovsky, diretor executivo da Federação Internacional de Xadrez (Fide): "Atletas profissionais valorizam o xadrez porque a competitividade faz parte da natureza deles. Afinal, o xadrez é um dos esportes mais competitivos que existem." (BBC Sport)
Esse espírito competitivo acompanha Olise desde a infância. Em uma entrevista recente, Rachel Anderson, ex-diretora da Dr Triplett's Church of England School, em Hayes, onde o jogador estudou, relembrou como essa característica já chamava atenção: "Se o time dele perdia no recreio ou alguma coisa dava errado durante a partida, era muito difícil fazê-lo voltar a se concentrar. Ele só queria voltar para o jogo e consertar as coisas. Já era um perfeccionista, alguém que se frustrava com facilidade, um futuro campeão." (O Globo)
Uma Copa jogada como xadrez
Hoje, aos 24 anos, Olise já é um dos jogadores mais fascinantes do futebol mundial, tanto pelo Bayern quanto pela seleção francesa.
Um dos grandes responsáveis pela campanha da França nesta Copa, ele transforma cada partida em uma demonstração de inteligência e leitura de jogo. Ao observá-lo em campo, dá a impressão de que Olise não enxerga apenas um gramado, mas um enorme tabuleiro de xadrez, cheio de possibilidades para movimentar as peças, criar vantagens e, no fim, superar o adversário.