Quando Hannah Hampton tinha 12 anos, um exame médico no Stoke City revelou um diagnóstico que poderia ter acabado com a maioria dos sonhos esportivos antes mesmo de começarem. Nascida com estrabismo, uma condição que faz com que os olhos não fiquem alinhados, Hampton passou por três cirurgias corretivas antes dos três anos de idade. O diagnóstico médico era desanimador: ela tinha pouquíssima percepção de profundidade, o que dificultava calcular distâncias com precisão - uma limitação que, segundo os oftalmologistas, tornava uma carreira no esporte profissional praticamente impossível.
Para uma goleira, a percepção de profundidade é fundamental para calcular a trajetória, a velocidade e o caminho de uma bola que vem em sua direção. No dia a dia, a condição ainda traz algumas situações curiosas: Hampton já contou que, se encher um copo de água sem segurá-lo, corre o risco de derramar tudo. No campo, porém, com muita determinação, excelente coordenação motora e uma capacidade impressionante de interpretar pequenos movimentos dos atacantes adversários, Hampton adaptou seu treinamento e transformou uma possível limitação em apenas mais um detalhe de uma história de superação.
Domínio nacional com o Chelsea
Desde que chegou ao Chelsea, vinda do Aston Villa, em julho de 2023, Hampton teve um impacto enorme entre as traves. Ela não sofreu gols em sua estreia pelos Blues, em dezembro de 2023, na vitória por 3 a 0 sobre o Bristol City, e rapidamente se tornou uma peça fundamental da defesa do time. Na temporada 2024-25, Hampton foi uma das protagonistas de uma campanha histórica e invicta de 22 jogos do Chelsea na Women’s Super League, com 13 partidas sem sofrer gols. Ela ainda dividiu o prêmio de Golden Glove da WSL enquanto os Blues conquistavam a tríplice coroa nacional.
O desempenho de Hampton continuou em alto nível na temporada seguinte. Ela ajudou o Chelsea a conquistar novamente a Copa da Liga, sem sofrer gols na final contra o Manchester United, e levou sua segunda Golden Glove consecutiva da WSL, com oito jogos sem ser vazada. Além de sua agilidade para defender chutes - refletida em uma taxa de 76,4% de defesas pelo Chelsea -, a qualidade de Hampton com a bola nos pés também ajudou a mudar a forma como o time inicia suas jogadas, com excelente alcance de passe e distribuição em todas as competições.
Conquistas internacionais e reconhecimento mundial
O desempenho de Hampton no Chelsea garantiu seu lugar como titular da seleção inglesa, comandada por Sarina Wiegman, antes da Euro Feminina de 2025, na Suíça. Hampton foi fundamental na campanha de defesa do título das Lionesses, sofrendo apenas 2,9 gols por jogo - a menor média do torneio - e fazendo defesas decisivas na disputa de pênaltis da vitória sobre a Espanha na final. Suas atuações também garantiram seu lugar na Equipe do Torneio da UEFA.
Agora reconhecida entre as melhores goleiras do mundo, a trajetória de Hampton - do ceticismo médico ao topo do futebol - é um poderoso exemplo de resiliência. Homenageada com o Prêmio Especial de Reconhecimento Love Your Eyes pela Agência Internacional para a Prevenção da Cegueira (IAPB), ela continua inspirando jovens atletas ao redor do mundo e mostrando que uma condição de visão não precisa definir os limites de uma carreira esportiva.